Amargo como o futuro

Revista Jornalismo & Ficção


atualizado 2 anos atrás


O debate sobre o possível fim da permissão para o casamento homoafetivo no Brasil amarga o dia de um casal gay de idosos, cafeicultores de Londrina, que enxergam as dores do passado no futuro da geração atual.

Luiz Fernando Abreu

A reta final da colheita do café sempre era um motivo de alegria para Armando. Ele acordava todas as madrugadas com um sorriso no rosto e um beijo em Jaime, que permanecia sonolento na cama enquanto o marido preparava o café. No fogão, o idoso saudava os primeiros raios de sol que atravessavam a janela esfumaçada pelo vapor da chaleira. O café era algo que nunca faltava na mesa dos dois cafeicultores de Londrina durante os 37 anos que viveram juntos.

Jaime saiu do quarto apoiado em seu andador e foi recebido com um pão com manteiga na chapa e um pedaço de bolo de fubá do dia anterior. Além, é claro, do café com açúcar que Armando tanto criticava.

A felicidade matinal era rotina. Talvez o momento mais pacífico do dia, pouco antes de Armando se preparar para mexer no maquinário e cuidar da fazenda. Em seus 68 anos, as costas não eram as mesmas da juventude, mas ainda assim ele gostava da vida no campo. Nenhum olhar julgador se escondia na imensidão verde à frente da casa.

Mas a paz durou pouco aquele dia. Rodrigo, o neto de Jaime, chegou com o celular em mãos e o rosto anunciando a tragédia. “Vocês viram?” Perguntou, sem nem dar bom dia ao casal. Balbuciou algumas palavras e caiu em prantos enquanto balançava o celular no rosto de Armando. O idoso buscou os óculos no bolso para clarear a visão antes de segurar o aparelho: “Comissão da Câmara aprova projeto de lei que proíbe o casamento homoafetivo”, leu em voz alta, falhando a voz na última palavra.

Agora tudo fazia sentido. O jovem tinha 25 anos e havia recém anunciado que se casaria com o namorado em outubro de 2024. Estava economizando para tornar a cerimônia perfeita. Deve ter ido até o sítio pois Armando e Jaime tinham o casamento que ele esperava ter um dia.

Armando viu o rapaz crescer e o tratava como seu próprio neto. O envolveu em um abraço enquanto Jaime se levantava vagarosamente da cadeira para consolar Rodrigo. “Depois de 12 anos eles resolvem voltar para o século XX? Não tem cabimento uma coisa dessa!”, lamentou, agora nos braços do avô.

“Talvez não aprovem”, afirmou Jaime. “Ainda precisa passar por muitas comissões. E o Supremo pode declarar inconstitucional. As pessoas só têm que pressionar”. Armando relembrou sua história ao lado de Jaime, mas só a parte cansativa dela. Pensou nos 25 anos que moraram juntos até que pudessem oficializar o casamento em cartório. E agora, um breve respiro de pouco mais de uma década para o mesmo problema bater às portas da nova geração. “Eu acho que hoje também vou precisar de um pouco de açúcar no café pra tirar esse amargo da minha boca”, lamentou Armando.


Luiz Fernando Abreu é repórter para o portal de notícias OBemdito, estudante de Jornalismo editor do Grupo Gabo de Pesquisa.

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