CAFÉ VERDE E ÓLEO DE LINHAÇA CONTRA O CÂNCER DE PELE

CCS


atualizado 2 semanas atrás


André Ludwig*

Agência UEL

Uma solução com gotículas extremamente pequenas, de tamanhos que variam entre 10 e 200 nanômetros (um fio de cabelo tem uma espessura de 100 mil nanômetros), com matéria prima natural e que pode ajudar na proteção da pele contra os raios solares. Esta é a definição da nanoemulsão que está sendo desenvolvida por um projeto ligado ao Centro de Ciências da Saúde e coordenado pela professora Sandra Regina Georgetti, do Departamento de Ciências Farmacêuticas.

Atualmente, o projeto, que teve início em 2020, já concluiu sua primeira fase de testes, em animais, e se prepara para testes em seres humanos para poder ter viabilidade comercial. Além de Sandra, participam como colaboradores os professores Nilton Arakawa, Audrey Stinghen, Marcela Baract e Renata Matinez, também de Ciências Farmacêuticas. Como consultores, participam os professores Rubia Casagrande, do mesmo Departamento, e Waldiceu Verri, de Ciências Patológicas.

A gênese do projeto está na pesquisa de mestrado de Claudia Tiemi Nakano (orientada pela professora Sandra e defendida em 2022) e, todos os anos, participam quatro estudantes bolsistas de Iniciação Científica pelo CNPq e pela Fundação Araucária, além de participantes “agregados”, que mesmo sem bolsa, dispõem-se a participar.

Por que “nanoemulsão”?

A emulsão é uma fórmula farmacêutica conhecida, na qual dois componentes imiscíveis (que não se misturam) se unem sob determinadas condições de pressão e temperatura. Geralmente, essas combinações contam com duas fases: água e óleo. O prefixo “nano” diz respeito ao tamanho das partículas que compõem essa composição (1 nano = 1 bilionésimo de metro). No produto em questão, a escolha da fórmula nanoemulsionada se deu pela eficiência de penetração na pele.

A professora Sandra Georgetti explica que as nanoemulsões garantem vantagens em aplicações na pele, como, por exemplo, na penetração cutânea e subcutânea. Além disso, são mais fluidas, com uma textura que favorece a aplicação e o espalhamento na pele.

A professora Sandra explica que a radiação UVB, utilizada no teste, causa danos diretos no DNA das células da pele dos seres vivos (Fotos: Agência UEL).

Por serem formadas por componentes aquosos e oleosos, as nanoemulsões precisam garantir que a veiculação destes seja realizada de forma satisfatória em produtos para a pele. E é neste ponto que o tamanho diminuto das partículas dá sua colaboração. No produto desenvolvido pelo projeto, a parte oleosa é ocupada pelo óleo de linhaça, que tem sua solubilidade melhorada por ser usado em partículas muito pequenas.

É feito do quê?

Os componentes principais são o óleo de linhaça e o extrato de café verde. A escolha se justifica pelo caráter antioxidante e anti-inflamatório destas substâncias naturais, já confirmado por testes preliminares. A professora Sandra lembra que são componentes acessíveis, de baixo custo e de fácil aumento de escala.

Sobre o aproveitamento do óleo de linhaça, a professora ressalta a presença do ômega 3, conhecido por seus benefícios para a saúde.

“Todo mundo conhece o ômega 3. E o óleo de linhaça é rico em ômega 3, que tem uma atuação anti-inflamatória muito intensa, com várias pesquisas que referenciam isso. E, além desses ácidos graxos, o óleo tem uma atividade anti-inflamatória, e também auxilia na hidratação da pele”.Sandra Georgetti, professora do Departamento de Ciências Farmacêuticas (CCS).

Aqui, o caráter nanoemulsionado volta a se destacar. Por ser utilizado em partículas bem pequenas, o óleo de linhaça tem a possibilidade de proteção contra danos oxidativos na pele. “É uma fórmula farmacêutica com um óleo de grande efeito terapêutico e com um toque não untuoso”, define a professora.

Já em relação ao café, ela ressalta que a função antioxidante e anti-inflamatória do grão é perdida com a torra, por isso a escolha do uso do grão verde. O café utilizado na pesquisa foi doado pela empresa Iguaçu, de Cornélio Procópio.

A ideia do projeto é que o produto seja aplicado de forma semelhante ao protetor solar, ressaltando seu caráter “fotoquimiopreventivo”. Neste sentido, o objetivo é que os ativos naturais atuem na proteção e no tratamento dos danos causados pela radiação ultravioleta, com foco nos raios UVB, responsáveis por “queimar” a pele.

Testes

Por enquanto, não foram realizados testes em seres humanos, apenas em camundongos Hairless (sem pelos). Para testar os efeitos do uso da nanoemulsão na pele quando em contato com radiação solar, foi construída uma câmara (caixa) de radiação que simula, para os camundongos, uma exposição ao sol. Nesta caixa, há uma lâmpada na parte superior que emite radiação UVB. Os animais são separados em dois grupos: um com a aplicação da nanoemulsão e outro grupo sem. Depois de intervalos de tempo delimitados pelos pesquisadores (5 horas e meia), os animais são analisados quanto à degradação da pele e os resultados são comparados. “É um teste muito minucioso”, define a coordenadora.

A professora Sandra explica que a radiação UVB, utilizada no teste causa danos diretos no DNA das células da pele dos seres vivos. “Além da inflamação da pele, há a degradação da matriz celular, o envelhecimento precoce e que pode chegar ao câncer de pele”, esclarece.

Ela também lembra que todo o manejo necessário para os testes é feito pelos estudantes que participam do projeto que, antes da prática, também atuaram em extensa pesquisa preliminar.  “O projeto vai crescendo e o aluno vai crescendo junto. Em termos de laboratório, em termos de conhecimento, de análise crítica dos resultados, para chegar até o teste in vivo no animal”, ressalta. Já passaram pelo projeto aproximadamente 30 estudantes, a maioria deles na modalidade Iniciação Científica, mas há também mestrandos e doutorandos, durante a consolidação da pesquisa.

Resultados

A pesquisa sobre a nanoemulsão se encontra agora em um ponto chave para uma possível aplicabilidade em humanos e uma viabilidade comercial. Com os testes em animais, foi observado que aqueles camundongos em que foi aplicada a fórmula desenvolvida pelo laboratório tiveram menos danos inflamatórios na pele quando expostos à radiação UVB, em comparação àqueles em que não foi usado o produto. Ou seja, a nanoemulsão funcionou para os animais. 

Outra descoberta proveniente dos testes práticos se refere à dosagem dos componentes que integram o produto. Sandra explicou que foram testadas diferentes concentrações de extrato de café verde (0,25, 0,5 e 1%). A coordenadora conta que em todas elas as propriedades anti-inflamatórias foram mantidas, porém “a mais interessante” foi a de menor concentração. 

A pesquisa depende de fomento para sua continuidade, e isso já está no radar dos responsáveis pelo projeto. O “efeito terapêutico” almejado já foi comprovado, mas ainda falta agregar mais pesquisas para que se comecem os testes em seres humanos. “Já temos um bom caminho andado. É uma pesquisa que deu bons frutos, que deu um produto interessante, com resultado muito bom e gente ficou bastante feliz com isso. E vai ficar mais ainda se a gente conseguir caminhar e ter mais resultados em seres humanos”, finaliza a professora.

*Estagiário de Jornalismo na COM/UEL.

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