O Agente Secreto da falta de memória
Revista Jornalismo & Ficção
atualizado 4 horas atrás

O longa metragem “O Agente Secreto” é o segundo filme brasileiro seguido a concorrer ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional. Além de estrear para o Brasil as categorias Melhor Direção de Elenco e Melhor Ator, o último com Wagner Moura. Também retratando a ditadura, porém agora por uma perspectiva alternativa e sutil, além de destacar a importância da memória e do trabalho de pesquisa. Essa resenha se aprofunda um pouco nas entrelinhas do filme, enquanto explica algumas das referências e metáforas utilizadas.
Contém spoilers!
Por Luiza Zottis
O filme “O Agente Secreto” de Kleber Mendonça Filho é mais fiel ao conceito que propõe do que as expectativas de um filme linear no padrão hollywoodiano. E esse é o fator que o torna belo. O longa metragem acompanha a história de Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário que apesar de não ter envolvimento político direto com a ditadura, precisa fugir da perseguição dos militares na cidade de Recife, e sob nova identidade tenta de todas as formas conseguir um local seguro para criar o seu filho.
A ambientação da ditadura militar (1977) é sutil. Chamada no início do filme de “tempo de muita pirraça”, nunca é diretamente mencionada. Acontece no plano de fundo: a fuga de Marcelo, censuras e notícias falsas em jornais, retratos do ditador Geisel nas paredes e a corrupção quase imperceptível da polícia. Logo, fica claro que não apenas Marcelo, mas quase todos ao seu redor também estão fugindo dos militares.
Diversas referências e paralelos auxiliam a contar essa história. Por exemplo: As gatinhas Liza e Elis, que são grudadas no mesmo corpo, simbolizam a vida dupla dos personagens. Outro ponto um tanto inusitado é a “perna cabeluda”. Os jornalistas de Recife na época precisavam encontrar maneiras subliminares de noticiar a violência policial, e por isso inventaram um personagem fictício: A perna cabeluda e amputada que pulava sozinha e agredia grupos marginalizados. Kleber Mendonça traz a figura da perna de modo literal, quase cômico, e se mantém como um ponto central na trama.
O dono dessa perna era um estudante de agronomia, subtende-se na trama que também foi morto pela ditadura militar. E…é isso. É tudo que o filme mostra sobre, assim como diversos outros pontos como o soldado alemão, Maria Aparecida dos Santos (mãe de Marcelo), o cadáver no posto de gasolina… o filme deixa diversas pontas soltas que jamais são explicados ou aprofundados. Isso seria um defeito grotesco em qualquer outra obra cinematográfica, mas em “O Agente Secreto” é o que torna tudo interessante.
Esquecidos
Diversos personagens e tramas são esquecidos. O tempo passa e não permite que ninguém os carregue seja por documentos, notícias ou memórias. Quem é o dono da perna cabeluda? Quem foi a mãe de Marcelo? Ninguém conta, por tanto ninguém sabe, por tanto ninguém se lembra.
E esse mesmo destino cruel se repete com os personagens ativos da trama e em especial com o protagonista. Por vezes, no filme, o tempo corta para um período presente onde duas pesquisadoras estão investigando por fitas e jornais da época a história de Marcelo e seus colegas que também fugiam da ditadura. Elas não conseguem todas as respostas, as fitas têm buracos, os jornais estão censurados e a história permanece incompleta. É a explicação para tantas pontas soltas no filme: a história dessas pessoas foi esquecida pelo tempo, não há registros, não há memória.
Até o próprio filho de Marcelo, Fernando, confessa no final do longa não possuir memória alguma de seu pai. Fernando é capaz de se lembrar do filme que assistiu quando criança no cinema Boa Vista, o clássico Tubarão, mas não se lembra de Marcelo. Ele conta para uma das pesquisadoras sobre o filme, é capaz de descrever o medo que teve de tubarões naquela fase da infância e revela que o local onde trabalha no presente (um banco de doação de sangue) foi construído no mesmo lugar que o cinema Boa Vista.
Essa é uma metáfora interessante e que quase passa despercebida, apesar do banco de doação ser a última cena do filme. Caso Fernando não tivesse a lembrança de assistir ao filme Tubarão naquele mesmo local, ninguém saberia que ali já foi um cinema. A exata mesma coisa acontece com os fugitivos da ditadura: sem ninguém para lembrá-los, é como se não tivessem existido.
Essa ideia de informações faltando e memória apagada se repete inclusive no clímax do filme: Há uma cena de perseguição, em que um homem na ditadura militar está seguindo Marcelo com intenção de matá-lo, e o professor está se apressando em fugir. Ao invés de mostrar a cena completa, de ceder um momento de despedida para o personagem Marcelo, o que acontece é um corte abrupto de volta para o tempo presente. Uma das pesquisadoras está lendo arquivos de jornais e encontra a foto de Marcelo, morto, embaixo de uma manchete que não diz verdades sobre o assassinato. É assim que sabemos que o protagonista morreu, com uma história mutilada, sem cerimônias e informações tão esburacadas quanto a perfuração da bala na cabeça de Marcelo.
É impossível não comparar essa obra com o último ganhador de Melhor Filme Internacional do Oscar. “Ainda Estou Aqui” também fala sobre a ditadura militar e sobre memória, mas as óticas são diferentes. Enquanto no filme de Walter Salles a memória do desaparecido Rubens Paiva é preservada por completo e a ausência dele dita o tom da trama, “O Agente Secreto” é sobre quem não foi lembrado.
Marcelo não era um comunista. Não era um ativista. Não era sequer envolvido em política. Era um professor universitário, pesquisador, que junto com sua mulher se envolveu em uma confusão com um empresário ao se recusar abandonar seu projeto de pesquisa e acabou na lista proibida dos militares. Sua esposa, Fátima, já está morta quando o filme começa e apenas a conhecemos por flashbacks. Ao mesmo tempo, Marcelo passa o filme inteiro tentando evitar o mesmo destino que a companheira teve, apenas para depois de tantos esforços, encontrá-la.
“O Agente Secreto” é um filme excelente e muito cuidadoso. Não tem medo de desafiar padrões de roteiro para seguir uma metalinguagem incrível sobre memória e resistência. É, mais uma vez, o Brasil provando que Hollywood têm muito o que aprender com nosso cinema.
Luiza Zottis é estudante de Jornalismo na UEL, participa do Grupo Gabo de Pesquisa onde desenvolve estudos sobre “Machado de Assis e suas crônicas jornalísticas” e faz parte da equipe da revista Jornalismo&Ficção na América Latina.