Mesa sobre corpos marginalizados na cultura e ciência abre programação do 3º Festival das Diversidades
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atualizado 1 dia atrás

Franciele Rodrigues*
Neste domingo (1), abrindo a programação do 3º Festival das Diversidades, acontece a mesa “Corpos marginalizados na cultura e na ciência”. O evento começa com feirinha, discotecagem e apresentação do grupo Doce Veneno, a partir das 15h, no Canto do Marl (Avenida Duque de Caxias, nº 3.241 – Centro). As falas iniciam na sequência, às 17h. Após a mesa, haverá apresentação do Ballroom Londrina. A entrada é gratuita.
A mesa se propõe a encruzilhar os caminhos de três pesquisadores: Malu Jimenez, filósofa, artivista, autora do livro “Lute como uma gorda”, professora do curso de Pós-Graduação em Diversidade e Inclusão em Comunicação da PUC-Minas e do mestrado em Comunicação da UEL, fundadora e coordenadora do Pesquisa Gorda, primeiro grupo de pesquisa transdisciplinar sobre corporalidades gordas no Brasil.
Também abrem os caminhos, Menor Npr 043, rapper, escritor, autor do livro Poesia 043, membro do Coletivo UDV, e Ursula Brevilheri, cientista social, mestra e doutoranda em Sociologia na UEL, integrante da Frente Trans de Londrina e do programa Práxis Itinerante.
Potencializar as manifestações periféricas
Tiago Daniel, ator, produtor cultural e um dos responsáveis pela organização do Festival, salienta que toda a programação do evento, composta por diversas atrações que vão desde exposições fotográficas, espetáculos de dança e teatrais, apresentações musicais a encontro científico, buscam valorizar saberes e experiências de grupos historicamente marginalizados.
As atividades serão ofertadas entre março e agosto deste ano, ocupando diferentes espaços de Londrina e cidades vizinhas. A programação completa estará disponível na página oficial @festivaldasdiversidades no Instagram e site do programa de extensão da UEL, Práxis Itinerante, que juntamente com a produtora Kapanga Criativa, são os responsáveis pela organização do evento.
“Somos um Festival novo, mas não temos medo de posicionar nossos objetivos. Nosso Festival é para corpos marginalizados e aliados pela visibilidade e segurança desses corpos. Essa primeira atividade é a retomada de um projeto que vai muito além do entretenimento”, afirma.
Ainda de acordo com ele, tanto a mesa inaugural como as atividades seguintes procuram romper com a ideia dominante, oriunda de uma perspectiva positivista, de que cultura (emoção) e ciência (razão) ocupam lugares distantes.

“É comum vermos um discurso que desassocia a arte da ciência, ainda mais quando se trata da arte produzida por corpos marginalizados. Também é comum vermos partindo da mesma lógica um outro discurso que banaliza as pesquisas sobre estes atravessamentos dentro dos espaços acadêmicos. Nossas atividades buscam bater de frente com essa realidade e potencializar as discussões e manifestações periféricas”, diz.
Malu concorda e acrescenta “eu não separo arte e conhecimento, arte e ciência, para mim elas se completam, tanto que o meu trabalho sempre está envolvido com arte. Acho que é muito legal a gente trazer esse debate, essa importância de falar a partir de uma perspectiva que sai da normatização, o que é diverso dentro das ciências e das artes e quem é que está fazendo ciência e arte com temas diversos, quais são esses corpos que estão ocupando esse espaço tão difícil dentro da ciência, da academia e da própria arte”.
Menor Npr 043, que escreve desde os 11 anos, abordando temas que atravessam o cotidiano de populações periféricas, como fome, violência policial, mas também a potência de vida que pulsa nestas regiões negligenciadas e estigmatizadas como a importância de reconhecer-se em comunidade, compartilha a alegria em ser chamado para a mesa, momento no qual espera-se que o público também se sinta pertencente.
“Isso me prova que meu trabalho não foi em vão, que meu livro está chegando nas pessoas certas e tendo reconhecimento. Acho importante dar ainda mais voz para os movimentos e pessoas que muitas das vezes foram caladas direta e/ou indiretamente”, observa.
Partindo da premissa de que sorrir é estratégia de sobrevivência sob um sistema que ainda resguarda alegria e esperança como privilégios, Ursula reforça a responsabilidade de compor a mesa, classificada como um local onde – em referência à pensadora brasileira, feminista negra Lélia Gonzalez – subalternizados vão falar e “numa boa”.
“Fiquei muito feliz pelo convite mas mais ainda pelo que ele significa: o reconhecimento de trajetórias que muitas vezes são construídas fora dos espaços legitimados. Então eu vejo esse convite como um gesto político, onde saberes marginalizados são chamados para compor. Não é só “chamar pra falar”, é dar importância para essas experiências e produções de conhecimento”, pontua Ursula, que assina a obra “As armas da cisnormatividade contra a linguagem não binária no Brasil”, fruto de sua dissertação de mestrado.
“Quando a ciência não é revista, não é ciência, é violência”
Malu, que também é presidenta do Instituto Diversas, cujas principais finalidades são a promoção da dignidade das pessoas gordas, enfrentando a patologização de seus corpos e valorizando conhecimentos e vivências produzidos por elas, avalia que apesar dos avanços na última década, ainda há muito a se fazer para incluir as diversidades nas agendas de pesquisa e nos debates públicos, especialmente, no que diz respeito às corporalidades gordas.
“Acho que o maior desafio é as pessoas entenderem que a ciência não é algo fechado e imutável, que ela precisa estar sendo sempre revista, discutida, pensada e que deve se tornar a partir dos direitos humanos. Então se existe um grupo reclamando da construção de algum conhecimento como violento, a gente precisa parar e repensar sobre isso. Tem uma frase que eu sempre falo, que é bem conhecida minha, que é quando a ciência não é questionada, não é revista, na verdade, não é ciência, é violência”, assinala.
Ursula ressalta a urgência de “inverter a lógica”, para que grupos vulnerabilizados não sejam meros objetos de conhecimento, mas produtores de saberes.
“Tanto a arte como a ciência produzem formas de ver o mundo e a verdade é que por muito tempo só determinadas vozes, determinados corpos, eram considerados dignos de ocupar esses espaços. Então, quando a gente fala de diversidade nesse sentido, a gente lembra formas de ser, pensar e interpretar a realidade que sempre estiveram distantes desse modelo e, por esse motivo, sempre foram silenciadas”, argumenta.
Além da possibilidade de vislumbrar mundos outros, Ursula considera que a escuta atenta de tais coletivos é crucial para que as universidades possam transformar suas práticas, incorporando cada vez saberes múltiplos em seus currículos, garantindo políticas de ingresso e permanência para públicos específicos. Para ela, o resultado será uma universidade mais conectada com as múltiplas realidades sociais.
“Quando a gente assume diferentes experiências de vida como fontes legítimas de conhecimento, é inevitável que surjam pesquisas ainda mais sensíveis às desigualdades. Além de mexer no sentimento de pertencimento: estudantes que antes se viam como fora do lugar, como impostores ocupando este espaço, passam a se reconhecer como parte ativa na produção de conhecimento. Isso transforma trajetórias individuais, mas também empodera comunidades inteiras, além de mexer no próprio sentido da universidade como uma instituição pública, para o público”, indica.
“Não adianta ter cota para aluno se não tem para professores, por exemplo, e quando a gente coloca corpos e debates diversos, a gente está só ampliando a construção do conhecimento, principalmente, nesse momento de neoliberalismo, capitalismo e do avanço da extrema-direita”, acrescenta Malu.
“Que a gente possa construir um espaço real de troca, que a gente não se limite a falas isoladas, que as pessoas possam se sentir provocadas a fazer novas conexões, que nós saibamos produzir desdobramentos deste encontro. E também que seja um momento de celebração. Em tempos de tantos ataques à cultura e à educação, pensarmos em conjunto e estarmos juntos é, em si, um ato de resistência. E é a partir disso que a gente constrói futuros possíveis”, convida Ursula.
Inscrições abertas
O 3º Festival das Diversidades está com inscrições abertas para aquelas e aqueles que desejam expor seus trabalhos. Podem participar artistas, grupos culturais, pesquisadores e feirantes. As propostas podem ser submetidas até 20 de março (saiba mais aqui).
Serviço
Mesa: “Corpos marginalizados na cultura e na ciência” com com Malu Jimenez, Menor NPR 043 e Ursula Brevilheri + feirinha com discotecagem + grupo Doce Veneno + Ballroom Londrina
Data: Domingo, 1º de março de 2026
Horário: das 15h às 20h
Local: Canto do Marl (Avenida Duque de Caxias, nº 3.241 – Centro)
Entrada gratuita
*Jornalista, coordenadora de comunicação 3º Festival das Diversidades