COP 30 – Reflexo do mundo
Revista Jornalismo & Ficção
atualizado 20 horas atrás

Rodeada de diversas inconstâncias, desde os preparativos para a recepção das comissões dos mais de 120 países até as negociações que extrapolaram o prazo previsto para o final do evento, sediado pela primeira vez no coração verdejante da floresta amazônica, em Belém do Pará. A COP 30 representou o espelho da realidade caótica pela qual passa o planeta.
Por Maria Julia Pimenta
Criada e realizada há 30 anos com o intuito de estimular acordos e parcerias intergovernamentais, que prezam pelo bem estar do planeta, a cada ano a COP se passa em um lugar diferente. O objetivo é discutir pontos específicos para mitigar ao máximo as mudanças climáticas e buscar resoluções viáveis para que, em conjunto ou individualmente, os países membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) possam se renovar e buscar meios sustentáveis de viver.
Porém, no cenário atual rodeado de negacionismo, desinformações e corridas políticas e ideológicas intensas é necessário um esforço ainda maior para transpassar tais barreiras e chegar a um consenso razoável para todas as partes envolvidas. O que foi, sem dúvidas, a tarefa mais difícil desse ano.
Antes de qualquer coisa é preciso lembrar que a COP é uma conferência anual de negociações internacionais, ou seja, todos os anos representantes de governos, empresas, ONGs, povos tradicionais, entre outros, tem como propósito se reunir para colocar em pauta acordos viáveis para a execução das metas estabelecidas nas conferências anteriores, com destaque em: avaliação das medidas adotadas internamente para o cumprimento das metas, elaborar novos objetivos baseados nas atuais conjunturas mundiais e cumprimento das metas climáticas, como a redução do uso de combustíveis fósseis e emissão de CO2.
Decisões unilaterais imoderadas, como a decisão dos Estados Unidos de sair do Acordo de Paris – que prevê diversas metas e objetivos a serem alcançados em conjunto com diversos países para reduzir a emissão de CO2, entre outras questões -, movimentações de grupos exigindo seus lugares de fala enquanto empresas poluidoras responsáveis por desastres ambientais tremendos assentam-se à mesa para as negociações, gastos milionários mal pensados com infraestrutura local e até mesmo um incêndio abalaram as estruturas da Zona Azul da COP.
Alguns blocos de países dificultaram o andamento das resoluções, como o conjunto China, Índia e países árabes exportadores de petróleo, fixos na multilateralidade dos acordos, ou seja, soluções conjuntas entre as partes, criando circunstâncias favoráveis para todos os envolvidos, dentre eles os principais emissores de CO2 do mundo. Esses blocos em específico fizeram com que negociações e acordos voltados à diminuição de emissão de gases agravantes do efeito estufa e redução do uso de combustíveis fósseis fosse muito dificultado. Nos últimos dias do evento, o rascunho final (documento que pontua as decisões tomadas e detalhes seus meios) nem sequer mencionou “combustíveis fósseis” ou “desmatamento” em seu corpo, sendo considerado “muito brando” por diversos líderes políticos e especialistas.
Esse rascunho causou revolta entre líderes de diversos países, fazendo com que manifestassem repúdio ao documento final da conferência. Em carta encaminhada pela delegação colombiana, mais de 30 países afirmaram que: “não podemos apoiar um texto que não inclua um roteiro para uma transição justa, ordenada e equitativa para a eliminação dos combustíveis fósseis”
A maior questão abordada é a ausência do chamado “mapa do caminho”. Um roteiro pensado justamente para guiar a transição do uso dos combustíveis fósseis nas mais diversas áreas para fontes de energia limpas e renováveis, de maneira justa, ordenada e equitativa, além de também prever meios para interromper e reverter o desmatamento.
O mapa do caminho foi idealizado pelos organizadores, e até mencionado pelo Presidente Lula na abertura da COP 30, para ser o maior produto resultante das negociações e acordo do evento, porém foi soterrado pelas discussões infindáveis dos interesses próprios de diversos países, que dificilmente cogitam abrir mão das fontes poluidoras que ainda são intensamente usadas em todo o mundo.
Especialistas como o climatologista Carlos Nobre, em entrevista ao GloboNews, afirmou que sem uma meta clara de redução do uso de combustíveis fósseis, o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5ºC, estabelecido no acordo de Paris em 2015, não será atingido e poderá até agravar a situação atual.
O final da COP 30, previsto para o dia 21, só foi encerrado na tarde do dia 22, o que é comum para esse tipo de evento. Ainda assim, os trabalhos apenas começaram. O presidente da COP, o embaixador André Corrêa do Lago, garantiu que negociações e planos ainda serão feitos no decorrer do ano de seu mandato, até o evento da COP 31, dentre eles a elaboração do “mapa do caminho”.
A COP 30, no coração da Amazônia, merece ser reconhecida por seus pontos altos também, como a intensa participação popular. O povos tradicionais acompanharam intensamente todos os processos e colocaram suas vozes para serem ouvidas, mesmo quando tentaram calá-los. Além do enaltecimento de diversos outros grupos através de decisões formais tomadas para ampliar os direitos e a inclusão de mulheres, povos indígenas e comunidades afrodescendentes, além de reconhecer o papel fundamental de governos subnacionais na implementação de soluções climáticas.
Os olhos agora se voltam para as promessas feitas e acordos que ainda precisam ser cumpridos, além da cobrança às nações que escolheram ficar de fora das negociações por negacionismo climático ou puro interesse unilateral.
A COP continua sendo um evento pouco entendido por sua complexidade e que só renderá frutos para as próximas gerações, mas também pode ser considerada uma das razões pelas quais as próximas gerações terão um lugar para viver.
Maria Julia Pimenta é geógrafa e estudante de Jornalismo na UEL, participa do Grupo Gabo de Pesquisa, com o projeto de IC: “Geografia e humanização: narrativas jornalísticas literárias sobre espaço e território” e da Revista Jornalismo & Ficção na América Latina.
Tainara Gomes é estudante do curso Design Gráfico da UEL. Estagiária responsável pelas redes sociais e toda comunicação tanto digital quanto física do sistema de bibliotecas da UEL. Participa do Grupo Gabo de Pesquisa e da revista Jornalismo e Ficção na América Latina.