{"id":260,"date":"2022-09-23T15:15:39","date_gmt":"2022-09-23T18:15:39","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/?p=260"},"modified":"2022-09-23T15:16:23","modified_gmt":"2022-09-23T18:16:23","slug":"entrevista-com-paula-correa-henning%ef%bf%bc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/confissoes-os-enredos-da-tradicao\/2022\/09\/23\/entrevista-com-paula-correa-henning%ef%bf%bc\/","title":{"rendered":"Entrevista com Paula Corr\u00eaa Henning"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Alexandre Luiz Polizel: <\/strong>Bom Paula, para come\u00e7ar eu quero te agradecer. \u00c9 sempre importante termos esses momentos de encontro, n\u00f3s somos pesquisadores e pesquisadoras que pensamos com os estudos das culturas. A nossa revista surge com essa preocupa\u00e7\u00e3o de ouvir e fazermo-nos ouvidos, dialogar e produzir escuta \u00e9, para n\u00f3s, muito importante. A gente no grupo, j\u00e1 te ouvia Paula, seja nos eventos ou seja pelas suas escritas, mas a gente tamb\u00e9m queria ouvi-la aqui, para compreender um pouco mais e conseguir socializar isso com os leitores. Queria agradecer muito em nome do GECCE e do quase-ci\u00eancias por voc\u00ea se encontrar conosco nesse momento, muito obrigado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;Paula Corr\u00eaa Henning: <\/strong>Eu que agrade\u00e7o bastante viu, por esse convite, por poder estar aqui. O Mois\u00e9s \u00e9 um colega que a gente l\u00ea bastante aqui e, al\u00e9m disso, a gente j\u00e1 teve encontro em bancas etc., e t\u00e1 pr\u00f3xima do grupo de voc\u00eas, volta e meia eu o indico para leituras quando me encontro com trabalhos relacionados \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, que flertam com Latour, eu digo \u201ctem que ler o Mois\u00e9s, tem que ir atr\u00e1s do grupo porque \u00e9 um grupo que tem publicado coisas bem interessantes, que colocam a rela\u00e7\u00e3o do Latour com o campo da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que o grupo de voc\u00eas consegue fazer essa aproxima\u00e7\u00e3o bastante interessante, ent\u00e3o para mim \u00e9 uma alegria estar entre pares.<\/p>\n\n\n\n<p>A gente n\u00e3o trabalha com o mesmo autor, mas trabalhamos numa perspectiva que dialoga muito.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s somos t\u00e3o poucos, eu costumo dizer isso, a gente \u00e9 t\u00e3o pouquinho no Brasil, ent\u00e3o a gente tem mais \u00e9 que se unir enquanto colegas que t\u00eam a mesma tem\u00e1tica e uma perspectiva te\u00f3rica relacionada, ent\u00e3o que bom estar com voc\u00eas aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Alexandre Luiz Polizel: <\/strong>Ficamos felizes por ouvir que estamos conseguindo tamb\u00e9m ser escutados a\u00ed e fazer um di\u00e1logo por meio das nossas escritas.<\/p>\n\n\n\n<p>Paula eu vou tentar fazer um processo um pouco foucaultiano e nietzschiano, de tentar convoc\u00e1-la um pouco a pensar algumas quest\u00f5es que tamb\u00e9m nos provocam, talvez a nossa entrevista seja uma socializa\u00e7\u00e3o das ang\u00fastias e, claro, porque as ang\u00fastias s\u00e3o produtivas para n\u00f3s. Para socializar essas ang\u00fastias \u00e9 muito produtivo que a gente saiba como voc\u00ea construiu as suas. Sobre a sua trajet\u00f3ria formativa, percebemos que voc\u00ea teve uma trajet\u00f3ria bem h\u00edbrida e <em>hybris <\/em>j\u00e1 nos diz a\u00ed de um conflito e uma fus\u00e3o de partes que talvez n\u00e3o fundiriam.<\/p>\n\n\n\n<p>Queremos ouvir um pouco, como foi essa trajet\u00f3ria formativa, como foram esses hibridismos, inclusive como foram os seus encontros com os Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Conta a\u00ed, compartilha com a gente um pouco dessa sua hist\u00f3ria e da composi\u00e7\u00e3o das ang\u00fastias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;Paula Corr\u00eaa Henning:<\/strong> T\u00e1 legal Alexandre, eu me formei em Pedagogia, sempre tive muito interesse pelo campo da Educa\u00e7\u00e3o, fiz magist\u00e9rio, depois fui para a Pedagogia e tinha muito desejo pela pesquisa, fui bolsista de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, ali\u00e1s uma das coisas que eu conto como uma das experi\u00eancias mais importantes que eu tive, uma pesquisa que n\u00e3o tinha ader\u00eancia \u00e0s coisas que eu estudo hoje, era sobre rela\u00e7\u00f5es do alcoolismo com crian\u00e7as com d\u00e9ficit de aprendizagem, v\u00ea que saiu completamente distante assim do que eu fa\u00e7o hoje; mas foi ali que eu aprendi a fazer pesquisa e me encantei por esse processo da pesquisa e desde ali &#8211; desde ser bolsista de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica -, eu decidi fazer mestrado, decidi ir para carreira acad\u00eamica e foi no final da gradua\u00e7\u00e3o, mas especialmente no mestrado, que eu me encontrei com as perspectivas te\u00f3ricas p\u00f3s-cr\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sou de Pelotas, Rio Grande do Sul, me formei na Universidade Cat\u00f3lica de Pelotas, fui fazer o mestrado na Universidade Federal de Pelotas e me encontrei com um professor que era foucaultiano, o Prof. Jarbas Vieira (a pouco estava voltando do seu doutorado, trabalhava com forma\u00e7\u00e3o de professores e curr\u00edculo), e ele me disse \u201cinteressa muito a sua tem\u00e1tica, mas com uma quest\u00e3o: precisa ser Foucault!\u201d. Eu disse \u201cme interessa Foucault, eu j\u00e1 fazia leituras de Foucault na gradua\u00e7\u00e3o, mas nunca tinha me aprofundado. Ent\u00e3o vamos pra essa aventura\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu realmente sou uma apaixonada pelos estudos foucaultianos, sem d\u00favida hoje \u00e9 o autor que a mim reverbera fortemente junto com Nietzsche (Nietzsche \u00e9 uma descoberta que n\u00e3o \u00e9 recente porque \u00e9 desde o doutorado, uma descoberta que veio depois de Foucault, de leituras mais adensadas), eu diria ainda que Foucault \u00e9 o dono do meu cora\u00e7\u00e3o (risos), eu sou encantada nas perspectivas de Foucault, eu acho que ele nos ajuda a olhar para a educa\u00e7\u00e3o de modo que ainda \u00e9 distante do que a gente tem no campo da Educa\u00e7\u00e3o. Sou professora das licenciaturas na Universidade Federal do Rio Grande \u2013 FURG e a gente ainda v\u00ea muito pouco das perspectivas p\u00f3s-cr\u00edticas aqui. Falar em Foucault \u00e9 falar em <em>Vigiar e Punir<\/em>, como se ele tivesse escrito um \u00fanico livro, e a gente sabe que n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Bom, no mestrado eu j\u00e1 me encantei com Foucault e depois em seguida que eu terminei esse ciclo eu disse \u201ceu vou seguir para o doutorado\u201d e estava muito na d\u00favida se iria para UFRGS para tentar especialmente com o grupo da Maria L\u00facia Wortmann ou se iria para Unisinos para tentar com professor Attico Chassot. Foi com quem eu tentei a sele\u00e7\u00e3o e aprovei.<\/p>\n\n\n\n<p>O Attico tinha uma discuss\u00e3o sobre filosofia e hist\u00f3ria da Ci\u00eancia com autores que tamb\u00e9m me interessam muito que s\u00e3o Thomas Kuhn e Paul Feyerabend. E foi a\u00ed que eu conheci o Mois\u00e9s, que j\u00e1 era aluno do doutorado l\u00e1. E eu acho que eu coloquei o Attico em uma aventura, fiz muitos estudos de Feyerabend e de Kuhn, e agrade\u00e7o imensamente o professor Chassot pelo adensamento te\u00f3rico que tive junto a esses autores que continuam me interessando muito! Mas, vou brincar assim, ele n\u00e3o teve muita sorte comigo e com o Mois\u00e9s (risos) porque, al\u00e9m do Kuhn e do Feyerabend, o Mois\u00e9s foi para Latour e eu fiquei com Foucault. Tentamos fazer uma composi\u00e7\u00e3o a\u00ed e acho que deu muito certo, porque eles tamb\u00e9m s\u00e3o, podemos dizer, tanto Latour como Foucault, inimigos da Ci\u00eancia (com \u201cC\u201d mai\u00fasculo) como descreve o Kuhn e o Feyerabend.<\/p>\n\n\n\n<p>A minha discuss\u00e3o de tese de doutorado foi entender como eram esses discursos educacionais, como \u00e9 que eles adentravam numa perspectiva do \u201cfazer ci\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Concomitante a isso eu dava aula na Feevale em novo Hamburgo, ali eu tive a oportunidade, j\u00e1 tinha trabalhado com gradua\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o em sala de aula, tinha sido diretora acad\u00eamica das Faculdades Atl\u00e2ntico Sul, em Pelotas e me encontrei com a oportunidade de trabalhar com o curso que \u00e9 o meu curso de forma\u00e7\u00e3o, pedagogia. E foi ali, na Feevale, que eu aprendi a dar aula, que eu aprendi os acirramentos pol\u00edticos tamb\u00e9m do que a gente faz com as perspectivas p\u00f3s-cr\u00edticas em educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos que, eminentemente, o campo educacional \u00e9 um campo de teoriza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, ao trabalhar com esses autores a gente se encanta.<\/p>\n\n\n\n<p>Me lembro de um texto da Rosa Fisher falando sobre isso, da paix\u00e3o de trabalhar com Foucault, de se encantar.<\/p>\n\n\n\n<p>O Nietzsche diz uma coisa que me interessa muito, tem muito a ver com Foucault, ele diz que quando a gente se encontra com uma pessoa, com uma composi\u00e7\u00e3o musical, com uma teoriza\u00e7\u00e3o, a gente tem que se perguntar: essa teoriza\u00e7\u00e3o, essa pessoa, seja quem for, ela \u00e9 capaz de dan\u00e7ar? Penso que \u00e9 essa pergunta que a gente faz para Foucault, acho que a gente aprende a fazer pesquisa com Foucault provocando as marcas modernas, mas n\u00e3o s\u00f3 isso, provocando tamb\u00e9m a nossa consolida\u00e7\u00e3o enquanto pesquisador, enquanto pedagoga, enquanto professora universit\u00e1ria e isso \u00e9 uma coisa que me encanta nos estudos foucaultianos.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 mais de 20 anos estudando esse autor e quando a gente se encontra com ele pensa coisas que a gente ainda n\u00e3o pensou, talvez por isso Foucault me encante tanto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 isso Alexandre, \u00e9 por a\u00ed, e eu fui parar no campo da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental quando fui para Universidade Federal do Rio Grande, que foi em 2008, porque aqui a gente tem um Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, e em seguida os colegas do PPG me convidaram para participar do programa. Eu n\u00e3o trabalhava com Educa\u00e7\u00e3o Ambiental e disse \u201cpor onde \u00e9 que eu vou para fazer essa aproxima\u00e7\u00e3o, para contribuir com as pesquisas do PPG?\u201d Fui fazer as aproxima\u00e7\u00f5es com F\u00e9lix Guattari e tive um bom tempo envolvida com seus estudos. Esse foi o primeiro caminho que trilhei para me aproximar do campo de saber da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, aconteceu o trabalho com Educa\u00e7\u00e3o Ambiental e a perspectiva p\u00f3s-cr\u00edtica. \u00c9 um desafio hoje, \u00e9 um desafio para mim, \u00e9 um desafio, eu acho, para a comunidade ambiental porque a gente ainda \u00e9 muito pequenino para a seara da Educa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 marcadamente cr\u00edtica e para a seara de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental que tem um v\u00ednculo que me incomoda bastante com a ideia da pr\u00e1tica acima de tudo, da gente dizer que s\u00f3 faz Educa\u00e7\u00e3o Ambiental quem \u201ccoloca o p\u00e9 no barro\u201d. Muitas vezes escutei isso, e eu sei que os espa\u00e7os comunit\u00e1rios s\u00e3o muito importantes para a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>A Educa\u00e7\u00e3o Ambiental tamb\u00e9m \u00e9 feita na comunidade, mas n\u00e3o \u00e9 feita s\u00f3 l\u00e1! Esse \u00e9 um desafio nosso!&nbsp; Pensar que os espa\u00e7os filos\u00f3ficos, os autores que estudamos, tamb\u00e9m podem contribuir para olhar esse campo, muitas vezes fazemos isso por dentro da comunidade, por dentro da escola, mas \u00e0s vezes a fazemos tamb\u00e9m com pesquisas especialmente filos\u00f3ficas e que contribuem muito para o campo. E isso ainda \u00e9 um desafio para o campo da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental. Ent\u00e3o, um pouco \u00e9 essa a minha trajet\u00f3ria, Alexandre.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Alexandre Luiz Polizel: <\/strong>Paula, acho que a sua trajet\u00f3ria toca em alguns aspectos que s\u00e3o tamb\u00e9m ang\u00fastias nossas, acredito que a gente tamb\u00e9m pegue a\u00ed alguns autores e os usa na dan\u00e7a. O Mois\u00e9s gosta de dan\u00e7ar com Latour, alguns gostam de dan\u00e7ar com Foucault, com Nietzsche, e nessa dan\u00e7a a gente vai fazendo as suas ecologias acontecerem. Aqui no GECCE esbarramos com algumas quest\u00f5es que, me parece, voc\u00ea tamb\u00e9m esbarra. Gostaria de ouvi-la um pouco sobre o espa\u00e7o onde a gente est\u00e1, e \u00e9 claro a gente disputa esse espa\u00e7o dentro da universidade. O espa\u00e7o acad\u00eamico olha para os nossos trabalhos como mera especula\u00e7\u00e3o. Filos\u00f3fico em demasia e pouco do ensino.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das quest\u00f5es que mais se ouve \u00e9 \u201ce o Ensino de Ci\u00eancias? Onde est\u00e1 essa entidade que a gente precisa invocar aqui?\u201d Como, nessa dan\u00e7a, que inclusive as bruxas fazem muito bem, voc\u00ea tem invocado esse ensino de ci\u00eancias, esse ambiente que querem que esteja fantasmagoricamente presente, como que voc\u00eas a\u00ed t\u00eam se articulado para fazer essas invoca\u00e7\u00f5es, mesmo que for para bani-los, para deform\u00e1-los ou para fazer novos pactos com eles?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paula Corr\u00eaa Henning: <\/strong>Esse \u00e9 um grande problema que n\u00f3s temos, para quem trabalha com essas perspectivas. Primeiro dizer que s\u00e3o autores que se dedicaram \u00e0 filosofia. Aproxim\u00e1-los do nosso campo \u00e9 um exerc\u00edcio nosso, e isso \u00e9 mais do que importante, porque n\u00f3s somos os pesquisadores. Quer dizer, Foucault, Nietzsche e Latour j\u00e1 disseram algo, o que n\u00f3s temos a dizer? Acho que fazer essa aproxima\u00e7\u00e3o tanto com o Ensino de Ci\u00eancias quanto com a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, com esses autores \u00e9 um desafio para n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>O que temos a dizer a partir deles, para o nosso campo de estudos, que n\u00e3o foi o campo que eles se dedicaram? &#8220;Ah, por que que tu usas Foucault se ele nunca trabalhou com Educa\u00e7\u00e3o Ambiental?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Justamente por isso talvez ele tenha muito a nos dizer, talvez ele possa nos provocar a pensar sobre o campo que ele n\u00e3o pensou e que pode desdobrar pesquisas. Al\u00e9m disso, esses autores s\u00e3o \u201cmalditos\u201d. Bom, o Mois\u00e9s sabe disso, j\u00e1 nem me lembro mais quem \u00e9 que disse pela primeira vez, mas diziam que esses autores s\u00e3o \u201cos malditos\u201d e eles s\u00e3o os malditos mesmo, malditos no sentido de \u201cmal-ditos\u201d, \u201cmal falados\u201d, e malditos tamb\u00e9m no sentido de que eles nos provocam a ir no lugar mais dif\u00edcil que tem de provoca\u00e7\u00e3o, que \u00e9 dentro de n\u00f3s mesmos, das nossas verdades.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu costumo brincar que \u00e9 f\u00e1cil a gente questionar a verdade do vizinho, dizer \u201cah pensar por a\u00ed, n\u00e3o \u00e9 esse o caminho\u201d, primeiro que a gente n\u00e3o t\u00e1 muito preocupado com o caminho (que \u00e9 outro dos nossos problemas, por isso talvez n\u00e3o sejamos t\u00e3o bem-vistos na comunidade acad\u00eamica), mas tamb\u00e9m porque a ideia aqui \u00e9 colocar em suspeita as nossas verdades, que s\u00e3o as mais dif\u00edceis. Paul Veyne dizia isso, vivemos dentro de um aqu\u00e1rio e n\u00e3o conseguimos estranhar essas paredes, por que que a gente n\u00e3o consegue?<\/p>\n\n\n\n<p>Porque elas s\u00e3o nossas!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o conseguimos ver que ali t\u00eam paredes, \u00e9 como um aqu\u00e1rio, eu n\u00e3o consigo imaginar que ali terminou o mundo, ent\u00e3o \u00e9 um pouco isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que elas s\u00e3o as mais dif\u00edceis?<\/p>\n\n\n\n<p>Porque elas s\u00e3o minhas!<\/p>\n\n\n\n<p>Eu as guardei t\u00e3o bem para mim, eu acreditei tanto nelas, como \u00e9 que, agora [s\u00e3o estranhas]?<\/p>\n\n\n\n<p>Vou dar um exemplo cl\u00e1ssico de Foucault: se por tanto tempo na educa\u00e7\u00e3o n\u00f3s levantamos uma bandeira a favor da emancipa\u00e7\u00e3o, do esclarecimento das consci\u00eancias, que pelo espa\u00e7o da escola a gente conseguiria formar um sujeito mais cr\u00edtico e humano, como \u00e9 que agora vem um autor como Foucault para nos dizer que a escola n\u00e3o \u00e9 bem isso, mas \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o de sequestro.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensar sobre essas coisas abala as nossas verdades e a\u00ed temos um grande problema. N\u00e3o s\u00f3 para n\u00f3s, mas tamb\u00e9m para a comunidade da qual fazemos parte (Educa\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias, Ensino de Ci\u00eancias, Educa\u00e7\u00e3o Ambiental).<\/p>\n\n\n\n<p>O grande problema \u00e9 que a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental \u00e9 essencialmente cr\u00edtica, o Ensino de Ci\u00eancias com uma marca muito forte de pr\u00e1tica e de ensinagem. Vemos isso com muita for\u00e7a tamb\u00e9m nos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ensino de Ci\u00eancias, em que os resultados, o produto muitas vezes \u00e9 uma metodologia ou um modo como a gente vai estruturar nossas salas de aula etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Se isso faz feliz o pesquisador e ele traz contribui\u00e7\u00e3o para a comunidade cient\u00edfica, acho que a comunidade est\u00e1 a\u00ed para ser habitada por muitos povos. O que mais pega \u00e9 quando se voltam para n\u00f3s e dizem assim \u201cvoc\u00eas fazem s\u00f3 filosofia!\u201d Eu costumo brincar: que bom! Pra mim \u00e9 um grande elogio tu dizer que a gente faz filosofia, pra mim n\u00e3o isso n\u00e3o \u00e9 desmerecedor, pelo contr\u00e1rio, talvez a pergunta seja essa: \u201cmas o qu\u00ea que tu t\u00e1 entendendo por filosofia para dizer que eu fa\u00e7o <strong>s\u00f3<\/strong> filosofia?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Do modo como entendemos eu ficaria muito feliz de saber que fazemos filosofia &#8211; uma filosofia que provoca a vida, que provoca as nossas verdades, que nos movimenta no nosso campo de saber. Isso \u00e9 um pouco do que a gente tem feito dentro do nosso grupo de pesquisa (Grupo de Estudos em Educa\u00e7\u00e3o, Cultura, Ambiente e Filosofia \u2013 GEECAF), ou, tentamos fazer, e o que voc\u00eas a\u00ed com certeza fazem tamb\u00e9m, movimentando nosso pensamento com Latour nessas aproxima\u00e7\u00f5es, seja da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental seja do pr\u00f3prio Ensino de Ci\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o \u201co qu\u00ea que a gente pode com esses autores?\u201d, acho que \u00e9 essa a nossa contribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Alexandre Luiz Polizel: <\/strong>\u00d3timo Paula, isso nos provoca mais ainda e me faz pensar com Foucault, talvez seja um pouco Feyerabend falando que \u00e9 importante que produzamos em comunidade. Foucault vai reiterar que produzimos a partir de um lugar onde colocamos o p\u00e9 e nos relacionamos (a partir de uma localiza\u00e7\u00e3o). Mas isso nos leva a uma situa\u00e7\u00e3o muito complexa, enquanto grupo, e gostar\u00edamos de te ouvir um pouco sobre isso.<\/p>\n\n\n\n<p>No grupo de um lado damos a m\u00e3o para esse \u201cmalditos\u201d que nos puxam, nos rodopiam e fazem a dan\u00e7a, e de um outro lado damos a m\u00e3o para alguns autores dos Estudos Culturais que nos dizem sobre a import\u00e2ncia de \u2018n\u00e3o institucionalizar\u2019, de \u2018n\u00e3o ter uma localiza\u00e7\u00e3o\u2019 dentro de uma institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um lado, somos puxados aos encontros com as institui\u00e7\u00f5es, com os grupos de pesquisa, com os programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, possibilidades de questionar essas nossas verdades, ou seja, de fazer um encontro e a dan\u00e7a com o maldito. Em contraponto tem um outro lado que nos puxa e nos diz um pouco o seguinte: olha talvez esta institui\u00e7\u00e3o te sequestre. E a\u00ed eu gostaria de te ouvir:&nbsp; como voc\u00ea v\u00ea essas institui\u00e7\u00f5es como algo que nos oferece potencialidades e aumento de uma pot\u00eancia ou nos geram algumas disciplinariza\u00e7\u00f5es? (e claro, a disciplinariza\u00e7\u00e3o \u00e9 produtiva sempre, ela dificilmente \u00e9 simplesmente \u00e9 negativa, vamos dizer assim, e a\u00ed esse dificilmente eu que adiciono nesse processo). Como essa cria\u00e7\u00e3o de fronteiras permitiu um territ\u00f3rio para pensar, mas que nos limita, um pouco, a pot\u00eancia e essa destitui\u00e7\u00e3o de fronteiras? Como as institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o nos ajudando ou nos atrapalhando a ser criativos?<strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;Paula Corr\u00eaa Henning: <\/strong>Excelente pergunta, porque eu acho que elas s\u00e3o as duas coisas mesmo, e sem problema nenhum serem as duas coisas, para n\u00f3s n\u00e3o h\u00e1 problema nisso. Eu vou come\u00e7ar com essas dificuldades da institui\u00e7\u00e3o, para depois ver as brechas que a institui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode nos apresentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes \u00e9 esse engessamento, digamos assim, por todas as determina\u00e7\u00f5es que n\u00f3s temos, n\u00f3s que estamos em programas de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o, com o tempo que n\u00f3s temos para terminar o mestrado e o doutorado, que precisamos apresentar uma produ\u00e7\u00e3o dentro daquele tempo. Sabemos que o caminho do pensamento, o caminho da filosofia, n\u00e3o consegue ser medido no sentido assim do &#8220;em um ano a gente vai conseguir escrever um artigo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A gente n\u00e3o consegue medir isso, mas precisamos dar conta disso dentro de um programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Esses s\u00e3o os c\u00f4mputos que a CAPES e a pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o esperam de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma pesquisa publicada pelo Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia sobre a &#8220;Percep\u00e7\u00e3o P\u00fablica da Ci\u00eancia e Tecnologia no Brasil&#8221;. A \u00faltima que saiu foi em 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados demonstram que o local de maior produ\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico no Brasil est\u00e1 dentro das universidades p\u00fablicas. Isso \u00e9 bastante paradoxal, quando tu perguntas para brasileiros se eles conhecem o nome de algum cientista do pa\u00eds eles n\u00e3o sabem dizer, n\u00e3o me lembro agora a porcentagem[1], mas \u00e9 uma porcentagem alt\u00edssima de brasileiros que n\u00e3o conseguem responder o nome de um cientista brasileiro, ainda que esteja dentro da universidade p\u00fablica a maior produ\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso eu quero dizer que a institui\u00e7\u00e3o \u00e0s vezes nos limita por dentro dos seus tr\u00e2mites de prazos, ex\u00edguos, da necessidade de publica\u00e7\u00e3o a duras penas ou com prazo determinado e tal, mas a gente faz pesquisa no pa\u00eds, seja colocando essas determina\u00e7\u00f5es ou n\u00e3o. Bom, a\u00ed eu chego na segunda parte da tua pergunta, do que \u00e9 que a que a gente faz, como \u00e9 que a gente consegue colocar essas institui\u00e7\u00f5es em movimento, bailando com ela o fato \u00e9 que temos que, tamb\u00e9m, valorizar as institui\u00e7\u00f5es, saber, como tu bem dissesse, a quest\u00e3o do disciplinamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez esse disciplinamento, por exemplo, que a gente tem nos grupos de pesquisa (do encontro sistem\u00e1tico, um por semana, uma vez a cada 15 dias e outras tantas atividades, a gente tem aqui mesmo um curso de extens\u00e3o para professores) essa sistematiza\u00e7\u00e3o desse tempo e desse espa\u00e7o moderno, digamos assim, talvez ela tamb\u00e9m possa nos ajudar a criar outras coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o ainda que nos engesse, talvez esteja ao nosso alcance ou fa\u00e7amos estar ao nosso alcance a possibilidade de criar outras coisas para al\u00e9m desse engessamento que a institui\u00e7\u00e3o nos determina, e pra mim a melhor parte da FURG \u00e9 o grupo de pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das coisas que eu costumo dizer \u00e9 que no grupo eu me encontro com aquilo que Nietzsche chama de \u201cesp\u00edritos livres\u201d, que s\u00e3o os esp\u00edritos amigos, aqueles esp\u00edritos que a gente escolhe para caminhar ao nosso lado, ent\u00e3o \u00e9 ali na pot\u00eancia da cria\u00e7\u00e3o, da inventividade, do desejo de criar uma outra coisa (no nosso caso temos chamado de <em>cria\u00e7\u00f5es de outras educa\u00e7\u00f5es ambientais<\/em>), que nos fortalecemos enquanto coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nietzsche tem uma discuss\u00e3o que me interessa muito, que \u00e9 a quest\u00e3o do sil\u00eancio, da ang\u00fastia, tu come\u00e7aste falando da quest\u00e3o da ang\u00fastia &nbsp; Alexandre!? Ent\u00e3o, a ang\u00fastia, o sil\u00eancio, a pr\u00f3pria <em>convalescen\u00e7a<\/em> como diz Nietzsche &#8211; ele diz assim: muitas vezes, pelo nosso estilo de vida, terminamos n\u00e3o dando valor para o sil\u00eancio. Eu diria, para nossos momentos atuais, que o sil\u00eancio est\u00e1, cada vez mais, sendo banido da sociedade, Nietzsche nos convida a experiment\u00e1-lo, ele diz \u201cpara um esp\u00edrito livre, para um esp\u00edrito guerreiro, \u00e9 preciso um tempo de convalescen\u00e7a\u201d (um pouco a ver com o que est\u00e1vamos conversando agora), \u00e9 preciso um tempo para ruminar as nossas verdades e poder coloc\u00e1-las em xeque, esse \u00e9 o nosso tempo de sil\u00eancio! Mas \u00e9 tamb\u00e9m importante, diz Nietzsche, depois de voltar fortalecido dessa convalescen\u00e7a se encontrar com os esp\u00edritos amigos, se encontrar com os esp\u00edritos que nos ajudam a pensar e nos fortalecem a cria\u00e7\u00e3o, a inventividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que o grupo de pesquisa &#8211; pelo menos do jeito que a gente tem tentado criar dentro da FURG \u2013 \u00e9 um rico espa\u00e7o para isso. O Mois\u00e9s faz isso muito bem na condu\u00e7\u00e3o do grupo de pesquisa tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um pouco isso para n\u00f3s, esse espa\u00e7o de combate com a verdade, espa\u00e7o de provoca\u00e7\u00e3o do pensamento e de encontro por dentro da institui\u00e7\u00e3o, \u00e9 isso que eu quero dizer, grupos de pesquisa consolidados, grupos de pesquisa cadastrados no diret\u00f3rio de pesquisa, grupos de pesquisa institucionalizados, mas que colocam o nosso pensamento em movimento, ainda que tenhamos todas as determina\u00e7\u00f5es e obrigatoriedades por dentro da universidade, do CNPq, da CAPES, ainda podemos criar espa\u00e7os de respiro e de pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Para mim um desses espa\u00e7os de respiro \u00e9 com os esp\u00edritos livres que eu escolhi pra mim, que est\u00e3o l\u00e1 dentro do nosso GEECAF.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Alexandre Luiz Polizel: <\/strong>Paula voc\u00ea fala uma coisa muito interessante que me faz pensar aqui. De certa forma tamb\u00e9m vemos essa produtividade nas institui\u00e7\u00f5es, mas somos colocados em um tribunal (acho que Foucault \u00e9 uma das figuras que mais gostava do tribunal e eu acredito que por uma inspira\u00e7\u00e3o do Kant at\u00e9) e percebemos aqui, acredito que voc\u00eas devem passar por isso tamb\u00e9m, que geralmente a gente \u00e9 levado ao tribunal (o Grupo dos Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es) e \u00e0s vezes somos&nbsp; acusados, e a acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 da descren\u00e7a e da nega\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es se d\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s. Porque n\u00f3s somos cr\u00edticos das ci\u00eancias que nos trazem verdades como quem traz a verdade do outro mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como voc\u00ea tem visto isso, ouvido isso, inclusive bailado com isso por a\u00ed? Como o grupo de voc\u00eas t\u00eam lidado com essa quest\u00e3o? J\u00e1 que, como dissemos aqui, n\u00f3s acreditamos na produtividade das institui\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Paula Corr\u00eaa Henning:<\/strong> T\u00e1, tu tocas numa quest\u00e3o que \u00e9 um vespeiro. Sou professora de Metodologia Cient\u00edfica na universidade, tu podes imaginar o tipo de discurso que se ouve, dependendo do curso em que tu entras. Entrar para dar aula de Metodologia Cient\u00edfica com a mesma ementa na Engenharia \u00e9 uma coisa, entrar no Direito ou na Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra completamente diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu digo que, depois de todo o negacionismo cient\u00edfico que a gente tem vivido, fazer a cr\u00edtica \u00e0 Ci\u00eancia pela linha da Filosofia da Ci\u00eancia (que \u00e9 por onde eu caminho) \u00e9 bastante perigoso. Eu acho que a gente deu muito mais do que um passo para tr\u00e1s com isso, com todo esse negacionismo. Porque tem que tomar muito cuidado com o modo como tu fazes, e a\u00ed tem uma diferen\u00e7a muito grande entre o negacionismo e a cr\u00edtica \u00e0 Ci\u00eancia (que \u00e9 o que fazemos).<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, entrar num primeiro ano de um curso de gradua\u00e7\u00e3o para fazer uma desconstru\u00e7\u00e3o da Ci\u00eancia sem fazer toda uma contextualiza\u00e7\u00e3o do negacionismo cient\u00edfico que existe hoje \u00e9 um perigo, porque daqui a pouco vai todo mundo sair dizendo assim \u201ca professora Paula disse que \u00e9 melhor n\u00e3o tomar vacina\u201d, ent\u00e3o se cai no outro extremo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem que tomar bastante cuidado com o modo como falamos em Ci\u00eancia, claro que isso \u00e9 independente do ano da gradua\u00e7\u00e3o, mas eu acho que o primeiro ano \u00e9 ainda mais perigoso, eles est\u00e3o saindo do ensino m\u00e9dio e muitas vezes, a gente sabe, \u201co que o ensino m\u00e9dio ensina sobre Ci\u00eancia?\u201d F\u00edsica, Qu\u00edmica e Biologia.<\/p>\n\n\n\n<p>A discuss\u00e3o da Ci\u00eancia \u00e9 pouco vista, inclusive dentro da Universidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O que tu t\u00e1 perguntando aqui Alexandre, como \u00e9 que fazemos essa cr\u00edtica, eu acho que \u00e9 isso: n\u00e3o \u00e9 deixar de fazer a cr\u00edtica \u00e0 Ci\u00eancia, \u00e9 mostrar que fazemos Ci\u00eancia todos os dias dentro da Universidade, mas pouco discutimos sobre a ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazemos ci\u00eancia e muitas vezes nem pensamos sobre isso, vira t\u00e3o autom\u00e1tico que eu entro l\u00e1 dentro do meu laborat\u00f3rio, fa\u00e7o ci\u00eancia e volto para casa, e est\u00e1 tudo bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que \u00e9 essa ci\u00eancia que produzimos? O que \u00e9 isso que chamamos de ci\u00eancia e quais s\u00e3o os desdobramentos \u00e9ticos e pol\u00edticos da ci\u00eancia, dita mais pura, que n\u00f3s temos hoje? Inclusive essa ci\u00eancia tamb\u00e9m tem atravessamentos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso \u00e9 uma das coisas que eu queria pontuar, por isso eu digo que \u00e9 um vespeiro, \u00e9 um problema dentro da universidade. Porque essas institui\u00e7\u00f5es que produzem ci\u00eancia, se valorizam por fazer ci\u00eancia (e tudo bem essa valoriza\u00e7\u00e3o), elas n\u00e3o discutem a ci\u00eancia e fica por isso mesmo, como um pedestal de algu\u00e9m que faz ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, n\u00f3s n\u00e3o entendemos nem mesmo o que \u00e9 essa ci\u00eancia que temos produzido ou quais os desdobramentos dela, eu acho que quem nos ensina muito isso \u00e9 Foucault. Quais os efeitos \u00e9ticos e pol\u00edticos da constru\u00e7\u00e3o da Ci\u00eancia que n\u00f3s temos hoje? Pensar a institui\u00e7\u00e3o e questionar esse olhar duro que ela tem sobre o conceito de Ci\u00eancia, talvez seja um dos nossos movimentos poss\u00edveis, trabalhando com esses autores dos Estudos Culturais, da perspectiva p\u00f3s-cr\u00edtica, dos fil\u00f3sofos da Ci\u00eancia, que t\u00eam me ajudado muito a olhar para essa hist\u00f3ria da Ci\u00eancia, para o modo como enxergamos o seu nascimento como uma supervaloriza\u00e7\u00e3o. Com isso n\u00e3o estamos dizendo que a Terra \u00e9 plana.<\/p>\n\n\n\n<p>Galileu Galilei foi muito importante para a Ci\u00eancia, mas que desdobramentos de cr\u00edtica da Ci\u00eancia tamb\u00e9m podemos fazer de todo um arsenal cient\u00edfico, de constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de Ci\u00eancia que a marcou. Eu acho que fazer isso \u00e9, tamb\u00e9m, dar um golpe fundante na pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o que n\u00f3s estamos dentro, e \u00e9 esse o nosso papel.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu gosto muito de uma express\u00e3o que a Shaula Sampaio (que foi orientanda da Maria L\u00facia Wortmann e \u00e9 nossa colega na Universidade Federal Fluminense) utiliza bastante: talvez a gente tenha que aprender a fazer Educa\u00e7\u00e3o Ambiental atrav\u00e9s das ru\u00ednas que ficam. E eu acho que a institui\u00e7\u00e3o \u00e9 um pouco isso, talvez tenhamos que aprender a transitar por dentro da institui\u00e7\u00e3o, fazendo abalos fundantes dentro dela e saber construir a partir dessa ru\u00edna.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa desconstru\u00e7\u00e3o. A partir dessas marteladas. Como diria Nietzsche, a gente martela o pensamento. Bom, n\u00f3s destro\u00e7amos muita coisa, desses destro\u00e7os, o que \u00e9 poss\u00edvel fazer com eles? Eu acho que esse \u00e9 tamb\u00e9m um dos nossos exerc\u00edcios \u00e9ticos do fazer pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Alexandre Luiz Polizel: <\/strong>Muito obrigado por compartilhar essa possibilidade de pensarmos juntos. Voc\u00ea toca essa produ\u00e7\u00e3o, tanto das institui\u00e7\u00f5es quanto as ru\u00ednas, e percebemos que voc\u00ea &#8211; para usar uma outra pensadora que pensa as ru\u00ednas, que \u00e9 a Anna Tsing &#8211; como os fungos, passou por v\u00e1rias ru\u00ednas, e n\u00e3o d\u00e1 para usar a palavra coloniza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma palavra da biologia, sem ter muito cuidado. Mas voc\u00ea espalhou seus mic\u00e9lios em v\u00e1rias ru\u00ednas e podemos perceber que um desses lugares foi em uma universidade da Espanha, onde voc\u00ea fez um est\u00e1gio p\u00f3s-doutoral. Sempre nos perguntamos como os Estudos Culturais da Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es se fazem de diferentes modos, nos diferentes territ\u00f3rios e localidades.&nbsp; Como est\u00e3o sendo feitas essas coloniza\u00e7\u00f5es, essas dan\u00e7as, essas frutifica\u00e7\u00f5es nesses outros lugares? Gostaria de te ouvir sobre como foi a experi\u00eancia nesse outro territ\u00f3rio, como voc\u00ea viu outros modos de criar e outras tor\u00e7\u00f5es poss\u00edveis l\u00e1 e como h\u00e1 pontos de aproxima\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o com o cen\u00e1rio brasileiro hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Paula Corr\u00eaa Henning:<\/strong> Eu fiz o p\u00f3s-doutorado na Universidade de M\u00farcia, na Espanha, dentro da Faculdade de Filosofia e fui para l\u00e1 por causa do professor supervisor, o Antonio Campillo (um professor da \u00e1rea da filosofia que se dedica a ecologia a partir das teoriza\u00e7\u00f5es p\u00f3s-cr\u00edticas, ele estuda bastante Foucault e a filosofia p\u00f3s-cr\u00edtica de um modo geral).<\/p>\n\n\n\n<p>Para mim foi uma experi\u00eancia extremamente importante, ali\u00e1s essa discuss\u00e3o que eu falei aqui para voc\u00eas da quest\u00e3o do sil\u00eancio em Nietzsche foi o \u00faltimo artigo que eu produzi na Espanha, a experi\u00eancia que tive l\u00e1 se fez com muitas dores porque era um sil\u00eancio muito grande, o modo de fazer pesquisa na Espanha \u00e9 bastante diferente do nosso modo. Se eu j\u00e1 dava muita import\u00e2ncia para o grupo de pesquisa, dei ainda mais quando eu tive na Espanha, porque cada um tem um sistema, mas na Espanha eles n\u00e3o t\u00eam esse cultivo t\u00e3o forte de grupo de pesquisa como n\u00f3s temos aqui (e eu soube que n\u00e3o era s\u00f3 na Espanha, tive uma colega que fez na Fran\u00e7a e foi a mesma coisa).<\/p>\n\n\n\n<p>Em geral, eu vejo que os colegas que t\u00eam produ\u00e7\u00e3o potente t\u00eam um grupo de pesquisa ativo. Uma coisa \u00e9 ter l\u00e1 o grupo de pesquisa cadastrado no CNPq, outra coisa \u00e9 ter um grupo ativo no sentido de produ\u00e7\u00e3o, de pensamento etc. L\u00e1 na Espanha a gente ganha todas as condi\u00e7\u00f5es para trabalhar, eles disponibilizam uma sala que \u00e9 exclusiva do pesquisador, oferecem todos os recursos eletr\u00f4nicos, materiais cotidianos necess\u00e1rios, uma biblioteca bel\u00edssima para estudo e etc. Por\u00e9m, s\u00e3o dif\u00edceis os momentos de ter o que temos aqui, cotidianamente com nossos grupos de pesquisa, a conversa\u00e7\u00e3o com os esp\u00edritos livres, como diria Nietzsche.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Eu senti muita falta desse espa\u00e7o dos grupos de pesquisa, com certeza, foi por isso que fui atr\u00e1s dessa ideia de sil\u00eancio e de convalescen\u00e7a em Nietzsche. Eu me encontrei com ela e isso disse muito desse tempo que eu tive de sil\u00eancio na Espanha, e que tamb\u00e9m foi extremamente produtivo, foi isso que eu contei um pouquinho antes, que a gente precisa se afastar por um dado momento, como diz Nietzsche, aprender a convalescer para ent\u00e3o efetivamente poder retornar mais fortalecido para o combate.<\/p>\n\n\n\n<p>De todo modo tive uma experi\u00eancia muito boa, que foi poder estar dentro do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o deles, em Filosofia Contempor\u00e2nea e poder cursar v\u00e1rias disciplinas, n\u00e3o s\u00f3 da Filosofia P\u00f3s-Cr\u00edtica, mas dos marcos da Filosofia Moderna para poder estudar Filosofia Moderna porque eu acho isso extremamente importante para n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes chegamos em Foucault e nesses autores sem entender o que tu falaste do Kant, eu compartilho contigo essa ideia, por que ele tinha tanto desejo pelo tribunal? Talvez seja por isso, mas s\u00f3 conseguimos entender essas coisas quando conhecemos minimamente uma filosofia moderna. Por que Foucault revoluciona a filosofia? Bom, para entender isso eu preciso entender o que veio antes dele. Ent\u00e3o acho que isso \u00e9 bem pertinente.<\/p>\n\n\n\n<p>Tu me perguntou dos Estudos Culturais, eu acho que tem os pr\u00f3s e os contras numa universidade Europeia, quem trabalha com os Estudos Culturais j\u00e1 tem esse questionamento muito forte da coloniza\u00e7\u00e3o do pensamento. Mas a gente chega nesse espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento dentro da Europa, n\u00f3s que trabalhamos com a filosofia e vamos l\u00e1 no ber\u00e7o de onde chegou toda essa filosofia para n\u00f3s, encontrar com esses espa\u00e7os da produ\u00e7\u00e3o da filosofia, ela diz muito para n\u00f3s, mas ela tamb\u00e9m diz de coisas importantes que n\u00f3s temos no Brasil. Nossa vis\u00e3o colonizadora nos faz pensar que l\u00e1 \u00e9 muito melhor do que aqui e tem coisas que n\u00f3s temos aqui e eles n\u00e3o tem l\u00e1, como essa produ\u00e7\u00e3o forte dentro de um grupo de pesquisa &#8211; pode ser que exista, n\u00e3o estou dizendo que n\u00e3o existe, mas onde eu estava localizada a pesquisa era muito mais individual do que coletiva &#8211; ao mesmo tempo eu aprendi muito de filosofia (fui justamente para Faculdade de Filosofia por causa disso, eu queria ir para um espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o que tinha o Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Filosofia Contempor\u00e2nea).<\/p>\n\n\n\n<p>Outra coisa que eu acho bastante pertinente dizer aqui (alguns dos \u00faltimos artigos que eu escrevi, eu discuti essas quest\u00f5es) \u00e9 a quest\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental e a Educa\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (EDS) que \u00e9 uma grande rixa que n\u00f3s temos. J\u00e1 n\u00e3o temos mais a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental enquanto pol\u00edtica p\u00fablica em nosso pa\u00eds, o que temos \u00e9 uma educa\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento sustent\u00e1vel que vem se alastrando cada vez mais e fazendo terra arrasada de todo o envolvimento de defesa pol\u00edtica que n\u00f3s tivemos com os pesquisadores mais de vanguarda da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, e eu tenho me convencido cada vez mais da import\u00e2ncia desses pesquisadores para que a gente lute pela Educa\u00e7\u00e3o Ambiental no Brasil, porque na Espanha (que \u00e9 da onde eu posso falar) n\u00e3o se fala mais em Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, se fala s\u00f3 em Educa\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, uma forma de olhar para as quest\u00f5es ambientais muito atrelada a quest\u00e3o desenvolvimento econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p>A Educa\u00e7\u00e3o Ambiental cr\u00edtica, de defesa pol\u00edtica no nosso pa\u00eds foi extremamente importante, ainda falamos de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental no Brasil, na Espanha n\u00e3o se fala mais, tamb\u00e9m \u00e9 preciso valorizar isso, e a\u00ed o que eu consegui ver l\u00e1 ao tratar de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental \u00e9 que isso se esvaziou. Se j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil encontrar no nosso pa\u00eds a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental nas perspectiva p\u00f3s-cr\u00edticas voc\u00eas imaginem na Espanha onde j\u00e1 nem se fala mais em Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, se fala em EDS. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar em Educa\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel e trabalhar com Foucault ou trabalhar com os autores que n\u00f3s temos trabalhado aqui. Ent\u00e3o uma valoriza\u00e7\u00e3o bastante importante de um campo pol\u00edtico que merece o nosso respeito dentro do campo da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental s\u00e3o os pesquisadores que desde a d\u00e9cada de 90 lutam, e dos anos 2000 para c\u00e1 mais fortemente, pela defesa da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Alexandre Luiz Polizel:<\/strong> Voc\u00ea me fala algumas coisas que fazem pensar outros caminhos. Me parece que voc\u00ea apresenta que h\u00e1 uma produtividade muito grande nos elos, nessa coletiviza\u00e7\u00e3o que \u00e9 muito caracter\u00edstica dos pa\u00edses demarcados pelas epistemologias do Sul, pelos estudos decoloniais, que apresentam essa caracter\u00edstica de um elo, uma conex\u00e3o inclusive ancestral, essas ligas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eu queria torcer isso para um caminho: parece-me que voc\u00ea fala bastante sobre o que quebra essas ligas. Voc\u00ea pode me dizer, mas voc\u00ea usa de um conceito que eu considero nietzschiano, que \u00e9 o conceito de moraliza\u00e7\u00e3o, para trabalhar l\u00e1 na sua tese. Ent\u00e3o, na sua tese, a meu ver, voc\u00ea j\u00e1 se preocupava um pouco com essas quebras de liga e por que que eu fa\u00e7o essa tor\u00e7\u00e3o? Temos percebido, no nosso grupo, que h\u00e1 um grande avan\u00e7o desse potencial moralizante &#8211; potencial no sentido de que parece que est\u00e1 fagocitando, est\u00e1 nos engolindo essa moraliza\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3prio desenvolvimento, muitas vezes, \u00e9 justificado em nome de um saber moral. Eu queria te ouvir sobre como voc\u00ea percebe essa moraliza\u00e7\u00e3o dos saberes na contemporaneidade, como voc\u00ea percebe que essa moraliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 atravessando a Ci\u00eancia? Est\u00e1 atravessando as educa\u00e7\u00f5es, est\u00e1 atravessando as educa\u00e7\u00f5es ambientais e inclusive que voc\u00ea fale um pouco sobre o que fazer ao encontrar essa moraliza\u00e7\u00e3o, como dan\u00e7ar quando a moral te acorrenta, queria ouvi-la um pouco sobre isso.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Paula Corr\u00eaa Henning:<\/strong> N\u00f3s podemos escrever um artigo (risos). Eu acho que essa pergunta \u00e9 extremamente dif\u00edcil de responder, primeiro que a moraliza\u00e7\u00e3o nos comp\u00f5e, a todos n\u00f3s querendo a gente ou n\u00e3o. Achamos que com esses autores fica mais f\u00e1cil escapar dela, n\u00e3o sei se fica. Eu vejo a todo momento a moraliza\u00e7\u00e3o fazendo parte da minha vida e \u00e9 horr\u00edvel isso (risos), porque quando a gente trabalha com esses autores, mais ainda porque tu sabes que que a moral t\u00e1 ali, tu sabes que ela t\u00e1 te aprisionando, e \u00e0s vezes tu n\u00e3o consegues te desacorrentar dela. No campo da educa\u00e7\u00e3o, isso que tu trouxeste foi o tema da minha tese, mostrar como no campo educacional produzimos a educa\u00e7\u00e3o a partir de saberes e a partir da moral, e esses saberes muito atrelados \u00e0 uma constitui\u00e7\u00e3o moral de cada um de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Haja visto a pr\u00f3pria quest\u00e3o da psicologia, vemos essa moraliza\u00e7\u00e3o a todo momento, basta ir para dentro da escola que tu vais ver a moraliza\u00e7\u00e3o operando, seja nos curr\u00edculos escolares, seja no pr\u00f3prio conte\u00fado a ser trabalhado com as crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>A moraliza\u00e7\u00e3o acompanha o trabalho junto \u00e0s crian\u00e7as l\u00e1 na educa\u00e7\u00e3o infantil, seja na quest\u00e3o de trabalhar o ego\u00edsmo, de emprestar para o coleguinha, seja na quest\u00e3o da pr\u00f3pria higiene bucal, de se comportar, sentar direitinho etc. Quer dizer, a educa\u00e7\u00e3o, a escolariza\u00e7\u00e3o est\u00e1 povoada da nossa moraliza\u00e7\u00e3o e isso n\u00e3o poderia ser diferente dentro de uma sociedade que \u00e9 produzida pela moral, como diria Nietzsche. N\u00f3s somos um rebanho, um rebanho moralizante e moralizador, acho que esse \u00e9 um dos grandes calcanhares de Aquiles que temos no campo educacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das discuss\u00f5es que eu tenho feito atualmente para tentar exemplificar um pouco isso e que tem me chamado muito aten\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental sempre fiz pelo vi\u00e9s da escola, a escola sempre foi um espa\u00e7o privilegiado em minhas pesquisas. Por muito tempo trabalhei com a m\u00eddia querendo entender que Educa\u00e7\u00e3o Ambiental \u00e9 essa que estava nas m\u00eddias, mas a sele\u00e7\u00e3o das m\u00eddias era sempre por aquelas que estavam dentro da escola, indica\u00e7\u00e3o daqueles filmes que os professores utilizavam, as hist\u00f3rias em quadrinhos que eles usavam com as crian\u00e7as, a literatura infantil, porque a escola sempre me chamou aten\u00e7\u00e3o e me chama at\u00e9 hoje, o meu objeto de an\u00e1lise \u00e9 a escola. E uma das coisas que eu tenho estudado atualmente, que tem me incomodado muito, e j\u00e1 me incomodava antes da pandemia, mas principalmente na pandemia se fortaleceu ainda mais, \u00e9 a ideia da escolariza\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria. A escolariza\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria \u00e9 uma quest\u00e3o de moraliza\u00e7\u00e3o, e [retomo] de novo a ideia do negacionismo e da cr\u00edtica \u00e0 Ci\u00eancia. Falar sobre cr\u00edtica \u00e0 escolariza\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 dizer que tem que acabar com a escola no pa\u00eds. No pa\u00eds que a gente vive hoje, a escola p\u00fablica tem que ser uma luta nossa, inclusive ela \u00e9 uma luta minha tamb\u00e9m, mas lutar pela escola n\u00e3o quer dizer assumir \u201ctodo pacote\u201d e achar que t\u00e1 tudo certo, que est\u00e1 tudo bem por a\u00ed. E uma das coisas que tem me chamado muita aten\u00e7\u00e3o, no pensar sobre a escola, \u00e9 a uni\u00e3o da escola com o Estado quando ela se torna obrigat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho recorrido a hist\u00f3ria para tentar entender quando aconteceu essa uni\u00e3o e porque n\u00f3s a valorizamos tanto, quando a escola se tornou indiscut\u00edvel, necess\u00e1ria, imprescind\u00edvel no nosso mundo. E para isso a\u00ed sim eu tenho me aproximado muito forte de Nietzsche. Ele nos diz que acabamos com a escola quando ela se une ao Estado e, assim, a escola est\u00e1 a servi\u00e7o da forma\u00e7\u00e3o de \u201cfuncion\u00e1rios do Estado\u201d. Eu acho que isso \u00e9 um vi\u00e9s da moraliza\u00e7\u00e3o, n\u00f3s determinamos o modo de conduta, determinamos um curr\u00edculo nacional e definimos que aquele \u00e9 o melhor para todos. Isso passa pela moraliza\u00e7\u00e3o, isso passa por uma organiza\u00e7\u00e3o de rebanho que todos n\u00f3s precisamos acatar, e o que \u00e9 mais emblem\u00e1tico em toda essa situa\u00e7\u00e3o &#8211; e vou em Foucault com a ideia da governamentalidade &#8211; \u00e9 que n\u00f3s assumimos esse discurso como nosso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, n\u00e3o \u00e9 \u201cacabar com a escolariza\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria\u201d, mas \u00e9 entender os meandros, estender o nosso pensamento para al\u00e9m de uma escolariza\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria como direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 direito, ela tamb\u00e9m se torna dever \u00e9 porque interessa tamb\u00e9m ao Estado. Enxergar o discurso do direito e do dever da escolariza\u00e7\u00e3o talvez mere\u00e7a o nosso estranhamento e n\u00e3o s\u00f3 estranhamento, mas mere\u00e7a o nosso cuidado de olhar, e n\u00e3o esquecemos disso: isso tamb\u00e9m \u00e9 fruto da moraliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda parte da tua pergunta, \u00e9 acerca de quem est\u00e1 fazendo pesquisa sobre essas quest\u00f5es. \u00c9 f\u00e1cil dizer (risos). Sabemos que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil porque temos que estudar muito para dizer essas coisas, mas isso \u00e9 f\u00e1cil dizer, agora, quero ver sair disso. Ent\u00e3o, e eu n\u00e3o sei te responder, Alexandre, quando somos acorrentados pela moraliza\u00e7\u00e3o, como \u00e9 que fazemos para dan\u00e7ar \u00e0 beira do abismo? N\u00e3o sei, \u00e9 muito dif\u00edcil, isso \u00e9 um paradoxo.<\/p>\n\n\n\n<p>Foucault dizia isso \u201cum paradoxo a gente n\u00e3o resolve, a gente vive\u201d e t\u00e1 bem, eu tento me apegar a isso.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o precisamos dizer se \u00e9 isso ou \u00e9 aquilo, mas ela \u00e9 um paradoxo. Lutar pela escola p\u00fablica \u00e9 um paradoxo, quando olhamos para escola p\u00fablica e vemos que ela est\u00e1 estatizada, ela \u00e9 estatal, seja ela escola p\u00fablica ou seja ela privada. \u00c9 um paradoxo lutarmos por ela e olhar por dentro o seu funcionamento e t\u00e1 tudo bem, isso a filosofia da diferen\u00e7a nos ensina \u201ct\u00e1 tudo bem\u201d olhar para esse paradoxo e entender que isso \u00e9 um paradoxo. Porque entendemos que, \u00e0s vezes, escapamos de uma moraliza\u00e7\u00e3o de rebanho e \u00e0s vezes n\u00e3o, \u00e0s vezes somos tamb\u00e9m a ovelhinha que est\u00e1 l\u00e1 no rebanho.&nbsp; Se conseguirmos entender e estranhar esse movimento j\u00e1 \u00e9 um modo de dan\u00e7armos \u00e0 beira do abismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Alexandre Luiz Polizel: <\/strong>Me parece que para lidar com a moralidade voc\u00ea tem dan\u00e7ado \u00e0 beira do abismo com um grande fetichista que \u00e9 o Foucault. Ele sabe nos ajudar bem a dan\u00e7ar a beira do abismo quando a moralidade \u00e9 o que t\u00e1 no solo, o que poluiu o nosso solo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu gostaria de ouvi-la um pouco nesse sentido porque nos interessa dan\u00e7ar nesse solo contaminado a beira do abismo com Foucault. Pelo menos eu tenho bastante esse interesse e claro, como toda pessoa que tem interesse, a gente gosta de contaminar o solo que os outros dan\u00e7am. Pe\u00e7o para me ajudar a contaminar o solo que os outros dan\u00e7am e que voc\u00ea fale um pouco sobre como voc\u00ea v\u00ea produtividade, potencialidade no Michel Foucault para pensar os Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a gente consegue contagiar os outros com essa dan\u00e7a, com esse grande fetichista?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Paula Corr\u00eaa Henning: <\/strong>Olha Alexandre, eu poderia descrever v\u00e1rios pontos que eu acho que Foucault nos ajuda tanto com os Estudos Culturais quanto com os Estudos Culturais da Ci\u00eancia, nesses diferentes espa\u00e7os,&nbsp; nesses diferentes campos de saber que nos situamos, mas vou dizer um que me parece bastante importante: o estranhamento ao que entendemos como certo e \u00f3bvio. Estranhando o \u201cnosso certo\u201d talvez a gente entenda que \u00e9 governado e, talvez, desse modo, consiga exercer alguma cr\u00edtica e n\u00e3o aceitar, silenciosamente, ser governado desse modo. Com isso Foucault pode nos ajudar a pensar o movimento da cultura, o movimento de como nos constitu\u00edmos, porque a cultura tamb\u00e9m \u00e9 um modo de moraliza\u00e7\u00e3o diria Nietzsche. Ent\u00e3o, nos ajuda a entender que moraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 essa que nos aprisiona, que nos captura, que nos constitui enquanto sujeitos desse tempo. Ao entender isso, talvez possamos entender que somos governados sim, talvez possamos lutar contra essas formas de governamento, de sujei\u00e7\u00e3o que temos hoje. Talvez o exerc\u00edcio pol\u00edtico de pensar diferente do que pensamos e estender a heran\u00e7a das nossas ra\u00edzes modernas possa nos colocar, frente a frente, com a nossa constitui\u00e7\u00e3o enquanto sujeito. Exercer atos pol\u00edticos de resist\u00eancia ao que est\u00e1 dado e ao que est\u00e1 institu\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>Foucault nos ajuda a pensar em como tensionar os valores de verdade e entender que outras possibilidades de inventividade n\u00f3s podemos criar. Temos que tomar bastante cuidado com isso (\u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que eu tenho), as \u201cinven\u00e7\u00f5es\u201d que n\u00f3s fizemos na Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, no Ensino de Ci\u00eancias, enfim, elas n\u00e3o podem ser inven\u00e7\u00f5es de prescri\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o vamos continuar andando em c\u00edrculos. \u201cBom, agora n\u00e3o fazemos mais s\u00f3 uma Educa\u00e7\u00e3o Ambiental que recicla o lixo, mas agora fazemos uma Educa\u00e7\u00e3o Ambiental que analisa a fotografia\u201d n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso, sabe!? N\u00e3o \u00e9 isso. \u00c9 tensionar essas possibilidades de inven\u00e7\u00e3o, mas que n\u00e3o passam por uma defini\u00e7\u00e3o (n\u00f3s fal\u00e1vamos disso um pouquinho antes, did\u00e1tica e pedag\u00f3gica do como ensinar ci\u00eancia, do como fazer Educa\u00e7\u00e3o Ambiental).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Alexandre Luiz Polizel: <\/strong>Eu acredito que seria muito complicado pensar a produtividade do Foucault e n\u00e3o contemplar os colegas e suas pesquisas no grupo, e suas inquieta\u00e7\u00f5es. Eu percebo que dentro do GECCE uma grande inquieta\u00e7\u00e3o como o como buscar entender essa cultura, essa Ci\u00eancia, os modos de entend\u00ea-las por meio dos artefatos culturais, das pedagogias culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Percebo que voc\u00ea faz bastante esses movimentos, ent\u00e3o voc\u00ea tem escritos que analisam quadrinhos, m\u00fasicas, jogos de videogames, e claro, por mais que surja esse interessamento de dentro da escola, voc\u00ea analisa a pedagogia cultural a partir do artefato.<\/p>\n\n\n\n<p>Como voc\u00ea percebe a produtividade de estudar esses artefatos culturais? Como voc\u00ea acha que a gente consegue escutar, perceber, ver as associa\u00e7\u00f5es e as desassocia\u00e7\u00f5es que os artefatos culturais nos produzem? Inclusive, se quiser comentar um pouco como voc\u00ea acha que Foucault e os outros autores e autoras que voc\u00ea trabalha nos ajudam a fazer essa entrada e essa vis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paula Corr\u00eaa Henning:<\/strong> N\u00f3s analisamos por muito tempo artefatos culturais e ainda nos debru\u00e7amos sobre eles. E por que nos interessa muito isso? Porque sabemos que essas s\u00e3o as linguagens que est\u00e3o a\u00ed, sejam por dentro da escola ou fora dela, mas a que chegam nos alunos.<\/p>\n\n\n\n<p>A literatura infantil, os livros did\u00e1ticos, o pr\u00f3prio Plano Nacional do Livro Did\u00e1tico, que chega dentro das escolas p\u00fablicas, os filmes de anima\u00e7\u00e3o, as hist\u00f3rias em quadrinhos, a revista Veja, as revistas de ampla circula\u00e7\u00e3o etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Merece nosso estranhamento para ver que discursos s\u00e3o esses, o que que esses materiais t\u00eam nos dito. E se \u00e9 assim, Foucault nos ajuda muito, n\u00e3o s\u00f3 com a an\u00e1lise do discurso no sentido metodol\u00f3gico, mas com a pr\u00f3pria base te\u00f3rica para entender como enxergar esses discursos estabelecidos. Como eles se produzem como verdade no nosso tempo, a ponto de n\u00f3s n\u00e3o estranharmos.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que h\u00e1, com todo o perigo que se tem de dizer isso, uma linearidade no discurso da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, quando ela \u00e9 acionada por dentro desses artefatos culturais. Eles t\u00eam enunciados que se repetem fortemente, que \u00e9 a ideia do humano como aquele que destr\u00f3i o planeta e a ideia do humano como aquele que salva. Parece existir o \u201chomem bom\u201d de Nietzsche, que seria aquele que reciclam o lixo, que fecha a torneira enquanto escova os dentes e todas essas li\u00e7\u00f5es ambientais que n\u00f3s vamos, paulatinamente, ensinando \u00e0s crian\u00e7as e aos jovens, e existe um \u201chomem mau\u201d no sentido tamb\u00e9m de pol\u00edtica, que destr\u00f3i o planeta, que n\u00e3o se preocupa com o desperd\u00edcio da \u00e1gua, que atira latinha de refrigerante andando com o carro. Temos estere\u00f3tipos de \u201chomem bom\u201d e \u201chomem mau\u201d, vinculados a essa ideia atual de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o verdades que nos tatuam, que nos produzem a ponto de isso ser t\u00e3o recorrente nesses artefatos culturais, que eu j\u00e1 nem estranho mais. S\u00e3o li\u00e7\u00f5es ambientais que precisam ser estranhadas por n\u00f3s, n\u00e3o no sentido de dizer que n\u00e3o devemos ensin\u00e1-las, mas no sentido de entender os efeitos que se produzem a partir dessas li\u00e7\u00f5es. Que tipo de sujeito eu estou constituindo e dizendo que \u00e9 importante, ecologicamente importante, quando defino como ele deve se comportar com seu meio ambiente?<\/p>\n\n\n\n<p>Outras possibilidades de cria\u00e7\u00e3o s\u00e3o limitadas ou rompidas quando eu defino o que \u00e9 um \u201chomem bom\u201d. O que eu preciso fazer para me colocar nesse espa\u00e7o e nesse ambiente. Se eu n\u00e3o fizer assim, ou isso ou aquilo, ou eu sou um \u201chomem bom\u201d ou eu sou um \u201chomem mau\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos outra dessas verdades consolidadas no nosso tempo: a quest\u00e3o do terror e medo pela perda do planeta. Est\u00e3o dizendo que se a gente n\u00e3o fizer tal coisa, isso acontece no ambiente em que vivemos. E \u00e9 claro que as quest\u00f5es ambientais, os desastres ambientais, os problemas ecol\u00f3gicos que n\u00f3s temos, eles n\u00e3o v\u00e3o deixar de acontecer, mas \u00e9 preciso n\u00e3o fazer [o discurso ecol\u00f3gico] de uma forma t\u00e3o simplista como muitas vezes esses artefatos culturais nos ensinam a ponto de agirmos exclusivamente pelo medo.<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as, muitas vezes, s\u00e3o acionadas por esses artefatos culturais para simplesmente fechar a torneira enquanto escovam os dentes. Elas n\u00e3o sabem muito bem por que elas est\u00e3o fazendo isso. Elas fazem porque elas querem salvar o planeta. N\u00f3s retornamos ao outro enunciado, \u201ceu sou o homem bom porque eu fecho a torneira enquanto escovo os dentes. Eu sou aquele que consegue salvar o planeta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O humano, est\u00e1 sempre acima de tudo, sempre \u00e9 aquele que consegue salvar. Qualquer outra coisa que venha que n\u00e3o o humano \u00e9 um adere\u00e7o, \u00e9 um adendo, dentro desse espa\u00e7o de meio ambiente. Isso \u00e9 um perigo eminente nas li\u00e7\u00f5es de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental ensinam \u00e0s crian\u00e7as. Os Estudos Culturais, de um modo geral, nos ajudam a entender a cultura na qual estamos constitu\u00eddos e estabelecidos e Foucault, traz para a discuss\u00e3o os perigos daquilo que o discurso faz conosco, ele nos produz, nos constitui.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma crian\u00e7a dos dias de hoje n\u00e3o \u00e9 a mesma da minha \u00e9poca, da \u00e9poca do Mois\u00e9s, que nem se falava em Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, porque n\u00f3s n\u00e3o nos preocup\u00e1vamos com isso. N\u00f3s, talvez, tiv\u00e9ssemos na nossa escola, e olha que com muita ajuda, duas lixeiras diferentes, uma do reciclado e uma do org\u00e2nico. Mas n\u00e3o existia uma discuss\u00e3o sobre quest\u00f5es ambientais l\u00e1 na d\u00e9cada de 80. As discuss\u00f5es se proliferam a favor da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental da d\u00e9cada de 90 para c\u00e1. \u00c9 um outro tipo de sujeito que n\u00f3s come\u00e7amos a constituir. Que sujeito \u00e9 esse, que li\u00e7\u00f5es s\u00e3o essas e que discursos v\u00eam produzindo esses sujeitos no nosso tempo? Foucault pode nos ajudar, n\u00e3o s\u00f3 Foucault, estou falando dele porque \u00e9 com quem eu mais trabalho, mas as filosofias da diferen\u00e7a de um modo geral.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Alexandre Luiz Polizel: <\/strong>Paula, quando menciona esses sujeitos que produzimos, esses modos de subjetiva\u00e7\u00e3o que operamos, olhar para o ambiente, lembra-me um amigo que voc\u00ea foi banca no doutoramento, o Adalberto Ferdnando Inoc\u00eancio. Ele sempre dizia, \u201cn\u00e3o, n\u00e3o vou falar que eu estudo sexualidade, porque eu estudo meio ambiente e Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, porque n\u00e3o existe um sujeito, hoje, que \u00e9 contra o meio ambiente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso me faz pensar um pouco de que hoje, e a\u00ed tentando fazer um diagn\u00f3stico do presente muito raso, h\u00e1 modos de subjetiva\u00e7\u00e3o que t\u00eam constitu\u00eddo esse sujeito que vai topar passar a boiada.<\/p>\n\n\n\n<p>E eu gostaria, nesse sentido, de te ouvir um pouco sobre como voc\u00ea tem percebido nos estudos com o seu grupo, sobre esses novos modos de subjetiva\u00e7\u00e3o, essas sujei\u00e7\u00f5es, esses governamentos que est\u00e3o produzindo esse sujeito que tem um outro olhar, um outro encontro com o ambiente, o meio ambiente, as educa\u00e7\u00f5es ambientais, e como voc\u00ea percebe que os Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es nos ajudam a fazer esses novos diagn\u00f3sticos, olhar para esse sujeito?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paula Corr\u00eaa Henning:<\/strong> Olha Alexandre, uma das coisas que temos discutido muito no grupo \u00e9 isso. Colocamos com letras mai\u00fasculas, Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, o \u201cE\u201d e o \u201cA\u201d, para mostrar que existem verdades que se produzem a partir dessa ideia de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental. E temos trabalhado com o desejo da cria\u00e7\u00e3o de outras educa\u00e7\u00f5es ambientais, com letra min\u00fascula.<\/p>\n\n\n\n<p>Como \u00e9 que a gente costuma fazer isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das nossas ideias \u00e9 pensar o dissenso como uma pot\u00eancia criadora, como a gente tem chamado. Porque o que n\u00f3s temos de mais consolidado, em qualquer campo de saber, \u00e9 um \u201cconsenso da \u00e1rea\u201d, j\u00e1 diria Thomas Kuhn, n\u00e3o \u00e9 Mois\u00e9s?!<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos ter um consenso para ter uma ci\u00eancia normal estabelecida. O que a gente busca propor \u00e9 que, no dissenso, naquilo que escapa ao estabelecido pela Educa\u00e7\u00e3o Ambiental maior, talvez tenhamos a possibilidade de cria\u00e7\u00e3o. Porque dentro desses espa\u00e7os de uma Educa\u00e7\u00e3o Ambiental maior, a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 cada vez menor, \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil de encontrar, justo porque ela est\u00e1 povoada de li\u00e7\u00f5es e determina\u00e7\u00f5es do como agir, do como se comportar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficaremos com as fissuras, com as ranhuras e onde pode passar, onde podem ser costuradas essas educa\u00e7\u00f5es ambientais. Talvez o dissenso possa nos ajudar, porque n\u00f3s, como tu dizes, temos um consenso de que todo mundo \u00e9 a favor do ambiente, que vai fechar a torneira enquanto escova os dentes. Talvez isso seja um perigo tamb\u00e9m. Porque n\u00e3o sabemos por que se faz esse tipo de coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00f3s que trabalhamos com filosofia, nos interessa muito. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ensinar para o aluno que fechamos a torneira enquanto escovamos os dentes, mas questionar quais s\u00e3o os desdobramentos disso na nossa vida quotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que \u00e9 importante fechar a torneira enquanto escova os dentes? Gisele B\u00fcndchen, faz xixi no banho e sai todo mundo fazendo xixi no banho. Mas por que a gente faz xixi no banho?&nbsp; Quais s\u00e3o as causas e as consequ\u00eancias que existem ao fazer o xixi no banho ou fazer o xixi acionando a descarga depois?<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez esses modos de olhar para o dissenso sejam produtivos, porque ele cria outras coisas, das quais, na nossa limitada organiza\u00e7\u00e3o de uma Educa\u00e7\u00e3o Ambiental maior, n\u00e3o conseguimos ter espa\u00e7o para isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensar pela via do dissenso, como a filosofia da diferen\u00e7a tem nos ajudado a pensar, pode nos levar a criar outra coisa (no campo que quisermos), no lugar daquilo que est\u00e1 estabelecido, quando aquilo que est\u00e1 ali me incomoda.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa Educa\u00e7\u00e3o Ambiental maior tem me incomodado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que \u00e9 poss\u00edvel abrir passagem, abrir espa\u00e7o, para um outro pensamento, um pouco a ver com o que o Deleuze nos disse: \u201cum criador s\u00f3 faz aquilo que tem absoluta necessidade\u201d. Se eu estou t\u00e3o tranquilo com a minha Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, que \u00e9 s\u00f3 aquela que coloca o \u201cp\u00e9 no barro\u201d, que que luta pela emancipa\u00e7\u00e3o, pela criticidade, pela autonomia dos sujeitos; eu n\u00e3o tenho por que criar uma outra educa\u00e7\u00e3o ambiental ou outras educa\u00e7\u00f5es ambientais. Mas se o dissenso se faz em mim, se o questionamento se faz em mim, isso \u00e9 t\u00e3o forte que \u00e9 como uma onda do mar, eu n\u00e3o consigo mais segurar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso pensar diferente do que est\u00e1 estabelecido, isso j\u00e1 n\u00e3o me constitui enquanto uma educadora ambiental. \u00c9 preciso pensar outras possibilidades de inven\u00e7\u00e3o e, talvez, da\u00ed \u00e9 que nas\u00e7a essa possibilidade, n\u00e3o sei bem qual, de cria\u00e7\u00e3o de outros modos de olhar para o campo da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Alexandre Luiz Polizel: <\/strong>Bom, da minha parte, eu vou fazer uma \u00faltima provoca\u00e7\u00e3o para pensarmos juntos. Vou usar Foucault de novo como um personagem conceitual aqui, s\u00f3 para nos ajudar a caminhar. Ele foi um personagem que ia a muitos lugares, encontrava muitos sujeitos, ent\u00e3o para falar da loucura vamos ao hospital psiqui\u00e1trico, para falar da pris\u00e3o vamos ouvir o que aqueles que est\u00e3o enclausurados tem a nos dizer. Sabemos, Paula, que voc\u00ea roda bastante pelo campo dos Estudos Culturais, ent\u00e3o voc\u00ea deve ter realizado muitos encontros com outros pensadores dos Estudos Culturais e dessas escutas, como voc\u00ea percebe alguns pontos de discuss\u00e3o, ou seja, que vozes, narrativas, discursos, voc\u00ea percebe que s\u00e3o muito potentes para que a gente pense e olhe com aten\u00e7\u00e3o. O que voc\u00ea considera que est\u00e1 florescendo nos Estudos Culturais?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paula Corr\u00eaa Henning: <\/strong>Bom, eu vou te dizer que, nesse caso, Santo de casa faz milagre. Comecem lendo Mois\u00e9s, mas esse voc\u00ea j\u00e1 deve ter lido muito.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o trabalho s\u00f3 com Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, mas esse \u00e9 meu foco hoje, assim, as minhas pesquisas mais fortes s\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, e temos nos interessado muito pelos colegas que tem feito uma aproxima\u00e7\u00e3o entre Educa\u00e7\u00e3o Ambiental e Estudos Culturais, mas n\u00e3o temos muitos colegas fazendo isso hoje no nosso pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu trabalho com Leandro Belinaso Guimar\u00e3es, que \u00e9 professor da Universidade Federal de Santa Catarina e tem discuss\u00f5es muito interessantes sobre a imagem, sobre essa constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, sobre um \u201csujeito verde\u201d que temos inventado de um tempo para c\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Gosto muito da Shaula Sampaio, uma grande amiga e colega, que \u00e9 professora da Universidade Federal Fluminense e que tem discutido muito essas quest\u00f5es e tomando os estudos de Donna Haraway e Bruno Latour.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que, sem d\u00favida nenhuma, a Maria L\u00facia Wortmann \u00e9 para n\u00f3s uma das autoras mais ass\u00edduas no nosso grupo de pesquisa, porque temos lido muito as discuss\u00f5es dela n\u00e3o s\u00f3 para pensar a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, mas para as discuss\u00f5es de ci\u00eancia e dos Estudos Culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Outras colegas muito importantes, como a Marisa Vorraber Costa, Viviane Camozzato e Andressa da Costa Mutz, que \u00e9 da UFRGS e tem trabalhado com essas discuss\u00f5es da rela\u00e7\u00e3o com as m\u00eddias e juventudes. Essas e outras colegas movimentam o nosso pensamento para al\u00e9m do que est\u00e1 estabelecido na Educa\u00e7\u00e3o e na Educa\u00e7\u00e3o Ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eu acho que o mais importante disso tudo \u00e9 entender que ainda somos muito poucos dentro desse campo, temos que nos fortalecer enquanto coletivo. Eu e a Shaula h\u00e1 pouco sa\u00edmos da coordena\u00e7\u00e3o do GT 22[2] da ANPED[3] (GT da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental), e fizemos um movimento de chamar\/aproximar esses pesquisadores que t\u00eam trabalhado com Educa\u00e7\u00e3o Ambiental para dentro do GT, tanto eu como a Shaula trabalhamos com as perspectivas p\u00f3s-cr\u00edticas, ainda pensamos muito em nomes de colegas que temos trabalhado para os fazer virem para o GT ou voltarem ao GT.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, para quem se interessa pela Educa\u00e7\u00e3o Ambiental, o Silvio Gallo fez um trabalho encomendado no nosso GT em 2017 (um artigo maravilhoso), inclusive est\u00e1 publicado na REMEA[4] deste \u00faltimo n\u00famero, em dezembro, que \u00e9 sobre o campo epistemol\u00f3gico da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental dentro do GT e&nbsp; o que ele constatou ali foi a presen\u00e7a maci\u00e7a das teoriza\u00e7\u00f5es cr\u00edticas no GT e alguma presen\u00e7a se avolumando das teoriza\u00e7\u00f5es p\u00f3s-cr\u00edticas. O GT 22, e outros tantos espa\u00e7os como o SBECE,[5] s\u00e3o espa\u00e7os em que podemos mostrar que produ\u00e7\u00f5es cient\u00edficas s\u00e3o essas para al\u00e9m da teoriza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, que tamb\u00e9m contribuem com o campo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 fazer uma Educa\u00e7\u00e3o Ambiental agora s\u00f3 do nosso gueto ou s\u00f3 foucaultiana, mas tamb\u00e9m mostrar outros autores que contribuem para pensar a Educa\u00e7\u00e3o Ambiental. Nosso trabalho enquanto pesquisador \u00e9 tamb\u00e9m circular por esses espa\u00e7os e dar visibilidade ao nosso estudos, publicando no SBECE, no GT 22 da ANPED, no EPEA (Encontro de Pesquisa em Educa\u00e7\u00e3o Ambiental), mostrando essa perspectiva, mostrando os Estudos Culturais e que eles podem contribuir para o campo da Educa\u00e7\u00e3o Ambiental. N\u00f3s, enquanto educadores ambientais, do Ensino de Ci\u00eancias e de outros campos de saber que tomam assento nas filosofias da diferen\u00e7a temos o compromisso \u00e9tico, n\u00e3o adianta simplesmente dizermos que s\u00e3o poucos que trabalham com isso, mas \u00e9 preciso questionar: estamos conseguindo fazer circular o que temos feito? E fazer circular n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 em peri\u00f3dico, \u00e9 tamb\u00e9m fazer circular dentro desses eventos porque eles tamb\u00e9m s\u00e3o lidos por muitos de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu disse para voc\u00eas que me interesso muito pela escola, ent\u00e3o outra incomoda\u00e7\u00e3o que eu tenho \u00e9: que outros movimentos n\u00f3s, enquanto grupo de pesquisa, enquanto pesquisadores envolvidos nesses campos, podemos fazer para isso circular tamb\u00e9m por dentro das escolas? Porque nem sempre os professores de escola procuram artigo cient\u00edfico para leitura, ent\u00e3o como \u00e9 que a gente faz a nossa produ\u00e7\u00e3o se desdobrar para dentro da escola? Enquanto grupo, temos procurado isso a partir dos cursos de extens\u00e3o e de materiais que s\u00e3o divulgados dentro da escola, que aqui na universidade chamamos de \u201cmateriais did\u00e1tico pedag\u00f3gicos&#8221;[6]. Eu entendo como um compromisso \u00e9tico com as nossas pesquisas: Como podemos desdobrar isso para outros espa\u00e7os, para a comunidade de um modo geral?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Alexandre Luiz Polizel: <\/strong>Paula, muito obrigado. Eu gostaria de te agradecer mais uma vez em nome do grupo. Voc\u00ea nos d\u00e1 um presente, como diria o Deleuze, quando um escreve, o outro fala e o que voc\u00ea nos d\u00e1 aqui \u00e9 a possibilidade de voc\u00ea falar por meio da escrita e falar com voc\u00ea e junto a voc\u00ea, e para n\u00f3s \u00e9 muito importante isso. \u00c9 uma grande preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9tica e est\u00e9tica do GECCE e do quase-ci\u00eancias falar com o outro. Ent\u00e3o, gostaria de agradecer muito, muito mesmo por essa oportunidade. Nesta sexta \u00e0 tarde, extremamente quente, n\u00e3o sei como \u00e9 que est\u00e1 por a\u00ed pessoal, mas gostaria de agradec\u00ea-la nesse dia quente no sentido de que o calor movimenta as mol\u00e9culas dentro de n\u00f3s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<strong>Paula Corr\u00eaa Henning: <\/strong>Eu quero agradecer muito o Alexandre pela condu\u00e7\u00e3o da entrevista. Eu quero te dizer, \u201cpara fazermos uma boa entrevista, temos que nos preparar, temos que conhecer o colega e ler alguns dos trabalhos realizados pelo entrevistado\u201d. E eu acho que o Alexandre fez isso, porque fez perguntas bastante pertinentes. Muito obrigada e que possamos estar juntos. Participamos de dois grupos que estudam coisas muito pr\u00f3ximas. Voc\u00eas s\u00e3o um grupo que tenho muita admira\u00e7\u00e3o e muito carinho. Gostaria de agradecer essa tarde, dizer que continuo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de voc\u00eas e muito obrigado por estar com voc\u00ea hoje, Alexandre, me sentir t\u00e3o lisonjeada assim. Uma pessoa que leu meus estudos para fazer perguntas pertinentes. Obrigado a todos voc\u00eas, obrigado aos colegas que tamb\u00e9m est\u00e3o aqui. Que a gente possa ter momentos como esse em outras oportunidades, unindo e fortalecendo nossos grupos de pesquisa e a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica educacional brasileira.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>[1]&nbsp; Segundo a pesquisa 90% dos brasileiros n\u00e3o se lembram ou n\u00e3o sabem apontar um cientista do Pa\u00eds (dispon\u00edvel em: https:\/\/www.cgee.org.br\/documents\/10195\/734063\/CGEE_resumoexecutivo_Percepcao_pub_CT.pdf).<\/p>\n\n\n\n<p>[2] Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.anped.org.br\/grupos-de-trabalho\/gt22-educa%C3%A7%C3%A3o-ambiental<\/p>\n\n\n\n<p>[3] Associa\u00e7\u00e3o Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>[4]&nbsp; Revista Eletr\u00f4nica do Mestrado em Educa\u00e7\u00e3o Ambiental. DOI: https:\/\/doi.org\/10.14295\/remea.v38i3.13325<\/p>\n\n\n\n<p>[5] Semin\u00e1rio Brasileiro de Estudos Culturais e Educa\u00e7\u00e3o.[6] A esse respeito ver a \u00faltima produ\u00e7\u00e3o do GEECAF endere\u00e7ada \u00e0 escola: HENNING, P.; SILVA, G. (Org).<strong> Educa\u00e7\u00e3o Ambiental no espa\u00e7o escolar: o que pode a escola? O que podemos n\u00f3s, professores?<\/strong> [Livro Eletr\u00f4nico]. Porto Alegre: editora Casaletras, 2022. 227p. Dispon\u00edvel em<a href=\"https:\/\/sead.furg.br\/images\/cadernos\/Volume-33.pdf\"> https:\/\/sead.furg.br\/images\/cadernos\/Volume-33.pdf<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alexandre Luiz Polizel: Bom Paula, para come\u00e7ar eu quero te agradecer. \u00c9 sempre importante termos esses momentos de encontro, n\u00f3s somos pesquisadores e pesquisadoras que pensamos com os estudos das culturas. A nossa revista surge com essa preocupa\u00e7\u00e3o de ouvir e fazermo-nos ouvidos, dialogar e produzir escuta \u00e9, para n\u00f3s, muito importante. A gente no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":261,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[75,76,21],"class_list":["post-260","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-confissoes-os-enredos-da-tradicao","tag-confissoes","tag-entrevista","tag-estudos-culturais-das-ciencias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=260"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":266,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/260\/revisions\/266"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/261"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}