Balé Alma Negra de volta ao Teatro Ouro Verde

Festival das Diversidades - Texto: Portal Verdade


atualizado 2 semanas atrás


O Cine Teatro Ouro Verde recebe mais uma vez, no próximo dia 16 de abril, às 20h, o Balé Alma Negra o espetáculo “Re-tinturas”. A apresentação faz parte do 3º Festival das Diversidades – Circuito Paraná Plural.

A montagem traz uma narrativa cênica construída a partir da ancestralidade, da coletividade e das vivências das comunidades periféricas. Em cena, o espetáculo aborda temas como existência, resistência e visibilidade da população negra, por meio de uma linguagem que integra sensibilidade poética e expressividade artística.

A peça apresentada pelo Balé Alma Negra, busca potencializar a luta antirracista ao abordar temas como ancestralidade, reparação histórica e aquilombamento, que remetendo a comunidades formadas historicamente por pessoas escravizadas que fugiram do trabalho forçado, diz respeito ao movimento de articulação, resistência e fortalecimento da população negra na contemporaneidade.

Aguinaldo Souza, ator, bailarino, professor de Teatro na UEL (Universidade Estadual de Londrina), chefe da DAC (Divisão de Artes Cênicas) e um dos idealizadores do Balé Alma Negra, destaca que a companhia de dança surge com a principal finalidade de reivindicar o protagonismo de corpos negros, trazendo-os para os palcos, ainda majoritariamente reservados à branquitude.

“A gente juntou forças, organizou uma espécie de força-tarefa para escrever e justificar esse projeto, baseado no incômodo que a gente tem da falta de representatividade das pessoas pretas na dança. A gente identificou que, mesmo um ou outro que consegue estar ou dentro de uma companhia profissional, ou mesmo em alguns elencos, ou nas escolas, as dramaturgias, as construções não são sobre eles. A formação específica, a natureza específica dessa corporalidade não é levada em conta na hora de compor os espetáculos, na hora de compor as aulas”, relembra. 

O projeto nasceu inspirado na potência do Balé Teatro Castro Alves, de Salvador, reconhecido por adaptar as técnicas de dança para os corpos negros. Adriana Castro, idealizadora do projeto, participou da companhia de dança soteropolitana, entre outros grupos nacionais e internacionais. Hoje, professora de dança em Londrina, Adriana interpretou a primeira Julieta negra no clássico “Romeu e Julieta”, no início dos anos 2000.

Apresentação integra programação do 3º Festival das Diversidades – Foto: Thais Fernanda

“É um corpo que vai se conjugar a outros corpos para expressar uma narrativa outra, geralmente uma narrativa branca de uma companhia branca. Então, quando a gente vê uma pessoa negra inserida em um contexto de dança, nunca é sobre ela. Ela não engendra a narrativa, não traz estética específica, cultura específica, narrativa específica”, salienta Aguinaldo. 

O docente também compartilha a importância do Balé como um dos espaços fundamentais para reconhecer-se como artista negro em uma cidade, que assim como a maioria dos municípios brasileiros, ainda relega a negritude às margens. “Trata-se de um processo de redescoberta pessoal, de entendimento de uma situação e de uma busca de ancestralidade”, relata. 

Em “Re-Tinturas”, o Balé Alma Negra realiza um exercício de sobrevivência, um resgate de pessoas que precisavam se encontrar para conversar, se acolher e defender, falando de sua dança e sua música. O projeto busca essencialmente um processo artístico livre de marcas de opressão, baseado na escuta coletiva e no processo colaborativo.

Aguinaldo pontua que o trabalho é inspirado nas obras de Castiel Vitorino Brasileiro, Luiz Rufino, Neusa Santos, entre outros nomes, que problematizam a marginalização de corpos historicamente marginalizados.

Ele observa que a repressão se dá de diversas e cotidianas formas. “De dez bailarinos negros que compõem o elenco, oito já sofreram abordagem policial”, exemplifica. 

Mesmo entre aqueles que conseguem “furar a bolha” e romper com a exclusão, é frequente o apagamento de suas identidades, o que frequentemente leva ao adoecimento. 

“Se você atravessar esse portal e conseguir pertencer, entrar em uma universidade, em uma companhia de dança branca ou dessa tradição, consegue ser professora de dança em uma escola, a partir disso, como é que você recebe os olhares, a aceitação tanto de colegas, quanto de superiores, quanto de estudantes, de pessoas para quem você vai prestar o serviço?”, questiona. 

Aguinaldo evidencia que procurando desconstruir lógicas opressoras, o primeiro passo da companhia é a escuta, inclusive, das violências que marcam as histórias de cada um dos integrantes.

“A gente sabe que qualquer processo artístico começa perguntando para a pessoa o que ela quer dançar, o que o corpo dela quer expressar e a partir disso, um diretor, um coreógrafo, começa a trabalhar. No caso do ‘Re-tinturas as perguntas foram essas, pensando a nuance de cor da pele entre nós, pardos e negros retintos, do mais retinto ao menos retinto, por exemplo. A gente foi vendo as experiências, níveis de agressão diferenciados dependendo da cor da pele, então, a ideia geral de re-tintura nasceu disso, dos contrastes dentro da nossa negritude e de como nós somos lidos pelo mundo afora. A partir daí a gente vem construir a nossa potência, a nossa expressão”, diz.

No ano passado, o espetáculo ocupou o Ouro Verde em duas sessões, lotando o tradicional espaço da cultura londrinense. O Balé Alma Negra estreou no Teatro em 20 de novembro, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Além do palco, a plateia também foi formada, majoritariamente, por pessoas negras, muitas delas pisando no Teatro pela primeira vez. 

“A gente imprimiu convites e foi encontrar as pessoas nas instituições, nas escolas de dança, nos bairros onde cada integrante do grupo morava. Eu, por exemplo, moro em um bairro periférico, fui de casa em casa entregando o convite, convidando as pessoas para estarem presentes no Cine Teatro Ouro Verde, que é da Universidade Estadual de Londrina e merece ser conhecido e visto, porque ele é da nossa população também e tem uma parcela que está afastada dele, da Casa de Cultura, da própria Universidade e que a gente foi buscar”, adverte. 

“Deu-se o grande milagre, que é lotar o Ouro Verde de pessoas que não tinham o hábito de ir ao Teatro e que, a partir dessa apresentação, podem começar a construir esse hábito. Nós queremos o Ouro Verde cheio o tempo todo de pessoas da sociedade real, não de um Olimpo ou de déspotas esclarecidos. Nós queremos gente frequentando as atividades”, ele acrescenta. 

Para Aguinaldo, um dos grandes diferenciais da peça é atender as necessidades do elenco, que possui um perfil muito diverso desde à formação, técnica, nas variações de tons de pele e suas intersecções com gênero, faixa etária e locais de origem. O professor também ressalta a trilha sonora original, assinada por Tonho Costa, e o constante diálogo entre toda a equipe que conta com mais de 20 profissionais de diferentes áreas.

“Eu acho que um dos grandes pontos altos dessa experiência é ter uma trilha sonora completamente original, construída para o espetáculo e negociada com os dançarinos. Um dos elementos importantes desse processo democrático e horizontal de construção artística foi, por exemplo, o dançarino ter o WhatsApp do músico e conseguir dialogar com ele, fazer alguma solicitação, alguma pergunta sobre por que o seu solo ou a sua cena está com aquela sonoridade, como ele pode contribuir”, indica. 

Para Aguinaldo, a arte corresponde a um instrumento político capaz de “revelar feridas”, sendo responsabilidade dos poderes públicos encontrar e ofertar formas de remedia-las.  

“Como tratá-las, a sociedade tem a obrigação de correr atrás. A arte não tem essa obrigação de forma alguma, a arte não está aí para curar mazelas da sociedade ou feridas que a própria sociedade abre. Essa sociedade, essa cultura, essa estrutura política, os administradores públicos, a política pública que trate de sanar, de curar as feridas. Nós temos condição de revelá-las”, sustenta.

Parceria com 3º Festival das Diversidades

A próxima apresentação do espetáculo “Re-tinturas” ocorre em parceria com o 3º Festival das Diversidades, evento organizado pelo programa de extensão da UEL, Práxis Itinerante, e a produtora cultural Kapanga Criativa. 

Tiago Daniel, ator, produtor cultural e diretor-geral do 3º Festival das Diversidades, avalia que a principal motivação para agregar o espetáculo na programação é o alinhamento político entre as duas propostas, que tem como foco valorizar saberes e vivências construídas por camadas subalternizadas. 

“O Festival tem como objetivo visibilizar corpos marginalizados, principalmente, através da arte, educação, então, a gente acredita que ter um balé com corpos marginalizados, negro em um espaço histórico, com uma história que narra essas dores, que pede por direitos, que escancara questões problemáticas do racismo através da dança, isso por si só é fantástico”, argumenta. 

Tiago aponta que o objetivo do Festival é trazer mais produções similares, lideradas por pessoas dissidentes. Além disso, ele enfatiza a relevância de ocupar o Ouro Verde com iniciativas que convocam a discussão sobre qual projeto de cidade deseja-se construir, trazendo mais visibilidade para as Londrinas existentes em Londrina.

“Para gente trazer o Balé Alma Negra para o Ouro Verde é mais um desses nossos passos de ocupação de lugares historicamente não ocupados por nossos corpos e não ocupados por balés negros. Eu acho que é muito interessante que a gente reflita cada vez mais quantos corpos negros, quantos corpos gordos, quantos corpos de travestis, quantos corpos indígenas são protagonistas dentro de espaços como o Teatro Ouro Verde ou como outros espaços clássicos na cidade”, sugere.

Para garantir seu lugar em mais este dia marcante, a entrada é gratuita, mas é necessário retirar seu ingresso antecipado via plataforma Sympla. Então, corre e garanta já o seu!

SERVIÇO:

Data: 16 de abril de 2026

Horário: 20h

Local: Teatro Ouro Verde

Entrada gratuita


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