{"id":317,"date":"2022-09-26T12:59:18","date_gmt":"2022-09-26T15:59:18","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/?p=317"},"modified":"2022-09-26T12:59:20","modified_gmt":"2022-09-26T15:59:20","slug":"entre-sonhos-e-o-contrato-natural-um-dialogo-entre-as-obras-de-akira-kurosawa-e-michel-serres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/ve-esse-voce-vai-gostar\/2022\/09\/26\/entre-sonhos-e-o-contrato-natural-um-dialogo-entre-as-obras-de-akira-kurosawa-e-michel-serres\/","title":{"rendered":"Entre Sonhos e O contrato natural: Um di\u00e1logo entre as obras de Akira Kurosawa e Michel Serres"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Houve quem afirmasse que o cinema surge de uma s\u00edntese entre dimens\u00f5es opostas: o repouso e o movimento. Por um lado, seria herdeiro da escultura e da pintura; por outro, do teatro e do bal\u00e9. A s\u00e9tima arte, principalmente as grandes produ\u00e7\u00f5es americanas, tamb\u00e9m foi acusada de estar a meio caminho entre o puro deleite est\u00e9tico e a descarada explora\u00e7\u00e3o comercial. Jogo de luz e sombra, ilus\u00e3o que seduz raz\u00e3o e sensibilidade, o cinema parece ter o hibridismo como marca de sua express\u00e3o art\u00edstica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, o filme <em>Sonhos<\/em><sup>1<\/sup> (Akira Kurosawa, 1990) parece assumir este car\u00e1ter de deriva\u00e7\u00e3o e espa\u00e7o entre polos opostos. Esta obra, que traz em seu bojo elementos da milenar tradi\u00e7\u00e3o cultural japonesa mesclada a prementes quest\u00f5es que angustiavam a sociedade capitalista e tecnol\u00f3gica no final do s\u00e9culo XX, apresenta um leque de possibilidades interpretativas \u2013 a come\u00e7ar pelo t\u00edtulo (Sonhos\/Dreams\/Yume), que sugere leituras psicanal\u00edticas.\u00a0<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"580\" height=\"394\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Imagem-1-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-318\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Imagem-1-3.jpg 580w, https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Imagem-1-3-300x204.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><figcaption><strong>Fonte:<\/strong> Warner Bros. Pictures (1990).<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Neste espa\u00e7o, optou-se por uma tentativa de aproxim\u00e1-la das discuss\u00f5es propostas por Michel Serres em seu texto \u201cO contrato natural\u201d<sup>2<\/sup>. De in\u00edcio, pode-se tomar a pr\u00f3pria estrutura da obra: como sugere seu t\u00edtulo, o filme n\u00e3o se apresenta como um todo linear, preso \u00e0 estrutura narrativa, com in\u00edcio meio e fim. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 formado por oito hist\u00f3rias, que, como sonhos que assolam um sono agitado, n\u00e3o t\u00eam um plano de continuidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Embora \u201cO contrato natural\u201d tenha sido forjado de forma bem mais coesa, muitas vezes tangencia o aforisma, desapegado de ideais cartesianos de clareza e objetividade. Em v\u00e1rios momentos, Kurosawa se vale de elementos retirados de antigas lendas japonesas para falar de afli\u00e7\u00f5es que assombram o mundo moderno. Nas duas primeiras par\u00e1bolas (?), o ser humano \u00e9 apresentado como crian\u00e7as que, movidas pela curiosidade (cient\u00edfica?) ou interesses pessoais (de ordem econ\u00f4mica?), de alguma forma afrontaram a ordem c\u00f3smica. O equil\u00edbrio s\u00f3 ser\u00e1 restabelecido a um certo custo. Esse mito fundador \u00e9 muito presente na obra de Serres. Ali\u00e1s, uma das ideias mais potentes d\u2019<em>O contrato natural<\/em> \u00e9 a de que o ser humano teria de abandonar a rela\u00e7\u00e3o de posse que tem com planeta, passando a imagin\u00e1-lo como uma totalidade \u00e0 qual pertence.\u00a0<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"566\" height=\"338\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Imagem-2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-319\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Imagem-2-1.jpg 566w, https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Imagem-2-1-300x179.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 566px) 100vw, 566px\" \/><figcaption><strong>Fonte:<\/strong> Warner Bros. Pictures (1990).<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Em ambas as obras, vindas a p\u00fablico no mesmo ano, a preocupa\u00e7\u00e3o com a Natureza \u00e9 onipresente. No conto \u201cA nevasca\u201d, v\u00ea-se um claro exemplo de como o mundo pode ser tomado como hostil, inimigo a ser vencido. Por\u00e9m, vencer o mundo ou se deixar vencer por ele n\u00e3o s\u00e3o op\u00e7\u00f5es v\u00e1lidas. \u201cEstamos no caminho certo?\u201d A quest\u00e3o enunciada por um dos personagens poderia ser o fio de Ariadne a guiar a leitura de Serres. Com base na din\u00e2mica do conto \u201cO t\u00fanel\u201d, existe muito a ser considerado antes de uma poss\u00edvel resposta. Afinal, numa corruptela de certo ad\u00e1gio crist\u00e3o, a historieta nos leva a pensar que o pre\u00e7o da guerra \u00e9 a morte<sup>3<\/sup>: como resultado, tem-se mortos que sonham que ainda est\u00e3o vivos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como Serres poderia refletir que, incapazes de mudar a rota de colis\u00e3o com o desastre natural, vivos sonham que poder\u00e3o escapar \u00e0 morte. O que os pesadelos \u201cMonte Fuji em vermelho\u201d e \u201cO dem\u00f4nio que chora\u201d mostram ser imposs\u00edvel: voragem capitalista e corrida armamentista, para Kurosawa (e pode-se dizer que tamb\u00e9m para Serres), ter\u00e3o como consequ\u00eancia o apocalipse.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;As reflex\u00f5es \u00e9ticas e pol\u00edticas postas pelo filme poderiam ser pensadas como datadas. Mas, \u00e0 luz das reflex\u00f5es filos\u00f3ficas da obra de Serres, bem como dos acontecimentos belicistas do in\u00edcio de 2022, parecem se mostrar bem atuais. Mas nem tudo no filme de Kurosawa \u00e9 distopia ou culpa on\u00edrica. A f\u00e1bula \u201cCorvos\u201d oferece a mais bela fotografia de todo o filme. Ao ser convidado a adentrar o universo de Van Gogh, o espectador \u00e9 levado a pensar a arte como possibilidade de interiorizar elementos que est\u00e3o para al\u00e9m da capacidade racional do humano \u2013 uma outra proposta de rela\u00e7\u00e3o com o mundo. Por\u00e9m, h\u00e1 que se cuidar para que a necessidade de enquadramento e representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha o mesmo af\u00e3 de posse e controle que se v\u00ea, por vezes, na ci\u00eancia e filosofia \u2013 o que lhe roubaria muito de suas possibilidades expressivas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo conto, \u201cO povoado dos moinhos\u201d, permite que se reflita acerca do sentido do aparato t\u00e9cnico cient\u00edfico do mundo moderno. Mais ainda, por meio dele \u00e9 poss\u00edvel o questionamento acerca do seu custo. \u00c9 claro que, quando comparada com as sociedades tradicionais, a modernidade ganha em termos de praticidade e tempo despendido na produ\u00e7\u00e3o do necess\u00e1rio \u00e0 sobreviv\u00eancia humana, mas perde em termos da experi\u00eancia de sua historicidade, tornando pobre o sentido atribu\u00eddo e a forma como simboliza sua exist\u00eancia. Tal comunidade \u201cO povoado dos moinhos\u201d n\u00e3o precisa celebrar \u201cO contrato natural\u201d, porque j\u00e1 o vivencia de forma inscrita, na medida em que tem seus ritmos ditados pelos ciclos naturais e se sente parte do todo planet\u00e1rio.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Outras similitudes poderiam ser tra\u00e7adas entre as duas obras. As historietas t\u00eam seus personagens sempre em deslocamento e deriva\u00e7\u00e3o \u2013 s\u00e3o quase sempre viajantes, f\u00edsica ou simbolicamente. As situa\u00e7\u00f5es postas est\u00e3o sempre na fronteira, na margem de mundos que nem sempre se tocam. Seus personagens s\u00e3o marcados pela mesti\u00e7agem e pelo hibridismo. E at\u00e9 mesmo a forma como Kurosawa finaliza seus devaneios apresenta a ideia de que, por piores que a\u00e7\u00f5es humanas tenham sido at\u00e9 o momento,\u00a0 o devir ainda est\u00e1 em aberto, um vir a ser sempre ainda em constru\u00e7\u00e3o. Elementos que constituem uma marca do pensamento de Michel Serres.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>1 &#8211; O filme nas vers\u00f5es dublada e legendada pode ser encontrado em diversos <em>blogs<\/em> e p\u00e1ginas da internet, assim como na plataforma do Youtube (https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=kP7uzkXEmyw). Acesso em: 07 mar\u00e7o 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>2 &#8211; Obra analisada na se\u00e7\u00e3o Escrut\u00ednios desta revista.<\/p>\n\n\n\n<p>3 &#8211; O catecismo cat\u00f3lico ensina que o pre\u00e7o do pecado \u00e9 a morte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>SERRES, Michel. <strong>O contrato natural<\/strong>. Lisboa: Instituto Piaget, [1990].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o Houve quem afirmasse que o cinema surge de uma s\u00edntese entre dimens\u00f5es opostas: o repouso e o movimento. Por um lado, seria herdeiro da escultura e da pintura; por outro, do teatro e do bal\u00e9. 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