{"id":256,"date":"2022-09-23T15:11:06","date_gmt":"2022-09-23T18:11:06","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/?p=256"},"modified":"2022-09-23T15:11:07","modified_gmt":"2022-09-23T18:11:07","slug":"conservadorismo-credibilidade-cientifica-e-necropolitica-que-fazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/escrutinios\/2022\/09\/23\/conservadorismo-credibilidade-cientifica-e-necropolitica-que-fazer\/","title":{"rendered":"Conservadorismo, Credibilidade Cient\u00edfica e Necropol\u00edtica: que fazer?"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7amos a reuni\u00e3o de hoje discutindo aspectos pol\u00edticos da Universidade. Existe uma onda ultraconservadora que veio crescendo nas \u00faltimas d\u00e9cadas e parece ter atingido seu \u00e1pice a partir de 2018. N\u00e3o existem fronteiras reais na Sociedade. Somos levados a pensar que um professor-pesquisador de estat\u00edstica experimental nada tem a ver com as decis\u00f5es pol\u00edticas tomadas em Bras\u00edlia ou que essas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o apenas de car\u00e1ter externo \u00e0 Ci\u00eancia, relacionadas, simplesmente, com financiamento: um governo que n\u00e3o se preocupa com o desenvolvimento cient\u00edfico ir\u00e1 cortar as verbas das universidades e dificultar\u00e1 as pesquisas. \u00c9 verdade, portanto, que uma an\u00e1lise que se restrinja somente ao financiamento dificilmente captar\u00e1 a complexidade das rela\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-cient\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m do financiamento, existem disputas discursivas ideol\u00f3gicas, que buscam chancelar e legitimar determinados posicionamentos. Quando a ultradireita conservadora se circunscreve nos espa\u00e7os cient\u00edfico-educacionais \u2013 que v\u00e3o desde as institui\u00e7\u00f5es de coordena\u00e7\u00e3o, como o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, at\u00e9 os espa\u00e7os menores, como as salas de aula \u2013, novos porta-vozes assumem posi\u00e7\u00f5es de poder e, consequentemente, chancelam discursos que v\u00e3o contra perspectivas mais sociais. A ultradireita traz em si o germe do populismo (ZAMORA, 2019), de modo que reivindicam a <em>cultura popular<\/em>, fazendo acreditar que s\u00e3o estes os detentores dos interesses do povo. Assim, \u00e9 assegurado, atrav\u00e9s da distor\u00e7\u00e3o ou velamento da realidade, e dos discursos populistas, um lugar de autoriza\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o das representa\u00e7\u00f5es sociais dos sujeitos. Assim, uma vez que a ultradireita assume essas posi\u00e7\u00f5es de poder, tornam-se produtores dos discursos hegemonicamente aceitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa l\u00f3gica, os diversos atores \u2013 professores, intelectuais, pesquisadores, boias-frias etc. \u2013 aceitam a \u201cvoz autorizada\u201d, que constr\u00f3i um \u201cpoder de impor \u2013 e mesmo de inculcar \u2013 instrumentos de conhecimento e de express\u00e3o\u201d (BOURDIEU, 1989, p. 12). H\u00e1, portanto, uma transforma\u00e7\u00e3o na rede de significados presente no mundo, que vai se entranhando nos grupos sociais a partir das institui\u00e7\u00f5es autorizadas. Percebemos, portanto, que essa dicotomia interno-externo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia e \u00e0 sociedade \u00e9 ilus\u00f3ria. Os atores sociais comp\u00f5em os c\u00edrculos cient\u00edficos, bem como os c\u00edrculos cient\u00edficos chancelam os interesses sociais, dialeticamente. Assim, a distin\u00e7\u00e3o entre Ci\u00eancia, Sociedade e Discurso \u00e9 pouco veross\u00edmil, j\u00e1 que todos esses atores se emaranham e se manifestam a partir desses emaranhados sociais \u2013 coletivos de pensamento (FLECK, 1994).<\/p>\n\n\n\n<p>Quando nos dispomos a analisar a pr\u00e1tica cient\u00edfica, o laborat\u00f3rio, as t\u00e9cnicas e os cientistas, \u00e9 poss\u00edvel que percebamos que, apesar das normas cient\u00edficas institu\u00eddas historicamente, a preocupa\u00e7\u00e3o com essas normas, propriamente, s\u00e3o pouco presentes na vida cotidiana dos laborat\u00f3rios cient\u00edficos. Dificilmente um cientista escolhe seguir a carreira por admirar a ci\u00eancia e todos os procedimentos sistem\u00e1ticos pretendidos pela pr\u00e1tica cient\u00edfica. Latour e Woolgar (1997) nos mostram que as motiva\u00e7\u00f5es cient\u00edficas est\u00e3o ligadas \u00e0 credibilidade cient\u00edfica. Essa credibilidade, por sua vez, est\u00e1 associada \u201c\u00e0 cren\u00e7a, ao poder e \u00e0 atividade econ\u00f4mica\u201d (p. 215). Esse cr\u00e9dito pode ser visto sob quatro prismas: como mercadoria de troca; como algo a ser dividido com os atores presentes nos processos; como algo a ser apropriado indevidamente por terceiros; como algo a ser acumulado ou desperdi\u00e7ado (LATOUR; WOOLGAR, 1997).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa perspectiva nos mostra que a credibilidade cient\u00edfica apresenta caracter\u00edsticas claras de uma moeda. Havendo essa moeda, h\u00e1 tamb\u00e9m valor, se h\u00e1 valor, h\u00e1 poder e, consequentemente, interesses de conservar esse poder ou tom\u00e1-lo para si. Nesse sentido, quando a ultradireita \u2013 j\u00e1 detentora do capital, seja cl\u00e1ssico ou financeiro \u2013 se insere nas institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamico-cient\u00edficas da forma como j\u00e1 vem se inserindo, acaba se apropriando tamb\u00e9m do capital cient\u00edfico. A partir disso, a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfico-tecnol\u00f3gica atender\u00e1 os interesses conservadores, aniquilando as possibilidades de a\u00e7\u00f5es que visem a uma justi\u00e7a social. Quando esses movimentos ultraconservadores que det\u00eam o poder \u2013 seja financeiro, seja simb\u00f3lico \u2013 assumem tamb\u00e9m o poder cient\u00edfico, constr\u00f3i-se um bra\u00e7o necropol\u00edtico forte. A principal caracter\u00edstica desse movimento necropol\u00edtico \u00e9 o uso do poder sociopol\u00edtico para decidir quem vive e quem morre (MBEMBE, 2021).<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo cl\u00e1ssico da pr\u00e1tica necropol\u00edtica resultante do ultraconservadorismo que se apropria do capital cient\u00edfico \u00e9 justamente a pandemia da Covid-19 e a quest\u00e3o da vacina. N\u00f3s vislumbramos acad\u00eamicos e intelectuais abrindo m\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico e se deixando levar pelos discursos conservadores: professores, m\u00e9dicos, enfermeiros e acad\u00eamicos que defenderam pseudomedicamentos em detrimento da vacina. Essa problem\u00e1tica se intensifica. Mesmo com a aquisi\u00e7\u00e3o das vacinas, percebemos a consequ\u00eancia principal da deten\u00e7\u00e3o do poder s\u00f3cio- tecnol\u00f3gico nas m\u00e3os conservadoras: morte de milhares de brasileiros por conta de uma propina de 1 d\u00f3lar por dose de vacina.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos nos mobilizar, adentrar os laborat\u00f3rios, os <em>campi<\/em> universit\u00e1rios, as pra\u00e7as p\u00fablicas, as escolas b\u00e1sicas, os est\u00e1dios de futebol, as autoestradas, os sem\u00e1foros das avenidas e afins para a constru\u00e7\u00e3o de novos significantes (MILLER, 1997), para que possamos assumir as posi\u00e7\u00f5es de poder, que nos tornemos porta-vozes de um discurso que se incline \u00e0s necessidades sociais. Uma luta para a vida demanda for\u00e7a, coragem e mais vidas. S\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel amar e superar a necropol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>BOURDIEU, Pierre. <strong>O poder simb\u00f3lico.<\/strong> Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.<\/p>\n\n\n\n<p>FLECK, Ludwik. <strong>Entstehung und Entwicklung einer wissenschaftlichen Tatsache Einf\u00fchrung in die Lehre vom Denkstil und Denkkollektiv.<\/strong> Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p>LATOUR, Bruno; WOOLGAR, Steve.&nbsp;<strong>A vida de laborat\u00f3rio<\/strong>: a produ\u00e7\u00e3o dos fatos cient\u00edficos. Rio de Janeiro: Relume Dumar\u00e1, 1997.<\/p>\n\n\n\n<p>MBEMBE, Achille.&nbsp;<strong>Necropol\u00edtica<\/strong>. n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>MILLER, Jacques-Alain.&nbsp;<strong>Lacan elucidado<\/strong>. Zahar, 1997.<br>ZAMORA, Jose Antonio. Nacionalismo autorit\u00e1rio e \u201cReligi\u00e3o da Vida Cotidiana\u201d: o Populismo das Classes M\u00e9dias em Crise.&nbsp;<strong>Revista Caminhos-Revista de Ci\u00eancias da Religi\u00e3o<\/strong>, v. 17, n. 4, p. 30-53, 2019.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o Come\u00e7amos a reuni\u00e3o de hoje discutindo aspectos pol\u00edticos da Universidade. Existe uma onda ultraconservadora que veio crescendo nas \u00faltimas d\u00e9cadas e parece ter atingido seu \u00e1pice a partir de 2018. N\u00e3o existem fronteiras reais na Sociedade. 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