{"id":237,"date":"2022-09-23T14:50:04","date_gmt":"2022-09-23T17:50:04","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/?p=237"},"modified":"2022-09-23T14:59:08","modified_gmt":"2022-09-23T17:59:08","slug":"em-que-areias-movedicas-nos-atolamos-em-conjunto-adversarios-activos-e-espectadores-perigosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/escrutinios\/2022\/09\/23\/em-que-areias-movedicas-nos-atolamos-em-conjunto-adversarios-activos-e-espectadores-perigosos\/","title":{"rendered":"\u201cEm que areias movedi\u00e7as nos atolamos em conjunto, advers\u00e1rios activos e espectadores perigosos?\u201d"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDois inimigos brandem os seus varapaus, em luta sobre as areias movedi\u00e7as. Atento \u00e0s t\u00e1cticas m\u00fatuas, cada qual responde golpe a golpe e replica com uma esquiva. Fora do cen\u00e1rio [&#8230;], observamos [&#8230;] a simetria dos gestos ao longo do tempo: que espet\u00e1culo magn\u00edfico e banal\u201d (SERRES, [1990], p. 11). Essa descri\u00e7\u00e3o do quadro \u201cDuelo a Garrotazos\u201d de Francisco de Goya abre o livro \u201cO contrato natural\u201d, de Michel Serres. A pintura \u00e9 uma imagem metaf\u00f3rica que se aplica \u00e0 forma como o autor pensa a guerra como poderosa for\u00e7a motriz para a a\u00e7\u00e3o humana. Se o conjunto dos seus escritos permite depreender o quanto considera problem\u00e1tico o modo como os seres humanos pactuam suas a\u00e7\u00f5es coletivas, neste livro nos leva a considerar como a rela\u00e7\u00e3o com a natureza precisa tamb\u00e9m ser posta em outros termos. A obra convida \u00e0 reflex\u00e3o de como o mundo ocidental moderno se afirma a partir da ideia de um contrato social, sendo que, valendo-se de v\u00e1rios pensadores contratualistas, a lei e o direito s\u00e3o tomados como forma de estipular regras e normas b\u00e1sicas para o viver humano. Serres afirma, no entanto, que a natureza ficou de fora deste contrato \u2013 aparecendo nele apenas como propriedade. Sua grande contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 convidar \u00e0 reflex\u00e3o sobre que tipo de controle deveria ser imposto a quem acredita poder controlar a natureza (SERRES, 2013).<\/p>\n\n\n\n<p>O livro se divide em quatro cap\u00edtulos, cada um deles com subse\u00e7\u00f5es \u2013 podendo estar, em alguns momentos, em uma sequ\u00eancia de exposi\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, ou se apresentar em um estilo que se aproxima mais do estilo afor\u00edstico. Marcado por forte densidade filos\u00f3fica e vasto conhecimento sobre o pensamento cl\u00e1ssico e moderno, procura discutir como conhecimento e norma jur\u00eddica se constitu\u00edram em parametrizadores da a\u00e7\u00e3o humana em sociedade. Sociedade essa que parece ter se esquecido que est\u00e1 posta em meio \u00e0s condi\u00e7\u00f5es naturais do planeta \u2013 n\u00e3o basta ent\u00e3o cessar a <em>guerra de todos contra todos <\/em>(como queria Hobbes), \u00e9 preciso ultrapassar a ideia de que a natureza \u00e9 um inimigo a ser superado. Este escrut\u00ednio ir\u00e1 se ocupar mais acerca das discuss\u00f5es propostas nos cap\u00edtulos 1 e 2 (Guerra, paz e Contrato natural) e em seguida se ocupar\u00e1 das discuss\u00f5es ocorridas no \u00e2mbito do grupo no encontro proposto para a discuss\u00e3o da obra.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Guerra, paz.&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O sugestivo t\u00edtulo do primeiro cap\u00edtulo de o \u201cContrato natural\u201d encaminha o leitor para uma reflex\u00e3o sobre a agressividade humana. Partindo do quadro de Goya, Serres explora a ideia de que os opositores se afundam na areia, levando ao inevit\u00e1vel racioc\u00ednio de que \u00e9 imposs\u00edvel que tais eventos possam produzir vencedores, j\u00e1 que em tempos belicistas as perdas s\u00e3o para todos \u2013 inclusive para os que acreditam poder se manter como meros observadores, ocupados em escolher um lado ou manter uma atitude c\u00ednica de desinteresse. No entanto, como deixar de considerar \u201c[\u2026] o mundo das pr\u00f3prias coisas, a areia movedi\u00e7a, a \u00e1gua, a lama, os cani\u00e7os do p\u00e2ntano? Em que areias movedi\u00e7as nos atolamos em conjunto, advers\u00e1rios ativos e espectadores perigosos?\u201d (SERRES, [1990], p. 12). Assim como Aquiles, que, n\u00e3o contente em combater seus semelhantes, em dado momento toma a natureza como inimiga, a humanidade segue impass\u00edvel no combate a si mesma e na devasta\u00e7\u00e3o do mundo a sua volta. E nesse processo<\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026) a lama engole os contendores; o rio amea\u00e7a o combatente: a terra, as \u00e1guas e o clima, o mundo silencioso, as coisas mais t\u00e1citas a\u00ed colocadas outrora como cen\u00e1rio em redor de representa\u00e7\u00f5es vulgares, tudo isso, que nunca interessou a ningu\u00e9m, brutalmente e sem dizer \u00e1gua-vai, se interp\u00f5e a partir de agora entre as nossas manig\u00e2ncias. Irrompe na nossa cultura aquilo de que nunca t\u00ednhamos formado sen\u00e3o uma ideia local e vaga, cosm\u00e9tica \u2013 a natureza (SERRES, [1990], p. 14).<\/p>\n\n\n\n<p>Tais reflex\u00f5es, que remetem ao desenvolvimento de uma consci\u00eancia para al\u00e9m do humano, inspiram autores que muito t\u00eam contribu\u00eddo para pensar as rela\u00e7\u00f5es sobre uma natureza cada vez mais afetada pelo antropoceno (LATOUR, 2020; STENGERS, 2015). O cap\u00edtulo segue abordando as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, j\u00e1 percept\u00edveis no in\u00edcio dos anos de 1990. Para ele vale mais a aposta de que nada se perde ao se desenvolver uma rela\u00e7\u00e3o de proximidade \u00e0 natureza. O contr\u00e1rio disso seria um di\u00e1logo mon\u00f3tono de agress\u00f5es m\u00fatuas entre seres humanos que se negam ao esfor\u00e7o de decifrar as mensagens enviadas pelo planeta. Em vez de negociar a paz, preocupam-se muito mais em estabelecer os termos da guerra. E, assim, tornam imposs\u00edvel o di\u00e1logo. E, como os punhos n\u00e3o d\u00e3o conta de seu prop\u00f3sito, valem-se de pedras, criam instrumentos de ferro, \u201c[\u2026] descobrem a p\u00f3lvora, [\u2026] [buscam] aliados, concentram-se em ex\u00e9rcitos gigantes, multiplicam a sua frente de batalha, no mar, na terra e nos ares, dominam a for\u00e7a dos \u00e1tomos e transformam-na at\u00e9 as estrelas\u201d (SERRES, [1990], p. 23). Uma vez estabelecidos os sacrif\u00edcios de sangue, l\u00e1grimas e perdas materiais, escamoteiam-se as afli\u00e7\u00f5es impostas \u00e0 natureza. Serres afirma que as guerras subjetivas infligem uma viol\u00eancia objetiva ao planeta \u2013 teatro das hostilidades humanas. Este \u00e9 o programa resumido do drama da hist\u00f3ria. O cen\u00e1rio da guerra como motor da hist\u00f3ria se imp\u00f5e e o sentido da marcha da humanidade pode ser encontrado numa rela\u00e7\u00e3o estreita entre a guerra e o direito \u2013 a norma regulamenta e justifica as hostilidades. O pr\u00f3prio contrato social surge da f\u00e1bula da guerra de todos contra todos. O equ\u00edvoco de Hobbes estaria em n\u00e3o considerar que \u201c[\u2026] se todos se batem contra todos, n\u00e3o existe um estado de guerra mas de viol\u00eancia, uma crise pura e desencadeada, sem paragem poss\u00edvel, amea\u00e7ando de extin\u00e7\u00e3o a popula\u00e7\u00e3o que nela se empenha. De facto e por direito, a pr\u00f3pria guerra protege-nos contra a reprodu\u00e7\u00e3o indefinida de viol\u00eancia\u201d (SERRES, [1990], p. 30). E, se o contrato social impediu a guerra de todos contra todos, um novo direito dever\u00e1 limitar a \u201c[\u2026] guerra de todos contra tudo\u201d (SERRES, [1990], p. 31).<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contrato natural.&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Serres abre o segundo cap\u00edtulo refletindo sobre as concep\u00e7\u00f5es de tempo natural e tempo hist\u00f3rico \u2013 e de como, no mundo contempor\u00e2neo, \u00e9 cada vez mais urgente pensar a indissociabilidade destas duas formas de conceber o devir. Por ter abandonado a sabedoria ancestral, tais como comunidades de camponeses e marinheiros, sempre expostas aos rigores do espa\u00e7o aberto das intemp\u00e9ries que regem o equil\u00edbrio do planeta, vive-se hoje na ilus\u00f3ria seguran\u00e7a de espa\u00e7os internos, com a maior parte da humanidade ignorando o lastro que irremediavelmente a liga ao mundo natural. Imersa em uma artificialidade est\u00e9ril, a humanidade parece ter rompido os la\u00e7os que a ligavam com \u201c[\u2026] o mundo: transform\u00e1mos as coisas em <em>f\u00e9tiches<\/em> ou mercadorias, em apostas dos nossos jogos de estrat\u00e9gia; e as nossas filosofias, acosmistas, sem cosmos, desde h\u00e1 quase meio s\u00e9culo, falam apenas de linguagem ou de pol\u00edtica, de escrita ou de l\u00f3gica\u201d (SERRES, [1990], p. 52). O autor prossegue afirmando que, por viver no tempo curto de suas realiza\u00e7\u00f5es, o ser humano parece ter perdido a conex\u00e3o com a imensid\u00e3o que comp\u00f5e o tempo longo do planeta e seus processos. \u00c9 como se houvessem sido erradicados conhecimentos e mem\u00f3rias ancestrais, que at\u00e9 bem pouco tempo se mantinham preservados em culturas e tradi\u00e7\u00f5es milenares, que ora morrem ou est\u00e3o prestes a desaparecer por conta do avan\u00e7o do pensamento moderno. Sendo assim, as solu\u00e7\u00f5es propostas, tais como o reflorestamento e o abandono de combust\u00edveis f\u00f3sseis, ainda est\u00e3o ligadas ao paradigma da cultura do tempo breve, apresentando-se como paliativos, incapazes de alterar a rota de colis\u00e3o com o desastre ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto porque a modernidade \u00e9 fundada em termos de um Contrato Social que imagina apenas a humanidade como sujeito de direitos. O Direito, permeado por uma positividade oriunda do conhecimento cient\u00edfico, desconsidera o n\u00e3o humano e deixa \u201c[\u2026] fora do jogo o mundo, enorme pan\u00f3plia de coisas reduzidas ao estatuto de objetos passivos de apropria\u00e7\u00e3o. Raz\u00e3o humana maior, natureza exterior menor. O sujeito do conhecimento e da a\u00e7\u00e3o beneficia de todos os direitos e os seus objetos de nenhum\u201d (SERRES, [1990], p. 62). A epistemologia e a metaf\u00edsica da modernidade n\u00e3o conferem \u00e0 natureza condi\u00e7\u00f5es de participar de nenhum tipo de parlamento \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 novidade, j\u00e1 que muitos humanos, por quest\u00f5es \u00e9tnico-raciais, de classe e g\u00eanero ainda sofrem o ex\u00edlio da diferen\u00e7a. De qualquer modo, Serres prop\u00f5e a reflex\u00e3o do qu\u00e3o perigosa se configura tal pr\u00e1tica e racioc\u00ednio, pois o que seria a objetifica\u00e7\u00e3o da natureza \u2013 com todas as suas implica\u00e7\u00f5es \u2013 sen\u00e3o tamb\u00e9m a objetifica\u00e7\u00e3o do que h\u00e1 de natural no humano? Essa racionalidade trouxe n\u00edveis alt\u00edssimos de uma voragem parasit\u00e1ria para a rela\u00e7\u00e3o humano x natureza. Se, por um lado, o arcabou\u00e7o jur\u00eddico surgido na modernidade permitiu \u201c[\u2026] limitar o parasitismo abusivo entre os homens, [\u2026] n\u00e3o fala dessa mesma ac\u00e7\u00e3o sobre as coisas\u201d (SERRES, [1990], p. 64).&nbsp; Para superar a condi\u00e7\u00e3o de parasita, prop\u00f5e-se um retorno \u00e0 natureza, onde \u00e0s conquistas de um contrato social somar-se-ia<\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026) a celebra\u00e7\u00e3o de um contrato natural de simbiose e de reciprocidade em que a nossa rela\u00e7\u00e3o com as coisas permitiria o dom\u00ednio e a possess\u00e3o pela escuta admirativa, a reciprocidade, a contempla\u00e7\u00e3o e respeito, em que o conhecimento n\u00e3o suporia j\u00e1 a propriedade, nem a acc\u00e3o de dom\u00ednio, nem estes os seus resultados ou condi\u00e7\u00f5es estercor\u00e1rias\u201d (SERRES, [1990], p. 65).<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m do conhecimento cient\u00edfico, movimentos oriundos na teologia j\u00e1 propunham uma escuta ativa da natureza (BOFF, 2004). Mas, no contexto de um mundo contratualista, como se apropriar da linguagem do natural a fim de firmar seu direito em um contrato? Serres afirma que a l\u00f3gica poderia ser a mesma que permitiu a cria\u00e7\u00e3o do contrato social como mito fundante do mundo moderno: ele tamb\u00e9m nunca foi escrito ou firmado, mas proposto em termos de um conceito mobilizador. Nisso a epistemologia moderna pode contribuir: existe conhecimento cient\u00edfico suficiente para que se possa pensar o natural \u201c[\u2026] em termos de for\u00e7as, de liga\u00e7\u00f5es e de intera\u00e7\u00f5es, e isto basta para celebrar um contrato\u201d (SERRES, [1990], p. 67-68).<\/p>\n\n\n\n<p>Serres aponta ser preciso reinventar a forma de praticar a pol\u00edtica e o governo. Retomando Plat\u00e3o e Homero, argumenta por meio da met\u00e1fora do barco: negociar como estar neste barco\/planeta \u00e9 necess\u00e1rio. Mas n\u00e3o se pode fazer pol\u00edtica abstraindo o mar \u2013 no caso, a natureza. A hist\u00f3ria da pol\u00edtica tem sido a encena\u00e7\u00e3o da Il\u00edada \u2013 isto \u00e9, a do confronto entre humanos. Somente ap\u00f3s a segunda grande guerra, os atores perceberam (nem todos) que o cen\u00e1rio \u00e9 o da Odisseia \u2013 um navegar impreciso. Mais do que tomar a natureza por monstros, procelas e sereias, Serres argumenta que \u00e9 preciso considerar sua for\u00e7a e, com ela celebrar armist\u00edcio \u2013 o contrato natural. A nova pr\u00e1tica de pol\u00edtica e de governo n\u00e3o poder\u00e1 mais se exercer sem a jun\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria entre as ci\u00eancias humanas e as ci\u00eancias da natureza. Tal esfor\u00e7o permitir\u00e1 alcan\u00e7ar a \u201cTerra real, a fisiopol\u00edtica, no sentido em que as institui\u00e7\u00f5es onde se situam os grupos depender\u00e3o de futuro de contratos expl\u00edcitos que celebrar\u00e3o com o mundo natural, nunca mais como nosso bem, nem privado nem comum, mas a partir de hoje como nosso sibita\u201d (SERRES, [1990], p. 74).<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Discuss\u00e3o do GECCE.&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Segue agora uma tentativa de rastreio das discuss\u00f5es oportunizadas no grupo pela leitura do texto de Serres. Partirei do recurso etnogr\u00e1fico orientado pelo que se entende por observa\u00e7\u00e3o participante, que \u201c[\u2026] obriga seus praticantes a experimentar, tanto em termos f\u00edsicos quanto intelectuais, as vicissitudes da tradu\u00e7\u00e3o. Ela requer um \u00e1rduo aprendizado lingu\u00edstico, algum grau de envolvimento direto e conversa\u00e7\u00e3o, e frequentemente um \u2018desarranjo\u2019 das expectativas pessoais e culturais\u201d (CLIFFORD, 2008, p. 20). Claro est\u00e1 que tal expediente sempre estar\u00e1 prejudicado pelo fato de que, em virtude do fen\u00f4meno pand\u00eamico vivenciado desde 2020, as reuni\u00f5es do GECCE t\u00eam sido mediadas por meios eletr\u00f4nicos, que, embora permitam retomar a grava\u00e7\u00e3o dos encontros a fim de verificar ideias, falas e entona\u00e7\u00f5es, sempre esbarram em dificuldades, tais como a limita\u00e7\u00e3o da intera\u00e7\u00e3o face a face, instabilidades t\u00e9cnicas com rela\u00e7\u00e3o ao sinal de internet e, claro, as disposi\u00e7\u00f5es individuais frente a uma c\u00e2mera que ir\u00e1 registrar todas as express\u00f5es praticadas diante dela. Para al\u00e9m de tais quest\u00f5es, a antropologia tamb\u00e9m alerta para o mito da representa\u00e7\u00e3o do real em sua totalidade. As vertentes atuais apontam que o trabalho etnogr\u00e1fico ser\u00e1 sempre um decodificar e recodificar cujo processo n\u00e3o se d\u00e1 de forma mec\u00e2nica. Logo, embora tal afirma\u00e7\u00e3o seja pol\u00eamica, beira a constru\u00e7\u00e3o de narrativas ficcionais. E, mesmo que o termo narrativa tenha adquirido contornos que v\u00eam sendo tomados como o oposto da verdade, \u00e9 preciso lembrar seu ben\u00e9fico sentido de que as verdades, mesmo que cient\u00edficas, sempre possuem certa parcialidade proveniente de seu vi\u00e9s cultural e hist\u00f3rico. Tem-se ent\u00e3o que as narrativas etnogr\u00e1ficas podem ser adequadamente chamadas de fic\u00e7\u00e3o, como artesanato cuidadosamente modelado, para preservar o ad\u00e1gio, t\u00e3o \u00fatil \u00e0 ci\u00eancia, de que todas as verdades s\u00e3o constru\u00eddas (CLIFFORD, 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 reuni\u00e3o do GECCE, pode-se dizer que o grande pano de fundo das discuss\u00f5es foi a quest\u00e3o ambiental \u2013 sejam os regimes de chuva, vento e abastecimento de \u00e1gua no norte do Paran\u00e1 e interior de S\u00e3o Paulo, seja a explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria de biomas do Mato Grosso. Chamaram bastante a aten\u00e7\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es da explora\u00e7\u00e3o capitalista praticada por empresas chinesas e brasileiras da regi\u00e3o de Mo\u00e7ambique. A degrada\u00e7\u00e3o da natureza exp\u00f4s o pa\u00eds aos perigos de ciclones que causam grandes preju\u00edzos em termos materiais e de vidas humanas. Outro fato que merece registro se d\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ind\u00fastria do carv\u00e3o, que, ap\u00f3s d\u00e9cadas de extrativismo irrespons\u00e1vel, deixa o pa\u00eds africano sem maiores condi\u00e7\u00f5es para que aquela atividade econ\u00f4mica seja substitu\u00edda, e com boa parte de sua floresta destru\u00edda. A partir de Serres, mas tamb\u00e9m de autores como Latour, Stengers e outros, viu-se que pr\u00e1ticas parasit\u00e1rias que se preocupam apenas com resultados econ\u00f4micos n\u00e3o s\u00e3o privil\u00e9gio do capitalismo central \u2013 o que torna urgente a emerg\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es que permitam finalmente a constru\u00e7\u00e3o de um Contrato Natural. O que s\u00f3 aumenta a responsabilidade da produ\u00e7\u00e3o de material acad\u00eamico que permita tal reflex\u00e3o \u2013 um grupo de estudos culturais da ci\u00eancia e das educa\u00e7\u00f5es tem um compromisso que est\u00e1 para al\u00e9m da simples produ\u00e7\u00e3o de teses e disserta\u00e7\u00f5es. Em seu horizonte de trabalho n\u00e3o pode perder de vista a necess\u00e1ria reflex\u00e3o do que Serres chama de fragilidade de um existir apequenado diante da enormidade de uma Natureza. Esta que, duramente recalcada pela alian\u00e7a entre voragem capitalista e produ\u00e7\u00e3o tecnocient\u00edfica, retorna n\u00e3o de forma vingativa, mas apresentando os efeitos das constantes agress\u00f5es sofridas.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora toda a discuss\u00e3o tenha se encaminhado no sentido de desenvolver o tensionamento \u00e0s condi\u00e7\u00f5es apresentadas acima, n\u00e3o houve d\u00favidas acerca da dificuldade de articular qualquer tipo de milit\u00e2ncia a partir de autores como Serres e Latour \u2013 as in\u00fameras contradi\u00e7\u00f5es apontadas por eles ao pensamento cr\u00edtico rompem com qualquer possibilidade de narrativas de car\u00e1ter teleol\u00f3gico emancipat\u00f3rio. Para Serres, o agir humano \u00e9 mesti\u00e7o e imbricado, n\u00e3o podendo ser tomado apenas sob um \u00fanico ponto de vista. Seu pensamento, ao recusar o caminho f\u00e1cil das autoestradas, sugere a deriva por outras sendas e caminhos que n\u00e3o os j\u00e1 trilhados ou conhecidos. As respostas sempre fogem, porque ainda est\u00e3o por ser constru\u00eddas \u2013 o que se tem s\u00e3o \u201cquase respostas\u201d postas a partir de redes de pensamento que se sobrep\u00f5em e n\u00e3o permitem que se produza a s\u00edntese dial\u00e9tica. No entanto, imp\u00f5em a urg\u00eancia de novas formas de interpretar dados que a todo momento est\u00e3o a provocar a intelig\u00eancia e capacidade humana de representar o real \u2013 em termos atuais, a calamidade do antropoceno.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed a import\u00e2ncia de um pensamento que se apresenta de forma l\u00edrica, mas n\u00e3o indecifr\u00e1vel. Livre da preocupa\u00e7\u00e3o linear de apresentar s\u00ednteses de entendimento, pode apontar contradi\u00e7\u00f5es e apresentar narrativas e disputas \u2013 sem deixar de recorrer \u00e0 transcend\u00eancia de inspira\u00e7\u00e3o religiosa ou a sentimentos como o amor como norteadores da reflex\u00e3o. Apesar das controv\u00e9rsias advindas da tentativa do humano de lidar com as disputas mediadas pela ci\u00eancia e pelo direito, o devir ainda se configura em aberto. Uma humanidade que se viu lutando contra si e contra a natureza venceu o mundo. Por\u00e9m vencido, o mundo vence \u2013 pois obriga a rever a rela\u00e7\u00e3o estabelecida com ele: \u201c[\u2026] o pr\u00f3prio mundo assinou em conjunto com a sua assembleia, mesmo conflituosa, um contrato natural, oferecendo a raz\u00e3o para a paz e ao mesmo tempo para a transcend\u00eancia procurada\u201d (SERRES, [1990], p. 62).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>BOFF, Leonardo. <strong>Ecologia: <\/strong>grito da terra, grito dos pobres. Rio de Janeiro: Sextante, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p>CLIFFORD, James. <strong>A experi\u00eancia etnogr\u00e1fica<\/strong>: antropologia e literatura no s\u00e9culo XX. 3 ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>CLIFFORD, James. <em>Introdu\u00e7\u00e3o: verdades parciais<\/em>. In: CLIFFORD, James; MARCUS, George. <strong>A escrita da cultura<\/strong>: po\u00e9tica e pol\u00edtica da etnografia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; Pap\u00e9is Selvagens, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>LATOUR, Bruno. <strong>Onde aterrar? <\/strong>Como se orientar politicamente no Antropoceno. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>MUSEO DEL PRADO (Espanha). <strong>Duelo a garrotazos<\/strong>. Goya y Lucientes, Francisco de. Madri, [s.d.]. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.museodelprado.es\/coleccion\/obra-de-arte\/duelo-a-garrotazos\/2f2f2e12-ed09-45dd-805d-f38162c5beaf?searchid=bb4d5abf-0666-b21e-798e-b4ff205523a0. Acesso em 29 out. 2021<\/p>\n\n\n\n<p>SERRES, Michel. <strong>O contrato natural<\/strong>. Lisboa: Instituto Piaget, [1990].<\/p>\n\n\n\n<p>SERRES, Michel. <strong>Michel Serres contrato natural<\/strong>. V\u00eddeo (8,30 min.). Publicado pelo canal ITEC BRASIL. 15 mai. 2013. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=p19RdK0WF6M. Acesso em 1 out. 2021.<br>STENGERS, Isabelle. <strong>No tempo das cat\u00e1strofes<\/strong>: resistir \u00e0 barb\u00e1rie que se aproxima. S\u00e3o Paulo: Cosac- Naify, 2015.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><sup>2<\/sup>A obra lida foi editada em Portugal. Logo, mesmo soando estranho ao leitor brasileiro, as cita\u00e7\u00f5es diretas seguir\u00e3o, de acordo com as regras da ABNT, as express\u00f5es idiom\u00e1ticas e as regras ortogr\u00e1ficas vigentes naquele pa\u00eds \u00e0 \u00e9poca da publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>3<\/sup>Originalmente pintada em um painel na casa do artista espanhol, a obra hoje se encontra no Museu do Prado (MUSEU DO PRADO, 2021). Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.museodelprado.es\/coleccion\/obra-de-arte\/duelo-a-garrotazos\/2f2f2e12-ed09-45dd-805d-f38162c5beaf<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o \u201cDois inimigos brandem os seus varapaus, em luta sobre as areias movedi\u00e7as. Atento \u00e0s t\u00e1cticas m\u00fatuas, cada qual responde golpe a golpe e replica com uma esquiva. Fora do cen\u00e1rio [&#8230;], observamos [&#8230;] a simetria dos gestos ao longo do tempo: que espet\u00e1culo magn\u00edfico e banal\u201d (SERRES, [1990], p. 11). 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