{"id":187,"date":"2022-08-02T14:40:20","date_gmt":"2022-08-02T17:40:20","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/?p=187"},"modified":"2022-08-02T14:43:33","modified_gmt":"2022-08-02T17:43:33","slug":"obra-analisada-o-tempo-e-o-outro-como-a-antropologia-estabelece-seu-objeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/turismo-cultural\/2022\/08\/02\/obra-analisada-o-tempo-e-o-outro-como-a-antropologia-estabelece-seu-objeto\/","title":{"rendered":"Obra analisada: O tempo e o outro: como a antropologia estabelece seu objeto"},"content":{"rendered":"\n<p id=\"viewer-2eehq\">Publicada em 1983, a obra <em>O tempo e o outro<\/em> retoma discuss\u00f5es realizadas por Johannes Fabian, etn\u00f3grafo e historiador polon\u00eas, nos idos de 1960 e 1970, quanto a quest\u00f5es te\u00f3ricas e metodol\u00f3gicas da pr\u00e1tica antropol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aqg37\">Acompanhando as cr\u00edticas p\u00f3s-modernas nas Ci\u00eancias Sociais, ocorridas naquela \u00e9poca, em <em>O tempo e o outro<\/em>,<em> <\/em>Fabian problematiza formas pelas quais os antrop\u00f3logos utilizam do tempo para criar seus objetos de estudos: o outro. Segundo o autor, no intuito de reproduzir a l\u00f3gica das ci\u00eancias exatas, que desvincula o sujeito cognoscente do objeto a ser conhecido, a antropologia utiliza do tempo como recurso para dissociar e eliminar poss\u00edveis rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas entre o pesquisador e \u201cseus pesquisados\u201d, colocando-os em tempos distintos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5mb01\">Contrariando as rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas que perpassam o encontro etnogr\u00e1fico, o antrop\u00f3logo busca recursos de escrita que criam distanciamentos para com seus interlocutores, produzindo o que Fabian denomina de nega\u00e7\u00e3o da coetaneidade. Nesse movimento, a consequ\u00eancia \u00e9 a objetifica\u00e7\u00e3o dos sujeitos e a elimina\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo bem como a nega\u00e7\u00e3o de lugares de fala.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-q8l3\">Negar a rela\u00e7\u00e3o intersubjetiva entre pesquisador e interlocutores indica &#8220;uma persistente e sistem\u00e1tica tend\u00eancia em identificar o(s) referente(s) da antropologia em um Tempo que n\u00e3o o presente do produtor do discurso antropol\u00f3gico&#8221; (p.67). Assim, a pr\u00e1tica etnogr\u00e1fica se d\u00e1 em dois momentos distintos e contradit\u00f3rios. Primeiro, exige-se do antrop\u00f3logo uma aproxima\u00e7\u00e3o da alteridade; mas, em um segundo momento, ap\u00f3s passado o momento de imers\u00e3o em campo, exige-se a produ\u00e7\u00e3o textual que desencadeia no afastamento, no distanciamento e na nega\u00e7\u00e3o da coetaneidade vivenciada em campo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5lnpi\">Entre esses dois momentos, a experi\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica se desenvolve na nega\u00e7\u00e3o do passado da experi\u00eancia de campo. E, por mais que o pesquisador continue a ter contato com seus interlocutores, cria-se o ambiente de afastamento no momento de escrita.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3douo\">Nesse processo, o tempo passa a ser compreendido como linear, mas tamb\u00e9m como espacializado. Quanto mais distante temporalmente se coloca o outro, mas afastado espacialmente ele passa a ser compreendido e analisado. Essa pr\u00e1tica evidencia que &#8220;os esfor\u00e7os da antropologia em estabelecer rela\u00e7\u00f5es com o seu Outro por meio de mecanismos temporais sugeriram uma afirma\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a como <em>dist\u00e2ncia&#8221; <\/em>(p.52). O distanciamento, no diapas\u00e3o de teorias evolucionistas, estruturalistas e funcionalistas, por exemplo, tornou-se condi\u00e7\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o da objetividade etnogr\u00e1fica.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4fc6c\">Para Fabian, a nega\u00e7\u00e3o da coetaneidade e das rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas se d\u00e1, principalmente, em duas estrat\u00e9gias de uso do tempo. Um uso no qual o tempo <em>contorna<\/em> a rela\u00e7\u00e3o intersubjetiva e outro uso no qual o tempo <em>anula<\/em> essa rela\u00e7\u00e3o. Se, por um lado, o relativismo cultural d\u00e1 conta de contornar as rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas, trazendo-as para dentro das teorias antropol\u00f3gicas, mas colocando essas rela\u00e7\u00f5es em um patamar distinto das rela\u00e7\u00f5es vivenciadas pelo antrop\u00f3logo no mundo acad\u00eamico, por outro lado, o estruturalismo sinaliza formas de anular as intersubjetividades da pesquisa, ao entender que tais rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o passam de rela\u00e7\u00f5es entre termos independentes e atemporais.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-28iac\">Avan\u00e7ando na discuss\u00e3o, Fabian se dedica a pensar a reda\u00e7\u00e3o e a escrita etnogr\u00e1fica e suas estrat\u00e9gias para colocar o outro em um tempo distinto do vivenciado pelo pesquisador. Para tanto, segundo o autor, s\u00e3o utilizados recursos l\u00e9xicos e morfossint\u00e1ticos que criam a cis\u00e3o entre o texto antropol\u00f3gico e a experi\u00eancia de campo. Conforme Fabian, por exemplo, \u201co uso da terceira pessoa marca o discurso antropol\u00f3gico em termos de \u201ccorrela\u00e7\u00e3o de personalidade\u201d (pessoa versus n\u00e3o pessoa)\u201d (p. 112), negando-se qualquer possibilidade de rela\u00e7\u00e3o intersubjetiva entre o autor impessoal e o interlocutor descrito e representado no texto.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fre7f\">Para Fabian, n\u00e3o h\u00e1 t\u00e9cnica espec\u00edfica que possa superar esse <em>modus operandi <\/em>de se fazer antropologia. No entanto, h\u00e1 muitas possibilidades, que perpassam tanto o aprendizado da l\u00edngua nativa, quanto a utiliza\u00e7\u00e3o de gr\u00e1ficos, de mapas e de imagens, bem como a (re)produ\u00e7\u00e3o da fala dos sujeitos em sua integralidade dentro do texto que permitem aproximar pesquisador, interlocutores e leitores. Ter consci\u00eancia das formas de nega\u00e7\u00e3o do outro na produ\u00e7\u00e3o etnogr\u00e1fica \u00e9 fundamental para se evitar a anula\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas no texto antropol\u00f3gico. <em>O tempo e o outro<\/em>, nesse sentido, torna-se leitura imprescind\u00edvel para estudantes e pesquisadores que buscam aprofundar a reflex\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es entre pesquisadores e pesquisados.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4qs8c\"><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3gb15\">FABIAN, Johannes. <strong>O tempo e o outro:<\/strong> como a antropologia estabelece seu objeto. Trad. de Denise Jardim Duarte; Pref\u00e1cio de Matti Bunzl. Petr\u00f3polis: Vozes, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bmr2f\"><a href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/07dfa6f4-73b9-4c80-a86b-d4a026af21bf\/blog\/create-post#_ftnref1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">[1]<\/a> Professor do Instituto Federal de Goi\u00e1s, C\u00e2mpus Urua\u00e7u. Doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Paran\u00e1. Contato: <a href=\"mailto:marcos.spiess@ifg.edu.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">marcos.spiess@ifg.edu.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicada em 1983, a obra O tempo e o outro retoma discuss\u00f5es realizadas por Johannes Fabian, etn\u00f3grafo e historiador polon\u00eas, nos idos de 1960 e 1970, quanto a quest\u00f5es te\u00f3ricas e metodol\u00f3gicas da pr\u00e1tica antropol\u00f3gica. Acompanhando as cr\u00edticas p\u00f3s-modernas nas Ci\u00eancias Sociais, ocorridas naquela \u00e9poca, em O tempo e o outro, Fabian problematiza formas pelas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":188,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[57,56],"class_list":["post-187","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-turismo-cultural","tag-o-tempo-e-o-outro","tag-turismo-cultural"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/187","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=187"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/187\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":190,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/187\/revisions\/190"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/188"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=187"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=187"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=187"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}