{"id":272,"date":"2022-09-23T15:24:57","date_gmt":"2022-09-23T18:24:57","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/?p=272"},"modified":"2022-09-23T15:34:53","modified_gmt":"2022-09-23T18:34:53","slug":"um-relato-sobre-as-metodologias-empregadas-na-pesquisa-intitulada-a-construcao-de-uma-natureza-em-um-laboratorio-de-pesquisa-universitario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/fala-ai-como-voce-fez\/2022\/09\/23\/um-relato-sobre-as-metodologias-empregadas-na-pesquisa-intitulada-a-construcao-de-uma-natureza-em-um-laboratorio-de-pesquisa-universitario\/","title":{"rendered":"UM RELATO SOBRE AS METODOLOGIAS EMPREGADAS NA PESQUISA INTITULADA \u201cA CONSTRU\u00c7\u00c3O DE UMA NATUREZA EM UM LABORAT\u00d3RIO DE PESQUISA UNIVERSIT\u00c1RIO\u201d"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 com imenso prazer que compartilho com voc\u00eas, companheiros de jornada do GRUPO DE ESTUDOS CULTURAIS DA CI\u00caNCIA E EDUCA\u00c7\u00c3O (GECCE), um breve relato dos desafios metodol\u00f3gicos, enfrentados por mim, durante a idealiza\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento da minha tese, defendida no ano de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando do convite para (d)escrever este relato da \u201cminha\u201d experi\u00eancia, entendi que o objetivo principal \u00e9 o compartilhamento, em termos metodol\u00f3gicos, da maneira como desenvolvi a minha pesquisa, para que, se assim quiserem, se some \u00e0s discuss\u00f5es do grupo, a fim de ampliar as possibilidades de se pesquisar as conting\u00eancias mundanas pela perspectiva dos Estudos Culturais e\/ou da Etnografia e\/ou da Teoria Ator-Rede (TAR).<\/p>\n\n\n\n<p>Saliento que as linhas que est\u00e3o por vir, de forma alguma, dever\u00e3o ser entendidas como uma receita salvacionista para o desenvolvimento dos vossos trabalhos. Qui\u00e7\u00e1, poder\u00e3o servir como um sopro de inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Referenciais metodol\u00f3gicos norteadores da pesquisa<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Com o consentimento dos pesquisadores do Laborat\u00f3rio de Biodiversidade e Restaura\u00e7\u00e3o de Ecossistemas (LABRE\/CCB\/UEL), a pesquisa foi desenvolvida nas depend\u00eancias do referido laborat\u00f3rio e em uma \u00e1rea degradada pr\u00f3xima \u00e0 fazenda escola da UEL. Em ambos os locais, sob a responsabilidade dos pesquisadores do LABRE, entre os anos de 2012 e 2013, foram desenvolvidos t\u00e9cnicas e experimentos que tinham e t\u00eam por objetivo a restaura\u00e7\u00e3o de ambientes degradados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por motivos \u00f3bvios, aqui, n\u00e3o me debru\u00e7arei em fundamentar os meus referenciais metodol\u00f3gicos, pois certamente n\u00e3o \u00e9 o prop\u00f3sito deste texto e tenho certeza de que esse aprofundamento \u00e9 uma das finalidades do GECCE. Devido \u00e0 singularidade do meu trabalho, optei, mesmo que brevemente, por relatar, principalmente, as consequ\u00eancias de tais op\u00e7\u00f5es para mim e para o trabalho, pois julgo que essas pondera\u00e7\u00f5es poder\u00e3o contribuir para o amadurecimento das atuais pesquisas desenvolvidas pelo grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>De antem\u00e3o, anuncio que a pesquisa consistiu em dois aportes metodol\u00f3gicos que se materializaram de maneira contingente. O primeiro diz respeito \u00e0 Etnografia P\u00f3s-Moderna (GEERTZ, 1997), a qual serviu para orientar a idealiza\u00e7\u00e3o de como acompanhar e registrar a din\u00e2mica, na maior parte do tempo err\u00e1tica, dos pesquisadores e dos pr\u00f3prios experimentos no campo e no laborat\u00f3rio. O segundo foi a Teoria Ator-Rede, que, genericamente, atribui-se a Bruno Latour (2012). Essa teoria foi extremamente importante para me ajudar a dar sentido \u00e0 complexa rede de rela\u00e7\u00f5es contingentes estabelecidas pelos pesquisadores e os demais humanos e n\u00e3o humanos que se somaram ao longo do trabalho no campo e no pr\u00f3prio LABRE. Como exemplo, cito o processo pedagogizante como um dos aspectos resultante da performance entre humanos e n\u00e3o humanos, que se vascularizou pela rede de atores, do in\u00edcio ao fim dos experimentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Etnografia p\u00f3s-moderna, teoria ator-rede e algumas implica\u00e7\u00f5es para a tese<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Conforme anunciado, optei por dar \u00eanfase \u00e0s implica\u00e7\u00f5es oriundas das escolhas que fiz para o desenvolvimento da pesquisa. Esse destaque tem por intento alert\u00e1-los de que seja qual for a metodologia utilizada por voc\u00eas nas suas pesquisas, ela certamente exigir\u00e1 aten\u00e7\u00e3o para as suas consequ\u00eancias, sendo, uma delas, a exterioriza\u00e7\u00e3o daquilo que chamamos de realidade, por uma perspectiva dos seus referenciais, ou seja, muito particular. Claramente que esse apontamento tamb\u00e9m se aplica aos referenciais te\u00f3ricos. Tal constata\u00e7\u00e3o implica, sobretudo, para n\u00f3s, sect\u00e1rios dos estudos culturais, a necessidade de direcionarmos as nossas an\u00e1lises para as idiossincrasias do campo, evitando, assim, perigosas ou demasiadas generaliza\u00e7\u00f5es ou regularidades de uma realidade totalit\u00e1ria e, portanto, assim\u00e9trica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da minha tese, a partir de agora, relatarei um pouco essas implica\u00e7\u00f5es. Estando no campo, j\u00e1 com a incumb\u00eancia de iniciar as observa\u00e7\u00f5es e os registros, lembro-me de que, durante as conversas iniciais de orienta\u00e7\u00e3o, a minha principal preocupa\u00e7\u00e3o era estabelecer um problema de pesquisa, o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, pois, sem ele, me via impotente para realizar o trabalho. Creio que, para o entendimento das consequ\u00eancias de ter optado pela utiliza\u00e7\u00e3o da etnografia p\u00f3s-moderna para a pesquisa, valha a pena pontuar que, antes de iniciar as idas ao campo investigado, a primeira proposta de pergunta-chave para o desenvolvimento do trabalho foi: \u201cQuais s\u00e3o as estrat\u00e9gias utilizadas pelos pesquisadores do laborat\u00f3rio, alvo da pesquisa, para a constru\u00e7\u00e3o de uma \u201cnatureza\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s as v\u00e1rias idas ao campo, j\u00e1 de posse dos referenciais metodol\u00f3gicos e te\u00f3ricos, minimamente, fundamentados e, tamb\u00e9m, como um dos desdobramentos das orienta\u00e7\u00f5es, passei a entender a referida pergunta n\u00e3o mais como definitiva, pronta, estabelecida, mas sim como algo inicial, uma especula\u00e7\u00e3o que teve por objetivo me incitar a continuar pensando acerca do estabelecimento de um problema que eu pudesse considerar menos provis\u00f3rio, vol\u00e1til.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nos pressupostos da etnografia p\u00f3s-moderna, para a qual a pergunta deve ser constantemente revisitada, a fim de tentar acompanhar as exig\u00eancias te\u00f3ricas e metodol\u00f3gicas oriundas das conting\u00eancias do campo investigado, e n\u00e3o de algo estabelecido <em>a priori<\/em>, passei a aceitar essa condi\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria da pergunta. Partindo dessa premissa, entendi o processo de constru\u00e7\u00e3o da minha pergunta-chave como um necess\u00e1rio e constante exerc\u00edcio intelectual. Essa intelectualidade deve ser entendida, aqui, n\u00e3o mais oriunda somente das minhas leituras, mas, tamb\u00e9m, atravessada pelas minhas subjetividades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Vejam, optei por um termo que faz refer\u00eancia ao intelecto e que \u00e9 diferente da raz\u00e3o. Tomei esse cuidado, visto que o meu referencial te\u00f3rico, Bruno Latour, nas suas obras, entre outras coisas, questiona a racionalidade e a objetividade, principalmente, da ci\u00eancia. Vejam, \u00e0s vezes, uma palavra mal utilizada pode conduzir o leitor menos atento ou aquele mais cr\u00edtico (como um membro da sua banca) a pensar algo bem diferente daquilo que voc\u00ea pensou ou ambicionou explicar. Apesar de parecer uma afirma\u00e7\u00e3o trivial, o que d\u00e1 sentido ou exist\u00eancia ao mundo \u00e9 a linguagem. Portanto, a forma de fundamentar esse \u201csentido\u201d, deve apresentar uma coer\u00eancia com o corpo metodol\u00f3gico e\/ou te\u00f3rico do trabalho!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com tal afirma\u00e7\u00e3o, estaria Eu, ent\u00e3o, pressupondo uma estrutura, ou seja, uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito? Creio que n\u00e3o, pois enxergo esse necess\u00e1rio zelo sem\u00e2ntico como fruto de conex\u00f5es entre humanos e humanos, que acabam por dar a possibilidade de propor que um artefato seja, quem sabe, al\u00e7ado a uma condi\u00e7\u00e3o epist\u00eamica e\/ou ontol\u00f3gica em um fato. Para tanto, temos que, minimamente, convencer uma banca da plausibilidade das nossas an\u00e1lises e dos nossos resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 etnografia p\u00f3s-moderna, durante as minhas idas e vindas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minha pergunta-chave, entendi essa primeira proposta como uma poss\u00edvel consequ\u00eancia, por exemplo, da minha forma\u00e7\u00e3o de bi\u00f3logo exacerbadamente epistemol\u00f3gica, a qual, inicialmente, me conduziu a estabelecer um problema ainda com base e\/ou preocupa\u00e7\u00f5es essencialistas, pois, ao tentar investigar as estrat\u00e9gias utilizadas pelos pesquisadores do LABRE, me remeti a uma condi\u00e7\u00e3o de pesquisa e de pesquisador que reconhece a natureza investigada n\u00e3o como pr\u00e9-existente, o que naquele momento considerei como um aspecto extremamente importante. No entanto, ao tentar investigar as estrat\u00e9gias dos pesquisadores, percebi que estava em busca de uma suposta racionalidade, intencionalidade, objetividade como pano de fundo dessas a\u00e7\u00f5es, pressupondo-as como previamente estabelecidas. Concomitantemente a essa interpreta\u00e7\u00e3o, me vi, tamb\u00e9m, negando as incongru\u00eancias, os jogos de poder, as incertezas, as subjetividades, os interesses dos pesquisadores e de todos aqueles que acabaram se envolvendo em momentos distintos do trabalho e as conting\u00eancias oriundas da rela\u00e7\u00e3o estabelecida entre mim e o campo pesquisado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como consequ\u00eancia de todo esse processo, inicialmente me reconheci ainda sob a \u00e9gide racionalista e, por consequ\u00eancia das conting\u00eancias do trabalho, paulatinamente me movimentei em termos metodol\u00f3gico e te\u00f3rico para uma condi\u00e7\u00e3o questionadora desta suposta racionalidade. Esse movimento foi bastante doloroso!<\/p>\n\n\n\n<p>Em vista dessa mudan\u00e7a, a pergunta inicial foi, ao longo do trabalho, sendo constantemente (re)significada e acabei, principalmente pela quest\u00e3o cronol\u00f3gica para o desenvolvimento da Tese, por re(definir) o problema da minha pesquisa n\u00e3o mais em apenas uma, mas duas perguntas, as quais foram: \u201cPartindo de um ambiente, ecologicamente definido como degradado, como os pesquisadores do LABRE constroem, durante o processo de restaura\u00e7\u00e3o, uma natureza, considerando as suas compet\u00eancias te\u00f3rico-metodol\u00f3gicas, as suas subjetividades e as conting\u00eancias do campo?\u201d; \u201cEsse processo contingente de constru\u00e7\u00e3o de uma natureza tamb\u00e9m&nbsp; pedagogiza?\u201d A segunda pergunta surgiu pela conting\u00eancia de, naquele momento, fazer parte de um programa de ensino e educa\u00e7\u00e3o. Essas \u00e1reas do conhecimento, por \u00f3bvio, acabam, na maior parte das vezes, por estabelecerem um quadro de refer\u00eancia, <em>a priori<\/em>, para os trabalhos desenvolvidos no programa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Decerto que, para a \u00e1rea dos estudos culturais, em que fazemos uso de autores que nos alertam para os perigos da modernidade e do estruturalismo, come\u00e7ar os vossos trabalhos, assim como tive que come\u00e7ar o meu, por marcadores epist\u00eamicos, deva ser um ponto a ser vigiado pelo grupo, porque acaba por estabelecer uma iner\u00eancia para trabalhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Bem, preciso voltar para o texto! Travestido de pesquisador e municiado de todo esse aporte necess\u00e1rio para realizar uma pesquisa, fui para o campo determinado a procurar e, de prefer\u00eancia, achar o mais breve poss\u00edvel o meu lugar de etn\u00f3grafo da ci\u00eancia. \u201cCiente\u201d das minhas subjetividades como pesquisador, embebido de teoria e de metodologia, me aventurei a observar, registrar, narrar, descrever e analisar o que vi no campo, mas sem desconsiderar a maneira como permiti, interessadamente, a sua influ\u00eancia e, tamb\u00e9m, de influenci\u00e1-lo. Como resultado dessa troca, obtive aquilo que considerei como uma \u201coferenda\u201d, a qual n\u00e3o pode ser entendida ou marcada pela acep\u00e7\u00e3o mais tradicional intitulada de \u201cdados\u201d, os quais, assim pensados, se apresentariam \u00e0 minha consci\u00eancia, forjados por todo um processo racional e pass\u00edvel de generaliza\u00e7\u00f5es, mas pela conting\u00eancia, o que implicou numa forma de analisar o campo de maneira particular, singular e cr\u00edvel (GEERTZ, 1997; COSTA, 2002).<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao momento de elaborar as perguntas da pesquisa, utilizar essa etnografia implicou um desafio enorme, pois ela (a pergunta) passou a assumir uma condi\u00e7\u00e3o de protagonista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s contesta\u00e7\u00f5es das vis\u00f5es can\u00f4nicas. Com isso passei a problematizar, de forma relacional e contingente, o campo, levando em conta as suas singularidades e a heterogeneidade daquilo que almejei investigar. Al\u00e9m disso, fiz quest\u00e3o de pontuar, sempre que necess\u00e1rio, as minhas subjetividades como pesquisador e tal atitude julgo como imperativa para o desenvolvimento do trabalho. Nesse sentido, Macedo (2010) \u00e9 enf\u00e1tico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 necessidade de o pesquisador que venha a fazer uso de referenciais tidos como p\u00f3s-modernos, confrontar-se, ao longo da pesquisa, com as suas motiva\u00e7\u00f5es, perspectivas e finalidades, mas, para tanto, esse pesquisador deve suspender seus preconceitos, tornando-os expl\u00edcitos na sua narrativa, come\u00e7ando talvez durante o processo de elabora\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria pergunta. Sem nenhum exagero, trata-se de um movimento, por parte do pesquisador, em termos epistemol\u00f3gico e ontol\u00f3gico, extremamente desafiador! Creio que, devido \u00e0 inerente rotatividade dos orientandos deste grupo de pesquisa, a quest\u00e3o colocada acima deve ser um dos pilares das discuss\u00f5es do GECCE, levando em conta as caracter\u00edsticas dos referenciais adotados para o desenvolvimento dos vossos trabalhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos de escrita, tentei, ao longo da minha produ\u00e7\u00e3o textual, fugir do padr\u00e3o usual, ou seja, me fiz mais presente no texto, o que acredito que n\u00e3o tenha resultado em uma pesquisa menos veross\u00edmil que as demais. Nessa escrita, tentei marcar uma primazia de narrativas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s vozes de autoridade no texto, pois, ao utilizar essa etnografia, passei a ter clareza de que os enunciados foram proferidos por indiv\u00edduos datados e situados historicamente e, principalmente, n\u00e3o dissociados do seu contexto. As narrativas foram, na medida do poss\u00edvel, constru\u00eddas de uma forma em que os informantes, ao longo do texto, vez ou outra apareceram mais que a mim mesmo. Nesse sentido, retomo a ideia contida na TAR, pois, ao longo do texto, em in\u00fameras passagens, me coloco no texto em primeira pessoa e gostaria de justificar essa op\u00e7\u00e3o. Diferentemente do que pode ser pensado a esse respeito, sinceramente n\u00e3o encaro como uma impostura cient\u00edfica, acad\u00eamica ou uma arrog\u00e2ncia liter\u00e1ria. Apenas quis, com tal atitude, ser coerente com o <em>corpus<\/em> te\u00f3rico e metodol\u00f3gico do trabalho, pois, do ponto de vista da TAR, enquanto o sujeito pode ser marcado por uma unidade, a subjetividade, segundo Latour (2012), \u00e9 sempre parcial, composta por m\u00faltiplas vozes, portanto coletiva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o ponto ao qual quero chegar com esta reflex\u00e3o \u00e9 que, estando imerso nessa rede de atores, ao colocar-me na primeira ou na terceira pessoa, estaria, em ambos os casos, mobilizando aliados, pois a minha presen\u00e7a no texto est\u00e1 totalmente desatrelada e felizmente muito distante de uma pretens\u00e3o de neutralidade, j\u00e1 que se trata de um trabalho interessado e contingente, o que por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 motivo mais do que suficiente para reconhecer de que se trata de alguns dos mecanismos que utilizamos para engendrar o mundo, ao mesmo tempo em que sou engendrado (LARROSA, 1994; 2006). Desta forma, colocando-me na primeira pessoa, acredito que tenha servido tamb\u00e9m para assumir que n\u00e3o segui alguns ritos da escrita acad\u00eamico-cient\u00edfica que procuram, atrav\u00e9s de certos artif\u00edcios, ocultar ou borrar a presen\u00e7a do pesquisador na sua pr\u00f3pria pesquisa, para, com isso, eximir a teoria e a metodologia das perigosas subjetividades humanas, \u201cgarantindo\u201d assim que os fatos surjam e algo seja descoberto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para finalizar esta parte do texto, recorro a Peters (2000) com a finalidade de marcar que a condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna n\u00e3o deve ser encarada como algo fixo, como um r\u00f3tulo que carrega uma hist\u00f3ria linear, mas sim como portadora de significados que com o passar do tempo v\u00eam sendo modificados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Naquilo que diz respeito \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o da TAR como ferramenta metodol\u00f3gica, os desafios e as consequ\u00eancias para o trabalho n\u00e3o ficaram, em absoluto, aqu\u00e9m da etnografia. Poderia discorrer algumas p\u00e1ginas neste sentido, mas, considerando que este texto tem por intuito servir n\u00e3o mais do que um relato, cabe salientar que sua utiliza\u00e7\u00e3o&nbsp; me \u201cobrigou\u201d a relevar ou suspender os meus quadros de refer\u00eancia, ou seja, da mesma forma como n\u00e3o existiu um grupo a partir do qual vislumbrei uma sociedade por onde come\u00e7ar uma an\u00e1lise, tampouco existiu natureza como ponto de partida anal\u00edtico, pois tanto uma coisa quanto a outra, s\u00e3o produtos de um processo lento, interessado e contingente de purifica\u00e7\u00e3o (LATOUR, 1994).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tal posicionamento fez-se necess\u00e1rio, porque meus quadros de refer\u00eancia apresentados e discutidos n\u00e3o estavam ou partiram de algum lugar ou de coisas que estavam \u00e0 espera da minha ast\u00facia como pesquisador para ach\u00e1-los, mas decorreram das associa\u00e7\u00f5es contingentes entre mim, a pesquisa e o LABRE e acabaram por urdir uma rede (LATOUR, 2012). Tal argumenta\u00e7\u00e3o se fez necess\u00e1ria a fim de evitar o entendimento equivocado de que parti, para o desenvolvimento deste trabalho, de algumas iner\u00eancias, o que certamente caracterizaria uma estrutura a partir da qual seria poss\u00edvel inferir rela\u00e7\u00f5es de causa e efeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Para um leitor mais atento deste breve relato, talvez a utiliza\u00e7\u00e3o da etnografia p\u00f3s-moderna e da TAR como referenciais metodol\u00f3gicos acabe por estabelecer uma contradi\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao meu papel de pesquisador durante os v\u00e1rios momentos do trabalho. Digo isso, pois, conforme anunciado nas linhas que fazem refer\u00eancia \u00e0 Etnografia, afirmei que uma das consequ\u00eancias foi exatamente assumir a minha n\u00e3o neutralidade, admitindo o quanto os meus atravessamentos se fizeram presentes na idealiza\u00e7\u00e3o do projeto de pesquisa, nos registros de campo, nas an\u00e1lises e na escrita do texto. Pois bem, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 TAR, segundo Latour (2012), ao utiliz\u00e1-la devemos nos despir dos nossos quadros de refer\u00eancia e deixar o campo falar por via das rela\u00e7\u00f5es contingentes, que porventura venham a se estabelecer em uma rede de atores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Meu objetivo com o apontado nos par\u00e1grafos anteriores \u00e9 de, talvez, suscitar no grupo essa discuss\u00e3o acerca do posicionamento dos pesquisadores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pesquisa.&nbsp; Para tanto, recorro \u00e0s seguintes perguntas de Latour (2004, p. 359): \u201cMas onde j\u00e1 se viu um diplomata que n\u00e3o leve os estigmas do campo que ele representa?\u201d e \u201cQuem n\u00e3o se reveste da capa dos interesses poderosos que ele escolheu para servir, e, portanto, trair?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que, ao final do trabalho, percebi que alguns aspectos te\u00f3ricos e metodol\u00f3gicos poderiam ter sido mais bem desenvolvidos. Por\u00e9m, avalio que esses descuidos tenham ocorrido n\u00e3o por desleixo, pregui\u00e7a ou falta de orienta\u00e7\u00e3o, mas devido \u00e0 falta de experi\u00eancia e maturidade com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria e \u00e0 metodologia. Por outro lado, sei que ambas s\u00f3 podem ser adquiridas durante a caminhada. Soma-se a esse imbr\u00f3glio existencial, a necess\u00e1ria delimita\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica de que dispomos para o desenvolvimento das nossas pesquisas, porque, inevitavelmente, temos que estabelecer uma finitude, para algo que sabidamente \u00e9 infinito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro-me, como se fosse hoje, de que o Prof. Dr. Alfredo da Veiga Neto, que comp\u00f4s tamb\u00e9m a minha banca de defesa, exatamente neste momento disse, n\u00e3o necessariamente nestes mesmos termos: \u201ctudo aquilo que constava no trabalho dizia respeito a uma fra\u00e7\u00e3o da complexidade do que aconteceu no laborat\u00f3rio e nos experimentos e que, portanto, n\u00e3o temos como retratar ou explicar de maneira absoluta o que pesquisamos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>De posse dessa frase, penso no seu significado at\u00e9 hoje, n\u00e3o como uma forma de justificar as fragilidades do meu fazer acad\u00eamico, mas, sim, para al\u00e9m das minhas fragilidades, entender, tamb\u00e9m, que todas as teorias e\/ou metodologias s\u00e3o limitadas nelas mesmas, pois, indubitavelmente s\u00e3o contingentes, interessadas e, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, s\u00e3o deste mundo, o qual, sabidamente \u00e9 plural, o que, portanto, adiciona aos nossos trabalhos alguns ingredientes (in)desej\u00e1veis, tais como: a incerteza; a constru\u00e7\u00e3o; as rela\u00e7\u00f5es de poder; o descontrole; a infinitude; o relativismo; a produ\u00e7\u00e3o cultural; e o controverso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Coment\u00e1rios finais<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Como diria o prof. Dr. Mois\u00e9s Alves de Oliveira, a quem me refiro com todo o respeito que merece, n\u00e3o apenas por ter sido meu orientador, mas pelos ensinamentos oriundos da nossa rela\u00e7\u00e3o estabelecida no per\u00edodo do doutorado, \u201cchega de ladainha\u201d &#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Como n\u00e3o poderia ser, mais uma vez tive que fazer escolhas para a elabora\u00e7\u00e3o deste texto. Por via das minhas inquietudes acad\u00eamicas vivenciadas ao longo do desenvolvimento da Tese, as quais, como podem perceber, se mant\u00eam vivas at\u00e9 hoje, procurei, com o exposto, n\u00e3o colocar a minha Tese em um lugar privilegiado ou estigmatizado pela raz\u00e3o, por via de um olhar anacr\u00f4nico, mas, afirmo, sem d\u00favida alguma, que fez e tem feito muita diferen\u00e7a na minha vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para finalizar, desejo a todos(as) sucesso nos seus trabalhos e, como n\u00e3o poderia ser diferente, espero que este relato possa, de alguma forma, contribuir para o aprimoramento dos trabalhos e, por consequ\u00eancia, do grupo. Fica aqui o meu cordial e fraterno abra\u00e7o!!<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>COSTA, M. V.&nbsp; Pesquisa-a\u00e7\u00e3o, pesquisa-participativa e pol\u00edtica cultural da identidade. <em>In<\/em>: COSTA, M. V.; BUJES, M. I. E. (orgs.), <strong>Caminhos investigativos II<\/strong>: outros modos de pensar e fazer pesquisa em educa\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: DP &amp; A, 2002.<\/p>\n\n\n\n<p>LARROSA, J. Tecnologias do Eu e Educa\u00e7\u00e3o. <em>In<\/em>: SILVA, T. T. (org.) <strong>O sujeito da Educa\u00e7\u00e3o<\/strong>. 5\u00aa ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p>___________. <strong>Pedagogia Profana<\/strong>: dan\u00e7as, piruetas e mascaradas. 4\u00aa ed. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p>LATOUR, B. <strong>Jamais fomos modernos<\/strong>: ensaio de antropologia sim\u00e9trica. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p>___________. <strong>Reagregando o social<\/strong>: uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Teoria do Ator-Rede. Bauru: Edusc, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>MACEDO, R. S. <strong>Etnopesquisa cr\u00edtica<\/strong>: etnopesquisa-forma\u00e7\u00e3o. Bras\u00edlia: Liber livro, 2010.<br>PETERS, M. <strong>P\u00f3s-estruturalismo e filosofia da diferen\u00e7a<\/strong>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2000.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o \u00c9 com imenso prazer que compartilho com voc\u00eas, companheiros de jornada do GRUPO DE ESTUDOS CULTURAIS DA CI\u00caNCIA E EDUCA\u00c7\u00c3O (GECCE), um breve relato dos desafios metodol\u00f3gicos, enfrentados por mim, durante a idealiza\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento da minha tese, defendida no ano de 2015. 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