Obra analisada: O tempo e o outro: como a antropologia estabelece seu objeto

Por Marcos Alfonso Spiess


atualizado 3 anos atrás


Publicada em 1983, a obra O tempo e o outro retoma discussões realizadas por Johannes Fabian, etnógrafo e historiador polonês, nos idos de 1960 e 1970, quanto a questões teóricas e metodológicas da prática antropológica.

Acompanhando as críticas pós-modernas nas Ciências Sociais, ocorridas naquela época, em O tempo e o outro, Fabian problematiza formas pelas quais os antropólogos utilizam do tempo para criar seus objetos de estudos: o outro. Segundo o autor, no intuito de reproduzir a lógica das ciências exatas, que desvincula o sujeito cognoscente do objeto a ser conhecido, a antropologia utiliza do tempo como recurso para dissociar e eliminar possíveis relações intersubjetivas entre o pesquisador e “seus pesquisados”, colocando-os em tempos distintos.

Contrariando as relações intersubjetivas que perpassam o encontro etnográfico, o antropólogo busca recursos de escrita que criam distanciamentos para com seus interlocutores, produzindo o que Fabian denomina de negação da coetaneidade. Nesse movimento, a consequência é a objetificação dos sujeitos e a eliminação do diálogo bem como a negação de lugares de fala.

Negar a relação intersubjetiva entre pesquisador e interlocutores indica “uma persistente e sistemática tendência em identificar o(s) referente(s) da antropologia em um Tempo que não o presente do produtor do discurso antropológico” (p.67). Assim, a prática etnográfica se dá em dois momentos distintos e contraditórios. Primeiro, exige-se do antropólogo uma aproximação da alteridade; mas, em um segundo momento, após passado o momento de imersão em campo, exige-se a produção textual que desencadeia no afastamento, no distanciamento e na negação da coetaneidade vivenciada em campo.

Entre esses dois momentos, a experiência da produção acadêmica se desenvolve na negação do passado da experiência de campo. E, por mais que o pesquisador continue a ter contato com seus interlocutores, cria-se o ambiente de afastamento no momento de escrita.

Nesse processo, o tempo passa a ser compreendido como linear, mas também como espacializado. Quanto mais distante temporalmente se coloca o outro, mas afastado espacialmente ele passa a ser compreendido e analisado. Essa prática evidencia que “os esforços da antropologia em estabelecer relações com o seu Outro por meio de mecanismos temporais sugeriram uma afirmação da diferença como distância” (p.52). O distanciamento, no diapasão de teorias evolucionistas, estruturalistas e funcionalistas, por exemplo, tornou-se condição para a produção da objetividade etnográfica.

Para Fabian, a negação da coetaneidade e das relações intersubjetivas se dá, principalmente, em duas estratégias de uso do tempo. Um uso no qual o tempo contorna a relação intersubjetiva e outro uso no qual o tempo anula essa relação. Se, por um lado, o relativismo cultural dá conta de contornar as relações intersubjetivas, trazendo-as para dentro das teorias antropológicas, mas colocando essas relações em um patamar distinto das relações vivenciadas pelo antropólogo no mundo acadêmico, por outro lado, o estruturalismo sinaliza formas de anular as intersubjetividades da pesquisa, ao entender que tais relações não passam de relações entre termos independentes e atemporais.

Avançando na discussão, Fabian se dedica a pensar a redação e a escrita etnográfica e suas estratégias para colocar o outro em um tempo distinto do vivenciado pelo pesquisador. Para tanto, segundo o autor, são utilizados recursos léxicos e morfossintáticos que criam a cisão entre o texto antropológico e a experiência de campo. Conforme Fabian, por exemplo, “o uso da terceira pessoa marca o discurso antropológico em termos de “correlação de personalidade” (pessoa versus não pessoa)” (p. 112), negando-se qualquer possibilidade de relação intersubjetiva entre o autor impessoal e o interlocutor descrito e representado no texto.

Para Fabian, não há técnica específica que possa superar esse modus operandi de se fazer antropologia. No entanto, há muitas possibilidades, que perpassam tanto o aprendizado da língua nativa, quanto a utilização de gráficos, de mapas e de imagens, bem como a (re)produção da fala dos sujeitos em sua integralidade dentro do texto que permitem aproximar pesquisador, interlocutores e leitores. Ter consciência das formas de negação do outro na produção etnográfica é fundamental para se evitar a anulação das relações intersubjetivas no texto antropológico. O tempo e o outro, nesse sentido, torna-se leitura imprescindível para estudantes e pesquisadores que buscam aprofundar a reflexão sobre as relações entre pesquisadores e pesquisados.

Referência

FABIAN, Johannes. O tempo e o outro: como a antropologia estabelece seu objeto. Trad. de Denise Jardim Duarte; Prefácio de Matti Bunzl. Petrópolis: Vozes, 2013.

[1] Professor do Instituto Federal de Goiás, Câmpus Uruaçu. Doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Paraná. Contato: marcos.spiess@ifg.edu.br

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