{"id":199,"date":"2022-09-22T10:23:41","date_gmt":"2022-09-22T13:23:41","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/?p=199"},"modified":"2022-09-22T10:23:42","modified_gmt":"2022-09-22T13:23:42","slug":"retornando-a-base","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/escrutinios\/2022\/09\/22\/retornando-a-base\/","title":{"rendered":"Retornando \u00e0 base"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A estrela desta manh\u00e3 de quarta-feira (18 de agosto de 2021) foi a obra <em>G\u00eanese e desenvolvimento de um fato cient\u00edfico<\/em>, de Ludwik&nbsp;Fleck. Na semana anterior, j\u00e1 trabalhamos com uma parte dessa obra, ent\u00e3o esse escrut\u00ednio traz alguns pontos da discuss\u00e3o anterior que foram recuperados ao longo da manh\u00e3 e tamb\u00e9m aquilo que evidenciamos a partir da leitura dos cap\u00edtulos 2, 3 e 4, respectivamente intitulados <em>Consequ\u00eancias para a teoria do conhecimento da hist\u00f3ria apresentada de um conceito<\/em>, <em>Sobre a rea\u00e7\u00e3o de Wassermann e sua descoberta<\/em>, <em>Aspectos epistemol\u00f3gicos da hist\u00f3ria da rea\u00e7\u00e3o de Wassermann<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A leitura de Fleck nos ajuda a retomar uma perspectiva que deu in\u00edcio \u00e0s discuss\u00f5es de nosso grupo de estudos, dentro dos estudos de ci\u00eancias, uma vez que atualmente o grupo est\u00e1 bastante diversificado e se estende para muitas \u00e1reas. As discuss\u00f5es de m\u00eddia, por exemplo, ganharam um espa\u00e7o relativamente importante dentro do grupo e alguns autores que n\u00e3o escrevem diretamente sobre ci\u00eancias acabaram assumindo tamb\u00e9m posi\u00e7\u00f5es importantes para n\u00f3s, o que vai nos deslocando daquela trajet\u00f3ria inicial.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, n\u00e3o pense que esse desvio nos \u00e9 inc\u00f4modo, muito pelo contr\u00e1rio. Mas, com a chegada de novos integrantes ao grupo, parece-nos interessante recuperar um pouco as leituras que tratam temas e assuntos ligados \u00e0 ci\u00eancia que retomam aspectos que est\u00e3o na base de nossos interesses, inclusive como forma\u00e7\u00e3o profissional, porque nossa carreira acad\u00eamica est\u00e1 articulada a essas quest\u00f5es da ci\u00eancia (Qu\u00edmica, F\u00edsica, Biologia).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da manh\u00e3, os colegas foram expondo os pontos do texto que lhes foram impactantes, trazendo conceitos-chave da obra, destacando fragmentos fundamentais para entender o pensamento de Fleck e alguns conceitos como estilo de pensamento, coletivo de pensamento, c\u00edrculos exot\u00e9ricos e esot\u00e9ricos, dentre outras quest\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente destacou-se a cr\u00edtica trazida pelo autor, a ideia de que o desenvolvimento dos fatos cient\u00edficos estivesse dependente de uma rela\u00e7\u00e3o unilateral entre um sujeito dominante e um mundo passivo, sendo essa uma cr\u00edtica revolucion\u00e1ria trazida por Fleck j\u00e1 em 1935, posto que outros autores s\u00f3 vieram a discutir essa quest\u00e3o nos anos 50.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o autor, o conhecimento \u00e9 visto como um processo resultante de uma atividade social, n\u00e3o como um processo individual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os pensamentos circulam de indiv\u00edduo a indiv\u00edduo, sempre com alguma modifica\u00e7\u00e3o, pois outros indiv\u00edduos fazem outras associa\u00e7\u00f5es. A rigor, o receptor nunca entende um pensamento da maneira como o emissor quer que seja entendido. Ap\u00f3s uma s\u00e9rie dessas peregrina\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sobra praticamente nada do conte\u00fado original. De quem \u00e9 o pensamento que continua circulando? Nada mais \u00e9 do que um pensamento coletivo, um pensamento que n\u00e3o pertence a nenhum indiv\u00edduo (FLECK, 2010, p. 85).<\/p>\n\n\n\n<p>A origem do pensamento de um indiv\u00edduo n\u00e3o est\u00e1 nele, mas no meio social em que \u201cvive, na atmosfera social na qual respira, e ele n\u00e3o tem como pensar de outra maneira a n\u00e3o ser daquela que resulta necessariamente das influ\u00eancias do meio social que se concentram no seu c\u00e9rebro\u201d (FLECK, 2010, p. 90). Toda e qualquer ideia \u00e9 um construto hist\u00f3rico e social.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa perspectiva, o autor utiliza o termo <em>coletivo de pensamento<\/em> para designar uma comunidade de pessoas que trocam pensamentos\/ideias ou que influenciam reciprocamente os pensamentos, e o termo <em>estilo de pensamento<\/em>, que designa os pressupostos de pensamento sobre os quais o coletivo constr\u00f3i seu edif\u00edcio de saber. Cada uma das pessoas que comp\u00f5em um coletivo de pensamento \u00e9 tida como uma portadora do desenvolvimento hist\u00f3rico de uma \u00e1rea de pensamento, de um determinado estado do saber e da cultura, ou seja, de um estilo espec\u00edfico de pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, compreendemos que dentro de cada coletivo de pensamento, de cada comunidade, surgem fugas a um estilo de pensamento, isto \u00e9, n\u00e3o existe apenas um estilo de pensamento. Os estilos s\u00e3o fluidos e din\u00e2micos, passam por um fortalecimento social e s\u00e3o desenvolvidos atrav\u00e9s de gera\u00e7\u00f5es. Mas alguma coisa de cada estilo de pensamento sempre permanece entre os diferentes estilos, n\u00e3o havendo uma <em>impermeabilidade<\/em> entre eles, mas sim uma dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o entre dois diferentes paradigmas, o que Fleck denomina de <em>incomensurabilidade<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, um coletivo de pensamento n\u00e3o \u00e9 frouxo, mas seus conceitos se transportam para todo lugar, h\u00e1 um fluxo de pensamentos entre diferentes coletivos, as ideias acabam sofrendo algumas modifica\u00e7\u00f5es para que sejam aceitas por outro coletivo de pensamento. Os estilos de pensamento s\u00e3o construtos (sociais e hist\u00f3ricos) ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 como limit\u00e1-los. Isso nos auxilia de um ponto de vista metodol\u00f3gico, colocando fim \u00e0 pretens\u00e3o de encontrar a ess\u00eancia das coisas ou de rastrear tudo sobre um determinado assunto, porque isso se torna algo imposs\u00edvel sob uma perspectiva pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca um fato \u00e9 completamente independente de outros: ou se manifestam como um conjunto mais ou menos coeso do sinal particular, ou como sistema do conhecimento que obedece a leis pr\u00f3prias. Por isso, cada fato repercute retroativamente em outros, e cada mudan\u00e7a, cada descoberta exercem um efeito em um campo que, na verdade, n\u00e3o tem limites: um saber desenvolvido, elaborado na forma de um sistema harmonioso, possui a caracter\u00edstica de cada fato novo alterar todos os anteriores, por menor que seja essa altera\u00e7\u00e3o. Nesse caso, cada descoberta \u00e9, na verdade, a recria\u00e7\u00e3o do mundo inteiro de um coletivo de pensamento (FLECK, 2010, p. 153).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a\u00ed que entra um conceito fundamental para a compreens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de poder na ci\u00eancia, a <em>coer\u00e7\u00e3o<\/em>, principalmente quando se fala em estilo de pensamento, porque para Fleck o estilo de pensamento \u00e9 um tipo de coer\u00e7\u00e3o que pode delimitar o modo de pensar dos sujeitos, ocasionando a exclus\u00e3o ou a criminaliza\u00e7\u00e3o daqueles que n\u00e3o participam da atmosfera coletiva. Deste modo, somente quando a coer\u00e7\u00e3o exercida no pensamento se desestabiliza, gra\u00e7as ao tr\u00e1fego intercoletivo de pensamentos, \u00e9 que se abre o caminho para novas \u201cdescobertas\u201d cient\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto discutido durante a manh\u00e3 foi o aprendizado proporcionado pelos erros e insucessos cient\u00edficos \u00e0 medida que s\u00e3o eles parte importante da constru\u00e7\u00e3o de um fato cient\u00edfico, porque muitas vezes aprendemos mais analisando os erros do que os acertos. Al\u00e9m disso, um fato\/a verdade pode ser m\u00f3vel, mas ele\/ela n\u00e3o emerge instantaneamente, \u00e9 o produto final de <em>processos<\/em> cient\u00edficos. A verdade \u00e9 um \u201cacontecimento no corte longitudinal no contexto do momento: coer\u00e7\u00e3o do pensamento conforme ao estilo\u201d (FLECK, 2010, p.151).<\/p>\n\n\n\n<p>Se assumirmos por fato cient\u00edfico apenas aquilo que \u00e9 firme, imut\u00e1vel e comprovado, ele existir\u00e1 somente na ci\u00eancia dos manuais, somente em um c\u00edrculo esot\u00e9rico de ci\u00eancia, praticada por um coletivo de pensamento bem restrito. \u00c0 vista disso, \u00e9 importante considerar a emerg\u00eancia das diferen\u00e7as, das ideias menos acabadas. Como exemplo disso, podemos considerar as diverg\u00eancias da qu\u00edmica coloidal em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qu\u00edmica cl\u00e1ssica, que, durante muito tempo, foram ignoradas ou buscou-se meios de purific\u00e1-las, mesmo sendo elas mais frequentes na natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, \u00e9 preciso fazer um esfor\u00e7o para enxergar o que est\u00e1 al\u00e9m daquilo que j\u00e1 \u00e9 internalizado pela ci\u00eancia, pois percebemos que temos uma tend\u00eancia a uma autorrefer\u00eancia \u00e0 pr\u00f3pria ci\u00eancia, a dar exemplos internalistas, porque n\u00e3o conhecemos exemplos para al\u00e9m disso. Fleck conecta a rea\u00e7\u00e3o de Wassermann a quest\u00f5es que entram na teia cultural, religiosa, social. Sempre temos algo a aprender quando avan\u00e7amos para outras \u00e1reas. \u00c9 preciso voltar o olhar para o modo como a qu\u00edmica se alastra por a\u00ed e se mistura com a est\u00e9tica, a beleza, a sensualidade ou a sa\u00fade. As ci\u00eancias persistem porque os estilos de pensamento n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1veis, e um conceito fica mais forte na medida em que ele se vasculariza pela teia social. Assim, quanto mais agenciamentos, vasculariza\u00e7\u00f5es, intera\u00e7\u00f5es ele fizer, mais forte, produtivo, inclusivo, dialogicisado ele ser\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancia<\/strong><br>FLECK, L. <strong>G\u00eanese e desenvolvimento de um fato cient\u00edfico<\/strong>. Belo Horizonte: Fabrefactum, 2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o A estrela desta manh\u00e3 de quarta-feira (18 de agosto de 2021) foi a obra G\u00eanese e desenvolvimento de um fato cient\u00edfico, de Ludwik&nbsp;Fleck. 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