{"id":89,"date":"2022-08-01T14:54:29","date_gmt":"2022-08-01T17:54:29","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/?p=89"},"modified":"2022-08-01T14:54:30","modified_gmt":"2022-08-01T17:54:30","slug":"entrevista-com-fabiana-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/confissoes-os-enredos-da-tradicao\/2022\/08\/01\/entrevista-com-fabiana-gomes\/","title":{"rendered":"Entrevista com Fabiana Gomes"},"content":{"rendered":"\n<p id=\"viewer-36cfp\"><strong>Alexandre (GECCE) \u2013 Fabiana, me sinto honrado em poder contar com a sua presen\u00e7a, com sua hist\u00f3ria, com sua narrativa (e com sua amizade). Por te conhecer e saber de sua trajet\u00f3ria formativa, saber de sua forma\u00e7\u00e3o hibrida e da caminhada pelos v\u00e1rios campos da Qu\u00edmica e dos seus ensinos, gostaria que nos contasse um pouco sobre como foi sua entrada, encontro e caminhar no campo dos Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2m28p\"><strong>Fabiana Gomes:<\/strong> Minha entrada foi fulminante! Era tudo ou nada!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2a9tn\">Mas antes de iniciar nossa conversa sobre meu encontro com os Estudos Culturais, quero agradecer a oportunidade de estar contigo em mais esse momento de vida. Algo que me aquece a alma e me enriquece como pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9n3jr\">Participei em 2015, juntamente com mais dois colegas do <em>campus<\/em> Urua\u00e7u (do IFG), do processo seletivo para doutorado chamado DINTER, doutorado interinstitucional firmado entre a minha Institui\u00e7\u00e3o de trabalho e a Universidade Estadual de Londrina. Nessa parceria, a UEL entrou com a forma\u00e7\u00e3o e a orienta\u00e7\u00e3o dos professores e o IFG, com estudantes dispostos a aprender e a capacitar-se melhor para a atua\u00e7\u00e3o docente.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ef608\">Ap\u00f3s as etapas avaliativas, fomos para a escolha dos professores orientadores. \u00c9 a\u00ed que minha vida muda. Como participei muitos anos do PIBID, pude coletar muitas hist\u00f3rias e muitos resultados de pesquisas que desenvolvi com meus bolsistas e isso foi apresentado como proposta de projeto para o doutorado. No entanto, penso que o projeto n\u00e3o foi agrad\u00e1vel ou interessante a ponto de ser escolhido, pois logo de in\u00edcio foi descartado como possibilidade. Pois bem, o projeto n\u00e3o agradou, mas o fato de eu ser a \u00fanica com forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de Qu\u00edmica, diante das forma\u00e7\u00f5es dos meus colegas do DINTER, foi o principal crit\u00e9rio pelo qual fui escolhida pelo professor Mois\u00e9s. Essa foi minha percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-e7lrf\">Na primeira conversa com o Mois\u00e9s sobre a \u00e1rea dos Estudos Culturais, eu s\u00f3 conseguia pensar: \u201candei dormindo esses anos todos, s\u00f3 pode! nunca ouvi falar dessa \u00e1rea?!\u201d E isso, de certa forma, me deixou ainda mais motivada, iniciar do zero essa nova fase da minha vida era como (re)aprender a escrever.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-88rql\">E cada vez que lia mais sobre as tem\u00e1ticas que atravessam os Estudos Culturais, menos eu sabia. E aparentemente o caminho era esse mesmo, segundo conselhos e acalentos dos colegas e amigos do GECCE. Nos encontros presenciais com o grupo, me situava sempre como espectadora, como aprendiz. Em poucos momentos, me senti segura para discutir ou apresentar minhas considera\u00e7\u00f5es sobre os temas ali em circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f4c0q\">O primeiro ano de doutorado foi de aprendizagem, mas tamb\u00e9m foi de tortura. N\u00e3o tinha ideia do que pesquisar, apesar de simpatizar com as pedagogias culturais e os estudos das m\u00eddias. Eu sabia a dire\u00e7\u00e3o, mas ainda n\u00e3o vislumbrava o caminho.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-de0n6\">Foi quando, em uma conversa com meus estudantes do IF, eles me apontaram o Manual do Mundo como lugar de ensino de Qu\u00edmica. Ao comentar com a Cristiane, minha veterana no GECCE, minha d\u00favida se torna uma certeza. Fui estudar como a Qu\u00edmica \u00e9 usada pelo canal de entretenimento Manual do Mundo para agenciar seus seguidores. O Mois\u00e9s se empolgou e me deu seu aval. Dali em diante foi uma imers\u00e3o di\u00e1ria nos estudos de laborat\u00f3rio e de Bruno Latour, um autor que nunca ouvira falar e que agora faz parte da minha fam\u00edlia e da minha hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bqjhr\"><strong>Alexandre (GECCE) \u2013 Fabiana, vejo que suas reflex\u00f5es acerca dos Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es (ECCE) ancoraram-se em encontros e desencontros no Grupo de Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es (GECCE) na Universidade Estadual de Londrina. Como voc\u00ea v\u00ea os efeitos da participa\u00e7\u00e3o no GECCE, enquanto grupo institucionalizado e disciplinar, na sua trajet\u00f3ria nos ECCEs?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5n03i\"><strong>Fabiana Gomes: <\/strong>O GECCE para mim tornou-se ponto de passagem. As trocas e aprendizagens circulantes neste espa\u00e7o me fizeram doutora, com certeza. Cada ator desse grupo me agenciou de alguma forma. Seja pelas falas durante os encontros para discuss\u00e3o, seja tomando caf\u00e9 e se mostrando interessado no andamento da minha pesquisa, seja sugerindo referenciais&#8230; mas, sobretudo, fortalecendo la\u00e7os de amizade e cumplicidade. As rela\u00e7\u00f5es que fiz no grupo est\u00e3o pulsando at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3r1j\"><strong>Alexandre (GECCE) \u2013 Fabiana, como voc\u00ea percebe, a partir de sua hist\u00f3ria de vida, que o campo dos Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es pode contribuir com os espa\u00e7os educacionais (formais e n\u00e3o formais)?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f8qiv\"><strong>Fabiana Gomes: <\/strong>Para mim, o que mais impactou quando retornei \u00e0 sala de aula, foi a rela\u00e7\u00e3o com a Qu\u00edmica. Deixei de pensar numa Qu\u00edmica com Q mai\u00fasculo e ci\u00eancia constru\u00edda a partir de verdades absolutas. E era assim que eu reproduzia aos meus alunos, nas minhas disciplinas escolares. Ao estudar um pouco de Latour e seus estudos de laborat\u00f3rio, a constru\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia passou a ser concebida por mim como uma atividade permeada de interesses pol\u00edticos, culturais e sociais, e isso refletiu no espa\u00e7o da sala de aula. Estamos colocando mais os fatos em discuss\u00e3o, ao inv\u00e9s de tom\u00e1-los como caixas-pretas. Ao pesquisar como a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento ocorre por meio de uma m\u00eddia, o olhar mais atento aos espa\u00e7os n\u00e3o formais de ensino me fez perceber que a escola n\u00e3o \u00e9 santu\u00e1rio do saber, mas um dos espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o do sujeito, legitimado sim, mas n\u00e3o o \u00fanico. Essa percep\u00e7\u00e3o me leva a criar situa\u00e7\u00f5es de ensino que busquem aliar os saberes produzidos nos ambientes formais com os n\u00e3o formais de maneira sim\u00e9trica.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ahsjs\"><strong>Alexandre (GECCE) \u2013 Fabiana, vejo que seus ensaios e experimenta\u00e7\u00f5es a levaram ao desenvolvimento da Tese: \u201cMaldita qu\u00edmica! mal consigo prever seus movimentos&#8221;: as associa\u00e7\u00f5es que movimentam a qu\u00edmica no canal do YouTube Manual do Mundo\u201d. Do que se trata este trabalho e como ele nos ajuda a pensar os ensinos a partir dos Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es? Poderia nos falar um pouco sobre ele e suas contribui\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c84nr\"><strong>Fabiana Gomes: <\/strong>A qu\u00edmica que circula no (e pelo) Manual do Mundo \u00e9 uma qu\u00edmica experimental. Isso visto, porque o protagonista do canal, por n\u00e3o ter forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica em qu\u00edmica, v\u00ea como fator de credibilidade falar dessa ci\u00eancia em um local legitimado para isso, o laborat\u00f3rio. Ao vermos uma pessoa caracterizada com jaleco branco debru\u00e7ada sobre uma bancada de laborat\u00f3rio manipulando suas vidrarias, de forma alguma iremos desconfiar de seu discurso cient\u00edfico. Esse cen\u00e1rio \u00e9 uma forma de arregimentar, de convencer jovens e crian\u00e7as a acreditar que o que se fala no canal \u00e9 a mais pura verdade. Al\u00e9m deste, os experimentos demonstrados numa pr\u00e1tica do \u201cdo it yourself\u201d estimula um sentimento de produtor da ci\u00eancia, posi\u00e7\u00e3o que estava ao alcance somente daqueles que se diziam cientistas. Contudo, essa qu\u00edmica manipulada em casa, no ambiente da cozinha, onde todos e todas possam fazer, \u00e9 uma qu\u00edmica f\u00e1cil, descomplicada, mas que tem que ser tamb\u00e9m deslumbrante, chamar a aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 a\u00ed que entra outra estrat\u00e9gia, o chamar a aten\u00e7\u00e3o. N\u00f3s tentamos chamar ela de pedagogia do contraste porque vimos que as cores, as explos\u00f5es, a espetaculariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, arregimenta muitos seguidores. Mas o que fazer quando se esgotam as possibilidades? De in\u00edcio ele se re(inventa) criando formas diferentes de mostrar o mesmo fen\u00f4meno e por fim, a abandona e inicia uma outra rede. Foi o que aconteceu com os experimentos de qu\u00edmica no canal. O protagonista viu as possibilidades de experimentos se esgotarem, pois os que viriam n\u00e3o seriam permitidos ou vi\u00e1veis de serem reproduzidos, o que fez ele abandonar a qu\u00edmica e se deslocar a outros projetos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5qc00\">Ao fazer uma leitura entre o Manual e o ensino, vemos muitos pontos em comum. Um deles \u00e9 o uso que os professores fazem do laborat\u00f3rio escolar quando levam seus estudantes a realizarem aulas experimentais. \u00c9 para arregimentar a aten\u00e7\u00e3o para o conte\u00fado, para o professor, para a disciplina. A outra est\u00e1 na escolha do que ensinar no laborat\u00f3rio, pensando em primeiro lugar em algo que surpreenda, que seja legal, que seja impactante. Veja bem, n\u00e3o estou aqui defendendo uma qu\u00edmica ou outra, ou dizendo que essa forma de lidar com as aulas experimentais seja errada, pois n\u00e3o fazemos esse tipo de julgamento nos Estudos Culturais. O que tento dizer \u00e9 que essa \u201cqu\u00edmica show\u201d produz efeitos e que estes efeitos precisam ser constantemente (re)avaliados pelos professores.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6qg05\"><strong>Alexandre (GECCE) \u2013 Vejo que sua base de estudos e inspira\u00e7\u00f5es se voltaram ao pensar com o antrop\u00f3logo, fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo Bruno Latour. Quais contribui\u00e7\u00f5es desse intelectual voc\u00ea considerou e considera potentes para pensarmos os Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7e23k\"><strong>Fabiana Gomes: <\/strong>De pronto me vem \u00e0 mente a Teoria Ator-Rede. Pensar as rela\u00e7\u00f5es envolvidas na constru\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia como uma rede de atores humanos e n\u00e3o humanos interligados me acende um brilho no olhar. Tento me aventurar um pouco nestes conceitos. Latour nos estimula a seguir as associa\u00e7\u00f5es que se constituem ao nosso redor e que s\u00e3o capazes de se estender mundo afora, formando uma rede sem fim. Pensar que os elementos humanos e n\u00e3o humanos est\u00e3o em uma liga\u00e7\u00e3o sim\u00e9trica de for\u00e7as ao constitu\u00edrem a rede \u00e9 potente para os Estudos Culturais.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-i99u\"><strong>Alexandre (GECCE) \u2013 Evidenciamos que seus escritos e reflex\u00f5es t\u00eam pensado os laborat\u00f3rios e suas din\u00e2micas e derivas no campo dos ensinos de ci\u00eancias, principalmente os estudos sobre os laborat\u00f3rios virtuais. Vejo que h\u00e1, inclusive, projetos de pesquisas que tem coordenado sobre o tema, como \u201c<em>A virtualidade da educa\u00e7\u00e3o qu\u00edmica em Bruno Latour<\/em>\u201d e \u201c<em>Etnografia de um laborat\u00f3rio virtual de ensino de qu\u00edmica<\/em>\u201d. O que tem estudado nestes projetos e que an\u00e1lises tem trazido para pensar as Educa\u00e7\u00f5es em Ci\u00eancias a partir dos Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7du2m\"><strong>Fabiana Gomes: <\/strong>No projeto da virtualidade da educa\u00e7\u00e3o qu\u00edmica em Bruno Latour, tentamos mapear o movimento de transla\u00e7\u00e3o que a qu\u00edmica, nos espa\u00e7os midi\u00e1ticos, faz dentro de um sistema de convencimento (endere\u00e7amento) usado para atrair os jovens que participam de um sistema educacional sem atrativos. Esse projeto foi planejado para tr\u00eas anos e j\u00e1 estudamos a qu\u00edmica em determinados canais de videoaulas, o que foi produtivo para um trabalho de conclus\u00e3o de curso; as controv\u00e9rsias geradas por quest\u00f5es sociocient\u00edficas em canais de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do YouTube, o que foi foco de um Trabalho de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica; e agora a leitura das representa\u00e7\u00f5es da mulher no canal Manual do Mundo, apresentado no X CINABEH.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9kosd\">No projeto da etnografia de um laborat\u00f3rio virtual, pretendemos acompanhar a constru\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia nos est\u00e1gios iniciais de forma\u00e7\u00e3o do laborat\u00f3rio virtual que implementamos no nosso <em>campus<\/em>. O principal objetivo do projeto \u00e9 investigar os modos de tradu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que constituem a rede sociot\u00e9cnica durante a constru\u00e7\u00e3o de um laborat\u00f3rio virtual de qu\u00edmica e os experimentos ali desenvolvidos. Dentro dessa rede, ainda pretendemos compreender como o sistema cultural que se estabelece neste per\u00edodo hist\u00f3rico que vivenciamos produz modos de ensinar atrav\u00e9s dos espa\u00e7os dos laborat\u00f3rios virtuais, ou seja, como \u00e9 poss\u00edvel pensar em um laborat\u00f3rio de ci\u00eancias para al\u00e9m do laborat\u00f3rio f\u00edsico. Esse projeto foi vinculado ao projeto de ensino de implementa\u00e7\u00e3o do Lavenq e que fora fomentado pelo pr\u00f3prio IFG.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-lr09\"><strong>Alexandre (GECCE) \u2013 Fabiana, seus trabalhos t\u00eam nos mostrado que os laborat\u00f3rios virtuais t\u00eam trazido \u00e0 tona aspectos relevantes para pensarmos as m\u00faltiplas pedagogias das qu\u00edmicas. Em seu trabalho <em>Estrat\u00e9gias de arregimenta\u00e7\u00e3o de interesses produzidas em um laborat\u00f3rio (virtual) de qu\u00edmica<\/em>, publicado na <em>Revista Valore<\/em>, voc\u00ea nos fala de uma <em>Pedagogia do Contraste<\/em>. O que seria essa pedagogia e como as culturas nos falam sobre elas? O que elas nos dizem para pensarmos os Ensinos de Ci\u00eancias e das Qu\u00edmicas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4rqh3\"><strong>Fabiana Gomes: <\/strong>A pedagogia do contraste \u00e9 uma forma de pedagogizar, atrav\u00e9s do contraste, que alguns fen\u00f4menos qu\u00edmicos s\u00e3o capazes de produzir, como por exemplo, mudan\u00e7a de cor, forma\u00e7\u00e3o de precipitado, rea\u00e7\u00f5es fluorescentes, explos\u00f5es, enfim, todas aquelas que nos prendem a aten\u00e7\u00e3o ao fen\u00f4meno. N\u00f3s a intitulamos assim porque vemos como uma pedagogia que ofusca outras formas de ver a qu\u00edmica, uma vez que o contraste ir\u00e1 diferenciar e destacar uma coisa de outra. A ela est\u00e1 associada uma outra pedagogia, a pedagogia do olhar. O contraste nos fixa o olhar naquilo que sobressai, e de forma r\u00e1pida. \u00c9 uma forma, mas n\u00e3o a \u00fanica. H\u00e1 uma qu\u00edmica que n\u00e3o muda de cor, que n\u00e3o explode, que n\u00e3o forma precipitado e que, mesmo assim, tamb\u00e9m pode ser usada como estrat\u00e9gia de arregimenta\u00e7\u00e3o, mas sem o elemento contrastante.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9oepd\">A quest\u00e3o da rapidez \u00e9 uma quest\u00e3o s\u00e9ria para as gera\u00e7\u00f5es do mundo contempor\u00e2neo. N\u00e3o h\u00e1 tempo a perder, o que vale \u00e9 o imediatismo dos processos. Um v\u00eddeo, um \u00e1udio, uma aula n\u00e3o t\u00eam sentido se forem tomar muito tempo do espectador; ele se dispersa, perde o interesse. O contraste \u00e9 o efeito que direciona o olhar e n\u00e3o causa a sensa\u00e7\u00e3o de tempo perdido.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bfjpg\"><strong>Alexandre (GECCE) \u2013 Ainda sobre estas reflex\u00f5es acerca dos laborat\u00f3rios virtuais, vejo que, em seu escrito <em>A Qu\u00edmica do movimento Do It Yourself! Uma estrat\u00e9gia de arregimenta\u00e7\u00e3o de seguidores<\/em>, publicado na <em>Revista Koan<\/em>, voc\u00ea nos fala de uma <em>Pedagogia dos Do It Yourself<\/em>. O que seria essa pedagogia e como as culturas nos falam sobre elas? O que elas nos dizem para pensarmos os Ensinos de Ci\u00eancias e das Qu\u00edmicas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6je9e\"><strong>Fabiana Gomes: <\/strong>O Manual do Mundo consegue estabelecer alian\u00e7as com os atores que arrastam uma qu\u00edmica com formato de \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d ao se associarem aos utens\u00edlios dom\u00e9sticos e cotidianos deles. Nessa pedagogia, em que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 voltada a uma suposta no\u00e7\u00e3o de autonomia e liberdade, o movimento <em>Do it Yourself<\/em>, como \u00e9 amplamente conhecido na l\u00edngua inglesa, \u00e9 evocado para criar a sensa\u00e7\u00e3o e o est\u00edmulo de que qualquer pessoa, crian\u00e7a ou n\u00e3o, pode realizar suas pr\u00f3prias experi\u00eancias de qu\u00edmica. O deslocamento dos ingredientes de uma cozinha, dos alimentos do dia a dia e a facilidade de manipul\u00e1-los e encontr\u00e1-los agenciam, mais uma vez, a pr\u00e1tica do \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d ao mesmo tempo em que renova certos discursos pedag\u00f3gicos que defendem o uso de materiais reciclados e caseiros nas aulas de ci\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bb4fu\"><strong>Alexandre (GECCE) \u2013 Fabiana, para finalizarmos, poderia nos deixar algumas reflex\u00f5es que voc\u00ea acredita que s\u00e3o relevantes para pensarmos os Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es na contemporaneidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-84a90\"><strong>Fabiana Gomes: <\/strong>Bruno Latour, em <em>Cogitamus<\/em> (2016), diz que os meios de comunica\u00e7\u00e3o digital modificar\u00e3o profundamente a pedagogia, no sentido de que substituir\u00e3o o sistema de tutoriais e a rela\u00e7\u00e3o direta entre docentes e estudantes. Pensamos que as formas de ensinar e de aprender tamb\u00e9m ser\u00e3o influenciadas. Esses \u00faltimos meses nos mostraram que esse processo j\u00e1 teve in\u00edcio. Para um dos criadores do canal Manual do Mundo, as redes sociais ir\u00e3o estimular \u201c[&#8230;] a forma\u00e7\u00e3o de novos cientistas, por despertar curiosidades e interesses diversos nos jovens\u201d, pois ele acredita que o \u201c[&#8230;] YouTube j\u00e1 est\u00e1 reformulando o jeito de ensinar e aprender\u201d. Mas o que a internet pode oferecer, que talvez a escola n\u00e3o ofere\u00e7a? Muitas coisas. \u00c9 no espa\u00e7o f\u00e9rtil da internet que o sujeito se v\u00ea capacitado a \u201cparar, explicar, compartilhar, comentar\u201d, trazendo uma configura\u00e7\u00e3o outra no modo de ensinar e aprender. Para a antrop\u00f3loga Paula Sibilia, em sua obra Show do Eu (2016), o ciberespa\u00e7o dominado pelos jovens \u00e9 considerado espa\u00e7o de resist\u00eancia \u00e0queles que os criaram. Nele os jovens se sentem libertos \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e \u00e0 inova\u00e7\u00e3o, pontos fortes da rede \u2013 visibilidade e conex\u00e3o sem pausa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bq3sl\">N\u00f3s, como atores da educa\u00e7\u00e3o, temos o compromisso de compreender esse espa\u00e7o da internet e como ele est\u00e1 ressignificando as formas de ensinar e aprender. A maneira como os conte\u00fados escolares transitam nos programas de educa\u00e7\u00e3o \u2013 materializados em leis e diretrizes \u2013, nos livros did\u00e1ticos e nos discursos pedag\u00f3gicos mant\u00e9m uma imagem do ensino de qu\u00edmica como sendo de dom\u00ednio exclusivo da escola. Dessa forma, o Manual tenta romper a ideia de que \u00e9 somente na escola que encontraremos pessoas que educam, criando, assim, seu pr\u00f3prio espa\u00e7o de produzir signficados e colocando certos conte\u00fados em movimento, mas de outra maneira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alexandre (GECCE) \u2013 Fabiana, me sinto honrado em poder contar com a sua presen\u00e7a, com sua hist\u00f3ria, com sua narrativa (e com sua amizade). Por te conhecer e saber de sua trajet\u00f3ria formativa, saber de sua forma\u00e7\u00e3o hibrida e da caminhada pelos v\u00e1rios campos da Qu\u00edmica e dos seus ensinos, gostaria que nos contasse um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":92,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[21,20,22],"class_list":["post-89","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-confissoes-os-enredos-da-tradicao","tag-estudos-culturais-das-ciencias","tag-fabiana-gomes","tag-quimica"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":95,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89\/revisions\/95"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}