O preço da adultização

Revista Jornalismo & Ficção


atualizado 6 dias atrás


A adultização infantil não é fenômeno isolado, mas reflexo de um sistema de consumo que antecipa desejos e comportamentos, muitas vezes ignorando limites éticos. Estudos da USP – Universidade de São Paulo apontam sobre os perigos da sexualização precoce, associada ao aumento da vulnerabilidade ao abuso sexual, além de maior incidência de transtornos mentais como depressão, ansiedade e distúrbios alimentares.

Por Rebeca Godoi

O vídeo documentário do influencer Felca (Felipe Cardoso), nascido em Londrina, publicado há duas semanas, expôs de forma contundente como o entretenimento pode desvelar contradições sociais profundas. Felca, conhecido por suas severas críticas sociais, mostrou episódios de exploração simbólica da infância e viralizou nas plataformas digitais. Ele usou essa produção digital para revelar o quanto a sociedade naturaliza representações que deslocam a criança de um espaço de proteção para um espaço de consumo e exposição.

A polêmica diz respeito ao modo como a infância é capturada por lógicas de visibilidade, monetização e espetáculo. É nesse terreno que a Moda se insere como um dos dispositivos mais poderosos dessa engrenagem. Longe de ser apenas expressão criativa ou estética, ela opera como linguagem cultural capaz de moldar imaginários e comportamentos.

Quando a indústria infantil incorpora tendências adultas em seus produtos, não está apenas “acompanhando o mercado”, mas inserindo o corpo infantil em narrativas que reforçam ideais estéticos e simbólicos de maturidade precoce. A questão, portanto, não se limita à roupa em si, mas à estrutura de produção e circulação de imagens que constroem subjetividades.

Casos emblemáticos tornaram essa lógica explícita. A campanha da Balenciaga (2022), por exemplo, mostrou crianças segurando ursinhos de pelúcia vestidos com acessórios que remetiam ao BDSM (conjunto de práticas eróticas que envolvem dominação). Trata-se de uma estética sexualizada adulta, deslocada para um espaço infantil, criando associações perturbadoras entre inocência e erotização.

Balenciaga/Divulgação.

De modo semelhante, o editorial da Vogue France (2014), que retratava meninas em poses adultificadas à beira-mar, também gerou discussões intensas. Essas escolhas visuais não podem ser justificadas como simples “falhas criativas”: elas revelam uma estratégia deliberada de choque e atenção, ancorada em uma lógica de mercantilização do corpo infantil (Filho; Orlandi, 2013).

Vogue France Kids 2014.

O problema, portanto, não é apenas a vestimenta, mas o conjunto de elementos estéticos, enquadramento, iluminação, direção de olhar e pose, que geram interpretações sexualizadas (Montes, 2017). A criança, nesse processo, deixa de ser compreendida como sujeito em formação para ser ressignificada como objeto de consumo. Essa construção simbólica dialoga com mecanismos de erotização precoce que podem abrir brechas perigosas, inclusive aproximando a publicidade de discursos e práticas de pedofilia. Ao normalizar a visualidade adultificada da infância, a indústria cria um terreno ambíguo no qual a fronteira entre moda, erotização e exploração torna-se difusa, colocando em risco não apenas a imagem, mas também a integridade das crianças.

A adoção de tendências adultas pela moda infantil, vestidos colados, decotes, transparências, não é neutra. Quando tais escolhas são aplicadas ao corpo infantil, deslocam-no para o campo simbólico do desejo. Esse deslocamento não é inofensivo: afeta autoestima, identidade e segurança. Mais do que isso, contribui para a banalização de práticas que alimentam a cultura pedófila, ao naturalizar a ideia de que corpos infantis podem ser interpretados e consumidos a partir de códigos eróticos adultos.

Esse processo, ao ser repetidamente normalizado, torna-se um dispositivo de controle simbólico. Adorno e Horkheimer (1991), ao discutir a indústria cultural, já alertavam para a lógica de reprodução massiva que apaga nuances humanas e transforma tudo em mercadoria. No caso da infância, a mercantilização não apenas retira sua singularidade, mas a insere em um circuito visual que a expõe a riscos sociais e psicológicos.

Pesquisas recentes reforçam o impacto dessa visualidade. A Universidade de São Paulo (USP, 2019) apontou que a sexualização precoce está associada ao aumento da vulnerabilidade ao abuso sexual, além de maior incidência de transtornos mentais como depressão, ansiedade e distúrbios alimentares. Como observa Cordás (apud USP, 2019), a construção de imagens adultificadas da infância interfere diretamente no desenvolvimento psíquico das crianças, reforçando padrões de comportamento que favorecem sua exploração simbólica e, em alguns casos, concreta.

A chamada “estética mini-adultizada” é sustentada por um modelo de negócios baseado em volume e velocidade de vendas. As marcas de “fast fashion” infantil vendem “modernidade” aos pais, enquanto terceirizam a responsabilidade ética para o consumidor (Montes, 2017). Nesse cenário, a infância perde espaço para a performance visual, e a padronização do desejo sustenta práticas de marketing arriscadas e pouco reguladas (Filho; Orlandi, 2013).

Historicamente, a moda infantil já reproduziu a lógica do vestuário adulto em miniatura, sobretudo entre os séculos XVIII e XIX (Milléo; Cunha, 2016). O que antes funcionava como distinção de classe, hoje é instrumentalizado como estética de venda. Porém, ao contrário do passado, o atual mercado globalizado e digital amplifica os efeitos simbólicos dessas escolhas, tornando a adultização não apenas tendência, mas um modelo hegemônico de consumo. Mesmo em um mercado que representa 15% da indústria têxtil brasileira e movimenta bilhões (Lab notícias, 2023), os estágios do desenvolvimento psíquico e corporal das crianças seguem ignorados.

Frente às críticas, poucas marcas adotam postura responsável. A maioria prefere apagar rastros: remove campanhas, edita conteúdos, limita acessos, mas não revê a estrutura que viabiliza tais práticas (Schwartsman, 2011). A lógica de ocultamento substitui a responsabilidade.

O vídeo de Felca, ao expor essa engrenagem, não apenas denunciou casos isolados, mas expôs, de maneira didática, a dimensão estrutural do problema: a exploração da infância como recurso visual lucrativo. O debate não é sobre proibir roupas específicas, mas questionar os sistemas que produzem, promovem e consomem essas imagens. A infância tem direito a existir em sua própria linguagem, livre das capturas simbólicas que a colocam como mercadoria erótica.

Esse debate sobre a adultização na moda infantil deixa claro que não se trata apenas de escolhas estéticas ou mercadológicas, mas de um problema social que atravessa consumo, pertencimento e os próprios limites da infância. Se antes a crítica recaía somente sobre marcas e famílias, hoje o Estado começa a se movimentar para enfrentar o fenômeno.

A aprovação do Projeto de Lei nº 2628/22, conhecido como PL da Adultização, pela Câmara dos Deputados, representa um marco nesse processo. A proposta estabelece mecanismos de proteção digital para crianças e adolescentes, impondo obrigações às plataformas, como controle parental, bloqueio de conteúdos inapropriados e verificação de idade, além de prever penalidades em casos de descumprimento. Ao deslocar o debate da esfera exclusivamente cultural para o campo jurídico, o PL sinaliza que a adultização não é apenas uma questão de gosto ou estilo, mas um problema de ordem pública que demanda políticas concretas de proteção.

Assim, o que antes era apenas denunciado pela crítica cultural, agora ganha respaldo legal e institucional. O desafio, no entanto, permanece em garantir que tais medidas realmente preservem a infância diante das pressões do consumo, das redes sociais e da indústria da Moda.

 Referências

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.

FILHO, José; ORLANDI, Eni. Moda, infância e erotização: discursos e representações. Campinas: Pontes, 2013.

LAB NOTÍCIAS. Mercado têxtil infantil cresce e movimenta bilhões por ano no Brasil. São Paulo, 2023.

MILLÉO, Bianca; CUNHA, Maria Claudia. História da moda infantil: da miniaturização ao design contemporâneo. São Paulo: Estação das Letras, 2016.

MONTES, Juliana. Infância em vitrine: moda, publicidade e erotização. Porto Alegre: Sulina, 2017.

SCHWARTSMAN, Hélio. Meninas adultas, crianças erotizadas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 2011. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 20 ago. 2025.

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Pesquisa sobre sexualização precoce e saúde mental. São Paulo: USP, 2019.


Rebeca Godoi é estudante do curso Design de Moda da UEL, empresária na área, participa do Grupo Gabo de Pesquisa e é responsável pela coluna de Moda da revista Jornalismo & Ficção na América Latina.

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