{"id":52,"date":"2022-07-26T16:37:25","date_gmt":"2022-07-26T19:37:25","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/?p=52"},"modified":"2022-07-26T16:38:52","modified_gmt":"2022-07-26T19:38:52","slug":"thomas-kuhn-um-autor-multi-interessante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/escrutinios\/2022\/07\/26\/thomas-kuhn-um-autor-multi-interessante\/","title":{"rendered":"THOMAS KUHN: UM AUTOR MULTI-INTERESSANTE"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"viewer-3qkee\"><strong>Introduzindo o escrut\u00ednio<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ahbn4\">Thomas Kuhn desenvolveu uma obra multi-interessante. Come\u00e7ar este texto com tal assun\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica em conceder de imediato a este autor um posicionamento acima das cr\u00edticas no debate acad\u00eamico, mas em reconhecer, inevitavelmente, o impacto de suas contribui\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e sociol\u00f3gicas para os \u00e2mbitos de epistemologias das Ci\u00eancias. Pude corroborar essa conjectura nas discuss\u00f5es de seu livro: \u201cA estrutura das revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas\u201d, em nosso encontro semanal do Grupo de Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es (GECCE), no dia 25 de agosto de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2uctg\">Fui o encarregado de registar os movimentos emergentes das discuss\u00f5es naquela manh\u00e3. Aceitei de bom grado a atribui\u00e7\u00e3o, pois se tratava de minha terceira leitura dessa obra, o que me conferiu certa seguran\u00e7a em meio \u00e0s demandas por deslocamento entre a media\u00e7\u00e3o das discuss\u00f5es e as anota\u00e7\u00f5es em curso durante o encontro. Particularmente, senti na releitura de Kuhn (2017) a oportunidade de dar uma nova chance a um autor que j\u00e1 me comoveu de diversas maneiras ao longo de minha trajet\u00f3ria de pesquisas em Ensino de Ci\u00eancias \u2013 da euforia durante o mestrado \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o eventual mais recentemente.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-en24p\">Na esteira dessas quest\u00f5es, descrevi nas linhas seguintes um pouco do que foi discutido em nosso grupo de pesquisa sobre a obra magna de Thomas Kuhn (2017). Ressalto n\u00e3o ter se tratado de um bate-papo de todo harm\u00f4nico, pois os interesses aflorantes foram diversos. Em todo caso, creio que as controv\u00e9rsias eram previs\u00edveis e foram bem-vindas, dada a dimens\u00e3o intelectual e pol\u00edtica de \u201cAs estruturas\u201d nos desdobramentos das discuss\u00f5es acad\u00eamicas sobre as Ci\u00eancias. Espero que o retrato a seguir possa surtir no leitor um efeito semelhante ao que aquela manh\u00e3 de debates significou para mim e para nosso grupo de pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"viewer-csghj\"><strong>Os momentos de discuss\u00e3o: a perspectiva mundana e as tens\u00f5es afloradas<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4rtn8\">Iniciei a sess\u00e3o de debates com uma indaga\u00e7\u00e3o depreendida da perspectiva desenvolvida por Kuhn (2017). Na introdu\u00e7\u00e3o, o autor abordou sobre a imin\u00eancia de uma revolu\u00e7\u00e3o ocorrendo na historiografia das Ci\u00eancias em seu per\u00edodo, emergente das d\u00favidas e dificuldades encontradas pelas perspectivas que encaravam o progresso cient\u00edfico enquanto processo cumulativo e individual. Nas palavras do autor, essa mudan\u00e7a de olhar de epistem\u00f3logos e historiadores das Ci\u00eancias se deu em sentido de que, \u201cEm vez de procurar as contribui\u00e7\u00f5es permanentes de uma ci\u00eancia mais antiga para nossa perspectiva privilegiada, eles procuraram apresentar a integridade hist\u00f3rica daquela ci\u00eancia a partir de sua pr\u00f3pria \u00e9poca\u201d (KUHN, 2017, p. 62).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-datuo\">Essa mudan\u00e7a de perspectiva em rela\u00e7\u00e3o ao progresso das Ci\u00eancias me pareceu um bom ponto de partida de discuss\u00e3o. Tentando desenvolver tal assun\u00e7\u00e3o, propus ao grupo os seguintes questionamentos: afora o ferramental da historiografia das Ci\u00eancias apresentado por Thomas Kuhn, quais outros modos poss\u00edveis de analisar as trajet\u00f3rias das Ci\u00eancias podemos conjecturar? E quais suas diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao ponto de vista historiogr\u00e1fico?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ekict\">Nesse seguimento, professor Mois\u00e9s amplificou minha pr\u00f3pria indaga\u00e7\u00e3o. Alertou para a exist\u00eancia de dois tipos de historiografias particulares: uma que se dedicava a transformar a mem\u00f3ria monumental em documentos; e outra fabricante de documentos a partir de monumentos, num processo de reuni\u00e3o, isolamento, reagrupamento e conjun\u00e7\u00e3o de registros \u2013 nas palavras de Foucault (2008), de: \u201cdescri\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca do monumento\u201d (p. 09).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-s6iv\">Devo dizer que a proposi\u00e7\u00e3o inicial e o incentivo do professor n\u00e3o produziram os desdobramentos ensejados, mas isso pouco importou. Notei sua serventia para o despontamento de resumos e panoramas sobre a obra por parte de outros colegas. Nesse momento, percebi os diversos interesses despontantes em torno da obra de Kuhn (2017), em sua maioria, reconhecedores de sua import\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o aos modos de encarar o progresso das Ci\u00eancias. Se pudesse resumi-los em uma s\u00f3 frase, usaria um coment\u00e1rio habitual do professor Mois\u00e9s: a paradigmatologia de Kuhn (2017) permitiu mostrar que a Ci\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 fora deste mundo. Em outras palavras, se as teorias cient\u00edficas t\u00eam pressupostos l\u00f3gicos e internos que instituem as pr\u00e1ticas concorrentes de cientistas, de outro modo, esse processo s\u00f3 \u00e9 produzido por uma mobiliza\u00e7\u00e3o coletiva. Mais precisamente: \u201cos paradigmas podem ser anteriores, mais cogentes e mais completos que qualquer conjunto de regras para a pesquisa que deles possa ser claramente abstra\u00eddo\u201d (p. 119).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fifni\">Disso emergiu um debate sobre o papel pol\u00edtico do livro de Kuhn. Em suma, centralizamos as discuss\u00f5es na conjuntura de que sua epistemologia, apesar de significar uma ruptura em rela\u00e7\u00e3o ao logicismo popperiano, foi muito bem recebida entre cientistas e pesquisadores. Nas palavras de Isabelle Stengers, cientistas: \u201cgostam bastante dos \u2018paradigmas\u2019 de Kuhn. At\u00e9 reconhecem neles uma descri\u00e7\u00e3o afinal pertinente de sua atividade. A no\u00e7\u00e3o de \u2018revolu\u00e7\u00e3o paradigm\u00e1tica\u2019, em consequ\u00eancia da qual um paradigma substitui outro, lhes serve para contar a hist\u00f3ria de sua disciplina\u201d (STENGERS, 2002, p. 13).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ftfli\">A partir deste momento, as impress\u00f5es otimistas em rela\u00e7\u00e3o a Thomas Kuhn deram lugar a considera\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, no sentido mais produtivo desse voc\u00e1bulo. Surgiram coment\u00e1rios sobre a epistemologia kuhniana ainda expressar uma perspectiva positiva (em senso filos\u00f3fico) em termos do progresso das Ci\u00eancias, em face do internalismo de seus exemplos hist\u00f3ricos e argumenta\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m se comentou sobre a concep\u00e7\u00e3o de \u2018revolu\u00e7\u00e3o\u2019 em Kuhn ser muito mais abrupta em rela\u00e7\u00e3o ao conceito de \u2018muta\u00e7\u00e3o\u2019 proposto por Ludwik Fleck (2015), que fora nossa \u00faltima leitura. Em \u00faltima an\u00e1lise, as discuss\u00f5es foram deslocadas para um espa\u00e7o de disputas, tornando as pr\u00f3prias argumenta\u00e7\u00f5es no que se refere \u00e0 obra uma controv\u00e9rsia aberta.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c8hfr\">Essa mudan\u00e7a ficou expressa pela transfer\u00eancia dos debates para o modo de ler a obra de Kuhn (2017). Esqueci de mencionar, mas come\u00e7amos a leitura pelo posf\u00e1cio, se\u00e7\u00e3o em que o autor tentou remediar certas confus\u00f5es te\u00f3ricas, principalmente em torno da polissemia do conceito de paradigma. Sobre essa escolha, uma colega alegou seu descontentamento, mencionando ter se sentido lendo uma trama de suspense iniciando pelo final, como se buscasse descobrir de uma vez quem era o assassino. Ap\u00f3s algumas exposi\u00e7\u00f5es, eclodiu um embate sobre a pol\u00edtica interna do grupo, em termos das rela\u00e7\u00f5es de poder operando nas escolhas das leituras e seus procedimentos, uma vez que a sugest\u00e3o de iniciar pelo posf\u00e1cio fora proferida por um de nossos colegas fil\u00f3sofos participantes.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aooq1\">Desse aspecto, as disputas sobre a teoria de Thomas Kuhn (2017) se enredaram \u00e0s formas de analis\u00e1-lo coletivamente pelo grupo de estudos. Isso me permitiu entender que a leitura de uma obra n\u00e3o ocorre em si, pois est\u00e1 fadada \u00e0 diversidade dos olhares presentes nos espa\u00e7os de aprecia\u00e7\u00e3o. Falando em termos da perspectiva foucaultiana de discurso, estudar um discurso n\u00e3o se trata de fundar uma cumplicidade primeira com o mundo, pois:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-6gbfu\"><p><em>\u201cSe o discurso existe, o que pode ser, ent\u00e3o, em sua legitimidade, sen\u00e3o uma discreta leitura? As coisas murmuram, de antem\u00e3o, um sentido que nossa linguagem precisa apenas fazer manifestar-se; e esta linguagem, desde seu projeto mais rudimentar, nos falaria j\u00e1 de um ser do qual seria como a nervura\u201d (FOUCAULT, 1996, p. 48)<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-98uut\">N\u00e3o me parece ter sido essa a resultante de nosso encontro, pois n\u00e3o estamos acostumados com leituras discretas. Os discursos produzidos nas reuni\u00f5es do GECCE n\u00e3o operam como teorias, que buscam verdades camufladas na natureza das obras (fatos), sob o risco de transformar pondera\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas em fic\u00e7\u00f5es corrompidas (artefatos). De outro modo, as verdades em jogo em nossos encontros funcionam enquanto h\u00e1bitos, sendo a via da coletividade sua \u00fanica possibilidade.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"viewer-75q24\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es (sem) finais<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-av0os\">N\u00e3o pretendo esgotar o leitor em demasia com impress\u00f5es particulares sobre um encontro semanal do GECCE. Penso que esses exemplos foram suficientes para expressar a multiplicidade de interesses emergente em torno da obra de Kuhn (2017), tornando os pr\u00f3prios meios de mobiliza\u00e7\u00e3o de sua leitura um produto de controv\u00e9rsias abertas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5fjp4\">Para um grupo de Estudos Culturais das Ci\u00eancias, essa multiplicidade de posicionamentos refletiu a influ\u00eancia irremedi\u00e1vel de \u201cA estrutura das revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas\u201d para os debates epistemol\u00f3gico e culturais das Ci\u00eancias. Desse aspecto, ao substituirmos as ess\u00eancias pelos h\u00e1bitos, as causalidades estritas pelas conting\u00eancias, nos afastamentos das armadilhas da racionaliza\u00e7\u00e3o, sendo poss\u00edvel depreender, sem maiores pesares: Thomas Kuhn \u00e9 um autor multi-interessante. Que isso n\u00e3o seja subjugado por dedu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"viewer-4nmrh\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p id=\"viewer-emhje\">FLECK, L. A g\u00eanese e o desenvolvimento de um fato cient\u00edfico. S\u00e3o Paulo: Fabrebactum, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-db46p\">FOUCAULT, M. A ordem do discurso, 3. ed. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 1996.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-akrk\">KUHN, Thomas S. <strong>A estrutura das revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1997.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-98cfu\">STENGERS, I. <strong>A inven\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2002.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introduzindo o escrut\u00ednio Thomas Kuhn desenvolveu uma obra multi-interessante. 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