{"id":132,"date":"2022-08-01T15:19:18","date_gmt":"2022-08-01T18:19:18","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/?p=132"},"modified":"2022-08-01T15:19:18","modified_gmt":"2022-08-01T18:19:18","slug":"como-eu-fiz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/fala-ai-como-voce-fez\/2022\/08\/01\/como-eu-fiz\/","title":{"rendered":"COMO EU FIZ!"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"viewer-2mi53\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p id=\"viewer-779ge\">Gostaria de come\u00e7ar minha escrita com uma breve apresenta\u00e7\u00e3o sobre minhas origens e forma\u00e7\u00e3o. Sou natural do munic\u00edpio de \u00c1lvares Machado, uma pequena cidade do interior do estado de S\u00e3o Paulo. Vivi em uma propriedade rural at\u00e9 quase treze anos de idade, quando me mudei para a cidade vizinha Presidente Prudente. Durante o ensino m\u00e9dio, tive contato com a disciplina de Qu\u00edmica, e j\u00e1 no primeiro ano estava decidido a cursar Licenciatura em Qu\u00edmica, pois possu\u00eda o objetivo de ser professor. No ano de 2008, iniciei o curso de Licenciatura em Qu\u00edmica na Universidade do Oeste Paulista (UNOESTE). No segundo semestre do ano de 2010, iniciei a carreira de docente como eventual em escolas p\u00fablicas de Presidente Prudente e regi\u00e3o. Substitu\u00eda aulas dos professores que faltavam, o que me possibilitou ser docente de diversas disciplinas, algumas das quais sem qualquer rela\u00e7\u00e3o com a minha forma\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que, no ano de 2014, ap\u00f3s fazer o concurso para o magist\u00e9rio do estado de S\u00e3o Paulo, ingressei como professor titular de Qu\u00edmica em uma escola de Presidente Prudente. Hoje resido e dou aula em uma escola de Regente Feij\u00f3 \u2013 SP.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-83th9\">No ano de 2017, atrav\u00e9s de uma publica\u00e7\u00e3o no <em>Facebook<\/em>, fiquei sabendo da abertura para inscri\u00e7\u00e3o no Mestrado Profissional no Ensino de Qu\u00edmica (PROFQUI). Fui selecionado para o programa e, na primeira aula, algo despertou meu interesse para o campo dos Estudos Culturais das Ci\u00eancias e Educa\u00e7\u00e3o: na aula do professor Dr. Mois\u00e9s Alves de Oliveira, que posteriormente se tornou meu orientador, me foi apresentado o livro \u201cDocumentos de Identidade\u201d (SILVA, 1999), um pequeno exemplar, mas carregado de informa\u00e7\u00f5es que me fizeram optar por seguir os caminhos da pesquisa no campo dos Estudos Culturais.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2an3d\">Ap\u00f3s o primeiro contato com os Estudos Culturais e a leitura do livro supracitado, comecei a gostar e me aprofundar, aos poucos, no assunto buscando novas leituras. Foi exatamente nessa busca que me deparei com um dos meus maiores problemas \u2013 <em>O que pesquisar? Onde pesquisar?<\/em> Acho que todo mundo quando ingressa no mestrado j\u00e1 passou ou ir\u00e1 passar por essa quest\u00e3o. Era uma quest\u00e3o que me perturbava dia ap\u00f3s dia, principalmente, porque havia mais fatores a serem levados em conta.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ff18k\">O n\u00edvel de mestrado profissional, al\u00e9m de uma disserta\u00e7\u00e3o, tem como uma de suas premissas a produ\u00e7\u00e3o de um Produto Educacional. Segundo Moreira (2004), o curr\u00edculo de um mestrado profissional dever\u00e1 contar com a<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-2ovfi\"><p><em>\u201celabora\u00e7\u00e3o de um trabalho final de pesquisa profissional, aplicada, descrevendo o desenvolvimento de processos ou produtos de natureza educacional, visando \u00e0 melhoria do ensino na \u00e1rea espec\u00edfica, sugerindo-se fortemente que, em forma e conte\u00fado, este trabalho se constitua em material que possa ser utilizado por outros profissionais (p. 134)\u201d.<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4mnic\">Essa d\u00favida perdurou pelos praticamente tr\u00eas primeiros meses do mestrado, quando, um dia, durante o intervalo de uma das aulas, me encontrava sentado pelos corredores da UEL, e o meu orientador chega com uma proposta para a pesquisa \u2013 \u201c<em>Everton, vamos fazer a sua pesquisa de mestrado dentro de uma pris\u00e3o?!\u201d. <\/em>Sem muito pensar, aceito de pronto a proposta. N\u00f3s sab\u00edamos que, dentro dos pres\u00eddios, s\u00e3o produzidas grandes quantidades de coisas a partir daquilo que os encarcerados t\u00eam nas m\u00e3os, e o nosso prop\u00f3sito com a pesquisa seria investigar as formas como ocorrem a produ\u00e7\u00e3o e a utiliza\u00e7\u00e3o da qu\u00edmica dentro desses espa\u00e7os de priva\u00e7\u00e3o material.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3pp2u\">A decis\u00e3o por trabalhar nesse local, interditado e controlado por um poder disciplinar (FOUCAULT, 2014), ocorreu com o prop\u00f3sito de nos tornamos propagadores das vozes emitidas dentro deste espa\u00e7o. A proposta de pesquisar as formas de produ\u00e7\u00e3o de ci\u00eancias dentro de uma penitenci\u00e1ria emerge a partir de um de um estado de inquieta\u00e7\u00e3o com a quest\u00e3o <em>\u201c\u00c9 poss\u00edvel produzir algo dentro de uma penitenci\u00e1ria, ou melhor, dentro de um cub\u00edculo?\u201d <\/em>de onde emergiam outras quest\u00f5es, como \u201c<em>O que se produz? Como se produz? E para que fins s\u00e3o produzidos?\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cjpu1\">A partir da decis\u00e3o de fazer uma pesquisa dentro de uma penitenci\u00e1ria, possu\u00edamos agora a nossa quest\u00e3o de pesquisa, no entanto surgia, naquele momento, uma segunda quest\u00e3o perturbadora: \u201c<em>Como adentrar dentro de uma penitenci\u00e1ria para fazer a pesquisa?\u201d<\/em>. Sab\u00edamos que n\u00e3o seria f\u00e1cil conseguir a autoriza\u00e7\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o de uma pesquisa dentro de uma penitenci\u00e1ria, e as primeiras tentativas se provaram frustrantes. Como era residente pr\u00f3ximo \u00e0 cidade de Presidente Prudente \u2013 SP, achei que seria mais c\u00f4modo realizar a pesquisa em uma das penitenci\u00e1rias, que n\u00e3o s\u00e3o poucas, dessa regi\u00e3o. Mas, ap\u00f3s v\u00e1rias tentativas de contato, quando finalmente consegui, mostrou-se frustrante. Devido aos tr\u00e2mites, seriam necess\u00e1rios ao menos seis meses para obter uma resposta se seria poss\u00edvel a realiza\u00e7\u00e3o da pesquisa, um per\u00edodo muito longo para esperar quando se trata de um mestrado. Nesse momento, eu achei que teria que desistir e partir para outra possibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4puk7\">Sabendo da minha dificuldade em conseguir o local para a realiza\u00e7\u00e3o da pesquisa, o meu orientador colocou-me em contato com o chefe de seguran\u00e7a da Penitenci\u00e1ria Estadual de Londrina II \u2013 PEL II, que fica localizada na Rodovia Jo\u00e3o Alves da Rocha Loures, 5925, lote 127, gleba Ribeir\u00e3o Camb\u00e9 \u2013 Londrina \u2013 Paran\u00e1, operacionalizada desde 26 de abril do ano de 2007. A PEL II se encaixou perfeitamente como nosso campo de pesquisa, por se tratar de uma penitenci\u00e1ria em potencial, uma das maiores do estado do Paran\u00e1 e acesso menos burocratizado. Nesse local, j\u00e1 havia sido realizada uma pesquisa por Fernandes (2017), sobre o ensino de estat\u00edstica. Esse pesquisador, por j\u00e1 ser nosso conhecido, facilitou o acesso \u00e0 PEL II. Fernandes foi um importante mediador e nos auxiliou com todos os tr\u00e2mites e processos burocr\u00e1ticos para que pud\u00e9ssemos adentrar a penitenci\u00e1ria. Assim, ele nos acompanhou durante toda a pesquisa, desde a aprova\u00e7\u00e3o da papelada necess\u00e1ria para que pud\u00e9ssemos obter todas as autoriza\u00e7\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o do nosso trabalho de campo at\u00e9 a escolha e libera\u00e7\u00e3o dos detentos para participarem da pesquisa. Com isso, conseguimos poupar uma grande quantidade de trabalho e tempo, pois com um mediador entre n\u00f3s e a penitenci\u00e1ria, ficaram muito mais \u00e1geis os processos de aprova\u00e7\u00e3o e libera\u00e7\u00e3o do local.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-eqbki\">O nosso campo de pesquisa, no caso, a Penitenci\u00e1ria Estadual de Londrina II, possui uma capacidade f\u00edsica para 928 detentos; s\u00e3o 144 celas coletivas para 6 detentos, 96 celas individuais, 12 sol\u00e1rios, 5 salas de aula, 6 oficinas e 12 quartos para visita \u00edntima, segundo a Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica e Administra\u00e7\u00e3o Penitenci\u00e1ria (2019). Segundo o Departamento Penitenci\u00e1rio do estado do Paran\u00e1 (Depen).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/a64e43_20d65183484442d1bf92769ea42a4703~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_360,h_296,al_c,lg_1,q_90\/a64e43_20d65183484442d1bf92769ea42a4703~mv2.webp\" alt=\"\"\/><figcaption><strong>Figura 1<\/strong>: Penitenci\u00e1ria Estadual de Londrina II:<br>Fonte: Depen.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9nefn\"><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2ggaf\">Adentramos a PEL II pela primeira vez no dia 13 de julho de 2018, ap\u00f3s o tr\u00e2mite de alguns meses, algumas an\u00e1lises e v\u00e1rias negocia\u00e7\u00f5es empreendidas entre n\u00f3s e Fernandes, para entregarmos uma carta de apresenta\u00e7\u00e3o da pesquisa. Foi essa a primeira vez que adentrei um espa\u00e7o prisional; nunca havia passado nem perto de uma penitenci\u00e1ria, salvo as que eu via na beira das rodovias na regi\u00e3o onde eu morava. Depois de toda papelada, projetos de pesquisa, autoriza\u00e7\u00f5es, que foram magistralmente concedidas em prazos curt\u00edssimos, finalmente entregamos um cronograma de pesquisa de campo, algo que elaboramos de forma muito singela, pois n\u00e3o quer\u00edamos nos sentir subordinados em realizar nada de forma a obter algum tipo de resposta <em>a priori<\/em>, mas, sim, que se abrissem novas possibilidades e potencialidades dentro de um local interditado, que os nossos atores encontrassem em n\u00f3s a oportunidade de externalizar suas experi\u00eancias, suas produ\u00e7\u00f5es, suas ci\u00eancias, pois quer\u00edamos n\u00e3o ser algo mais que os interditasse, mas pens\u00e1vamos na possibilidade de que os atores tivessem suas vozes propagadas (LATOUR, 2012).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-age13\">Finalizados todos os tr\u00e2mites de aprova\u00e7\u00e3o da pesquisa, ter\u00edamos que decidir a quantidade de detentos com a qual ir\u00edamos trabalhar; assim, ao final, foi aceita a sugest\u00e3o de Fernandes, que estava colaborando com a nossa pesquisa e j\u00e1 possu\u00eda conhecimento e experi\u00eancia com a investiga\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o prisional, o que ainda n\u00e3o t\u00ednhamos: ficou decidido que ir\u00edamos realizar a pesquisa com algo entre sete e dez detentos, que deveriam ser escolhidos e indicados pela equipe da pr\u00f3pria unidade prisional.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6u0el\">Ap\u00f3s leituras, conversa\u00e7\u00f5es e negocia\u00e7\u00f5es, optamos pela realiza\u00e7\u00e3o de uma pesquisa etnogr\u00e1fica e, a partir desse pressuposto, nos propusemos a deixar os atores agirem, arregimentando novos aliados, sendo n\u00f3s mesmos arregimentados por eles durante esse processo, mas sempre atentos \u00e0s vozes, aos gestos e aos corpos, dos agentes humanos e n\u00e3o humanos que participavam da constru\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias dentro dos cub\u00edculos (LATOUR, 2000; 2001; 2012). De acordo com Geertz (2008), \u201cos antrop\u00f3logos n\u00e3o estudam as aldeias (tribos, cidades, vizinhan\u00e7as&#8230;), eles estudam nas aldeias\u201d, pois \u00e9 nas aldeias \u201cque o repert\u00f3rio de conceitos gerais das ci\u00eancias sociais \u2014 como integra\u00e7\u00e3o, racionaliza\u00e7\u00e3o, s\u00edmbolo, ideologia, ethos, revolu\u00e7\u00e3o, vis\u00e3o de mundo, sagrado, cultura \u2014 se entrela\u00e7am\u201d (PEIRANO, 1995) para a constru\u00e7\u00e3o de uma descri\u00e7\u00e3o minuciosa do trabalho em campo (GEERTZ, 2008).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-545ln\">Na nossa forma de pesquisa, objetivamos possibilitar a fala aos que se encontravam interditados no espa\u00e7o penitenci\u00e1rio, partindo de uma an\u00e1lise mais cultural deste espa\u00e7o (HOGGART, 1978; LEWIS, 2002; COMBESSIE, 2001; LOUREN\u00c7O; ONOFRE, 2011; LATOUR, 2001), seguindo com a inten\u00e7\u00e3o de criar condi\u00e7\u00f5es para que os detentos pudessem emergir como vozes singulares (FOUCAULT, 1979).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-adjh3\">De acordo com Silveira (2002), \u201cdar a palavra n\u00e3o \u00e9&#8230; uma li\u00e7\u00e3o t\u00e3o singela de ser levado a cabo, j\u00e1 que essa \u2018palavra\u2019 s\u00f3 passa existir&#8230; quando ultrapassar, de algumas maneiras, as restri\u00e7\u00f5es que pesam sobre a enuncia\u00e7\u00e3o de discursos naquele momento, naquele lugar&#8230; (p. 66)\u201d. Com a propaga\u00e7\u00e3o dos enunciados produzidos dentro de um espa\u00e7o interditado, ultrapassamos algumas fronteiras das disciplinas, ajudando a espalhar as constru\u00e7\u00f5es que se d\u00e3o a partir de poucos materiais e processos de arregimenta\u00e7\u00e3o de aliados (LATOUR &amp; WOOLGAR, 1997), dentro de um jogo de negocia\u00e7\u00f5es para a produ\u00e7\u00e3o de uma ci\u00eancia dos cub\u00edculos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2r8c1\">O local da realiza\u00e7\u00e3o da nossa pesquisa durante os encontros com os detentos da PEL II se deu na sala de eventos da pr\u00f3pria penitenci\u00e1ria (imagens abaixo), que fica em um anexo constitu\u00eddo pela sala dos professores, biblioteca e banheiro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/a64e43_aebd0561bace41cdaeaad88a36d4f8dd~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_360,h_265,al_c,lg_1,q_90\/a64e43_aebd0561bace41cdaeaad88a36d4f8dd~mv2.webp\" alt=\"\"\/><figcaption><strong>Figura 2:<\/strong> local de pesquisa.<br>Fonte: (GALBETTI, 2019).<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6pnnh\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-3 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/a64e43_efe1a2905300482a80e5957c6ac78cc1~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_360,h_318,al_c,lg_1,q_90\/a64e43_efe1a2905300482a80e5957c6ac78cc1~mv2.webp\" alt=\"\"\/><figcaption><strong>Figura 3<\/strong>: local da pesquisa.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p id=\"viewer-92bab\"><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-atmsq\"><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dvjm5\">Na pr\u00f3xima imagem \u00e9 poss\u00edvel ver como era o local de realiza\u00e7\u00e3o da pesquisa e alguns dos detentos participantes. Gostaria de chamar a aten\u00e7\u00e3o para a cadeira que se encontra pendurada na parede da sala, ela est\u00e1 fixada ali atrav\u00e9s de uma das \u201cqu\u00edmicas\u201d que eles produziam dentro dos cub\u00edculos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-4 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/a64e43_f007a353c53a4967824c68661186748e~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_360,h_285,al_c,lg_1,q_90\/a64e43_f007a353c53a4967824c68661186748e~mv2.webp\" alt=\"\"\/><figcaption><strong>Figura 4<\/strong>: local da pesquisa.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8give\"><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2p07l\">J\u00e1 que entramos no assunto das ci\u00eancias que podem ser produzidas dentro dos cub\u00edculos, partimos para um campo de pesquisa etnogr\u00e1fica sem saber ainda o que encontrar\u00edamos l\u00e1, desta forma, a pesquisa de mestrado dentro de uma penitenci\u00e1ria come\u00e7ou sem estipular, <em>a priori,<\/em> nenhum tipo de pressuposto, mesmo assim, almej\u00e1vamos chegar a alguns lugares e l\u00e1 dentro nos deparamos com uma quantidade enorme de criatividade, pesquisa e ci\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6t0ob\">Ap\u00f3s um primeiro encontro com os detentos da PEL II, sab\u00edamos para onde a pesquisa caminharia, e tudo come\u00e7ou a fluir, afinal de contas, est\u00e1vamos ali para fazer uma etnografia na penitenci\u00e1ria, onde quer\u00edamos, ao mesmo tempo, ser arregimentados nos processos da pesquisa, como atores. Quando nos deparamos com cola de sab\u00e3o e de macarr\u00e3o produzida dentro dos cub\u00edculos, soubemos que hav\u00edamos encontrado um fio para seguir.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d20jv\">A cola \u00e9 uma pe\u00e7a fundamental para <em>\u201cgrudar\u201d<\/em> duas formas de conviv\u00eancia aparentemente imposs\u00edveis nos cub\u00edculos de aproximadamente 18 m2, nos quais habitam normalmente seis a sete detentos. A partir da cola, descobrimos que eles faziam o carrapato, que, parafraseando (GALBETTI, 2019), seria <em>\u201cum parafuso ou tiras de tecido que colamos na parede com a cola, e deixamos de dois a tr\u00eas dias para secar. Depois \u00e9 s\u00f3 amarrar as cordas e passar a cortina que fecha as camas, banheiro e faz o varal\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fp32a\">Descobrimos que a cola era produzida de duas formas dentro da penitenci\u00e1ria: a primeira, atrav\u00e9s da utiliza\u00e7\u00e3o do macarr\u00e3o (ver imagens abaixo).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-5 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/a64e43_4ae0f45b461044ce992381f098327f2b~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_288,h_262,al_c,lg_1,q_90\/a64e43_4ae0f45b461044ce992381f098327f2b~mv2.webp\" alt=\"\"\/><figcaption><strong>Figura 5<\/strong>: macarr\u00e3o utilizado.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2ac38\"><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2ls0q\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-6 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/a64e43_2e6da1201ad84fea807c68acb30605e0~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_314,h_258,al_c,lg_1,q_90\/a64e43_2e6da1201ad84fea807c68acb30605e0~mv2.webp\" alt=\"\"\/><figcaption><strong>Figura 6<\/strong>: cola produzida.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p id=\"viewer-chre6\"><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bbu6k\">Dentro da sala de eventos, fizemos uma \u201cexperimenta\u00e7\u00e3o\u201d com a cola de macarr\u00e3o, fazendo um carrapato com o qual prendemos um banco de pl\u00e1stico na parede (imagem abaixo).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-7 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/a64e43_b02b46c3b2f541e9b3ef89ad78c3350f~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_287,h_295,al_c,lg_1,q_90\/a64e43_b02b46c3b2f541e9b3ef89ad78c3350f~mv2.webp\" alt=\"\"\/><figcaption><strong>Figura 7<\/strong>: aplica\u00e7\u00e3o da cola.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p id=\"viewer-78q40\"><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dfrdj\"><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5sdgh\">A segunda forma de produzir cola era utilizando o sab\u00e3o em barra, fornecido pela pr\u00f3pria penitenci\u00e1ria (imagens abaixo).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-8 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/a64e43_2b0be62b15b34a849f49722f3b40a254~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_314,h_256,al_c,lg_1,q_90\/a64e43_2b0be62b15b34a849f49722f3b40a254~mv2.webp\" alt=\"\"\/><figcaption><strong>Figura 8<\/strong>: produ\u00e7\u00e3o com sab\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fbagd\"><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-iq22\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-9 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/a64e43_c8c6c43e2d8c405c99480ca3f3f6f065~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_315,h_237,al_c,lg_1,q_90\/a64e43_c8c6c43e2d8c405c99480ca3f3f6f065~mv2.webp\" alt=\"\"\/><figcaption><strong>Figura 9<\/strong>: aplica\u00e7\u00e3o da cola.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1r6lm\"><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9i4ah\">Ao final da pesquisa, desenvolvemos um livreto onde relat\u00e1vamos, em conjunto com os detentos da PEL II participantes da pesquisa, as formas de produ\u00e7\u00e3o da cola e alguns conceitos qu\u00edmicos que poderiam ser propagados atrav\u00e9s dessa ci\u00eancia contingenciada produzida dentro dos cub\u00edculos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-84vi6\">A minha pesquisa de mestrado, atrav\u00e9s das orienta\u00e7\u00f5es magistrais do Professor Doutor Mois\u00e9s Alves de Oliveira, me trouxe a oportunidade de ir a lugares nos quais nunca havia entrado e consequentemente presenciar uma ci\u00eancia que nem imaginava que existia, uma ci\u00eancia cheia de conting\u00eancias, restri\u00e7\u00f5es mas que, mesmo assim, se desvencilha das fronteiras a ela impostas e emerge dentro dos cub\u00edculos de uma penitenci\u00e1ria. Para quem quiser conhecer uma pouco mais da minha pesquisa e dessa ci\u00eancia, convido a ler minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado (GALBETTI, 2019).<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"viewer-a0cpe\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p id=\"viewer-do1b6\">COMBESSIE, P<strong>. Sociologie de la prison.<\/strong> Paris: \u00c9ditions la Decouverte, 2001. 128 p.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-78bpk\">FERNANDES, L. A. <strong>Um estudo sobre o ensino de estat\u00edstica nas pris\u00f5es<\/strong>. 2017. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado. Universidade Tecnol\u00f3gica Federal do Paran\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9smjq\">FOUCAULT, M. <strong>Microf\u00edsica do poder<\/strong>. Rio de Janeiro: Edi\u00e7\u00f5es Graal, 1979. v. 4.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-80cne\">____. <strong>Vigiar e Punir<\/strong>. 42. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-a4n6u\">GALBETTI, E. J. <strong>A produ\u00e7\u00e3o da cola no espa\u00e7o prisional: <\/strong>como s\u00e3o constru\u00eddos saberes qu\u00edmicos dentro dos cub\u00edculos. 2019. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado. Universidade Estadual de Londrina.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-jkpe\">GEERTZ, C. <strong>A interpreta\u00e7\u00e3o das culturas<\/strong>. 13. reimpr. Rio de Janeiro: LTC, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d3nkg\">HOGGART, R. <strong>An Idea and its Servants<\/strong>: UNESCO from within. Nova Iorque: Oxford University Press, 1978.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3vs97\">LATOUR, B. <strong>Ci\u00eancia em a\u00e7\u00e3o<\/strong>: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. S\u00e3o Paulo: UNESP, 2000.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5eg4c\">____. <strong>Esperan\u00e7a de Pandora:<\/strong> ensaios sobre a realidade dos estudos. Bauru: EDUSC, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-46vqr\">____. <strong>Reflex\u00e3o sobre o culto moderno dos deuses fe(i)tiches<\/strong>. Bauru: Edusc, 2002.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4ol6u\">____. <strong>Reagregando o social<\/strong>: uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Teoria do Ator-Rede. Bauru: Edusc, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-eo3ej\">LATOUR, B. WOOLGAR, S. <strong>A vida de laborat\u00f3rio<\/strong>: a produ\u00e7\u00e3o dos fatos cient\u00edficos. Rio de Janeiro: Relume Dumar\u00e1, 1997.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-eth3h\">LEWIS, J. <strong>Cultural Studies: <\/strong>The Basics. Londres: Sage, 2002.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8cspd\">LOUREN\u00c7O, A. S; ONOFRE, E. M. C. <strong>O espa\u00e7o da pris\u00e3o e suas pr\u00e1ticas educativas: <\/strong>enfoques e perspectivas contempor\u00e2neas. SciELO-EdUFSCar, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aqf5f\">MOREIRA, M. A. O mestrado (profissional) em ensino. <strong>Revista Brasileira de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o<\/strong>, v. 1, n. 1, p.131-142, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d73l4\">PEIRANO, M. <strong>A favor da etnografia<\/strong>. 1995.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3iirq\">SILVA, T. T. Documentos de identidade: uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s teorias do curr\u00edculo. In: <strong>Documentos de identidade<\/strong>: uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s teorias do curr\u00edculo. 1999.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dm305\">SILVEIRA, R. M. H. \u2018Olha quem est\u00e1 falando agora!\u2019 A escuta das vozes na educa\u00e7\u00e3o. In: COSTA, M. V. <strong>Caminhos investigativos: novos olhares na pesquisa em educa\u00e7\u00e3o<\/strong>, v. 2, p. 61-83, 2002.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o Gostaria de come\u00e7ar minha escrita com uma breve apresenta\u00e7\u00e3o sobre minhas origens e forma\u00e7\u00e3o. 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