{"id":96,"date":"2022-08-01T14:57:21","date_gmt":"2022-08-01T17:57:21","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/?p=96"},"modified":"2022-08-01T14:57:22","modified_gmt":"2022-08-01T17:57:22","slug":"entrevista-com-a-professora-maria-lucia-wortmann","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/confissoes-os-enredos-da-tradicao\/2022\/08\/01\/entrevista-com-a-professora-maria-lucia-wortmann\/","title":{"rendered":"Entrevista com a professora Maria L\u00facia Wortmann"},"content":{"rendered":"\n<p id=\"viewer-adah8\">A Profa. Dr. Maria L\u00facia Castagna Wortmann tem uma longa rela\u00e7\u00e3o com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduada em Hist\u00f3ria Natural pela UFRGS em 1967, Mestrado em Educa\u00e7\u00e3o pela UFRGS, em 1980, e Doutorado em Educa\u00e7\u00e3o pela UFRGS, em 1994, realizou parte das pesquisas em um doutorado-sandu\u00edche na Universit\u00e9 Pierre et Marie Curie (Paris VI). A aproxima\u00e7\u00e3o com os estudos de epistemologia, na d\u00e9cada de 1980, foi decisiva para a reorienta\u00e7\u00e3o dos interesses de pesquisa da Profa. Wortmann e sua inser\u00e7\u00e3o, mais tarde, nas perspectivas dos Estudos p\u00f3s-estruturalistas, tornando-se, a partir dos anos de 1990, umas das mais influentes pesquisadoras no campo dos Estudos Culturais das Ci\u00eancias no Brasil. Atualmente \u00e9 professora da Universidade Luterana do Brasil, onde atua no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o, e professora pesquisadora convidada do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o daUniversidade Federal do Rio Grande do Sul.<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ead60\">O prof. Mois\u00e9s Alves de Oliveira \u00e9 Coordenador do grupo de pesquisa GECCE, graduado em Qu\u00edmica pela Universidade Estadual de Maring\u00e1 (UEM), Mestre em Qu\u00edmica pela Universidade Estadual de Maring\u00e1 (UEM) e Doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS).<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cmp23\"><strong>Mois\u00e9s:<\/strong> <strong>Professora Maria L\u00facia, \u00e9 um grande prazer ter a senhora aqui com a gente, no GECCE, e nessa revista que come\u00e7a a dar os primeiros passos, e \u00e9 para n\u00f3s uma honra a senhora ser a nossa primeira entrevistada do panfleto Quase-Ci\u00eancias. Sinta-se acolhida, sinta-se em casa, sobretudo porque j\u00e1 nos conhecemos das nossas trajet\u00f3rias de pesquisa e pela hist\u00f3ria que a gente tem desde a forma\u00e7\u00e3o desse grupo de pesquisa.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6maj0\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Eu que agrade\u00e7o o convite, Mois\u00e9s, me sinto muito honrada de poder conversar com voc\u00eas, contando um pouco dessa hist\u00f3ria de trabalho que n\u00f3s vimos fazendo j\u00e1 desde 1997. Eu acredito que essa \u00e9 a data inicial do interesse que foi surgindo nesta abordagem dos Estudos Culturais da Ci\u00eancia, ent\u00e3o \u00e9 um prazer estar com voc\u00eas e estar relembrando um pouco dessa hist\u00f3ria de trabalho. E n\u00e3o precisas me chamar de senhora, n\u00e9, Mois\u00e9s, podes dispensar, vamos usar o &#8220;tu&#8221; (risos). Okay?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5qss2\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira:<\/strong> <strong>Interessante como eu conhe\u00e7o bem a hist\u00f3ria do &#8220;tu&#8221; (risos). Agora, para n\u00f3s, aqui no Paran\u00e1, o &#8220;tu&#8221; \u00e9 t\u00e3o formal quanto o &#8220;senhora&#8221; (risos), mas vai ser sim &#8220;tu&#8221; (risos).<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2f868\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Okay, Mois\u00e9s, vamos l\u00e1 ent\u00e3o. Eu estou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de voc\u00eas, okay?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5vj76\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira:<\/strong> <strong>Obrigado. Bom, nosso primeiro ponto, Maria L\u00facia, vai exatamente na dire\u00e7\u00e3o em que voc\u00ea inicia nessa hist\u00f3ria, n\u00f3s queremos saber um pouco da sua hist\u00f3ria. Como \u00e9 que a professora Maria L\u00facia se institui como professora e vai acabar na \u00e1rea dos Estudos Culturais da Ci\u00eancia a partir da Hist\u00f3ria Natural? Claro, a influ\u00eancia da sua forma\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o pode ter te dado pistas, mas da\u00ed como \u00e9 que voc\u00ea faz? Como \u00e9 que \u00e9 esta tua trajet\u00f3ria? Conta pra gente.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-13nrs\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Bom, na verdade quando terminei a faculdade eu fiquei vinculada ao Col\u00e9gio Aplica\u00e7\u00e3o da UFRGS, que \u00e9 um col\u00e9gio onde se fazia pesquisa em educa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o essa minha experi\u00eancia no Col\u00e9gio Aplica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia muito decisiva na dire\u00e7\u00e3o desse trabalho de pesquisar a educa\u00e7\u00e3o, e essa pesquisa caminha nos primeiros anos muito na dire\u00e7\u00e3o de &#8220;como \u00e9 que se faz o ensino&#8221;. Ent\u00e3o muito na dire\u00e7\u00e3o de como \u00e9 que funcionam essas metodologias de ensino, o qu\u00ea que se ensina, qual \u00e9 a import\u00e2ncia desses temas que se ensina, quer dizer, \u00e9 uma experi\u00eancia que vai muito nessa dire\u00e7\u00e3o de trabalhar numa forma, mesmo pesquisando; eu lembro que t\u00ednhamos um trabalho de pesquisa que faz\u00edamos, eu tinha uma colega com a qual eu dividia esse trabalho, que era a Beatriz Madalena, que foi durante muitos anos professora do col\u00e9gio de aplica\u00e7\u00e3o, e n\u00f3s t\u00ednhamos um trabalho que se chamava &#8220;uma abordagem heur\u00edstica no Ensino de Biologia&#8221;, onde a gente trabalhava com estas quest\u00f5es mais de &#8220;como trabalhar com essas ideias mais inovadoras, dentro do ensino da Biologia\u201d. Esse talvez foi um trabalho bem decisivo, e depois um outro trabalho que n\u00f3s come\u00e7amos a fazer, tamb\u00e9m no Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o, que era um trabalho de buscar uma a\u00e7\u00e3o mais interdisciplinar. Eu lembro que n\u00f3s trabalhamos com dois professores de F\u00edsica. N\u00f3s \u00e9ramos duas professoras de Biologia e dois professores de F\u00edsica que procuravam nas turmas, daquele tempo, quarta s\u00e9rie do ensino fundamental, acho que era ensino fundamental&#8230; N\u00e3o. Se chamava gin\u00e1sio, na quarta s\u00e9rie. Foi o meu primeiro ano de atividade como docente, n\u00f3s procur\u00e1vamos fazer uma inter-rela\u00e7\u00e3o entre este trabalho de f\u00edsica e o trabalho de biologia na quarta s\u00e9rie, com os alunos que iam entrar no ensino m\u00e9dio. Acho que esse trabalho, esse interesse pela pesquisa vem da\u00ed, t\u00e1!?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1gjtf\">Quando eu sa\u00ed do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o eu fui para uma experi\u00eancia, tamb\u00e9m inovadora, que houve na UFRGS, que foi chamado &#8220;Primeiro Ciclo de Estudos da UFRGS&#8221;, que era uma coisa muito estranha, vamos dizer assim (risos), porque na verdade esse primeiro ciclo antecedia os estudos que os alunos que tinham feito vestibular fariam nas suas carreiras espec\u00edficas, n\u00e3o sei se estou sendo clara. E era uma coisa estranha porque era assim, metade dos alunos j\u00e1 estavam classificados para essas suas forma\u00e7\u00f5es e a outra metade ia se classificar a partir do desempenho que tinha nesse primeiro ciclo de estudos da UFRGS. Eu trabalhava naquela \u00e9poca com introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 metodologia da pesquisa cient\u00edfica. Um dos coordenadores era o Edmundo Kanan Marques, a outra era a Bela Oliven, e n\u00f3s trabalh\u00e1vamos com essas quest\u00f5es da metodologia cient\u00edfica, com os estudantes. Estud\u00e1vamos o Carnap (Rodolf), o Mario Bunge, ent\u00e3o os padr\u00f5es de serendipidade na Ci\u00eancia, essas coisas todas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1sqoj\">Quando eu sa\u00ed de l\u00e1, voltei para o Col\u00e9gio Aplica\u00e7\u00e3o e comecei um mestrado tamb\u00e9m em ensino, mas tamb\u00e9m muito voltado a essa discuss\u00e3o sobre como ensinar metodologias de ensino, classifica\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es, quer dizer, o meu mestrado foi em cima tamb\u00e9m de quest\u00f5es que eram quest\u00f5es abertas, eu queria trabalhar com esse padr\u00e3o mais alternativo de proposi\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-e6fuj\">Bom&#8230; e depois disso, quando eu passei a trabalhar no Departamento de Ensino e Curr\u00edculo tamb\u00e9m, eu sempre fui professora de Metodologia de Ensino de Ci\u00eancias, Metodologia de Ensino de Biologia, Pr\u00e1tica de Ensino de Ci\u00eancias, Pr\u00e1tica de Ensino de Biologia, eu estava nessa dire\u00e7\u00e3o ainda. Eu estudava Piaget nessa altura, passei daquela fase do col\u00e9gio onde a gente trabalhava com essas metodologias mais positivistas eu acho que posso dizer n\u00e9, mas a\u00ed eu j\u00e1 tava trabalhando com Piaget, com Paulo Freire&#8230; nos primeiros anos do meu trabalho na parte de fundamenta\u00e7\u00e3o para o Ensino da Ci\u00eancia e da Biologia, eram esses dois autores, e a\u00ed eu comecei tamb\u00e9m a me preocupar com essa quest\u00e3o: &#8220;por que que se ensina A e n\u00e3o se ensina B em Biologia?&#8221;, ou seja, por que que eu opto por dizer para os meus estudantes que eles devem desenvolver determinados tipos de conte\u00fados que tenham a ver com as quest\u00f5es sociais, etc. e tal. Ou ent\u00e3o: quais s\u00e3o as quest\u00f5es importantes, as teorias importantes que fundamentam a Biologia? Eu estava muito interessada nessas teorias fundantes da Biologia, a\u00ed comecei a estudar o Kuhn, o Feyerabend, com a Anna Carolina Regner, que era uma excelente estudiosa desses autores, que nos deixou h\u00e1 pouco tempo, \u00e9 uma perda lastim\u00e1vel que a gente tamb\u00e9m teve n\u00e9, em termos da estudiosa e da acad\u00eamica que a Anna Carolina era.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-b9vu7\">Ent\u00e3o, comecei com a Anna, estudando Hist\u00f3ria da Ci\u00eancia, Filosofia da Ci\u00eancia, estudando Kuhn, estudando Feyerabend, e eu acho que esses dois autores foram decisivos na minha vida e na minha compreens\u00e3o sobre a ci\u00eancia, sabe? Sem d\u00favida, quando eles come\u00e7am a mostrar como \u00e9 que a Ci\u00eancia se faz, isso para mim foi um deslocamento muito importante.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6f78o\">Na minha tese de doutorado, eu trabalhei com esses dois autores, ainda numa dimens\u00e3o muito voltada a essa busca mais epistemol\u00f3gica, &#8220;o que que \u00e9 importante estudar em biologia&#8221;, tanto \u00e9 que eu fui para a Fran\u00e7a para ver o que eles estudavam por l\u00e1, fui para Pierre e Marie Curie (<strong>Universit\u00e9 Pierre et Marie Curie (Paris VI)<\/strong>), que \u00e9 uma universidade importante na \u00e1rea da Ci\u00eancia. A Paris 6 e Paris 7, s\u00e3o duas que funcionam praticamente juntas, e l\u00e1 tamb\u00e9m comecei a ver que existia um deslocamento importante na forma deles conduzirem, muito mais aberta de fazer este estudo da Biologia. Enfim, quer dizer, esses foram momentos importantes de deslocamento para chegar aos Estudos Culturais da Ci\u00eancia, que a gente come\u00e7a com Rouse, com Joseph Rouse, tem aquele texto que eu acho que \u00e9 um texto que motiva mesmo essa preocupa\u00e7\u00e3o com os Estudos Culturais da Ci\u00eancia, ent\u00e3o acho que \u00e9 isso. O ano deve ter sido l\u00e1 por 1997. Terminei a minha tese de doutorado em 94, comecei a estudar Estudos Culturais com o Tomaz Tadeu, numa disciplina que o Tomaz oferecia. Come\u00e7amos a falar a\u00ed em Estudos Culturais, acho o primeiro texto que eu li foi &#8220;O estado da arte dos Estudos Culturais&#8221;, aquele texto do George Y\u00fadice, que depois ficou nosso parceiro em muitas situa\u00e7\u00f5es. Eu tenho uma grata amizade com ele. Enfim, acho um excelente acad\u00eamico tamb\u00e9m, mas enfim esse contato com os Estudos Culturais e depois os Estudos Culturais da Ci\u00eancia a partir do Joseph Rouse, quer dizer, quando a gente come\u00e7a a trabalhar com os Estudos Culturais, a pergunta que vai surgindo \u00e9 &#8220;como \u00e9 que isso se engata nas discuss\u00f5es que fazemos sobre a ci\u00eancia?&#8221;. N\u00e3o sei se falei demais (risos).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c6ojc\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira:<\/strong> <strong>Eu ficaria aqui ouvindo voc\u00ea o dia todo sobre essa hist\u00f3ria. Bom, a\u00ed voc\u00ea cita a Anna Carolina como uma parceira de trabalho e o Tomaz (Tomaz Tadeu da Silva). Para o que n\u00f3s discutimos dentro dos Estudos Culturais, o Tomaz \u00e9 uma figura central, importante.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7us4h\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Certamente, grande parte das tradu\u00e7\u00f5es de Estudos Culturais que ainda circulam por aqui hoje foram feitas pelo Tomaz, n\u00e3o \u00e9!? Certamente nos anos 90, final dos anos 90.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bu6ls\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: Vamos nessa dire\u00e7\u00e3o, anos 90. Voc\u00ea cita 97, mas os Estudos Culturais come\u00e7am l\u00e1 no p\u00f3s-guerra, da Primeira Guerra Mundial, em que a centralidade dos Estudos Culturais emerge a partir do trio fundador, digamos assim, com o Raymond Williams, Hoggart e o Thompson, e depois com a entrada do Stuart Hall, e a\u00ed vai se ampliando bastante at\u00e9 2002, quando o grupo \u00e9 extinto l\u00e1 na Inglaterra. Por que demora tanto para chegar no Brasil, Maria L\u00facia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9514o\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Pois \u00e9, na educa\u00e7\u00e3o, seguramente, foi l\u00e1 pelos anos 94-95, quando o Tomaz come\u00e7a a fazer estas tradu\u00e7\u00f5es dos textos do Hall, e na verdade ali como &#8220;Alien\u00edgenas na sala de aula&#8221;, que eu acho que \u00e9 o primeiro livro que cont\u00e9m mesmo um grande n\u00famero de tradu\u00e7\u00f5es, que tem aquele texto do Grossberg em parceria com outros colegas, onde ele faz um levantamento, j\u00e1 \u00e9 um texto de 91 que o Tomaz traduziu nesse livro que saiu em 95, mas ele \u00e9 um texto que tamb\u00e9m d\u00e1 uma posi\u00e7\u00e3o dos Estudos Culturais no mundo, porque os anos 90, na verdade, seriam os anos em que os Estudos Culturais come\u00e7aram a circular mesmo por todo o mundo, eu n\u00e3o sei por que demorou tanto tempo, mas em termos de circula\u00e7\u00e3o \u00e9 os anos 90. Talvez uma coisa poss\u00edvel, que eu acho que tem, s\u00e3o aqueles livros que foram editados pela Open University. Come\u00e7a um conjunto de livros em 1991, eu acho, e depois tem os outros que s\u00e3o de 1997, onde trabalha-se com a no\u00e7\u00e3o de um circuito da cultura.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cj4pp\">Ent\u00e3o para cada um desses momentos da cultura, o Paul du Gay e o Hall fizeram um apanhado, um conjunto de textos sobre identidade. N\u00f3s temos somente 2 traduzidos aqui, eu acho que \u00e9 o texto da Woodward, e o texto do pr\u00f3prio Stuart Hall &#8220;Quem precisa de identidade?&#8221;, que fazem parte deste livro, depois um conjunto de textos sobre representa\u00e7\u00e3o, onde tem um texto inicial do Paul du Gay e do Hall, depois tem outro texto do Hall que \u00e9 um texto super importante tamb\u00e9m, traduzido neste livro, um outro sobre representa\u00e7\u00e3o em museus etc. Bom, \u00e9 um conjunto de textos que eram editados pela Open University, uma universidade aberta que fazia esse conjunto de materiais efetivamente para atingir uma massa maior de alunado. Ent\u00e3o eles s\u00e3o textos muito autoprogramados, tem um livro inteiro sobre identidade, um livro inteiro sobre representa\u00e7\u00e3o, um livro inteiro sobre consumo, um livro inteiro sobre produ\u00e7\u00e3o cultural, um livro sobre regula\u00e7\u00e3o, que \u00e9 aquele livro que n\u00f3s temos um artigo produzido, que \u00e9 o artigo que est\u00e1 na Educa\u00e7\u00e3o &amp; Realidade (1997), que foi &#8220;A centralidade da cultura&#8221;, \u00e9 um artigo que continua circulando intensamente at\u00e9 hoje, que \u00e9 um artigo do Stuart Hall, que vai trabalhar com a ideia da regula\u00e7\u00e3o, especificamente. Eu acho que este conjunto de publica\u00e7\u00f5es, e essas outras anteriores, essas que eu falei de 1991. Outros livros, eles n\u00e3o t\u00eam nada traduzido que eu saiba, mas eles estavam todos inteiros disponibilizados. Eu j\u00e1 trabalhei com eles em algum outro momento, agora n\u00e3o mais, mas enfim e depois estes de 1997, s\u00e3o todas publica\u00e7\u00f5es a partir desse trabalho que Stuart Hall e outros, Paul do Gay tamb\u00e9m, faziam na Open University. Eu acho que isso tem a ver e, tamb\u00e9m, eu acho que os anos 90 \u00e9 o ano que os Estudos Culturais se difundem para o mundo, porque as produ\u00e7\u00f5es australianas que est\u00e3o ali traduzidas em um livro do Tomaz, elas tamb\u00e9m s\u00e3o dos anos 90. E assim, os pr\u00f3prios Estados Unidos e o trabalho do (Henry) Giroux, (Petter) McLaren, que come\u00e7am a trabalhar com Educa\u00e7\u00e3o e Estudos Culturais, eles tamb\u00e9m s\u00e3o trabalhos dos anos 90, 94, 95. Depois a Shirley Steinberg come\u00e7a a trabalhar com a no\u00e7\u00e3o de Pedagogia Cultural, que \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o que se tornou super importante para os Estudos Culturais depois, enfim, eu acho que esse material da Open \u00e9 importante. Ah, uma coisa que eu queria chamar aten\u00e7\u00e3o, eu acho que os Estudos Culturais no Brasil chegaram antes na \u00e1rea de literatura, viu?! Os estudos liter\u00e1rios, eu acho que muito antes, antes dos estudos de educa\u00e7\u00e3o, o pessoal que trabalhava com teoria liter\u00e1ria notadamente, acho que Helo\u00edsa Buarque de Holanda \u00e9 o nome que precisa ser citado certamente, e a Beatriz Rezende, que eu acho que era uma parceira da Helo\u00edsa nesse per\u00edodo, elas come\u00e7am a trabalhar fortemente com esses Estudos Culturais. Tem gente que diz que os Estudos Culturais entraram nas disciplinas pelas bordas n\u00e9. Meio devagar, as pessoas n\u00e3o querendo muito dizer que eles est\u00e3o entrando, porque eles s\u00e3o estudos marginais, vamos dizer assim. S\u00e3o estudos marginais de uma certa maneira, porque n\u00e3o t\u00e3o dentro das disciplinas tradicionais, ent\u00e3o marginais nesse sentido. Ent\u00e3o eu acho que tem a ver com isso tamb\u00e9m. Tem aquela leitura l\u00e1 tamb\u00e9m &#8220;Para ler Pato Donald&#8221;, que \u00e9 um dos primeiros textos considerados de Estudos Culturais, mas, enfim, muito marcados a\u00ed por uma teoriza\u00e7\u00e3o ainda marxista, que \u00e9 diferente da forma como os Estudos Culturais chegam para n\u00f3s em educa\u00e7\u00e3o na faculdade de educa\u00e7\u00e3o da UFRGS. Eu acho que o jeito que chega, eu j\u00e1 contei um pouco dessa hist\u00f3ria no texto que a gente escreveu com a Marisa e com a Rosa, e um texto que eu apresentei h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s tamb\u00e9m no SBECE, talvez foi o primeiro texto em decorr\u00eancia de um trabalho que eu fiz para o pessoal l\u00e1 da CLACSO. Enfim, mas contando um pouco dessa hist\u00f3ria, eu acho que chega para n\u00f3s em educa\u00e7\u00e3o de um outro jeito, porque os trabalhos que chegam para n\u00f3s j\u00e1 v\u00eam permeados pela preocupa\u00e7\u00e3o com o p\u00f3s-estruturalismo. Eu acho assim, por exemplo, os Estados Unidos, os pr\u00f3prios trabalhos do Giroux, eles s\u00e3o muito mais voltados, ainda, a uma teoriza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do que os trabalhos que n\u00f3s come\u00e7amos a fazer aqui, especialmente na UFRGS, eu acho que tem uma diferen\u00e7a, entende? E eu acho que os Estudos Culturais n\u00e3o s\u00e3o uma coisa s\u00f3, eu acho que mesmo as autoras da teoria liter\u00e1ria elas se apropriaram dos Estudos Culturais de formas diferentes. Por exemplo, o jeito que a Helo\u00edsa Buarque de Holanda, a Beatriz Rezende fazem Estudos Culturais, e mais recentemente a pr\u00f3pria Liv Sovik fazem \u00e9 muito diferente do modo como a Maria Elisa Cevasco, por exemplo, que \u00e9 da teoria liter\u00e1ria, faz. Ela vem de uma abordagem muito mais marxista. S\u00e3o diferentes formas de conduzir, mesmo dentro da teoria liter\u00e1ria, ent\u00e3o marcar essa diversidade eu acho que \u00e9 super importante. H\u00e1 na educa\u00e7\u00e3o essa diversidade tamb\u00e9m, mas n\u00e3o na vertente que se instaura na UFRGS, que \u00e9 permeada pelo p\u00f3s-estruturalismo, como tamb\u00e9m fomos n\u00f3s que carregamos essa vers\u00e3o para a ULBRA. L\u00e1 tamb\u00e9m, os Estudos Culturais que se fazem l\u00e1 s\u00e3o muito mais voltados para essa discuss\u00e3o que os re\u00fane, que os liga, que os associa, articula, como a gente queira dizer, aos Estudos Culturais, ao pensamento p\u00f3s-estruturalista.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6ca80\">N\u00e3o sei se consegui te responder, mas eu acho que, assim, \u00e9 o ano da dispers\u00e3o mesmo, os anos 90 s\u00e3o os anos da dispers\u00e3o dos Estudos Culturais pelo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-du1ek\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: Eu gostei muito de ouvir o que tu disseste, porque ajuda a pensar na ideia de que a perspectiva de um estudo cultural tardio no Brasil talvez n\u00e3o seja, precisamos refletir melhor sobre isso, j\u00e1 que ele se difunde pelo mundo mais ou menos na mesma \u00e9poca.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-achma\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann: <\/strong>Sim.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4rrcm\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: O Brasil n\u00e3o fica atr\u00e1s dessa divulga\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-785o9\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Me parece que n\u00e3o. Eu acho que, assim, estes textos da Open University s\u00e3o muito decisivos para isso. E outra coisa, o pr\u00f3prio Crossroads, o pr\u00f3prio semin\u00e1rio de Estudos Culturais que se realiza em 91 e que \u00e9 um semin\u00e1rio muito marcante porque j\u00e1 tem um cunho avaliativo. Eu at\u00e9 tenho que recuperar o meu livro l\u00e1 pela ULBRA, nem sei onde \u00e9 que ele anda, mas ele \u00e9 um livr\u00e3o enorme que faz um apanhado dos Estudos Culturais no mundo em 91.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-farsr\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira:<\/strong> <strong>E a\u00ed n\u00f3s caminhamos para aquilo que seria uma curiosidade nossa, dentro do grupo, que de certa forma tamb\u00e9m s\u00e3o caracteriza\u00e7\u00f5es e tend\u00eancias dos Estudos Culturais que levam para outros caminhos. Eu acho que voc\u00ea responde bem essa quest\u00e3o nessa primeira fala tua, dessa percep\u00e7\u00e3o de como os Estudos Culturais se difundem de formas diferenciadas no Brasil, as contribui\u00e7\u00f5es dentro dos estudos de linguagem, a vincula\u00e7\u00e3o marxista delas, e que leva a uma curiosidade nossa tamb\u00e9m, Maria L\u00facia. Parece haver uma certa distin\u00e7\u00e3o entre os Estudos Culturais de base, que nascem na Inglaterra, mas que ele propaga muito mais a partir, talvez, da Open University e que v\u00e3o para os Estudos Culturais da Ci\u00eancia, num certo olhar, que tendem a problematizar mais fortemente as quest\u00f5es epistemol\u00f3gicas da ci\u00eancia, e a\u00ed n\u00f3s j\u00e1 estamos entrando nesses autores mais contempor\u00e2neos, como Knorr-Cetina, Bruno Latour, que t\u00eam influenciado bastante aqui no Brasil, dentro dessa tend\u00eancia que influenciou, que pelo menos influencia o nosso grupo de pesquisas, a partir de quem? A partir da professora Maria L\u00facia, que \u00e9 onde come\u00e7a esse grupo que se radica no norte do Paran\u00e1, com uma certa preocupa\u00e7\u00e3o com uma problematiza\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica e vai se diferenciando um pouco talvez dessa quest\u00e3o mais ligada ao marxismo mesmo, das vertentes da literatura que come\u00e7am a se movimentar aqui no Brasil. \u00c9 assim? Voc\u00ea v\u00ea essa prolifera\u00e7\u00e3o e essa influ\u00eancia dos Estudos Culturais da Ci\u00eancia criarem um marcador de diferencia\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos Estudos Culturais?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8fo0g\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Bom, eu acho que um n\u00e3o vem do outro. Eu acho que eles s\u00e3o na verdade duas tend\u00eancias que correm paralelas, porque se a gente pensar esse livro do Latour, que \u00e9 o &#8220;Vida de laborat\u00f3rio&#8221;, que \u00e9 um livro marcante, ele \u00e9 um livro de 1980. Eu acho assim, marcante para o surgimento dessas discuss\u00f5es sobre Ci\u00eancias sem d\u00favida, o Kuhn, o Feyerabend e o Lakatos, eu acho que s\u00e3o tr\u00eas nomes super importantes nessa discuss\u00e3o. Nos anos 60 o grande semin\u00e1rio, aquele que se faz em torno, inclusive, da estrutura das revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, aquele livro do Kuhn que causou tanto furor que no final j\u00e1 tava arrependido de ter pensado na no\u00e7\u00e3o de paradigma, n\u00e9 (risos). Mas essa no\u00e7\u00e3o de paradigma, foi o conceito que, independente de ter gostado ou n\u00e3o de ter proposto este conceito, teve uma produtividade enorme, que eu acho que muitas ci\u00eancias tentaram encaixar a sua forma de pensar nesse modelo que ele pensa para a F\u00edsica inicialmente. Acho que a\u00ed tem um marcador importante nas discuss\u00f5es que se fazem sobre a Ci\u00eancia, entende?! At\u00e9 esse surgimento dessas discuss\u00f5es do Bruno Latour, eu acho que tamb\u00e9m tem um papel importante o Aronowitz no pensamento norte-americano, sobre essas discuss\u00f5es dos Estudos Culturais em Ci\u00eancia. Em 90 a gente teve contato com David Hess, l\u00e1 em Campinas, o pessoal de Campinas estava preocupado com isso de Estudos Sociais e Culturais da Ci\u00eancia, isso em 2000, mas antes essa discuss\u00e3o acho que j\u00e1 tava no mundo. O grupo de Quilmes ali, na Argentina tamb\u00e9m estava estudando, fazendo trabalhos em cima dos estudos de laborat\u00f3rio, por exemplo, que eu acho que foram estudos que ficaram muito marcados pelo pensamento do Bruno Latour, pelo estudo do Bruno Latour mesmo, que t\u00e1 relatado no &#8220;Vida de laborat\u00f3rio&#8221;, depois no &#8220;Ci\u00eancia em a\u00e7\u00e3o&#8221; e assim por diante. Mas, assim, e essa discuss\u00e3o que se instaura em torno do pr\u00f3prio trabalho do Latour e, eu acho, dos fil\u00f3sofos franceses nos anos 90, aquele pol\u00eamico livro n\u00e9, aquele artigo que sai como uma par\u00f3dia dos Estudos Culturais. Eu acho que todos esses momentos, eles foram momentos importantes para a discuss\u00e3o que se passa a fazer sobre a Ci\u00eancia e esta ideia de que a Ci\u00eancia \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o cultural como outras formas de produ\u00e7\u00e3o cultural, quer dizer, eu acho que t\u00e1 na chave da discuss\u00e3o e do descontentamento de muitos. Eu me lembro que na UFRGS eu fiz uma palestra, n\u00e3o me lembro se foi no sal\u00e3o de inicia\u00e7\u00e3o, n\u00e3o me lembro exatamente onde foi, onde tava o pessoal das exatas, eu comecei a falar sobre a no\u00e7\u00e3o de Ci\u00eancia Revolucion\u00e1ria e Ci\u00eancia Normal. Ah, tinha uma professora da \u00e1rea de Biologia que ficou, assim, indignada, com a no\u00e7\u00e3o de Ci\u00eancia Normal, quer dizer, ela botou a Ci\u00eancia Normal num patamar de inferioridade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Ci\u00eancia Extraordin\u00e1ria, que eu cheguei a ficar espantada (risos). Ela deve ter se situado no padr\u00e3o de Ci\u00eancia Normal e deve ter dito &#8220;bom, essa criatura t\u00e1 dizendo que eu fa\u00e7o um trabalho absolutamente desmerecedor n\u00e9&#8221; (risos). Bom, mas eu acho que tem essa quest\u00e3o de pensar na pureza daquilo que se faz, na import\u00e2ncia daquilo que se faz como altamente inovador, e eu acho que \u00e9 isso que os Estudos Culturais puxam o tapete, no sentido de mostrar que n\u00f3s n\u00e3o somos t\u00e3o in\u00e9ditos assim como pensamos que somos, n\u00e9, Mois\u00e9s? N\u00e3o estamos nesse patamar de ineditismo que muitas vezes nos colocamos. Quer dizer, bom, essa ideia de pensar que \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o cultural que se faz dentro de determinados contextos a partir de um conjunto de teoriza\u00e7\u00f5es partilhadas por um grupo de sujeitos etc. e tal, que puxa um pouco a ideia de ineditismo, que muitos cultivam como seu trabalho mais importante. Bom, a coisa n\u00e3o \u00e9 bem assim, n\u00e9? Ent\u00e3o, eu acho que existe uma s\u00e9rie de conjunturas que v\u00e3o levando a essa discuss\u00e3o sobre a Ci\u00eancia que j\u00e1 est\u00e1 instaurada se a gente pegar a hist\u00f3ria da Ci\u00eancia. O pr\u00f3prio Rose, que \u00e9 irm\u00e3o do Nikolas, que trabalha com Biologia, mas a\u00ed eles botavam uma quest\u00e3o vinda da teoriza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, nessa cr\u00edtica, mas pensando \u201cbom, por que que se faz? Por que se investe tanto dinheiro num tipo de pesquisa?\u201d Por exemplo, na fertiliza\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o se investe na manuten\u00e7\u00e3o da vida das crian\u00e7as miser\u00e1veis que t\u00e3o l\u00e1 sem dinheiro para serem alimentadas etc. e tal? Quer dizer, por que trabalhar com a fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro e n\u00e3o trabalhar com outros temas? Que \u00e9 uma coisa que o Rose j\u00e1 vinha dizendo, isso l\u00e1 nos anos 80, e muito dentro dessa teoriza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. Eu acho que, assim, essas outras teoriza\u00e7\u00f5es, especialmente o pensamento filos\u00f3fico franc\u00eas que veio com Derrida, Deleuze, que vem com Michel Foucault, eles v\u00e3o tamb\u00e9m de alguma forma mobilizar quest\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a este pensamento da Ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4t5em\">E, claro, eu acho que o Bruno Latour tem um papel important\u00edssimo nessa discuss\u00e3o, como eu acho que o Aronowitz tem no pensamento norte-americano, entende?! Um papel super importante de mobilizar, de fazer essas coisas serem discutidas. E a\u00ed surge aquela ideia, esses Estudos Culturais, n\u00e3o existe uma uniformidade tamb\u00e9m nisso. Quem passa a chamar de Estudos Culturais da Ci\u00eancia \u00e9 o Rose, essa denomina\u00e7\u00e3o t\u00e1 no Rose. O David Hess j\u00e1 faz uma grada\u00e7\u00e3o, ele vai estabelecer diferen\u00e7as, ent\u00e3o ele vai chamar de Estudos Culturais da Ci\u00eancia esses que s\u00e3o fortemente impregnados por essas quest\u00f5es que dizem respeito a ra\u00e7a, etnia, pensamento geracional, essas coisas todas. Ele vai fazer uma diferen\u00e7a entre Estudos Sociais das Ci\u00eancias e Estudos Culturais da Ci\u00eancia, por exemplo. Que eu acho que o pessoal da Unicamp trabalhava muito mais nessa dire\u00e7\u00e3o dos Estudos Sociais da Ci\u00eancia, eu acho, n\u00e3o sei. N\u00e3o sei se te respondi, Mois\u00e9s, fiz uma longa conversa a\u00ed, n\u00e3o sei se respondi bem a pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1tio9\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: T\u00e1 muito bom. Eu fiquei aqui com a pulga atr\u00e1s da orelha, \u00e0 medida que voc\u00ea inicia tua fala dizendo que s\u00e3o paralelas e eu te ouvindo, pensando &#8220;eu quero concordar com voc\u00ea&#8221;. Assim, me parece que os Estudos Culturais da Ci\u00eancia e os Estudos Culturais, \u00e9 mais ou menos como falar de p\u00f3s-moderno e p\u00f3s-estruturalismo, sabe!? Agora eles parecem se confundir mais do que no in\u00edcio, n\u00e9!?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3jv16\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann: <\/strong>Sim.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2keho\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira:<\/strong> <strong>Eles t\u00eam marcadores mais claros no in\u00edcio do que agora. Isso \u00e9 inclusive uma das perguntas que um dos integrantes do grupo me pediu para fazer pra voc\u00ea.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fdnod\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann: <\/strong>Vamos l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2a363\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira:<\/strong> <strong>Em termos deste deslocamento, ou seja, hoje os Estudos Culturais da Ci\u00eancia e os Estudos Culturais parecem ter as fronteiras mais borradas ainda. Estudos Culturais come\u00e7am a se redissolver de novo em outras tend\u00eancias. Mais ou menos assim, n\u00f3s entramos pelas bordas, demos uma r\u00e1pida passada pelo centro e parece que voltamos para as bordas de novo um pouco dissipadas em outras ideias. Eu tenho muita dificuldade, por exemplo, aqui dentro do GECCE, de dizer que n\u00f3s fazemos Estudos Culturais da Ci\u00eancia, porque a gente faz uns tipos de estudos de m\u00eddia, outros estudos etnogr\u00e1ficos, que parecem seguir linhas que s\u00e3o eminentemente ligadas a uma epistemologia mesmo, no sentido mais cient\u00edfico do termo, ou descri\u00e7\u00f5es de estudos de caso, que n\u00f3s ter\u00edamos uma certa dificuldade de dizer que exatamente s\u00e3o de Estudos Culturais. Enfim, os Estudos Culturais da Ci\u00eancia foram reincorporados dentro dos Estudos Culturais e agora est\u00e3o sendo de novo reincorporados para essas vertentes mais acad\u00eamicas, mais tradicionais da vida acad\u00eamica. \u00c9 assim que a gente tem percebido, \u00e9 assim que voc\u00ea percebe, Maria L\u00facia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6qqcb\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann: <\/strong>\u00c9, eu acho assim, por exemplo aqui, at\u00e9 por conta da dispers\u00e3o do meu trabalho e do pr\u00f3prio trabalho do Alfredo que \u00e9ramos quem trabalhava com isso mais inicialmente, e da pr\u00f3pria Daniela que se incorporou, e Lu\u00eds Henrique Sacchi dos Santos tamb\u00e9m \u00e9 outro parceiro nesta dire\u00e7\u00e3o. Quer dizer, n\u00f3s fomos efetivamente sendo conclamados, eu diria, a trabalhar com outras quest\u00f5es, entende? Tamb\u00e9m, porque fomos para ULBRA, porque l\u00e1 se expande um pouco a forma de trabalhar. Quer dizer, n\u00f3s temos alunos muito mais diversificados, por exemplo, do que os alunos que n\u00f3s t\u00ednhamos na UFRGS que entravam especificamente querendo fazer esse tipo de abordagem, entende? Que n\u00e3o \u00e9 o caso da ULBRA, onde tu vais trabalhar orienta\u00e7\u00f5es muito mais m\u00faltiplas. Bom, mas enfim, voltando, eu acho que nos dias de hoje tem uma vertente que surge ali na antropologia da UFRGS, por exemplo, que \u00e9 a Antropologia da Ci\u00eancia. Tem um grupo forte de Antropologia da Ci\u00eancia, que tava inicialmente vinculado \u00e0 Cl\u00e1udia Fonseca, que \u00e9 uma pesquisadora maravilhosa assim, eu tenho uma admira\u00e7\u00e3o enorme pela Cl\u00e1udia Fonseca, pelos trabalhos que ela conduz e por tudo que ela fez, agora eu acho que ela se aposentou definitivamente, mas a Cl\u00e1udia tem um papel fant\u00e1stico no desenvolvimento da Antropologia. Se tu pegas o n\u00famero de trabalhos que ela produziu, eu fiz uma interlocu\u00e7\u00e3o com ela em um dos eventos do SBECE, \u00e9 uma coisa assim 190 artigos, entende?! 170 cap\u00edtulos de livro. Ela \u00e9 uma coisa impressionante em termos e eles trabalham com essa Antropologia da Ci\u00eancia que lida com muitos autores, com Bruno Latour inclusive, que eram autores que a gente considerava autores dos Estudos Culturais da Ci\u00eancia. Ent\u00e3o esse borramento de fronteiras, essas novas \u00e1reas que se estabelecem e que v\u00e3o buscar discutir a Ci\u00eancia, elas v\u00e3o se multiplicando, entende? Me parece assim. Ent\u00e3o, eu acho que, tem uma s\u00e9rie de vertentes que t\u00e3o preocupadas com essa discuss\u00e3o da Ci\u00eancia. Aqui o que eu conhe\u00e7o \u00e9 esse pessoal da Antropologia da Ci\u00eancia que entrou fortemente nesse estudo enquanto que n\u00f3s, que est\u00e1vamos trabalhando como Estudos Culturais da Ci\u00eancia, fomos de alguma forma nos afastando dos pr\u00f3prios Estudos Culturais da Ci\u00eancia por conting\u00eancias de trabalho acredito, e n\u00e3o por desinteresse. Quer dizer, ainda continuo com colegas que continuam a fazer alguns trabalhos nessa dire\u00e7\u00e3o, mas que diminuiu muito, n\u00e9, Mois\u00e9s, diminuiu muito.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-223m0\">Eu acho que tu \u00e9s um local de resist\u00eancia e de presen\u00e7a desses estudos. E agora que o Alfredo e eu estamos saindo da nossa participa\u00e7\u00e3o da UFRGS, eu tamb\u00e9m acho que esta vertente vai ficar muito mais esmaecida para mim dentro da UFRGS. Tem o Lu\u00eds Henrique que continua, \u00e9 um escritor potente o Lu\u00eds. Eu acho que, assim fica nas m\u00e3os do Lu\u00eds Henrique l\u00e1 na UFRGS essa possibilidade de intera\u00e7\u00e3o com essa vertente tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6iokg\">Nessa altura n\u00f3s estamos muito difundidos em termos das exig\u00eancias que temos de trabalho, quer dizer, somos instados a discutir e N outras coisas ao lado disso. Ent\u00e3o esse esmaecimento efetivamente aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-59e4q\">N\u00e3o sei se eu te respondo, mas eu acho que, assim, alguns outros campos t\u00e3o se apropriando dessas discuss\u00f5es. Eu diria que um campo desses \u00e9 a Antropologia da Ci\u00eancia, e claro que os Estudos Sociais de Ci\u00eancia e Tecnologia que eu acho que continuam ali fortes no grupo do Danilo l\u00e1 da Unicamp, que tamb\u00e9m n\u00e3o seguem exatamente a mesma vertente que n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5rhm\">Existe uma difus\u00e3o de interesses nessas discuss\u00f5es, alguns muito mais tentando mostrar a quest\u00e3o de como \u00e9 que o econ\u00f4mico entra nessas discuss\u00f5es. Enfim, outros que v\u00e3o entrar nessa discuss\u00e3o da Antropologia, a Cl\u00e1udia tem um trabalho super interessante com os filhos dos sujeitos que viviam no Lepros\u00e1rio de Itapu\u00e3, aqui no Rio Grande do Sul, e com o que aconteceu com esses sujeitos. \u00c9 um trabalho fant\u00e1stico esse que ela faz sobre a Antropologia da Ci\u00eancia e como \u00e9 que esta coisa da Ci\u00eancia separou esses sujeitos dos seus familiares, de alguns nem saberem que tinham parentes que tinham ficado isolados vivendo l\u00e1 naquela col\u00f4nia fechada, \u00e9 um estudo muito lindo, eu tenho uma grande admira\u00e7\u00e3o por esse trabalho da Cl\u00e1udia, e tamb\u00e9m as quest\u00f5es que ela pega em rela\u00e7\u00e3o ao DNA da identifica\u00e7\u00e3o de paternidade, as modifica\u00e7\u00f5es que aconteceram na forma de pensar essa identifica\u00e7\u00e3o de paternidade, quer dizer, outro tema que ela pesquisou que eu acho que tem a ver com essas discuss\u00f5es da Ci\u00eancia dentro dessa dimens\u00e3o mais antropol\u00f3gica que ela faz.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3pp2m\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira:<\/strong> <strong>Bom, essa \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o realmente interessante dessa vasculariza\u00e7\u00e3o. Em que voc\u00ea v\u00ea essa vasculariza\u00e7\u00e3o como positiva, \u00e9 importante, porque ela vai numa dire\u00e7\u00e3o que, ao mesmo tempo que ela fragmenta, ela mant\u00e9m os Estudos Culturais em funcionamento.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9p7e\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> \u00c9, s\u00f3 que eles ganham outras denomina\u00e7\u00f5es. Eles j\u00e1 tiveram tantas desde a origem, n\u00e3o \u00e9!? Nunca se chegou a uma unifica\u00e7\u00e3o da denomina\u00e7\u00e3o, nunca se chegou. Eles sempre foram m\u00faltiplos at\u00e9 na denomina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8636h\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: O que deixa a pergunta que eu vou te fazer agora quase rid\u00edcula, mas ela tem uma import\u00e2ncia para mim, tamb\u00e9m porque n\u00f3s somos, eu a Daniele, o pr\u00f3prio Lu\u00eds Henrique, uma esp\u00e9cie de segunda gera\u00e7\u00e3o dos Estudos Culturais da Ci\u00eancia aqui no Brasil. E a gente v\u00ea o Tomaz, no teu trabalho, no trabalho do Alfredo, que, para n\u00f3s, s\u00e3o trabalhos pioneiros no Brasil para a \u00e1rea, aquilo que a gente defende para os nossos pontos de origem de gradua\u00e7\u00e3o nas Ci\u00eancias Exatas da Terra, Ci\u00eancias da Vida, voc\u00eas s\u00e3o marcadores importantes, de certa forma \u00e9 um renascimento quando a gente chega e retoma a partir de voc\u00eas, trata-se de um renascimento. Como \u00e9 que voc\u00ea se sente, Maria L\u00facia, sendo fundadora dessa linha de estudos aqui no Brasil?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1r2fn\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann: <\/strong>\u00c9, eu n\u00e3o sei se eu sou fundadora de alguma coisa n\u00e3o, Mois\u00e9s (risos). Quer dizer, a gente tamb\u00e9m se apropriou de uma vertente de trabalho que a gente achou potente, fazendo uma liga\u00e7\u00e3o com aquilo que faz\u00edamos antes. Eu fui buscar nesta vertente de estudos uma forma de interrogar o meu trabalho, que eu acho que essa \u00e9 a grande contribui\u00e7\u00e3o que os Estudos Culturais nos trazem, essa ideia de que \u00e9 preciso interrogar o trabalho que se faz de alguma forma. Ent\u00e3o eu acho que encontrei nessa vertente interroga\u00e7\u00f5es importantes sobre o trabalho que eu fazia com museus, o trabalho que eu fazia metodologicamente no ensino de Biologia. Ent\u00e3o, assim, n\u00e3o sei se \u00e9 fundador. Acho que tem um texto meu, que tamb\u00e9m \u00e9 um texto que causou algum impacto, no sentido de mostrar que as metodologias s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas (risos), aquelas metodologias consagradas para o Ensino de Ci\u00eancia, que adv\u00eam do m\u00e9todo cient\u00edfico: a redescoberta, a formula\u00e7\u00e3o de problemas, o estudo por resolu\u00e7\u00e3o de problemas tamb\u00e9m, que eram decantados em algum momento como &#8220;bom, tem que fazer Ensino de Ci\u00eancias desse jeito. Esse \u00e9 o jeito que o cientista pensa&#8221;. Bom, o que que a gente botou no artigo? Esse \u00e9 um jeito que a gente est\u00e1 dizendo que o cientista p\u00f5e, que o cientista pensa (risos). Quer dizer, a constru\u00e7\u00e3o que se faz em cima da pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, \u00e9 o jeito que a gente t\u00e1 dizendo que \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica isso, eles s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas como s\u00e3o outras constru\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m. Quer dizer, &#8220;bom ent\u00e3o tu t\u00e1 botando abaixo toda uma metodologia que os centros de Ci\u00eancia consagraram durante 20 e 30 anos, tu \u00e9 uma bandida&#8221; (risos), nesse sentido de t\u00e1 questionando essa metodologia como a melhor metodologia de trabalho. T\u00e1 bom, num t\u00f4 questionando. Quer continuar fazendo assim? Continua. \u00c9 potente? \u00c9, mas eu n\u00e3o posso dar um teor de verdade pra isso que n\u00e3o tem, entende? Eu acho que \u00e9 esta a grande quest\u00e3o que se p\u00f5e, de n\u00e3o atribuir aquilo que se faz o tom de verdade, botar exatamente o que nos ensina o Foucault, que ele t\u00e1 dentro de um sistema que vai estabelecer como verdade, mas olhar desse jeito. Ent\u00e3o, eu acho que essa \u00e9 a grande contribui\u00e7\u00e3o que a gente pode ter trazido, de questionar essas abordagens que eram abordagens tidas como certas, corretas, \u00fanicas, indispens\u00e1veis para uma forma de fazer o trabalho de educa\u00e7\u00e3o, por exemplo. Ent\u00e3o eu n\u00e3o sei se sou fundadora de nada, t\u00e1, Mois\u00e9s, mas, assim, acho que nessa discuss\u00e3o o meu trabalho foi interrogado por essas vertentes, e trazer essa interroga\u00e7\u00e3o para o meu trabalho \u00e9 super importante. Uma menina uma vez me disse &#8220;ah eu li um texto seu antes, mas a senhora n\u00e3o dizia essas coisas&#8221;, eu disse &#8220;ainda bem que n\u00e3o dizia essas coisas, porque se eu continuasse pela vida afora dizendo as mesmas coisas eu queria me matar&#8221; (risos). Eu acho que \u00e9 isso que os Estudos Culturais, sejam eles da Ci\u00eancia sejam eles Estudos Culturais de um modo geral, fazem de importante, esta ideia de que \u00e9 preciso botar em quest\u00e3o aquilo que t\u00e1 fazendo, aquilo que voc\u00ea t\u00e1 dizendo, as cren\u00e7as que se tem, e nunca pensar que essas s\u00e3o as definitivas e verdadeiras posi\u00e7\u00f5es para as quais a gente tem que assumir para o resto da vida, eu acho que \u00e9 isso que \u00e9 importante.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9btv8\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: Muito bem (risos), eu s\u00f3 tava esperando voc\u00ea me responder exatamente assim, mas de qualquer maneira, Maria L\u00facia, querendo ou n\u00e3o, para n\u00f3s, que somos de outra gera\u00e7\u00e3o, a gente constr\u00f3i um certo ponto de partida a partir do nosso olhar hist\u00f3rico, e toda vez que a gente v\u00ea ponto de partida o nome de voc\u00eas aparece. Aparece e salta aos olhos. E foi muito menos para n\u00f3s aqui os trabalhos na \u00e1rea da linguagem do pessoal da USP, da Ana Carolina com os textos que ela escreveu sobre Estudos Culturais, as &#8220;10 li\u00e7\u00f5es sobre os Estudos Culturais&#8221;, isso influencia menos a gente aqui, e muito mais o que voc\u00eas colocaram a\u00ed no Rio Grande do Sul, as influ\u00eancias dos trabalhos de voc\u00eas. Voc\u00ea teria uma ideia de por que que o Rio Grande do Sul se destacou tanto assim, foi t\u00e3o forte? Quer dizer, o argumento enunciativo do Rio Grande do Sul acaba se tornando muito forte na forma com que os Estudos Culturais da Ci\u00eancia se alastram pelo Brasil, mas talvez nem com tanta for\u00e7a assim, n\u00e9, n\u00e3o se alastra tanto, acaba criando um certo regionalismo dessa discuss\u00e3o, \u00e9 isso? Voc\u00ea entende assim?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-e5r52\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Sim, n\u00e3o sei. \u00c9, talvez. Tem alguns alunos nossos, eu lembro de alguns meus que foram para outros universidades que levaram essas ideias, a Shaula, que vai inicialmente para um uma universidade do nordeste e agora est\u00e1 na Universidade Federal Fluminense, a Marise Basso Amaral, que tamb\u00e9m t\u00e1 na Federal Fluminense, que eu acho que continuam trabalhando com essa no\u00e7\u00e3o de Estudos Culturais da Ci\u00eancia. Eu acho que alguns desses alunos, o Leandro, que tamb\u00e9m foi para Federal de Santa Catarina, que eu acho que continua trabalhando nessa dire\u00e7\u00e3o, com esses estudos, pelo menos tendo uma refer\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a eles. Mas n\u00e3o sei te dizer por qu\u00ea. Na verdade, quando nos organizamos, n\u00f3s \u00e9ramos um grupo muito forte que depois se espalhou, eu diria, n\u00e9, Mois\u00e9s. Esse grupo se espalhou, e, ao mesmo tempo que ele se espalhou, ele enfraqueceu, no sentido de que novos sujeitos n\u00e3o apareceram, entende!? Ent\u00e3o talvez isso, e tamb\u00e9m essa pr\u00f3pria dispers\u00e3o de interesses que n\u00f3s somos levados a ter quando trabalhamos um programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o que tem uma dimens\u00e3o mais ampla, que n\u00e3o \u00e9 fechado dentro de matem\u00e1tica. Eu acho que voc\u00eas s\u00e3o muito mais fechados como linha de pesquisa e n\u00f3s \u00e9ramos mais espalhados, n\u00f3s \u00e9ramos dentro de uma linha de pesquisa uma tend\u00eancia, e a mesma coisa dentro da ULBRA, uma pequena tend\u00eancia dentro de um grande projeto de pesquisa, uma tend\u00eancia. Ent\u00e3o, assim, dentro dessa multiplicidade de possibilidades, claro que sempre tem. Eu acho que tem a Paula, Paula Henning da FURG, que tamb\u00e9m lida com essas quest\u00f5es quando trabalha com Educa\u00e7\u00e3o Ambiental. Talvez a Paula Ribeiro, alguma coisa tamb\u00e9m. Fico pensando &#8220;quem mais?&#8221;. Uma orientanda do Alfredo, a Schwantes (Lavinia), acho que tamb\u00e9m trabalha ainda nessa dire\u00e7\u00e3o de Estudos Culturais de Ci\u00eancia. Ela estudou museus, por exemplo. Ent\u00e3o, assim, tem algumas nuances desses estudos em outros estudos, gente que trabalha com museu, gente que trabalha com Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, entende? \u00c9 porque as tend\u00eancias elas v\u00e3o perpassando, ent\u00e3o qual \u00e9 a tend\u00eancia que aparece mais? \u00c9 aquela luta, as lutas de poder\/saber, n\u00e9, Mois\u00e9s? Se a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental aparece mais fortemente, os Estudos Culturais da Ci\u00eancia entram ali como mais um elemento da discuss\u00e3o, mas talvez o que apare\u00e7a mais seja essa coisa da discuss\u00e3o ambiental, entende!? Porque ela t\u00e1 mais fortalecida enquanto campo. Sei l\u00e1, eu t\u00f4 pensando a\u00ed junto contigo, n\u00e3o tem mais explica\u00e7\u00e3o definitiva para isso, mas eu acho que as tend\u00eancias v\u00e3o se agregando, porque nesse artigo que a gente escreveu \u2013 o Lu\u00eds Henrique, a Daniela e eu \u2013 agora publicado na Educa\u00e7\u00e3o &amp; Realidade, em 2019, uma coisa que a gente vai dizer \u00e9 o seguinte: os Estudos Culturais brasileiros n\u00e3o figuram nas revistas internacionais, n\u00e3o figuram, n\u00e3o tem. Eu examinei todas as revistas. Aquela revista do Grossberg, que \u00e9 a Cultural Studies, em uma edi\u00e7\u00e3o tem Estudos Culturais Latino-americanos, em uma edi\u00e7\u00e3o tem! Quem t\u00e1 l\u00e1 \u00e9 o pessoal da Col\u00f4mbia. A \u00fanica men\u00e7\u00e3o que se faz a Estudos Culturais no Brasil \u00e9 um pedido de desculpas dos organizadores do dossi\u00ea dizendo que eles n\u00e3o sabem nada sobre os Estudos Culturais no Brasil, ent\u00e3o n\u00e3o tem nenhuma se\u00e7\u00e3o. T\u00eam Estudos Culturais chineses, t\u00eam Estudos Culturais australianos, Estudos Culturais irlandeses, n\u00e3o tem nenhuma se\u00e7\u00e3o de Estudos Culturais brasileiros, por qu\u00ea? N\u00e3o sei, talvez porque a gente n\u00e3o mande para essas revistas, n\u00e9. European Cultural Studies tamb\u00e9m n\u00e3o tem produ\u00e7\u00e3o de Estudos Culturais brasileiros, n\u00e3o tem, nem da Helo\u00edsa Buarque de Hollanda, que \u00e9 um nome grande, n\u00e3o tem, n\u00e3o t\u00eam artigos dela, n\u00e3o t\u00eam! Ent\u00e3o &#8220;por que que n\u00e3o tem?\u201d \u00c9 uma pergunta. Por qu\u00ea? Por que n\u00f3s n\u00e3o mandamos artigos para essas revistas? Por que n\u00f3s n\u00e3o divulgamos bem o que fazemos? Talvez porque estamos divulgando pouco, porque est\u00e1 muito restrita aos pr\u00f3prios grupos, ent\u00e3o a\u00ed a revista de voc\u00eas \u00e9 bem-vinda, mas \u00e9 bem-vinda tamb\u00e9m num chamamento &#8220;vamos pra fora&#8221; tamb\u00e9m, t\u00e1 certo?! Ent\u00e3o, por que aqui n\u00e3o h\u00e1 essa difus\u00e3o e essa expans\u00e3o, n\u00e9, Mois\u00e9s? N\u00e3o sei se somos n\u00f3s que n\u00e3o estamos sabendo divulgar nosso trabalho adequadamente tamb\u00e9m, n\u00e3o sei. Esse desconhecimento, n\u00e3o sei. Inclusive, eu fazia pesquisas como bolsista de produtividade do CNPq, quando botei a dimens\u00e3o de Estudos Culturais da Ci\u00eancia num projeto, o meu projeto n\u00e3o foi aprovado.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-35nuf\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: Os meus tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o, fiz mais de um, n\u00e3o s\u00e3o aprovados. S\u00e3o reprovados porque discordam dos conte\u00fados&#8230; n\u00e3o sei.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5e77a\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Mas eu j\u00e1 era, entende? Eu j\u00e1 era. Eu vinha fazendo numa tradi\u00e7\u00e3o de trabalho, eu tava na terceira renova\u00e7\u00e3o, e a\u00ed quando eu botei os Estudos Culturais, que era meu melhor projeto te diria, era meu melhor projeto de pesquisa, a\u00ed me mandaram reapresentar o trabalho. Quer dizer, t\u00eam algumas quest\u00f5es a\u00ed que s\u00e3o complicadas, eu diria, n\u00e9, Mois\u00e9s? N\u00e3o sei te dizer por qu\u00ea. Na verdade, uma conjun\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es, de fatores, que eu acho que tem a ver com isso, ou o pessoal que, por exemplo, faz Estudos Culturais com teoria liter\u00e1ria vai para teoria liter\u00e1ria e n\u00e3o bota Estudos Culturais fortemente, quem faz Educa\u00e7\u00e3o Ambiental fica sob o jarg\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, entende? Quem faz Educa\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia fica no jarg\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia, e os Estudos Culturais da Ci\u00eancia ficam subsumidos por essas outras grandes \u00e1reas, essa talvez seja uma possibilidade, tamb\u00e9m, ao lado dessas outras coisas que eu tava te falando antes.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-b3qed\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira:<\/strong> <strong>Pois \u00e9. Uma situa\u00e7\u00e3o que emerge a partir da sua fala \u00e9 a quest\u00e3o da l\u00edngua, no sentido de um Brasil monol\u00edngue, um Brasil que fala aqui do nosso jeito a l\u00edngua portuguesa, e mesmo dentro das academias a nossa pot\u00eancia em escrever em outras l\u00ednguas \u00e9 muito baixa, da\u00ed, talvez, uma grande influ\u00eancia que o Tomaz teve em se dar ao trabalho de traduzir todas aquelas obras. Ent\u00e3o, a partir da tradu\u00e7\u00e3o do Tomaz, o Brasil toma conhecimento dos Estudos Culturais de uma forma muito mais ampla. Esse monolinguismo, que \u00e9 na verdade uma forma de fechamento cultural do Brasil, quer dizer, o Brasil se isola na Am\u00e9rica Latina, e a gente v\u00ea isso nos jornais, por exemplo, quando a mo\u00e7a do tempo vai l\u00e1 e apaga toda Am\u00e9rica Latina, pinta o Brasil de uma cor diferente e fala &#8220;Olha aqui, a chuva t\u00e1 chegando aqui pelo sul..&#8221;, ningu\u00e9m fala o que acontece na Am\u00e9rica Latina por conta de uma l\u00edngua, por conta de um distanciamento cultural que o Brasil vai tomando em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria Am\u00e9rica Latina quanto mais de outras regi\u00f5es do mundo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-esd06\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Uma coisa, Mois\u00e9s, o Bruno Latour tem muitos livros traduzidos no Brasil para o portugu\u00eas. O Bruno Latour! O Aronowitz acho que tem um artigo num livro, um livro que \u00e9 uma colet\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d6c1n\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: Knorr-Cetina, por exemplo, o que eu tenho dela \u00e9 em espanhol.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aook7\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Pois \u00e9, n\u00e3o tem tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas, n\u00e3o tem nada. O Rouse tamb\u00e9m n\u00e3o tem nada traduzido para o portugu\u00eas, n\u00e3o tem nada, e ele tem uma montanha de artigos contempor\u00e2neos, entende!? Nenhum traduzido, nenhum. A Daniele e eu chegamos, inclusive, a tentar, fizemos contato com ele no sentido de tentar fazer as tradu\u00e7\u00f5es, mas tu sabes que \u00e9 muito complicado, essa coisa de tradu\u00e7\u00e3o atualmente \u00e9 muito complicada, porque tu tens que ter autoriza\u00e7\u00e3o do autor e, al\u00e9m de tudo, do editor, e normalmente eles te cobram um pre\u00e7o absurdo para te permitir fazer. N\u00e3o \u00e9 o autor que te complica a vida, mas \u00e9 o editor do livro, de onde saiu o artigo, que complica, entende!? E eu acho que o Tomaz tinha, n\u00e3o sei se naquela \u00e9poca, mais condi\u00e7\u00e3o de fazer isso, porque atualmente est\u00e1 ficando imposs\u00edvel fazer, Mois\u00e9s. Acho que mais gente. Cheguei a fazer um movimento l\u00e1 dizendo \u201cn\u00f3s temos que traduzir mais&#8221;, mas efetivamente para botar a tradu\u00e7\u00e3o, disponibilizar a tradu\u00e7\u00e3o, n\u00f3s temos que ter a autoriza\u00e7\u00e3o do editor. Eu e Daniela, n\u00f3s chegamos a esse ponto e a\u00ed n\u00f3s n\u00e3o conseguimos, porque tinha que pagar n\u00e3o sei quantos d\u00f3lares, n\u00e3o sei quantos euros, entende!? Era um absurdo para conseguir fazer, ent\u00e3o tem isso. Claro, o Latour tem um p\u00fablico amplo, ent\u00e3o dele h\u00e1 tradu\u00e7\u00f5es, bastante. Acho que as editoras se interessam em fazer, mas dos outros autores n\u00e3o h\u00e1 nada, n\u00e3o h\u00e1 nada. Acho que esse \u00e9 outro problema, n\u00e9, Mois\u00e9s?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-otea\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: Sim&#8230; penso da mesma forma. Essa quest\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o tanto de fora quanto para dentro do Brasil, se a gente vai estabelecer uma fronteira clara, quanto daqui pra fora, ou seja, nas formas de visibilidade. Recentemente n\u00f3s publicamos um artigo na Cultural Studies of Science. Saiu agora, mas ele \u00e9 de uma disserta\u00e7\u00e3o de mestrado de uma aluna minha que j\u00e1 fez doutorado comigo. N\u00f3s mandamos quando ela terminou o mestrado, ela j\u00e1 fez doutorado, h\u00e1 muitos anos que ela j\u00e1 t\u00e1 na vida profissional, e depois de quase sete anos, o artigo, enfim conseguimos fazer, com milh\u00f5es de corre\u00e7\u00f5es, que ele fosse publicado, ou seja, muitos anos depois, ele sai, agora em 2021. Ent\u00e3o \u00e9 muito demorado, muito burocr\u00e1tico. Esse artigo, h\u00e1 uns 4 anos que ele desapareceu do radar, ningu\u00e9m falava nada, ningu\u00e9m dava not\u00edcia. Tem um monte de situa\u00e7\u00f5es que estabelece uma certa periferia para o Brasil. Agora, a tua fala \u00e9 bem s\u00e9ria, n\u00e9, porque de fato n\u00f3s precisamos reverter essa condi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica do Brasil, inclusive na Am\u00e9rica Latina, dentro dessa \u00e1rea dos Estudos Culturais. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o que eu tinha posto pra voc\u00ea aqui tamb\u00e9m, mas eu estava pensando em termos de ambiguidade, ou seja, a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia da ambiguidade dos Estudos Culturais, que capturam um pouco o p\u00f3s-estruturalismo para dentro das formas discursivas, fazem com que n\u00f3s, de certa forma, n\u00e3o nos incomodemos com a ideia de uma profus\u00e3o disso para dentro de outras \u00e1reas, como voc\u00ea disse bem, quando argumenta de os Estudos Culturais ficarem como uma forma de ferramenta, de inspira\u00e7\u00e3o ferramental para outros assuntos, as discuss\u00f5es ambientais, as discuss\u00f5es liter\u00e1rias, as discuss\u00f5es epistemol\u00f3gicas, os Estudos Culturais seriam uma esp\u00e9cie de ferramenta, timidamente citados nas nossas teses &#8220;Ah isso aqui \u00e9 um trabalho sobre Estudos Culturais\u201d e depois esquece aquilo l\u00e1 e segue a vida. Dito, e para dentro dos departamentos, como \u00e9 o que a gente vive aqui, de \u00e1reas mais exatas, essa periferia \u00e9 ainda mais sentida, mesmo dentro de programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o fortes como \u00e9 o nosso, os Estudos Culturais s\u00e3o tidos como uma periferia, \u00e0s vezes at\u00e9 relativamente perigosa. E da\u00ed eu tava fazendo a pergunta: essa ambiguidade nos enfraquece do ponto de vista desse enfrentamento dentro de uma academia ainda provinciana e positivista, como \u00e9 a nossa aqui no Brasil?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8nljq\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Pois \u00e9, Mois\u00e9s, uma boa pergunta, se essa ambiguidade nos enfraquece. Pois \u00e9, \u00e9 porque na verdade a \u00e1rea tamb\u00e9m pretende se constituir numa coisa muito \u00fanica. Quer dizer, essa ambiguidade vem da pr\u00f3pria natureza, vamos dizer assim, que esses estudos t\u00eam de n\u00e3o querer se localizar, ent\u00e3o n\u00e3o querer se localizar, n\u00e3o querer se transformar numa disciplina acad\u00eamica como os demais. Vem dessa pr\u00f3pria mobilidade que os estudos t\u00eam no sentido de ora se grudar na Antropologia, ora se grudar uma comunica\u00e7\u00e3o, ora se grudar na Educa\u00e7\u00e3o, ora na Teoria Liter\u00e1ria, aquela coisa dos estudos oportunistas, no sentido assim &#8220;eu vou pegar daquele campo que me interessa, eu n\u00e3o quero me transformar num campo espec\u00edfico nunca\u201d. Ent\u00e3o essa ambiguidade eu acho que vem da\u00ed, de n\u00e3o ser um campo definido, com fronteiras bem estabelecidas, com metodologias bem postas. Ent\u00e3o vem da\u00ed, vem desse desejo de se manter assim, que \u00e9 na verdade um ponto que eu acho que \u00e9 um ponto de avan\u00e7o, no sentido de possibilitar articula\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas. Aquele livro de 2009, do Stuart Hall, \u00e9 um livro muito interessante na medida em que ele vai efetivamente mostrar isto: com o que os Estudos Culturais podem conversar? E como \u00e9 que essas conversa\u00e7\u00f5es s\u00e3o oportunas, no sentido de pensar assim: ent\u00e3o se eu converso com Derrida, posso conversar e o que que sai de bom disso? Se eu converso com Deleuze, o que que sai de bom disso? Essa tentativa de pensar quais s\u00e3o as articula\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, conversar com os p\u00f3s-marxistas, por exemplo, com o N\u00e9gri, ent\u00e3o com o Slavoj Zizek. Ent\u00e3o quais s\u00e3o as conversa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis com esses autores? Ent\u00e3o eu acho que \u00e9 isso, talvez isso possa ser visto como ambiguidade, mas talvez isso possa ser visto tamb\u00e9m como uma modalidade de saber que busca se expandir, que busca se abrir, que busca nesse processo articulat\u00f3rio, que \u00e9 o grande processo caracter\u00edstico dos Estudos Culturais, \u00e9 essa busca de articula\u00e7\u00e3o, n\u00e9, expandir a compreens\u00e3o que posso ter das coisas, como \u00e9 que elas funcionam no mundo, ent\u00e3o com quem que eu posso articular e com quem eu estou autorizado a me articular de uma forma produtiva? Quer dizer que essas s\u00e3o as grandes perguntas dos Estudos Culturais hoje. Grossberg t\u00e1 sempre fazendo isso, os Estudos Culturais t\u00eam ainda sentido e eles merecem ter sentido? \u00c9 uma das perguntas que ele faz. Tem sentido na medida em que conseguisse se articular com o pensamento contempor\u00e2neo, a\u00ed eles t\u00eam sentido. Bom, e a\u00ed a ambiguidade vem dessa aus\u00eancia de uma delimita\u00e7\u00e3o de at\u00e9 onde eu posso ir, de qual \u00e9 a minha fronteira, de qual \u00e9 a minha fronteira te\u00f3rica e de qual \u00e9 a minha fronteira metodol\u00f3gica. Ent\u00e3o, claro, para quem trabalha com certezas isso \u00e9 visto como ambiguidade, mas \u00e9 ser visto como habilidade a partir de um ponto de vista que \u00e9 o ponto de vista de quem lida com esse tipo de pensamento, o pensamento que requer a certeza. Todo pensamento que admite que a certeza \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 dentro de determinados contextos, determinadas posi\u00e7\u00f5es que eu ocupo num determinado momento n\u00e3o \u00e9 amb\u00edguo, (risos) n\u00e3o \u00e9 amb\u00edguo. Ent\u00e3o \u00e9 isso, ele pode ser visto como amb\u00edguo, mas eu acho que nesta possibilidade articulat\u00f3ria que t\u00e1 a pot\u00eancia, ainda est\u00e1 a pot\u00eancia do campo. O campo \u00e9 potente porque ele se abre a in\u00fameras articula\u00e7\u00f5es, por isso ele \u00e9 potente. Se ele se fechasse, ele se transformaria numa disciplina profissional tamb\u00e9m, que \u00e9 esta a grande ambi\u00e7\u00e3o que os Estudos Culturais t\u00eam de n\u00e3o se fechar em limites disciplinares. N\u00e3o sei se te respondi (risos).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bjvie\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira:<\/strong> <strong>Bom, Maria L\u00facia, o panorama hoje \u00e9, vamos chamar de amb\u00edguo na falta de um termo melhor, de muitas contradi\u00e7\u00f5es, do mundo das m\u00eddias, por exemplo, quando voc\u00ea pega um sujeito que defende ao mesmo tempo uma condi\u00e7\u00e3o moral e \u00e9tica do ponto de vista da pr\u00f3pria est\u00e9tica da exist\u00eancia e ao mesmo tempo defende Terra plana, ent\u00e3o esse sujeito que defende um genocida, digamos assim, defende um genocida ao mesmo tempo em que defende as igrejas, de formas extremamente fortes, e vai defender a ideia da vida, de autonomia, a ideia de um sujeito centrado, de um sujeito dono de suas articula\u00e7\u00f5es, como \u201ca minha opini\u00e3o\u201d por exemplo, \u201ceu tenho minha opini\u00e3o, eu preciso ser respeitado enquanto indiv\u00edduo\u201d e nega a vacina como uma forma de resist\u00eancia, como uma forma de vida. Ou seja, \u00e9 um espa\u00e7o bem contradit\u00f3rio se a gente usar a defini\u00e7\u00e3o de ambiguidade que voc\u00ea fala, ou seja, \u00e9 s\u00f3 algu\u00e9m muito conservador que vai ver isso como contradit\u00f3rio. Abre-se novamente um grande espa\u00e7o para os Estudos Culturais da Ci\u00eancia se renovar enquanto um espa\u00e7o, nessa pergunta do Grossberg, \u201ca gente ainda faz sentido nesse mundo?\u201d.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2banq\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann: <\/strong>Eu acho que sim, n\u00e9. Eu acho que, assim, a gente t\u00e1 com prato cheio para pensar nessas contradi\u00e7\u00f5es nesse momento, n\u00e3o \u00e9?! Acho que, assim, t\u00eam alguns colegas l\u00e1 do programa da ULBRA, o Zago tava pensando nessas discuss\u00f5es n\u00e3o \u00e9!? Acho que Moys\u00e9s tamb\u00e9m t\u00e1. O Moys\u00e9s, s\u00f3 que ele \u00e9 Moys\u00e9s com Y. Mas ele tamb\u00e9m t\u00e1, efetivamente, entrando. A pr\u00f3pria Carla t\u00e1 entrando nessas discuss\u00f5es, ent\u00e3o eu acho que sim, tem um campo muito produtivo para a gente pensar neste momento, n\u00e3o \u00e9?! Nessas quest\u00f5es da m\u00eddia, por exemplo, de como essas m\u00eddias t\u00e3o permitindo que alguns sujeitos que estavam calados h\u00e1 algum tempo ganhem uma proje\u00e7\u00e3o dentro de um grupo de outros sujeitos que tavam calados e sem encontrar uma voz que nos mobilizasse, que mobilizasse aquelas ideias. Essas ideias podiam estar apagadas, mas elas estavam circulando por a\u00ed, eu acho que, talvez, o nosso grande erro \u00e9 n\u00e3o ter visto isso de uma forma mais clara, de ter achado que havia muito mais consenso em torno de certas formas de pensar do que \u00e9 importante, o que \u00e9 \u00e9tico, o que \u00e9 moral. Achamos que existia consenso muito maior do que na verdade existia. E essas vozes ganharam dimens\u00e3o, ganharam for\u00e7a, ganharam adeptos que a gente n\u00e3o pensou que ganharia, e como \u00e9 que essa mobiliza\u00e7\u00e3o se d\u00e1 e em torno de qu\u00ea que essa mobiliza\u00e7\u00e3o se d\u00e1, n\u00e9? H\u00e1 que pensar sobre isso, acho que pensar sobre isso. Acho que o Eagleton (Terry), faz umas discuss\u00f5es bem interessantes l\u00e1 naquele livro dele, que ele vai fazer uma esp\u00e9cie de um balan\u00e7o, o que que faz avan\u00e7ar, o que que n\u00e3o faz avan\u00e7ar os Estudos Culturais? O que que a teoria cultural t\u00e1 fazendo hoje? O que ela permite? Ela deu voz para quem? E no que que ela exagera? Eu acho que tem uma discuss\u00e3o bem importante a\u00ed que o Eagleton traz, que \u00e9 o &#8220;Depois de teoria&#8221; o livro que eu t\u00f4 falando, acho que o cap\u00edtulo primeiro vale, traz algumas discuss\u00f5es muito interessantes em rela\u00e7\u00e3o a o que os Estudos Culturais trazem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o de g\u00eanero, de ra\u00e7a, de p\u00f3s-colonialismo. Eu acho que ali t\u00eam discuss\u00f5es \u00f3timas que ele traz, sobre como a gente examina essas quest\u00f5es, quest\u00f5es como essa por exemplo, que est\u00e1 se colocando, que tu est\u00e1s colocando. N\u00e3o sei se respondi \u00e0 pergunta, mas temos um prato cheio a\u00ed pela frente para discutir, viu, Mois\u00e9s!? Numa interlocu\u00e7\u00e3o com esses estudos de comunica\u00e7\u00e3o, eu acho, e tamb\u00e9m com essa coisa de saber um pouco da hist\u00f3ria social, a hist\u00f3ria das sociedades, como \u00e9 que se constr\u00f3i essa hist\u00f3ria dessas sociedades. Eu sempre fico pensando l\u00e1 na Arendt, que eu acho que \u00e9 uma autora que volta e meia t\u00e1 ecoando uma frase dela, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas que est\u00e3o acontecendo aqui neste momento. Ent\u00e3o acho que essa necessidade de olhar para esses estudos que pensam nestes contextos sociais fortemente e essas coisas que parecem ser contradit\u00f3rias e que nos chocam. Como \u00e9 que esse pensamento emerge, quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es que t\u00eam se dado para que esse pensamento volte com essa for\u00e7a. Em 2019, eu tive com a Marisa e com a Rosa na Alemanha, n\u00f3s fomos a Dresden, e em Dresden n\u00f3s vimos uma coisa que nos apavorou naquele momento, que era uma passeata neonazista que tava reunindo pessoas da Alemanha inteira. Com a bandeira do nacionalismo, entende!? Que outra coisa que parece fortemente ligada a essas quest\u00f5es, a essa hist\u00f3ria do fortalecimento do pensamento nacional, da unidade, da na\u00e7\u00e3o. Enfim, e a gente ficou apavorada, assim, com a quantidade e com a organiza\u00e7\u00e3o, bem coisa de alem\u00e3o, n\u00e9. A passeata funcionava das 7 \u00e0s 9 horas em ponto (risos). N\u00f3s est\u00e1vamos em um hotel que ficava em frente \u00e0 esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria e come\u00e7ou a descer aquela multid\u00e3o. N\u00f3s sa\u00edmos do hotel e eu disse &#8220;mas o que que t\u00e1 acontecendo?&#8221;, tavam descendo aquelas criaturas cheias de bandeiras, entraram na passeata organizadamente das 7 horas \u00e0s 9 horas, voltaram para seu trem. Mas \u00e9 apavorante tu veres aquele movimento das criaturas, que viveram aquela situa\u00e7\u00e3o. Agora, Dresden saiu de um regime nazista para um regime comunista, ent\u00e3o tu ficas pensando &#8220;o que \u00e9 que isso significou para a vida dessas pessoas l\u00e1?&#8221;. Quer dizer, de novo um cerceamento de liberdades, sei l\u00e1, e que coisa, sim, \u00e9 um prato cheio para examinar essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e9, numa cidade como essa ou Leipzig. Ent\u00e3o, assim, eu fiquei encantada com essa viagem. Essa viagem foi uma viagem maravilhosa, assim no sentido do que a gente viu, andamos pelo interior da Alemanha, a Rosa, a Marisa e eu (risos), mas enfim, discutindo todas essas coisas vendo produ\u00e7\u00f5es culturais maravilhosas, mas, e tamb\u00e9m, se dando conta do que aconteceu nessa na\u00e7\u00e3o, porque a gente visitou algumas cidades que sa\u00edram mesmo desse dom\u00ednio nazista para o comunismo. O que que aconteceu com esses grupos de sujeitos? E \u00e9 l\u00e1 nessas cidades que o neonazismo t\u00e1 aparecendo com enorme for\u00e7a, o que que aconteceu? Ent\u00e3o cabe olhar pra isso, Mois\u00e9s, sem d\u00favida, e acho que os Estudos Culturais t\u00eam toda condi\u00e7\u00e3o de se meter nessa jogada, entende!? Claro, que buscando aportes nessa coisa da hist\u00f3ria das sociedades, da sociologia. Sem d\u00favida, s\u00e3o as articula\u00e7\u00f5es que se fazem necess\u00e1rias. N\u00e3o sei se te enrolei ou se te respondi (risos).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-17jaj\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: Bem, como n\u00f3s estamos falando de m\u00eddia e eu gostaria de, inclusive, avan\u00e7ar um pouquinho nessa discuss\u00e3o. Talvez a gente retome ela num segundo momento. Voc\u00ea cita o Josep Rose como um sujeito que vai influenciar, que vai marcar o termo &#8220;Estudos Culturais das Ci\u00eancias&#8221;, mas ao longo do que eu te conhe\u00e7o, ao longo do movimento que voc\u00ea vem fazendo, das pesquisas, dos seus interesses de pesquisa que v\u00e3o se deslocando para a m\u00eddia, eu enxergo mais o Mart\u00edn-Barbero, s\u00f3 para citar alguns marcadores. Aconteceu isso, n\u00e9? Quer dizer, o Josep Rose pode ser uma esp\u00e9cie de totem fundador, mas \u00e9 o Mart\u00edn-Barbero que manda na tua forma de olhar o mundo, \u00e9 isso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cuq17\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann: <\/strong>Pois \u00e9, at\u00e9 n\u00e3o sei se \u00e9 bem isso, \u00e9, n\u00e3o sei. Eu at\u00e9 n\u00e3o pensaria que seria Mart\u00edn-Barbero, acho que ele tem algumas discuss\u00f5es super importantes, mas eu n\u00e3o sei se \u00e9 ele mesmo. Eu acho que at\u00e9 o Canclini me orienta mais do que o pr\u00f3prio Mart\u00edn-Barbero, entende? Eu fiz, claro, aquela leitura intensa do &#8220;M\u00eddias e media\u00e7\u00f5es&#8221;, que \u00e9 aquele livro importante do Barbero, e de outros mais, o \u201cOf\u00edcio de cart\u00f3grafo\u201d, s\u00e3o alguns que eu lidei. Mas eu acho que o Canclini, at\u00e9 ele tem mais import\u00e2ncia assim, especialmente quando ele p\u00f5e ali em \u201cCulturas h\u00edbridas\u201d essa no\u00e7\u00e3o de hibrida\u00e7\u00e3o, que eu acho que essa \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o que para mim foi super importante em termos de compreens\u00e3o de como \u00e9 que os conceitos funcionam, n\u00e3o \u00e9!? E como \u00e9 que as intera\u00e7\u00f5es sociais funcionam, quer dizer, ent\u00e3o, at\u00e9 o Canclini tem mais for\u00e7a, vamos dizer assim, influenciando nos estudos que eu fa\u00e7o do que o pr\u00f3prio Barbero. Eu acho que eu sinto mais o Canclini, especialmente a partir dessa ideia que ele traz da hibrida\u00e7\u00e3o, quando ele fala desses encontros interculturais. Eu acho que a\u00ed tem uma potente vertente pra gente considerar, para esses processos de hibrida\u00e7\u00e3o com os quais n\u00f3s nos defrontamos a todo instante, a todo momento. Ent\u00e3o acho que existe mais Canclini, N\u00e9stor Canclini, do que Mart\u00edn-Barbero, certo!? (risos) Daquilo que eu fa\u00e7o, especialmente nos \u00faltimos tempos, come\u00e7a com essa incorpora\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de hibrida\u00e7\u00e3o, que eu acho que \u00e9 um conceito super importante, que t\u00e1 ali um pouco pensado j\u00e1, a origem, talvez, \u201cDa di\u00e1spora\u201d do Stuart Hall, que ele vai trazendo essa no\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, mas eu acho que sim, talvez dos latino-americanos, o N\u00e9stor Canclini.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2f4q1\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: \u00c9 o que vai te dar uma dire\u00e7\u00e3o. Interessante.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8nlj8\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Sim, \u00e9 especialmente para pensar essa coisa dos encontros interculturais. A Rosa e eu, a gente at\u00e9 fez uma disciplina sobre isso, acho que foi muito boa, assim, nesse sentido de nos levar a pensar o quanto \u00e9 importante pensar nessas hibrida\u00e7\u00f5es que decorrem dos encontros interculturais, que n\u00f3s estamos a todo momento vivenciando.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-53fqv\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: Mart\u00edn-Barbero, que \u00e9 um desses autores que influenciam aqui na Am\u00e9rica Latina, d\u00e1 essa dimens\u00e3o da quest\u00e3o das media\u00e7\u00f5es. Ele retoma a ideia de media\u00e7\u00f5es e alerta para n\u00f3s do grande perigo de n\u00f3s ficarmos restritos \u00e0 ideia dos meios e esquecermos como essas media\u00e7\u00f5es, ou seja, \u00e9 um territ\u00f3rio bem mais dif\u00edcil de trabalhar, que s\u00e3o as media\u00e7\u00f5es, que numa certa licen\u00e7a po\u00e9tica nos daria tamb\u00e9m a no\u00e7\u00e3o de h\u00edbrido, mas Mart\u00edn-Barbero tem um interesse, um foco de pesquisa ligado \u00e0s m\u00eddias, que vai na dire\u00e7\u00e3o das m\u00eddias como uma for\u00e7a muito grande. E o Canclini, com o conceito de h\u00edbrido, vai deslocando a gente, tamb\u00e9m, para as no\u00e7\u00f5es de rede do Latour, assim, a no\u00e7\u00e3o de h\u00edbrido em Latour \u00e9 tamb\u00e9m muito forte. Eu tive muita influ\u00eancia desse salto, eu encontrei dentro do conceito de hibrida\u00e7\u00e3o em Michel Serres, e em Latour da no\u00e7\u00e3o de rede, para discutir essa quest\u00e3o do h\u00edbrido, que me aproximou um pouquinho mais da perspectiva cient\u00edfica por conta das influ\u00eancias do pr\u00f3prio objeto de pesquisa do Latour. Se a gente pensasse de ponto de vista da an\u00e1lise do Mart\u00edn-Barbero, que \u00e9 uma an\u00e1lise mais cultural e mais ligada \u00e0s m\u00eddias, corremos o risco de nos afastarmos da an\u00e1lise da atua\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Ci\u00eancia, das discuss\u00f5es epistemol\u00f3gicas, das preocupa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o t\u00edpicas dos nossos colegas que fazem as ci\u00eancias, vamos chamar de ci\u00eancias duras. Nos afastamos por conta dos objetos? Ou seja, n\u00e3o somos capazes de fazer uma boa interlocu\u00e7\u00e3o sem sermos muito influenciados pelos objetos dos autores que a gente trabalha?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bg2vc\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann: <\/strong>Pois \u00e9, uma boa pergunta, deixa eu pensar (risos).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-a6hiu\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> N\u00e3o, eu acho, assim Mois\u00e9s, que \u00e9 esse <em>concentrar-se nos processos<\/em>, quando o Barbero fala dessa coisa das media\u00e7\u00f5es, eu acho que tamb\u00e9m uma coisa \u00e9 coincidente com o Canclini, no sentido de &#8220;bom, o que nos interessa n\u00e3o \u00e9 o h\u00edbrido. O que nos interessa \u00e9 o processo de hibrida\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3njhc\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Como \u00e9 que isso se d\u00e1? Quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es que se p\u00f5e para que essa media\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a, n\u00e9? Que eu acho que \u00e9 um pouco isso, quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es que se d\u00e1 para que essa organiza\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a. Eu acho que se a gente vai olhar a import\u00e2ncia de olhar para os processos. N\u00e3o sei se t\u00f4 te respondendo, mas eu acho que se a gente olhar para os processos, os autores, eles, as teoriza\u00e7\u00f5es servem para que a gente olhe para os processos, ent\u00e3o seu olhar para as m\u00eddias e como \u00e9 que as m\u00eddias lidam com essas quest\u00f5es da Ci\u00eancia, por exemplo, como \u00e9 que isso se processa. A gente acabou mesmo uma disserta\u00e7\u00e3o agora, de um aluno meu, ele vem dos direitos e ele trabalhou com aquele crime ambiental l\u00e1 do Brumadinho e como \u00e9 que em determinado per\u00edodo a Folha de S\u00e3o Paulo falou deste crime ambiental, como \u00e9 que ela falou e pra quem ela deu voz. Ent\u00e3o ele pegou diferentes se\u00e7\u00f5es do jornal. Desde a se\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o at\u00e9 as outras se\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o se\u00e7\u00f5es que outros sujeitos podem falar. Fez primeiro uma abordagem de reportagem, e depois transitou pelas se\u00e7\u00f5es de opini\u00e3o, enfim, em outros setores do jornal. Bom, concentrou em um determinado per\u00edodo, e a\u00ed o que que se diz sobre esse crime ambiental? O que que se diz sobre ele? Quem \u00e9 que fala sobre ele? Entram a\u00ed os discursos, se for usar a no\u00e7\u00e3o de discurso, entram os discursos mais variados, desde um discurso jur\u00eddico at\u00e9 um discurso que \u00e9 da economia fortemente que s\u00f3 vai valorizar as quest\u00f5es que dizem respeito aos preju\u00edzos ambientais, aos preju\u00edzos que isso causou, por exemplo, \u00e0 pr\u00f3pria mineradora. Ent\u00e3o, se a gente olhar para os processos, olhar para essa situa\u00e7\u00e3o a partir de uma multiplicidade de discursos, acho que a gente n\u00e3o corre esse risco, porque a gente vai procurar olhar como \u00e9 que se pensa, o que seja, qual \u00e9 a import\u00e2ncia que se d\u00e1 para o ambiente, para ambiental, para \u00e9tica ambiental, qual a import\u00e2ncia que se d\u00e1 para os sujeitos, para os popula\u00e7\u00f5es numa situa\u00e7\u00e3o como essa, e a gente vai ver o rompimento de discursos, o Estado falando aeticamente sobre essas responsabilidades ou escapando dessas responsabilidades com os sujeitos. Bom, eu acho que \u00e9 isso que interessa, entende!? Olhar para essas situa\u00e7\u00f5es, pra quem t\u00e1 falando, o que que se est\u00e1 dizendo sobre elas, a\u00ed tem uma quest\u00e3o, que \u00e9 uma quest\u00e3o que \u00e9 da Ci\u00eancia, que \u00e9 assim: bom, quais eram os riscos que havia naquela situa\u00e7\u00e3o? Os riscos eram sabidos? Os riscos n\u00e3o eram sabidos? Eram sabidos, sim, os riscos eram sabidos, tinham sido calculados e estavam sendo ignorados, quer dizer, ent\u00e3o a Ci\u00eancia entra por a\u00ed. Mas a\u00ed tem at\u00e9 um professor de Universidade, l\u00e1 da USP, que vai falar l\u00e1 pelas tantas &#8220;ah, de como \u00e9 que um engenheiro, qual \u00e9 a responsabilidade do engenheiro numa situa\u00e7\u00e3o como essa&#8221;, tirando assim, puxando a coisa assim para \u00e9tica profissional para escapar da quest\u00e3o da responsabilidade que o sujeito possa ter. Ent\u00e3o puxando quest\u00f5es que s\u00e3o de natureza epistemol\u00f3gica da pr\u00f3pria engenharia, do que significa ser engenheiro, para tentar atenuar a culpa daqueles que de alguma forma minimizaram os riscos, entende!? Ent\u00e3o eu acho que se t\u00e1 trabalhando com quest\u00f5es que dizem respeito \u00e0 Ci\u00eancia, como \u00e9 que est\u00e1 usando essa quest\u00e3o da Ci\u00eancia nesse caso espec\u00edfico para justificar uma minimiza\u00e7\u00e3o de riscos, por exemplo? Como \u00e9 que se est\u00e1 usando isso? Qual \u00e9 a invoca\u00e7\u00e3o que est\u00e1 fazendo? Como \u00e9 que ela entra a\u00ed? Acho que a Dani escreveu muitas vezes sobre isso, sobre essa coisa, se a Ci\u00eancia, ela \u00e9 salvadora ou ela \u00e9 vil\u00e3, porque ela aparece nessas publica\u00e7\u00f5es com essa representa\u00e7\u00e3o, muitas vezes. Ent\u00e3o um feito cient\u00edfico vai sendo enaltecido, e a\u00ed a gente pode mostrar o que que t\u00e1 fazendo com que haja esse enaltecimento e como \u00e9 que as quest\u00f5es a\u00ed que preocupam os cientistas, de um modo geral, como \u00e9 que a Ci\u00eancia est\u00e1 sendo denegrida? N\u00e3o \u00e9? Nessas publica\u00e7\u00f5es. Enfim, eu acho que \u00e9 sumamente importante continuar olhando para essas publica\u00e7\u00f5es e como \u00e9 que a Ci\u00eancia transita por l\u00e1, entende? No sentido de mostrar esse tr\u00e2nsito, que dire\u00e7\u00f5es se d\u00e1 e que uso se faz da Ci\u00eancia nessas inst\u00e2ncias. Acho que esse \u00e9 um papel pol\u00edtico dos Estudos Culturais, de ir l\u00e1 meter o olho na not\u00edcia e olhar e explorar essa not\u00edcia sob um ponto de vista que um leitor comum n\u00e3o vai conseguir fazer, entende? Achar essa intertextualidade nesses materiais, e mostrar, apontar para ela, apontar para os tipos de argumentos que t\u00e3o circulando ali, circundando a Ci\u00eancia. Eu acho que sim, uma quest\u00e3o como essa estaria tamb\u00e9m, essa quest\u00e3o do risco e dos c\u00e1lculos que foram feitos, o que foi considerado, o que n\u00e3o foi considerado, quem \u00e9 que desconsiderou, qual \u00e9 o papel do engenheiro nesse c\u00e1lculo, como ele fica com a voz abafada, ele n\u00e3o grita. Quer dizer, qual \u00e9? Qual \u00e9 o papel?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-b42om\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: Muito interessante. Que bom te ouvir em rela\u00e7\u00e3o a isso, Maria L\u00facia, eu acho que vai ser uma inspira\u00e7\u00e3o para quem vai te ler nessa entrevista em termos de como os Estudos Culturais n\u00e3o podem perder de forma alguma o olhar pol\u00edtico, o olhar interessado, o olhar das rela\u00e7\u00f5es de poder que nos marcam, conforme foi dito l\u00e1 naquela introdu\u00e7\u00e3o mesmo do &#8220;Alien\u00edgenas&#8221;.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6p02h\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann: <\/strong>Grossberg. \u00c9 o Grossberg e a Paula Treichler.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6grul\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: Isso&#8230; Que mostra, uma das grandes pegadas dos Estudos Culturais \u00e9 se manter sens\u00edvel \u00e0s coisas cotidianas, \u00e0s problem\u00e1ticas. A resist\u00eancia dos Estudos Culturais da Ci\u00eancia \u00e9 se manter sens\u00edvel ao cotidiano. Bom, e como \u00e9 que s\u00e3o tuas preocupa\u00e7\u00f5es daqui para frente, sabe? Como \u00e9 que voc\u00ea pensa e como foram essas tuas preocupa\u00e7\u00f5es ao longo da sua carreira? E o que que voc\u00ea pensa que s\u00e3o os Estudos Culturais daqui para frente? Onde \u00e9 que a gente precisa se articular enquanto um campo de lutas, um campo que tenha de fato import\u00e2ncia dentro da percep\u00e7\u00e3o cultural mais ampla?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3kess\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Eu acho que tem que continuar olhando para essas quest\u00f5es, entende!? Quest\u00f5es que s\u00e3o pol\u00eamicas como este estudo, por exemplo, que a gente fez sobre o caso de Brumadinho, que a gente pensa um crime ambiental, muito mais at\u00e9 do que um crime ambiental, ele \u00e9 um crime contra a vida. Mas, enfim, eu acho que uma quest\u00e3o como essa, por exemplo, merece ser olhada. Acho que essas discuss\u00f5es que a gente viu, que perpassam as m\u00eddias contempor\u00e2neas, esse reaparecimento dessas posi\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias, acho que tudo isso merece ser olhado. Acho que n\u00f3s temos que caminhar nessa dire\u00e7\u00e3o e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es da escola, de como \u00e9 que a Ci\u00eancia tamb\u00e9m vem sendo pensada neste momento t\u00e3o complicado que ela assume um papel, talvez nos \u00faltimos tempos n\u00e3o tenha assumido um papel t\u00e3o preponderante quanto nesse momento. Quer dizer, t\u00e1 dependendo das a\u00e7\u00f5es da Ci\u00eancia, do trabalho, dos cientistas, a tentativa de conter essa pandemia, de conter esta trag\u00e9dia nacional, t\u00e1 na m\u00e3o. Ainda bem que tem um Butant\u00e3, ainda bem que tem a Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz no Brasil, n\u00e3o \u00e9!? Ainda bem que tem INAMPS no Brasil, e INSS, ainda bem que existe essa rede p\u00fablica de atendimento, porque \u00e9 disso que a gente t\u00e1 dependendo nesse momento. A gente t\u00e1 dependendo, \u00e9 desse grupo de m\u00e9dicos abnegados, que n\u00e3o s\u00e3o negacionistas, que t\u00e3o tentando efetivamente manter esses sujeitos vivos a partir desta trag\u00e9dia nacional que a gente t\u00e1 vivendo nesse momento. Chegamos a esse ponto por um desconhecimento, por uma falta de iniciativa do governo, por uma nega\u00e7\u00e3o do governo, de pensar de uma forma s\u00e9ria e importante isso que estava acontecendo no come\u00e7o dessa pandemia. Enfim, eu acho que temos que nos ocupar dessas coisas, temos que nos ocupar disso, \u00e9 disso que faz parte a nossa vida. Acho que \u00e9 isso, assim, o que eu puder fazer com que os meus estudantes ainda continuem olhando para essas quest\u00f5es, essa \u00e9 minha tarefa ainda nesse momento, de tentar mostrar como essas quest\u00f5es merecem ser olhadas e como elas s\u00e3o dif\u00edceis de serem olhadas, e como eu tenho que puxar teoriza\u00e7\u00f5es potentes para poder lidar com elas. Que n\u00e3o \u00e9 um caminho f\u00e1cil, n\u00e3o \u00e9 um caminho f\u00e1cil, \u00e9 um caminho dif\u00edcil, porque eu preciso transitar em muitos campos para poder explicar situa\u00e7\u00f5es complexas como essas que a gente tem vivido nesses \u00faltimos tempos, n\u00e9, Mois\u00e9s. Mas eu acho que n\u00e3o d\u00e1 para botar bandeira branca (risos). N\u00e3o d\u00e1 para hastear a bandeira branca. Acho que \u00e9 isso, tem que continuar na luta enquanto a gente tiver for\u00e7a, vamos pra l\u00e1, \u00e9 isso a\u00ed (risos).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9jpjp\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira<\/strong>: <strong>\u00d3timo. Maria L\u00facia, deixamos de fazer para voc\u00ea alguma quest\u00e3o que voc\u00ea julga interessante?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-eoa9g\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann: <\/strong>Acho que t\u00e1 tudo okay, Mois\u00e9s. Foi um prazer conversar com voc\u00eas, estou dispon\u00edvel para esclarecimentos outros que sejam necess\u00e1rios daqui para frente. Ent\u00e3o \u00e9 isso a\u00ed, foi um prazer estar com voc\u00eas hoje.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9tovt\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: O prazer \u00e9 todo nosso.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9neq3\"><strong>Maria L\u00facia Castagna Wortmann:<\/strong> Bom trabalho. Parab\u00e9ns pelas iniciativas, parab\u00e9ns pela resist\u00eancia, parab\u00e9ns por continuar interessado nessas quest\u00f5es t\u00e3o importantes que temos a\u00ed, para discutir sobre a Ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-57l2e\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira:<\/strong> <strong>N\u00f3s \u00e9 que agradecemos. A resist\u00eancia vem de um hist\u00f3rico, ela tem hist\u00f3ria e ela passa por voc\u00eas com certeza, e n\u00f3s \u00e9 que agradecemos as motiva\u00e7\u00f5es, a inspira\u00e7\u00e3o pela resist\u00eancia. Maria L\u00facia, o que \u00e9 que eu posso dizer de uma conversa como essa, n\u00e9? Fant\u00e1stico te ouvir de novo, ver e pensar junto com voc\u00ea. Assim, o tr\u00e2nsito que voc\u00ea tem por tantas \u00e1reas, uma vis\u00e3o t\u00e3o ampla, o espectro do qual voc\u00ea olha \u00e9 muito amplo. Agradecer de novo por voc\u00ea ter se dado ao trabalho de entrar para esse campo que me encantou desde que eu comecei, me fez migrar da UNISINOS para a Federal, assim, pelos bastidores, eles n\u00e3o podiam saber disso, ent\u00e3o fazia tudo isso escondido, porque me encantei com essa discuss\u00e3o desde o in\u00edcio. Obrigada e parab\u00e9ns.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Profa. Dr. Maria L\u00facia Castagna Wortmann tem uma longa rela\u00e7\u00e3o com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 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