Projeto acompanha o acesso das pessoas em situação de rua ao sistema de saúde
CCS
atualizado 4 horas atrás
Murilo Carvalho*
Agência UEL
Em uma pesquisa recente do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/Polos-UFMG), divulgados em janeiro de 2026, foi indicado que o número de pessoas nessa condição no Brasil ultrapassou 365.822 no final de 2024. Somente em Londrina, são ao menos 773 famílias nessa condição.
Diante desse cenário, o projeto “População em situação de rua: Acesso e barreira ao cuidado em saúde mental, interseccionalidade e equidade para redução das desigualdades”, busca entender as dificuldades enfrentadas por essa população ao acessar serviços de saúde e as estratégias criadas para superar essas barreiras.
A coordenadora do projeto Maira S. S. Bortoletto, professora do Departamento de Saúde Coletiva do CCS/UEL, explica que o objetivo do projeto é criar uma base de conhecimentos em um campo ainda pouco explorado. Segundo ela, os resultados poderão fundamentar políticas públicas futuras e serão divulgados por meio de produções acadêmicas, mídias e seminários locais e nacionais.
Sua origem está no Observatório Microvetorial de Políticas Públicas em Saúde, rede que reúne pesquisadores de diferentes regiões do país para desenvolver ações em conjunto na área da saúde. Além da UEL, participam instituições como a Universidade Federal Fluminense (UFF), o Centro Universitário Fibra (PA), a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
A pesquisa utiliza a Cartografia como método de investigação, aproximando os pesquisadores das pessoas acompanhadas para compreender suas experiências e trajetórias. “Na Cartografia, o que se busca é estar ao lado dessas pessoas para entender como acessam os serviços de que precisam, quais barreiras enfrentam e quais rotas criam para suprir suas necessidades”, explica.
Ao longo do estudo, foram realizados encontros tanto com aqueles em situação de rua quanto com trabalhadores que atuam no cuidado dessa população. As observações foram registradas em diários de campo individuais e, então, transformadas em mapas analíticos construídos coletivamente pelo grupo de pesquisa.

Além da investigação acadêmica, o projeto também produz materiais informativos, divulga eventos e apoia ações voltadas à proteção daqueles em situação de rua, povos indígenas e a população LGBT+, utilizando plataformas como Instagram e YouTube.
Números e Realidade
Bortoletto aponta que foram observadas grandes contradições entre o que a lei propõe e as vivências que acompanharam. Embora o direito ao cuidado seja universal na teoria, na prática ainda existem barreiras como burocracia, estigma, racismo, LGBTfobia, preconceito de classe e a moralização do uso de álcool e outras drogas.
Ela destaca que o próprio Ministério da Saúde reconhece que pessoas em situação de rua são historicamente excluídas dos serviços de saúde. Assim, um direito garantido formalmente nem sempre se concretiza no cotidiano da rede de atendimento.
Essa parte da população depende fortemente da Atenção Básica, do Consultório na Rua, dos CAPS, dos serviços de urgência e emergência, além de equipamentos da assistência social, como Centro POP, CREAS e CRAS. Entretanto, a professora ressalta que o cuidado também se sustenta em redes informais, compostas por trabalhadores, movimentos sociais, coletivos, igrejas, cozinhas solidárias e outras iniciativas de apoio que frequentemente compensam falhas do sistema oficial.
Desde o início do projeto, em 2023, o número de pessoas em situação de rua registradas no país cresceu mais de 130 mil. Para a pesquisadora, porém, é importante considerar que essa população historicamente esteve fora dos censos e levantamentos oficiais. Segundo ela, o crescimento dos números provavelmente reflete tanto o agravamento das condições sociais, como pobreza, desemprego, crise habitacional e impactos prolongados da pandemia, quanto a ampliação do cadastramento desse grupo. A obtenção de dados mais próximos da realidade, afirma, é fundamental para ampliar o acesso às políticas públicas e melhorar o planejamento estatal.
Pontes e não muros
A coordenadora explica que a população em situação de rua mostra as contradições existentes do sistema de saúde público, criado com o objetivo de ser universal, mas que na realidade ainda possui desigualdades enraizadas. Ela argumenta que o acesso a cuidados médicos não significa apenas que estejam disponíveis, mas também que o indivíduo possa ser reconhecido como sujeito de direitos e conseguir circular pela rede com acolhimento, sem ser reduzido à condição de pobreza, sofrimento mental ou uso de drogas.
Bortoletto defende ainda que a formação universitária precisa ampliar o debate sobre o tema e preparar futuros profissionais para lidar com múltiplas interseccionalidades e realidades sociais complexas. “Muitas vezes, o que essa população mais necessita é de profissionais capazes de criar vínculos e, a partir disso, construir formas de cuidado. É preciso entender que cada vida é singular e que os profissionais de saúde precisam aprender a acolher essa complexidade”, acrescenta.
Ela ressalta que aqueles fora dessa área podem contribuir, denunciando violências e se posicionando contra o fechamento de espaços de cuidado e acolhimento.
Casos de violência contra pessoas em situação de rua podem ser denunciados pelo Disque 100, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana.