{"id":250,"date":"2022-09-23T15:02:39","date_gmt":"2022-09-23T18:02:39","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/?p=250"},"modified":"2022-09-23T15:02:40","modified_gmt":"2022-09-23T18:02:40","slug":"os-bastidores-da-pesquisa-cientifica-inumeras-possibilidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/escrutinios\/2022\/09\/23\/os-bastidores-da-pesquisa-cientifica-inumeras-possibilidades\/","title":{"rendered":"Os \u201cbastidores\u201d da pesquisa cient\u00edfica: In\u00fameras possibilidades."},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Em meio ao calor de novembro, no ano de 2021, o sol raiando \u00e0s 5:20 da matina, acordei para realizar minhas tarefas e poder chegar ao encontro do Grupo dos Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es, carinhosamente, GECCE, com a mente limpa e sem preocupa\u00e7\u00f5es. \u00c0s 8:30, estava l\u00e1 conversando com nosso mentor e aguardando os colegas do grupo, que, por sinal, \u00e9 muito ecl\u00e9tico, e \u00e9 isso que me mant\u00e9m: as diversas coloca\u00e7\u00f5es sobre as leituras mais interessantes que j\u00e1 realizei na vida. E at\u00e9 chegarmos \u00e0 leitura desse dia, tra\u00e7amos um longo caminho entre in\u00fameros autores que dedicaram parte das suas vidas realizando pesquisas com variadas contribui\u00e7\u00f5es para os estudos sociais e culturais; alguns desses pensadores ser\u00e3o citados no decorrer deste escrut\u00ednio. Atrav\u00e9s deste relato, lhes apresentarei um cen\u00e1rio muito instigante, afinal a obra do dia \u00e9 \u201cA vida de laborat\u00f3rio: a produ\u00e7\u00e3o dos fatos cient\u00edficos\u201d, do nosso autor querido Bruno Latour, em conjunto com Steve Woolgar, no entanto as discuss\u00f5es s\u00e3o dirigidas apenas aos cap\u00edtulos 1, 2 e 3. Se voc\u00ea, caro leitor, assim como eu, \u00e9 curioso, se interessa por esse tema e, principalmente, gosta de uma boa leitura, acompanhe essa produ\u00e7\u00e3o e fique atento a alguns dos conceitos aqui expostos e possibilidades para futuras pesquisas cient\u00edficas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>ALERTA: cont\u00e9m <em>spoiler<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio, o professor sempre nos atenta para a biografia dos autores e ressalta a import\u00e2ncia das pesquisas realizadas por eles e conversa sobre o rigor te\u00f3rico no grupo e poss\u00edveis ajustes de referenciais. Detalha as obras de Bruno Latour e destaca essa obra como \u201co livro de entrada\u201d do autor, que, desta forma, ganhou espa\u00e7o no cen\u00e1rio internacional. Comenta sobre as importantes contribui\u00e7\u00f5es de Michel Serres, do qual Latour retira os conceitos de \u201crede\u201d e do \u201cquase\u201d, e nos esclareceu as rela\u00e7\u00f5es estabelecidas em aporte ao nome desta revista. Assim, abriu-se o espa\u00e7o para ouvir as nossas considera\u00e7\u00f5es sobre esta importante obra etnogr\u00e1fica. O que nos atraiu a aten\u00e7\u00e3o? Que fatos foram marcados no decorrer do texto? \u201cFatos\u201d! Estamos produzindo \u201cfatos\u201d cient\u00edficos em nosso laborat\u00f3rio particular, \u201ca nossa reuni\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es valiosas<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Nosso olhar voltou-se ao ensino superior, onde somos professores, cientistas e, no entanto, as pr\u00e1ticas s\u00e3o epistemol\u00f3gicas, n\u00e3o se atenta para a vis\u00e3o dessas pr\u00e1ticas, e sim para o ensinar a desenvolver a ci\u00eancia partindo de uma metodologia hegem\u00f4nica. Somos orientados, em n\u00edvel cultural, para uma sociedade fr\u00e1gil em conhecimento dos estudos cient\u00edficos, por isso, enquanto professores, nos ancoramos na epistemologia e, nesse sentido, consideramos o texto de Latour, que usa a mais cl\u00e1ssica etnografia como uma blindagem de desconfian\u00e7a. Somos voltados para o lugar em que a pesquisa \u00e9 realizada, o papel de um antrop\u00f3logo ao escrever o seu discurso e o poder dessas inscri\u00e7\u00f5es produzidas dentro de um campo, neste caso, um laborat\u00f3rio, como o mais importante na constru\u00e7\u00e3o do \u201cfato.\u201d Conclu\u00edmos que a pr\u00e1tica do professor se diferencia da pr\u00e1tica cient\u00edfica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Houve um relato de crise com rela\u00e7\u00e3o aos cap\u00edtulos que lemos e a nossa realidade, abordamos as pesquisas no Brasil e nos foi questionado sobre a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos nossos professores universit\u00e1rios. Estamos somente treinando a pr\u00e1tica das ci\u00eancias ou reproduzimos o que j\u00e1 existe? Como fazer ci\u00eancia com a falta de verba e com o atual cen\u00e1rio entre as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e a pr\u00e1tica cient\u00edfica? A partir dessas quest\u00f5es, consideramos a descri\u00e7\u00e3o realizada em \u201cDocumentos e Fatos\u201d, no cap\u00edtulo 2, que, conforme Latour e Woolgar (1997, p. 73), \u201co custo de produ\u00e7\u00e3o de um artigo chegava a 60 mil d\u00f3lares, em 1975\u201d. Assim, conclu\u00edmos que a ci\u00eancia necessita de verbas e financiamentos e voltamos o nosso olhar para a ci\u00eancia brasileira. O que sabemos de fato sobre a ci\u00eancia no Brasil? Quais os estudos realizados de maior relev\u00e2ncia? Como ela se institui e cria seu espa\u00e7o cient\u00edfico? E as nossas pesquisas, como as estabelecemos neste cen\u00e1rio? Por que o Brasil n\u00e3o decola em termos de descobertas e produ\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas cient\u00edficas?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o in\u00fameras as quest\u00f5es que surgem para este debate, ent\u00e3o, em um primeiro momento, voltamos nossas considera\u00e7\u00f5es para a import\u00e2ncia do investimento nas pesquisas cient\u00edficas e consideramos o curr\u00edculo b\u00e1sico da educa\u00e7\u00e3o, o qual necessita de modifica\u00e7\u00f5es para a forma\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos que compreendam a import\u00e2ncia e o motivo de se realizarem as pesquisas cient\u00edficas. A partir desta coloca\u00e7\u00e3o, voltamos a nossa aten\u00e7\u00e3o para o cap\u00edtulo 1 do livro, especificamente sobre \u201ca quest\u00e3o do observador\u201d. Para Latour e Woolgar (1997, p. 25), \u201cTamb\u00e9m falam de ci\u00eancias os professores, os jornalistas, o grande p\u00fablico, s\u00f3 que falam de longe, ou com a incontorn\u00e1vel media\u00e7\u00e3o dos cientistas\u201d, pois \u201cpara falar de ci\u00eancias \u00e9 preciso ser especialista\u201d. Assim, \u00e9 realizada uma cr\u00edtica ao ensino de ci\u00eancias, j\u00e1 que a forma como os conceitos s\u00e3o expostos n\u00e3o demonstra como foi realizada a pr\u00e1tica cient\u00edfica para encaminhamento dos \u201cfatos\u201d que s\u00e3o explicados e exemplificados. Em colabora\u00e7\u00e3o \u00e0 fala de um colega, em rela\u00e7\u00e3o ao ensino de ci\u00eancias, sabemos a teoria que nos \u00e9 ensinada, mas n\u00e3o sabemos a realidade de como ela foi produzida e como foram realizados os estudos que encaminharam a ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Um outro colega questiona: \u201cO que \u00e9 ci\u00eancia?\u201d E eu penso, reflito sobre tudo o que foi falado, mas continuo atenta e construindo minhas pr\u00f3prias concep\u00e7\u00f5es. Logo, outro questionamento \u00e9 direcionado ao grupo, sobre o que achamos em rela\u00e7\u00e3o aos nossos laborat\u00f3rios, ser\u00e1 que existe a permissividade para a realiza\u00e7\u00e3o das pesquisas ou seria um ambiente restrito?<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, as falas do grupo voltaram-se para a realidade da competitividade nas pesquisas, as dificuldades de produzir uma etnografia e retratar a epistemologia dos fatos cient\u00edficos, as barreiras para adentrar um laborat\u00f3rio e produzir uma pesquisa como a de Latour e Woolgar, pois o laborat\u00f3rio ainda \u00e9 considerado um \u201ccentro sagrado\u201d, e os cientistas que est\u00e3o neste espa\u00e7o temem que os \u201cfatos\u201d produzidos sejam revelados, devido \u00e0 confidencialidade de algumas pr\u00e1ticas desenvolvidas.&nbsp; Nesse vi\u00e9s, nos foi questionado: qual a poss\u00edvel falha ao realizar uma etnografia em um laborat\u00f3rio?<\/p>\n\n\n\n<p>Durante toda essa discuss\u00e3o, eu n\u00e3o me enxergo como uma etn\u00f3gr\u00e1fa, e sim como uma cientista atuando no \u201ccentro sagrado\u201d, produzindo fatos que podem colaborar para um desenvolvimento corporativo. Cito Latour e Woolgar (1997, p. 27) para quem a quest\u00e3o a ser trabalhada para desmistificarmos as pr\u00e1ticas cient\u00edficas \u00e9 \u201cdisciplinar o olhar\u201d, ou seja, um qu\u00edmico pode falar com maior intimidade sobre a sua pesquisa, mas um \u201cobservador\u201d pode lan\u00e7ar um olhar verdadeiramente novo sobre a atividade cient\u00edfica, at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o divulgado com abund\u00e2ncia em artigos e livros acad\u00eamicos, que s\u00e3o \u201cos bastidores\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa aten\u00e7\u00e3o \u00e9 voltada para o discurso de um outro colega, que coloca sua impress\u00e3o sobre a leitura observando que o livro em estudo deveria chamar-se \u201cA vida de laborat\u00f3rio de ponta\u201d. Neste sentido, descreveu os problemas gerados pelos par\u00e2metros t\u00e9cnicos internacionais e a falta de investimento na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica; acrescenta, ainda, que o fato de parte do investimento nas pesquisas ser financiada por alguma ag\u00eancia ressalta a desigualdade nas institui\u00e7\u00f5es e a restri\u00e7\u00e3o na distribui\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma de suas obras, Latour nos atenta a voltar o olhar para a ci\u00eancia perif\u00e9rica construindo um discurso hegem\u00f4nico, \u00e9 por esse caminho que devemos seguir enquanto grupo dos estudos culturais das ci\u00eancias e educa\u00e7\u00e3o. Sobre a provoca\u00e7\u00e3o do colega, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia de ponta dos laborat\u00f3rios, nos \u00e9 indicado ler as obras de Knorr-Cetina e \u201cA Esperan\u00e7a de Pandora\u201d, do Bruno Latour, em que \u00e9 relatado o que se faz no laborat\u00f3rio, onde o filtro l\u00f3gico \u00e9 driblado com evid\u00eancias e um outro olhar. Assim, houve uma mudan\u00e7a de posicionamento no discurso produzido no come\u00e7o deste relato, quando dizem que nunca houve d\u00favida que se fazia ci\u00eancia e sim como ela \u00e9 realizada. Observei a fala de um cientista que exprime estar indignado com o olhar estagnado, limitado, impedindo a ci\u00eancia de mobilizar suas pr\u00e1ticas. Entre tantas controv\u00e9rsias produtivas, provoca\u00e7\u00f5es pontuais e te\u00f3ricas, buscamos entender, a partir de outras conex\u00f5es, a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica realizada no mundo; ent\u00e3o, surge um exemplo inusitado, a compara\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da China e o atraso do Brasil neste cen\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Novamente h\u00e1 quest\u00f5es que n\u00e3o querem calar: qual a ci\u00eancia que fazemos aqui no Brasil? Quais s\u00e3o os movimentos da ci\u00eancia brasileira, e neles existem trabalhos importantes? Garantimos espa\u00e7o para a tecnologia? Entre tantas perguntas, observamos que h\u00e1 poucas produ\u00e7\u00f5es que estudam pr\u00e1ticas cient\u00edficas de grande relev\u00e2ncia em nosso pa\u00eds e que necessitamos de estudos estrat\u00e9gicos para realizar pesquisas de impacto.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto abordado foi o achismo sobre o ensino de ci\u00eancia, as diferen\u00e7as entre fazer ci\u00eancia e ensinar ci\u00eancia, problemas de aprendizagem e a disparidade no \u00e2mbito educacional. N\u00e3o podemos nos esquecer do campo de pesquisa voltando o olhar para a nossa realidade e realizando pesquisas sobre o que realmente necessitamos. Atentei-me que, enquanto pesquisadora e cientista, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para achismo na ci\u00eancia, mas \u201cfatos\u201d, que ser\u00e3o desenvolvidos e estudados e testados para serem comprovados, e que a linguagem cient\u00edfica utilizada na divulga\u00e7\u00e3o das pesquisas \u00e9 o que direciona o p\u00fablico de alcance. Novamente um cap\u00edtulo escrito por Latour (1983) nos chama a aten\u00e7\u00e3o com o caso de Pasteur e como a sua ci\u00eancia se transformou em <em>Big-Science<\/em>. Michel Foucault tamb\u00e9m foi citado, pois foi abordada a rotula\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e da constru\u00e7\u00e3o dos fatos cient\u00edficos, assim o professor citou um trecho da obra \u201cA ordem do Discurso\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu nunca quis destituir a verdade e dizer que ela n\u00e3o existe, mas, por que n\u00f3s temos tanta necessidade da verdade?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Neste \u00e2mbito, questionou-se sobre a necessidade da epistemologia na ci\u00eancia e de onde vem essa necessidade. A qu\u00edmica qu\u00e2ntica foi usada como exemplo, pois, partindo do uso de computadores, o estudo do entrela\u00e7amento qu\u00e2ntico para a cria\u00e7\u00e3o de superm\u00e1quinas, como esse assunto \u00e9 tratado na universidade? A linguagem das m\u00e1quinas e evolu\u00e7\u00f5es podem superar a mente humana? O que o Brasil produz em termos desse tema? Possu\u00edmos a capacidade de desenvolv\u00ea-lo? Em verdade, conclu\u00edmos que, embora cientistas e pesquisadores, n\u00e3o possu\u00edmos respostas para estas e muitas outras quest\u00f5es aqui expostas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos \u201caterrar\u201d, diz um colega, pois os espa\u00e7os de pesquisa necessitam ser diversificados e cita o texto de Latour e Woolgar (1997, p.21), \u201cEm lugar de estudar ci\u00eancias \u2018sancionadas\u2019, cabe estudar as ci\u00eancias abertas e incertas\u201d, abrindo a possibilidade de fazer ci\u00eancia de uma forma n\u00e3o canonizada. E, ao concluir esta primeira parte produtiva da reuni\u00e3o, nosso professor nos situa em dire\u00e7\u00e3o a essa interessante leitura, considerando que Latour apresenta no texto as pr\u00f3prias ci\u00eancias fechadas e que estas nunca foram t\u00e3o internalizadas, pois a verdade desse mundo \u00e9 que nenhuma ci\u00eancia \u00e9 sancionada e que ela se vasculariza, no entanto faz-se necess\u00e1rio saber as trilhas de como esse processo \u00e9 institu\u00eddo e que a escola n\u00e3o \u00e9 espa\u00e7o para simples transmiss\u00e3o de conhecimento, pois nela existe vida.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Aproxima\u00e7\u00e3o com a tem\u00e1tica<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Depois de um pequeno intervalo, voltamos trabalhando intensamente e se voc\u00ea gostou do que leu at\u00e9 esse ponto, posso lhe garantir que at\u00e9 o final da leitura voc\u00ea estar\u00e1 por dentro de alguns encaminhamentos importantes para produzir uma pesquisa etnogr\u00e1fica. Assim, escolha uma das quest\u00f5es acima e procure relacionar com a \u00eanfase aos conceitos de \u201cinscri\u00e7\u00e3o\u201d aqui apresentados.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste cen\u00e1rio, o professor nos atenta para a import\u00e2ncia das reflex\u00f5es dentro da obra, que, devido a sua riqueza, nos encaminha para longe do tema principal, mas sempre buscando aspectos citados pelo autor e relacionando-os em variados contextos. Latour e Woolgar (1997), d\u00e3o voz aos cientistas, mas ser\u00e1 que \u00e9 f\u00e1cil adentrar um laborat\u00f3rio para produzir uma pesquisa etnogr\u00e1fica? O que o cientista faz dentro de um laborat\u00f3rio? Como s\u00e3o constru\u00eddos os \u201cfatos\u201d cient\u00edficos? Desta forma, Latour prop\u00f5e um deslocamento de \u00eanfase entre o que se diz e o que se faz. Em \u201cA esperan\u00e7a de pandora\u201d, Latour discute a pesquisa etnogr\u00e1fica no laborat\u00f3rio, partindo do conceito da teoria da a\u00e7\u00e3o, que vem de processos da etnografia e processos metodol\u00f3gicos. Assim, questiona-se que, desde a obra de Fleck com uma parada em Serres, este tipo de estudo n\u00e3o nega o realismo, e se \u00e9 negado \u00e9 somente o realismo ing\u00eanuo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na obra \u201cA esperan\u00e7a de pandora\u201d, instituem-se os caminhos, Alfredo Veiga-Neto aborda as fronteiras acad\u00eamicas, pois \u00e9 poss\u00edvel seguir o conceito de realismo aceitando os ecletismos. O caminho \u00e9 \u00e1rduo, surgem nega\u00e7\u00f5es, <em>Fake News<\/em>, mas Latour nos alerta que, se quisermos um processo burocr\u00e1tico do qual a multid\u00e3o fa\u00e7a parte, discuss\u00f5es n\u00e3o estruturadas surgir\u00e3o; neste sentido, a realidade \u00e9 um espa\u00e7o para negocia\u00e7\u00e3o, poderoso, que depende do tamanho da teia que \u00e9 programada. A pesquisa etnogr\u00e1fica n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, pois n\u00e3o \u00e9 estruturada e para alguns passa a impress\u00e3o de falta de rigorosidade com a metodologia, no entanto os autores aqui citados s\u00e3o os que fornecem as dire\u00e7\u00f5es a serem assumidas.<\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o internalista de um laborat\u00f3rio pode ser entendida e explicada por um cientista, pois quem melhor que ele para falar sobre a pr\u00e1tica cient\u00edfica? Segundo Latour e Woolgar (1997, p. 31, 32 e 33), \u201ca grande diferen\u00e7a entre a etnografia cl\u00e1ssica e a das ci\u00eancias reside no fato de que o campo da primeira se confunde com um territ\u00f3rio e o da segunda toma a forma de uma rede\u201d; assim, na etnografia das ci\u00eancias, essas redes podem ser \u201cescrit\u00f3rios, f\u00e1bricas, hospitais&#8230;\u201d, e por que n\u00e3o um laborat\u00f3rio? Existe um limite no laborat\u00f3rio, pois possu\u00edmos uma gama cont\u00ednua de \u201ctransforma\u00e7\u00f5es, de tradu\u00e7\u00f5es e deslocamentos\u201d, h\u00e1 distin\u00e7\u00e3o entre os contextos, e o \u201claborat\u00f3rio se ocupa de \u2018fatos\u2019, n\u00e3o de teorias\u201d. No entanto, a fim de retratar os embates enfrentados para que haja a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e os atores desta rede, somente um etn\u00f3grafo das ci\u00eancias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos neste ponto \u00e0 \u201cinscri\u00e7\u00e3o\u201d, onde a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 colocada com a liter\u00e1ria, e quanto mais escrevemos e descrevemos essa cadeia, partindo dos atores que nela est\u00e3o envolvidos, mais rica ser\u00e1 a obra produzida. Para maiores conceitos de \u201cinscri\u00e7\u00e3o\u201d, nos remetemos ao artigo de Latour \u201c<em>Give Me a Laboratory and I will Raise the World<\/em>\u201d (1983), focado na an\u00e1lise semi\u00f3tica e com a mistura da cienciometria e a teoria de rede.<\/p>\n\n\n\n<p>Questionou-se como o conceito de inscri\u00e7\u00e3o foi formado em nossa concep\u00e7\u00e3o partindo de nossas leituras. Como conectar as rela\u00e7\u00f5es mais fracas com as no\u00e7\u00f5es de \u201cinscri\u00e7\u00e3o\u201d? Assim, um colega do grupo cita o texto-alvo da nossa leitura, retratando que os dados produzidos por aparelhos s\u00e3o tratados por \u201cinscri\u00e7\u00e3o\u201d e, a partir disto, forma-se uma cadeia de constru\u00e7\u00e3o dos fatos, e as inscri\u00e7\u00f5es s\u00e3o o meio como as verdades s\u00e3o institu\u00eddas. Assim, a inscri\u00e7\u00e3o \u00e9 o ato de modificar um \u201cfato\u201d, os \u201cm\u00f3veis imut\u00e1veis\u201d s\u00e3o descritos, o texto \u00e9 descontru\u00eddo para a produ\u00e7\u00e3o do \u201cfato\u201d. A inscri\u00e7\u00e3o e as formas como se institui t\u00eam a capacidade de tornar o fato mais forte e mais enraizado. Timothy Lenoir \u00e9 citado, pois estuda a institui\u00e7\u00e3o e o equipamento, no entanto n\u00e3o h\u00e1 como instituir um laborat\u00f3rio sem abordar a teia que \u00e9 estruturada, pois um gr\u00e1fico n\u00e3o pode ser deslocado, mas o processo pode ser analisado e descrito at\u00e9 o alcance de um m\u00e9todo eficaz de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Deste modo, poder\u00edamos dizer que os escritores s\u00e3o simplificadores ou transdutores que transformam os dados gr\u00e1ficos em palavras, simplificando o caminho da interpreta\u00e7\u00e3o e nos fornecendo um atalho para interpreta\u00e7\u00f5es? O professor exemplifica um espectrofot\u00f4metro, o qual elimina o fator hist\u00f3rico no m\u00ednimo poss\u00edvel ao nos fornecer um relat\u00f3rio de an\u00e1lise, no entanto, a partir da inscri\u00e7\u00e3o, essa leitura pode ser transformada em artigos, subartigos, livros, apostilas, propagando a qu\u00edmica e a vascularizando como um outro objeto, configurando-se como um ponto de passagem obrigat\u00f3rio, que, em um mesmo tempo, fecha e faz uma abertura. Um de nossos colegas cita, Ludwik Fleck e os circuitos da ci\u00eancia esot\u00e9rica e exot\u00e9rica e a cadeia de a\u00e7\u00e3o, ressaltando que, embora a ci\u00eancia seja complexa, funciona sem o processo sociol\u00f3gico, separa-se em micro e macroci\u00eancias, pois h\u00e1 determina\u00e7\u00f5es dif\u00edceis de manter. Outro colega argumenta que o sistema se retroalimenta. Assim, o primeiro retoma o que, desde o in\u00edcio da reuni\u00e3o, gostaria de argumentar, que \u00e9 a Big Science e a ci\u00eancia com \u201cC\u201d. Um terceiro colega concorda e afirma que o interessante \u00e9 a forma como essas quest\u00f5es se formam e que, de posse do conhecimento, podemos nos deslocar melhor na rede. O primeiro colega retoma a Stuart Hall e nos atenta para a import\u00e2ncia de se conhecer o micro e o macro no \u00e2mbito da pesquisa cient\u00edifica, colaborando com a forma\u00e7\u00e3o de nossos pensamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao nos encaminharmos para o fim do nosso encontro, muitos fatores ainda restavam ser discutidos, como os jogos de poder, as hierarquias, as condi\u00e7\u00f5es financeiras, que podem atuar no processo de exclus\u00e3o de um pesquisador. Assim, quem pode mais \u00e9 quem \u00e9 o mais citado nos referenciais bibliogr\u00e1ficos, o que mais se aproxima em capital simb\u00f3lico e nesse processo a cultura se institui em hierarquias, por isso \u00e9 importante nos atentarmos aos cap\u00edtulos finais dessa obra que tamb\u00e9m ir\u00e1 compor essa se\u00e7\u00e3o da revista, partindo do relato de um de meus colegas. Fiquem atentos!<\/p>\n\n\n\n<p>Neste patamar, ap\u00f3s essa enriquecedora discuss\u00e3o, o professor nos questiona e eu volto esse questionamento a voc\u00ea, caro leitor: sobre o relativismo de Latour e a inscri\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, voc\u00ea saberia se posicionar?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>FOUCAULT, M. <strong>A Ordem do Discurso<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1996.<\/p>\n\n\n\n<p>LATOUR, Bruno. Give Me a Laboratory and I will Raise the World. In: KNORR-CETINA, Karin D.; MULKAY, Michael. (ed.) <strong>Science Observed<\/strong>: Perspectives on the Social Study of Science. Londres: SAGE, 1983. p. 141-170.<br>LATOUR, B.; WOOLGAR, S. <strong>A vida de laborat\u00f3rio<\/strong>: a produ\u00e7\u00e3o dos fatos cient\u00edficos. Trad. Angela Ramalho Vianna. Rio de Janeiro: Relume Dumar\u00e1, 1997.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o Em meio ao calor de novembro, no ano de 2021, o sol raiando \u00e0s 5:20 da matina, acordei para realizar minhas tarefas e poder chegar ao encontro do Grupo dos Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es, carinhosamente, GECCE, com a mente limpa e sem preocupa\u00e7\u00f5es. \u00c0s 8:30, estava l\u00e1 conversando com nosso mentor [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":251,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[10,73],"class_list":["post-250","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-escrutinios","tag-escrutinios-2","tag-latour"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/250","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=250"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/250\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":253,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/250\/revisions\/253"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/251"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=250"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=250"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=250"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}