{"id":115,"date":"2022-08-01T15:08:04","date_gmt":"2022-08-01T18:08:04","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/?p=115"},"modified":"2022-09-23T15:33:10","modified_gmt":"2022-09-23T18:33:10","slug":"apalpadelas-modos-de-fazer-pesquisa-nos-estudos-culturais-das-ciencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/fala-ai-como-voce-fez\/2022\/08\/01\/apalpadelas-modos-de-fazer-pesquisa-nos-estudos-culturais-das-ciencias\/","title":{"rendered":"Apalpadelas: modos de fazer pesquisa nos estudos culturais das ci\u00eancias."},"content":{"rendered":"\n<p id=\"viewer-bd4i5\">Segundo Latour (2000, p. 12), \u201ca escolha da porta de entrada depende crucialmente da escolha do momento certo\u201d. Mas este <em>momento <\/em>est\u00e1 sempre em movimento, \u00e9 como diz a palavra, abstrato, n\u00e3o \u00e9 mais do que um instante e pouco diz da posi\u00e7\u00e3o da porta, mas apenas que \u00e9 o local pelo qual podemos passar. Atravessar n\u00e3o d\u00e1 garantias do que se pode encontrar do outro lado, \u00e9 ao contr\u00e1rio, o momento em que se passa de contextos mais eficientes, portanto mais articulados, para outros, nos quais se ter\u00e1 que decidir o que \u00e9 efici\u00eancia portanto, inarticulados. Fica a ang\u00fastia, a expectativa, a necessidade de tomar uma posi\u00e7\u00e3o entre a incerteza do que encontrar e as for\u00e7as que conduzem para um outro lugar. O momento de passagem pela porta \u00e9 o instante m\u00e1gico; n\u00e3o guarda nada de real, mas \u00e9 onde tudo acontece. A porta \u00e9 esta cria\u00e7\u00e3o que nos d\u00e1 uma ferramenta importante, a no\u00e7\u00e3o de intermedi\u00e1rio entre conhecido e desconhecido, entre a presen\u00e7a e a aus\u00eancia, entre a certeza e a incerteza; foi criada para que nem de um lado nem do outro exista algo superior, algo indestrut\u00edvel, algo onipotente. Parece que todo o jogo se d\u00e1 no momento da travessia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-eb20m\">Esse texto foi escrito h\u00e1 quase vinte anos e ainda hoje \u00e9 poss\u00edvel sentir a pulsa\u00e7\u00e3o do campo de pesquisa a que ele remete. Quis, no primeiro volume desse panfleto, que decidimos no Grupo de Estudos Culturais das Ci\u00eancias e das Educa\u00e7\u00f5es (GECCE), chamar de quase-ci\u00eancias, revisitar alguns passos j\u00e1 dados, e traz\u00ea-los aqui para uma releitura a fim de manter viva a pergunta, testar o que ainda \u00e9 poss\u00edvel sustentar da escrita de uma metodologia de pesquisa ap\u00f3s os testes de tor\u00e7\u00e3o advindas de outras experi\u00eancias, ao mesmo tempo, sempre que poss\u00edvel, mantendo tra\u00e7os em que foi forjada nas rela\u00e7\u00f5es de dom\u00ednio que s\u00e3o postas a funcionar para construir uma no\u00e7\u00e3o de pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-57qb5\">Foleando o di\u00e1rio pessoal \u00e0 busca de elementos para essa escrita encontrei logo na primeira p\u00e1gina aberta um post-it com anota\u00e7\u00f5es que (re)territorializou os arranjos t\u00e3o triviais que esquecemos de sua import\u00e2ncia nas agon\u00edsticas da produ\u00e7\u00e3o de uma pesquisa, quando ela ainda est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-7ke7f\"><p>Propus ao orientador uma altera\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, em vez de estudar as vis\u00f5es dos leigos por meio de entrevistas, ir a campo (etnografia) ver como determinados grupos antuagem (um neologismo que estava ensaiando para manter em uma s\u00f3 palavra as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancias do agir e do pensar, depois foi aprimorada para frontagir). Ele disse para eu manter-me firme nos meus objetivos&#8230; negou!<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ai3lf\">Para o negacionista, nega\u00e7\u00e3o e meia. H\u00e1 movimentos com os quais somos incapazes de resistir. Pouco tempo depois a etnografia saltou para a frente no caminho e j\u00e1 estava em campo. Essa foi uma das muitas passagens em que as argumenta\u00e7\u00f5es do professor de metodologia, L\u00facio Kreutz, alardeava constantemente faziam sentido: \u201c<em>Dada a dificuldade em estabelecer um m\u00e9todo \u00fanico para uma pesquisa, talvez se deva, em vez de tentar criar identidades fixas ao trabalho experimental, dizer o que se fez\u201d<\/em>. Esse conselho parece bastante proveitoso nesse momento, j\u00e1 que d\u00e1 possibilidades de mais vozes fazerem parte da narrativa, daquilo que apreendi no per\u00edodo de doutoramento, no que se refere \u00e0 metodologia. \u00c9, talvez, a mais bem formulada proposta, pois, ao mesmo tempo que permite engajar v\u00e1rias metodologias, torna-as ativas e remanej\u00e1veis, rearticul\u00e1veis de acordo com as conting\u00eancias dos eventos; \u00e9 a mais democr\u00e1tica das t\u00e1ticas. Por\u00e9m, n\u00e3o a mais objetiva, tampouco \u00e9 f\u00e1cil descrev\u00ea-la, dizer o que se fez, implica mais trabalho, dizer de mais agon\u00edsticas, incluir mais aliados, em vez de tornar as coisas mais r\u00e1pidas, torna-as mais complexas. Este \u00e9 o objetivo que pretendo desenvolver nesse texto: contar como fui, devagar e aos trope\u00e7os, sendo criador e criatura da op\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica tendo como motiva\u00e7\u00e3o, em vez de acatar e citar metodologias eficientes, decidir o que \u00e9 efici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9dsc7\">O verbo decidir, quando empregado em metodologias de pesquisa de campo, d\u00e1 a falsa impress\u00e3o de autonomia do pesquisador. Foi preciso v\u00e1rias expedi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e experimentais a territ\u00f3rios desconhecidos, acumular montanhas de informa\u00e7\u00f5es desconexas que a pr\u00e1tica etnogr\u00e1fica \u00e9 c\u00e9lere em fornecer e pregui\u00e7osa para articular e fazer convergir em um interesse, um campo, onde eles pudessem ser acionados e transformados em recursos producentes e capazes de recircular nas arenas de onde foram aliciados. Dar ordem! Fazer fazer sentido! \u00c9 o que mais faz falta e que mais se deseja frente ao emaranhado de informa\u00e7\u00f5es em ululante motim! Decidir, apressadamente, nessa fase, foi, quase sempre, para mim, a passada errada na dire\u00e7\u00e3o da simplifica\u00e7\u00e3o e da distor\u00e7\u00e3o da realidade. Demorar-se pregui\u00e7osamente nos detalhes, nos arredores, nas min\u00facias foi a chave!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7orei\">No que diz respeito a metodologia no campo de pesquisa, falaremos como utilizamos essa perspectiva na forma aforista e par\u00f3dica das filosofias edificantes como ferramenta de olhar para os informantes e a rede de rela\u00e7\u00f5es institu\u00edda em torno do laborat\u00f3rio e da escola. Ser\u00e1 dada \u00eanfase nessa publica\u00e7\u00e3o aos modos como podem ser, no estilo de bricolagem dos Estudos Culturais das Ci\u00eancias, a apresenta\u00e7\u00e3o dos agentes que far\u00e3o parte da pesquisa. O texto completo dessa narrativa metodol\u00f3gica est\u00e1 em Oliveira (2016), principalmente na parte II \u2013 As apalpadelas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-56kfp\">Pesquisar a escola de forma intencionalmente perif\u00e9rica pode ajudar a repensar como fazemos pesquisas. Com alguma dificuldade inicial, aos poucos fomos nos familiarizando com as idiossincrasias e tomando coragem para perguntar acerca das condi\u00e7\u00f5es, as rela\u00e7\u00f5es, os h\u00e1bitos, as autoriza\u00e7\u00f5es de quem fala e do que se fala. A partir de quais lugares se produzem as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade dos enunciados cient\u00edficos nos laborat\u00f3rios do ensino m\u00e9dio? A quem e a que estariam articulados estes enunciados? A quais regras externas e internas eles obedecem? Como funcionam as ambiguidades nas rela\u00e7\u00f5es e nos posicionamentos?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fl5mo\">Trechos do di\u00e1rio de campo. O dia em que estudar a escola do ponto de vista etnogr\u00e1fico entrou no radar. Visita \u00e0 escola para matricular os filhos:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-2fmrq\"><p>07h25min (jan.2003) \u2013 O porteiro me cumprimenta cordialmente enquanto olha atentamente o carro passar pelo port\u00e3o de acesso ao col\u00e9gio. O metr\u00f4 de superf\u00edcie \u201ctrensurb\u201d faz manobras no final da linha, em frente ao port\u00e3o, para retornar \u00e0 esta\u00e7\u00e3o S\u00e3o Leopoldo e de l\u00e1 serpentear pelos 32 km de trilhos at\u00e9 a Esta\u00e7\u00e3o Mercado, centro de Porto Alegre. Um cord\u00e3o de mata e outro de laranjeiras, bergamoteiras, se antepunham aos pr\u00e9dios centen\u00e1rios, de 4 andares, com alas que abrigam o Col\u00e9gio S\u00e3o Jos\u00e9, um Pensionato e um Asilo.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-36sq9\"><p>07h30min \u2013 A secret\u00e1ria me conduz pelos corredores amplos, de paredes grossas daquilo que j\u00e1 foi o Sanat\u00f3rio Santa Elisabeth, ao lado da recep\u00e7\u00e3o a secretaria, onde vejo uma Irm\u00e3 trajando h\u00e1bito cinza-azulado e len\u00e7o branco na cabe\u00e7a, trabalha entre escrivaninhas e pap\u00e9is e d\u00e1 a atmosfera santificada do meu imagin\u00e1rio. Chego na sala onde est\u00e1 Irm\u00e3 Iria Pozebon. Diretora Geral da Escola. Sou recebido com um sorriso e um aperto de m\u00e3o forte; ela trajava roupas laicas e falava com o tom firme e claro que me acostumei ver nos empres\u00e1rios.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-a4tsu\"><p>07h35min \u2013 Disse-lhe do interesse em matricular meus dois filhos na escola.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-43udt\"><p>07h50min \u2013 Caminhamos pela escola, ela ia dizendo: ali \u00e9 a capela, acol\u00e1 a secretaria, ao lado a tesouraria, no andar de baixo a biblioteca, no de cima o museu; defronte ao p\u00e1tio os laborat\u00f3rios de Qu\u00edmica e de Biologia, aqui a sala dos professores, \u00e0 frente as salas de aula, na outra ala a educa\u00e7\u00e3o infantil e as salas de 1\u00ba e 2\u00ba s\u00e9ries.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-b1o9p\"><p>Quantos anos tem esta escola irm\u00e3? Perguntei. Estamos em S\u00e3o Leopoldo desde 1872, com a chegada das 6 primeiras Irm\u00e3s vindas de navio da Europa, e aqui neste pr\u00e9dio, desde 1923, ela ia dizendo. E voc\u00eas t\u00eam registros desta longa trajet\u00f3ria? Perguntava cada vez mais entusiasmado. Temos alguma coisa registrada no livro Poliant\u00e9ia, mas boa parte dos documentos foi perdida em v\u00e1rias reformas e limpezas nos arquivos da escola, era muito papel que ficava por a\u00ed sem utilidade.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-chadp\">Voltei para a Universidade falando e gesticulando sozinho enquanto dirigia. Dizem que \u00e9 coisa de italiano.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4djmo\">Por que n\u00e3o estudar a escola particular?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8v51\">E ficaria com isso na cabe\u00e7a o dia todo, avaliando as possibilidades hist\u00f3ricas de estudar uma escola t\u00e3o longeva, pensando na raridade de utiliza\u00e7\u00e3o dos laborat\u00f3rios das escolas p\u00fablicas, pensando nos compromissos morais de um funcion\u00e1rio p\u00fablico com a escola p\u00fablica, pensando nos conceitos de: <em>especificidade<\/em>, <em>conex\u00e3o <\/em>e<em> articula\u00e7\u00e3o<\/em>, na verdade, j\u00e1 buscando encontrar as justificativas para uma suposta trai\u00e7\u00e3o ao orientador e a mim mesmo. Onde eu iria encontrar t\u00e3o rico material para estudos como os que vi no Col\u00e9gio S\u00e3o Jos\u00e9? Quantas escolas p\u00fablicas eu teria que visitar para ter um <em>estoque<\/em> de material adequado para os estudos?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ei7j3\">O efeito do <em>local, <\/em>a impon\u00eancia da arquitetura, a curiosidade e a expectativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s Irm\u00e3s Franciscanas, um certo desconcerto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 versatilidade laica da Irm\u00e3 Iria, tiveram um impacto positivo em meus sentidos. A m\u00edstica, a hist\u00f3ria e o local exalavam o fetiche inebriante e estimulante dos textos alqu\u00edmicos, da androginia, do nascimento das coisas nos vapores, nos pensamentos que se articulam atrav\u00e9s do surgimento de novos fatos \u00e9 t\u00e3o mais humano (Roob, 1997, p. 457).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1qo35\">O impacto provocado entre uma preconcep\u00e7\u00e3o das irm\u00e3s como retratos integrados e fixos na arquitetura do Col\u00e9gio S\u00e3o Jos\u00e9 e o estranhamento de n\u00e3o ver quase nada disso, foram os catalisadores que acenderam a vontade pelo estudo. Justamente foi nesta sensa\u00e7\u00e3o de exotismo e de esoterismo que a etnografia, como ferramenta de estudo, come\u00e7ou a formar-se como possibilidade. Foi um primeiro passo, ainda com influ\u00eancias de uma esp\u00e9cie de autoridade etnometodol\u00f3gica experimental (Latour &amp; Woolgar, 1997, p. 18; Glifford, 1992, p. 149) em dire\u00e7\u00e3o ao que ser tornaria em alguns meses uma tese.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7pblp\">Se pensarmos que fui ao col\u00e9gio com a inten\u00e7\u00e3o de matricular meus filhos, o estabelecimento do campo de pesquisa pode ser considerado, em boa medida, contingente. N\u00e3o fosse pelo simples fato de que eu estava <em>o tempo todo<\/em> a procura de campos de pesquisa e com v\u00e1rios vieses te\u00f3ricos e metodol\u00f3gicos em mente. Assim, trata-se de conting\u00eancia, de estrat\u00e9gia, de pragmatismo ou de <em>bricolage? <\/em>Todas elas, comprimidas em uma linha que podemos nominar de experi\u00eancia, que assume aqui, suas caracter\u00edsticas de singularidade, de finitude e de ulterioridade, somente passou a ter exist\u00eancia quando entrou na rede de interesses que se estabeleceram para encontrar um encaminhamento apropriado, que servisse como trabalho de campo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c2g9d\">Ora, dar os primeiros passos na senda no Col\u00e9gio S\u00e3o Jos\u00e9, cujos laborat\u00f3rios de largo trajeto hist\u00f3rico, prestavam-se otimamente \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso admitir que Knorr-Cetina atinou com um ponto importante das rela\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, quando apresentou suas argumenta\u00e7\u00f5es acerca da l\u00f3gica oportunista de manter um relacionamento cauteloso, \u00fatil e, por assim dizer, verdadeiro, \u00e9 o nome do jogo (Geertz, 1992, p. 67). Ent\u00e3o, o que fizemos foi tentar um ajuste com toda esp\u00e9cie de recursos, contra recursos e distribui\u00e7\u00f5es de poder, com a inten\u00e7\u00e3o de sermos bem sucedidos na empreitada.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ag94e\">Para quem est\u00e1 em buscar de um tema e campo de pesquisa, encontr\u00e1-los \u00e9 deveras, um grande al\u00edvio. Mas n\u00e3o \u00e9, de forma alguma, o fim do caminho!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c3fnv\">Fazer contato com as min\u00facias e as idiossincrasias que circulam um campo de pesquisa pode ser bem traum\u00e1tico. Antes de me embrenhar nos laborat\u00f3rios, os trabalhos de pesquisa passaram por outros locais. Estive envolvido com pesquisas em atas, livros produzidos pelas irm\u00e3s franciscanas, algumas entrevistas informais, inicialmente sem qualquer recurso al\u00e9m da mem\u00f3ria, caneta e papel, seguindo de certa forma o que disse Latour &amp; Woolgar (1997, p. 34), penetrei, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 metodologia, \u201c\u00e0s apalpadelas na selva dos fatos, sem possuir mapa ou b\u00fassola\u201d. As informa\u00e7\u00f5es obtidas durante o dia de trabalho foram transcritas &#8211; amadoramente &#8211; para um caderno que chamei de <em>di\u00e1rio de campo. <\/em>Nele guardava, supunha eu, informa\u00e7\u00f5es, impress\u00f5es, emo\u00e7\u00f5es e trechos desconexos de hist\u00f3ria, e teve o papel de ser o ensaio de registro, na tentativa de um entendimento da organiza\u00e7\u00e3o da escola, dentro de um contexto mais geral.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bq8qn\">Dar conta do contexto geral, mostrou-se muito rapidamente uma ilus\u00e3o. O que fiz foi bem mais modesto, foi descrever como a circula\u00e7\u00e3o de interesses, conforme tratado por Latour (2001), funcionou para contar <em>uma<\/em> hist\u00f3ria, para <em>um<\/em> texto, carregada de teorias e interesses vindos de outros contextos. \u00c9 como disse Veiga-Neto (1996, p. 354),<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-ad7lr\"><p>[&#8230;] minhas leituras n\u00e3o fizeram a anatomia dos textos. Minhas leituras foram superficiais. Isso deve ser entendido, certamente, n\u00e3o como \u201capressadas\u201d ou \u201cn\u00e3o rigorosas\u201d, sen\u00e3o como leituras que s\u00e3o feitas pela superf\u00edcie em que tais discursos se relacionam com a episteme em que nasceram e em que s\u00e3o pronunciados. Cada texto \u00e9 um monumento que ocupa um espa\u00e7o, empurrando para os lados os outros textos[&#8230;]<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7et2c\">As falas, os textos, as apresenta\u00e7\u00f5es que ser\u00e3o feitas a seguir s\u00e3o tomadas desta exterioridade \u00e0 qual se refere Veiga-Neto, sempre negociada e esvaziada da origem e n\u00e3o na sua linearidade e internalidade. O que fiz foi realizar an\u00e1lises fragment\u00e1rias e transform\u00e1veis utilizando-me de alguns textos, de alguns relatos, de algumas observa\u00e7\u00f5es seguindo L\u00ea Goff (1985) e Gore (1994), quando dizem que devemos analisar os eventos n\u00e3o como documentos, mas como monumentos fabricados segundo rela\u00e7\u00f5es de poder que induzem, seduzem, ampliam ou limitam, alinham os interesses ou destroem as possibilidades.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/a64e43_c721414a573d422e911b877015603659~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_360,h_312,al_c,lg_1,q_90\/a64e43_c721414a573d422e911b877015603659~mv2.webp\" alt=\"\"\/><figcaption>Biblioteca do Col\u00e9gio S\u00e3o Jos\u00e9<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-38vc\">Iniciei a pesquisa na biblioteca no, agora, long\u00ednquo 4 de fevereiro de 2003. A biblioteca (Ilustra\u00e7\u00e3o 1) fica atualmente onde fora um por\u00e3o, um pouco abaixo do n\u00edvel do solo \u00famido de S\u00e3o Leopoldo RS. A estrutura arquitet\u00f4nica sustentada por vigas em arcadas apoiadas em grossas e s\u00f3lidas paredes, dava ao local uma sensa\u00e7\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o medieval. Estreei<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4dqrj\">pela leitura da Poliant\u00e9ia, primeira refer\u00eancia que me foi apresentada pela atenciosa bibliotec\u00e1ria, quando ela me disse que naquela obra \u201d<em>estava escrita direitinho a hist\u00f3ria das Irm\u00e3s Franciscanas e a funda\u00e7\u00e3o do col\u00e9gio S\u00e3o Jos\u00e9\u201d<\/em>. Todo o cen\u00e1rio de por\u00e3o da biblioteca e o livro contando hist\u00f3rias de abnega\u00e7\u00e3o, esp\u00edrito empreendedor e \u00edmpeto jovial de mulheres e homens que constru\u00edram sistemas e rela\u00e7\u00f5es importantes, dava uma estimulante sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9kr53\">Li com interesse juvenil a Poliant\u00e9ia, obra produzida pela Congrega\u00e7\u00e3o das Irm\u00e3s Franciscanas da Penit\u00eancia e Caridade Crist\u00e3. Enquanto ia sendo apresentada a cria\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio S\u00e3o Jos\u00e9, \u00e0 procura de pistas sobre a trajet\u00f3ria do pensamento cient\u00edfico, descobri pouco sobre ci\u00eancia, algo sobre a hist\u00f3ria da escola e indica\u00e7\u00f5es, quase sensa\u00e7\u00f5es, acerca de uma poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e do fazer, sublimado na frase \u201c<em>Deus prover\u00e1<\/em>\u201d, atribu\u00edda como inabal\u00e1vel express\u00e3o utilizada por Madre Madalena (Maria Catharina Damen 1787 \u2013 1858) fundadora da congrega\u00e7\u00e3o em 1835 (Werle, 2002). Madre Madalena, segundo consta da Poliant\u00e9ia (1947), utilizou a express\u00e3o \u201cDeus Prover\u00e1\u201d como motiva\u00e7\u00e3o para seus trabalhos de caridade e como bandeira de f\u00e9 em situa\u00e7\u00f5es mais agudas das crises pol\u00edticas e sociais nas quais esteve presente. No Col\u00e9gio S\u00e3o Jos\u00e9, na sala de reuni\u00f5es observei um cartaz de 1,5m2 com a imagem de Madre Madalena, onde se l\u00ea \u201cDeus cuida\u201d. H\u00e1 portanto, uma modifica\u00e7\u00e3o no entendimento: da provid\u00eancia divina como (pro)visor de todas as necessidades para um entendimento, de estar atento, algu\u00e9m que cuida, que observa.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8o60s\">Os relatos e hist\u00f3ricas contadas acerca da congrega\u00e7\u00e3o, da fundadora, da cria\u00e7\u00e3o do col\u00e9gio, revelaram um interessante jogo de conting\u00eancias que foram produzindo os fatos, entre os quais, a cria\u00e7\u00e3o do col\u00e9gio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ck3c2\">Da pesquisa na documenta\u00e7\u00e3o da escola, senti que estava fazendo um trabalho um tanto desconectado. Do ponto de vista metodol\u00f3gico, os dados que possam ser levantados, s\u00f3 adquirem significado no entrela\u00e7amento com as observa\u00e7\u00f5es das atividades realizadas no laborat\u00f3rio \u2013 pensava eu. A constitui\u00e7\u00e3o de um entendimento hist\u00f3rico e da utiliza\u00e7\u00e3o destes <em>dados<\/em> nas agon\u00edsticas atuais permitem outras infer\u00eancias. Somente dessa maneira, refletia eu, seria pertinente retomar a pesquisa pelas normas, atas e outros documentos. Olhando em retrospecto, foi um aprendizado e uma dicis\u00e7\u00e3o importante, pois marcou um novo ponto de partida para a fase emp\u00edrica. Os documentos, nessa perspectiva, teriam algum sentido quando tornarem poss\u00edveis alguns entendimentos sobre suas a\u00e7\u00f5es concretas, como inscritores, na sua descontinuidade, desqualificados de suas posi\u00e7\u00f5es privilegiadas de conhecimentos verdadeiros, ou seja, quando perdem suas inst\u00e2ncias privilegiadas de documentos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5igao\">Ao perceber isso, me dei conta que estava fazendo um recorte, dando um limite. De resto, estava criando minha metodologia a partir das condi\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. Estava fazendo a op\u00e7\u00e3o de olhar a escola e o laborat\u00f3rio escolar, no sentido dado por Latour &amp; Woolgar (1997, p. 21):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-4np7f\"><p>Cumpre estudar a ci\u00eancia atual, a que est\u00e1 sendo feita, em meio a toda a controv\u00e9rsia, de modo a sair definitivamente do conforto intelectual dos historiadores que est\u00e3o sempre chegando atrasados. Em lugar de estudar as ci\u00eancias \u201csancionadas\u201d cabe estudar as ci\u00eancias abertas e incertas.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-11t1p\">A partir do estranhamento de estar naquele por\u00e3o \u00e0s voltas com uma literatura um tanto fabulosa, o estudo de documentos foi aparecer no texto, somente a partir da necessidade e do tipo de documento que as conting\u00eancias da pesquisa solicitaram. Essa foi uma decis\u00e3o dif\u00edcil de ser tomada, j\u00e1 que p\u00f4s por terra minha motiva\u00e7\u00e3o primeira, quando na conversa com a Irm\u00e3 Iria, no in\u00edcio deste cap\u00edtulo, me entusiasmava uma pesquisa hist\u00f3rico-documental.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dga4o\">Doze de agosto de 2003, marca um novo primeiro dia <em>oficial<\/em> de pesquisa no Col\u00e9gio S\u00e3o Jos\u00e9, fiquei vagando um pouco pelos corredores vazios em frente \u00e0s salas de aula do ensino m\u00e9dio e fundamental. Professores e alunos estavam em suas salas, com portas fechadas; pelas janelas amplas podia ver os alunos, as alunas e as professoras em atividades, naquela cena que meus olhos de professor j\u00e1 est\u00e3o habituados a presenciar; mas havia algo diferente, como se n\u00e3o reconhecesse bem tudo aquilo. A posi\u00e7\u00e3o de sujeito que pesquisa modifica todo o campo; \u00e9 como se admirasse algo ex\u00f3tico. Olhei novamente, alguns alunos virados para tr\u00e1s com olhares que oscilavam entre preocupados e distra\u00eddos, conversando com os colegas, outros aferrados ao caderno, quase dobrados sobre eles, escreviam de forma lenta, artesanal, com o olhar t\u00e3o distante que dava a impress\u00e3o de estarem em viagens extracorp\u00f3reas. Outros pareciam estar em toda a parte. Alguns pareciam dedicar-se ao aprendizado do tema proposto pela professora que gesticulava, falava, escrevia&#8230; Visto pelo lado de fora, sem o privil\u00e9gio do som, tive a impress\u00e3o de estar assistindo a um ensaio, uma tomada para um filme, onde os figurantes representavam pap\u00e9is, falavam, ouviam, fingiam dan\u00e7ar sem a m\u00fasica. Imagens que sopravam imperfeitas, mescladas por taxionomias e est\u00e1dios epistemol\u00f3gicos, portanto, coladas a uma preconcep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/a64e43_a1ebbf0842ca4a2e8f5a194317a3e719~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_360,h_239,al_c,q_90\/a64e43_a1ebbf0842ca4a2e8f5a194317a3e719~mv2.webp\" alt=\"\"\/><figcaption>Fachada frontal do Col\u00e9gio S\u00e3o Jos\u00e9, S\u00e3o Leopoldo, RS.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-psen\">Apressei o passo pelo largo e longo corredor do 2\u00ba andar do pr\u00e9dio destinado ao ensino m\u00e9dio, de forma a fugir daquelas imagens que pareciam capturar-me de uma maneira que n\u00e3o queria naquele momento. Minha vontade era sair da escola. Ganhei o corredor que dava acesso \u00e0 porta principal, de batente alto com 3 metros de altura e 2 metros de largura, encontrei a Irm\u00e3 \u00cdria, cumprimentou-me sorridente e perguntou-me se estava trabalhando e disse: <em>parece que est\u00e1 tudo certo n\u00e9?<\/em> Sa\u00ed pela porta principal, como que saindo de um labirinto. A branca fachada externa do pr\u00e9dio (Ilustra\u00e7\u00e3o 2), desbotada de leve, destacava-se das nuvens cinzas do c\u00e9u, o z\u00e9firo denunciava a chegada do inverno ga\u00facho, caminhei vagarosamente pelo p\u00e1tio externo \u00e0 procura de algo, n\u00e3o sei bem o qu\u00ea. No p\u00e1tio, as laranjeiras carregadas de frutos amarelos, pareciam pequenos s\u00f3is envoltos nas folhas verde-escuro. A todo o momento perguntava o que estava fazendo ali. Tudo estava calmo, ningu\u00e9m \u00e0 vista, a \u00fanica coisa a ver era a figura colossal do pr\u00e9dio de quatro andares logo \u00e0 minha frente.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3mqlj\">Retornei para a sala dos professores, que estabeleci como uma esp\u00e9cie de porto para qualquer viagem dentro da escola. Encontrei a professora Din\u00e1 que leciona Biologia para os alunos do primeiro ano do ensino m\u00e9dio e Ci\u00eancias para as quintas s\u00e9ries (A e B) e s\u00e9timas s\u00e9ries (A, B e C) do ensino fundamental. No oitavo m\u00eas de gravidez e andando com cuidado, gentilmente me convidou para conhecer suas atividades no clubinho de ci\u00eancias O clubinho de ci\u00eancias destinava-se \u00e0s crian\u00e7as que ficam em per\u00edodo integral na escola, variam desde a 1\u00aa at\u00e9 a 4\u00aa s\u00e9ries do ensino fundamental. Alguns j\u00e1 alfabetizados e outros ainda em fase de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Levou-me, depois, ao museu que estava organizando, \u00e0s hortas que cultivava com os alunos e \u00e0s suas aulas \u2013 na maioria, executadas no laborat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8lfh5\">Nas prateleiras do laborat\u00f3rio, os vidros contendo cobras, aranhas, fetos, esqueletos e corpos humanos feitos de pol\u00edmeros sint\u00e9ticos desmont\u00e1veis, maquetes se desmontando, vasos contendo plantas em germina\u00e7\u00e3o, aqu\u00e1rio que, em vez de peixes, continha minhocas, davam \u00e0quele espa\u00e7o uma <em>institui\u00e7\u00e3o <\/em>de laborat\u00f3rio de Biologia, onde se faziam coisas acontecerem. Um dia (21\/08\/2003), ap\u00f3s algumas experi\u00eancias do clubinho de ci\u00eancias e muitos h\u00f3\u00f3\u00f3\u00f3os! Puxas! Que massas! Perguntas e coment\u00e1rios dos alunos; a professora Din\u00e1 me disse:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-5o60i\"><p>[&#8230;] \u00e9 uma forma de trabalhar n\u00e9, um jeito que tu faz de o aluno ver e aprender o que \u00e9 importante ele aprender e fazer aquilo que a gente ta aprendendo, s\u00f3 da boca pra fora n\u00e3o d\u00e1, aqui tem experi\u00eancia [&#8230;] e a\u00ed tu vai mostrando, e a\u00ed eles n\u00e3o esquecem mais.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f5s56\">Perguntei se ela se achava uma cientista.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-2c91r\"><p>Sim! Eu pra mim sim [risos dela]! Ci\u00eancia \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o do saber [&#8230;] do meu jeito eu sou&#8230; [pausa]. Eu j\u00e1 fiz ci\u00eancia pura sabe? Mas n\u00e3o existe ci\u00eancia pura sem conversa\u00e7\u00e3o, sem uni\u00e3o, sem autoconhecimento [&#8230;] eu j\u00e1 trabalhei em cooperativas [&#8230;] mas eu n\u00e3o conseguia ficar distante, porque a ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 isso, a ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 para ficar distante, ela tem que aproximar n\u00e9!? O indiv\u00edduo, para aplicar esse conhecimento! Para usar esse conhecimento em alguma coisa. [&#8230;] a minha decep\u00e7\u00e3o foi quando eu descobri esse outro lado do cientista, \u00e9 pr\u00f3prio de mim, uma quest\u00e3o de justi\u00e7a minha, eu sempre quis saber como era esse outro lado do cientista, por que aquele cientista que ganha pr\u00eamios, o que \u00e9 que ele fez para chegar onde chegou? Eu estudei v\u00e1rios cientistas [n\u00e3o entendi os nomes] mas eu n\u00e3o gostava desse outro lado, assim, da falta de \u00e9tica, do roubo, de tentar copiar dos outros aquilo que n\u00e3o era dele [&#8230;]. Eu n\u00e3o gosto porque&#8230; acontece at\u00e9 hoje, se voc\u00ea n\u00e3o for esperto eles est\u00e3o te passando a perna [&#8230;].<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9heks\">Capturei, nessas falas alguma percep\u00e7\u00e3o do pano de fundo da purifica\u00e7\u00e3o da epistemologia cient\u00edfica, desdobrado astutamente e posto <em>por tr\u00e1s<\/em> de nossa incurs\u00e3o ao laborat\u00f3rio escolar. Enfim, alguma percep\u00e7\u00e3o emergia dessa metodologia \u00e0s apalpadelas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-851f0\">Depois fui convidado a participar de aulas onde se estavam preparando trabalhos para a feira de ci\u00eancias,<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-92di9\"><p>Amanh\u00e3, se tu quiseres acompanhar, eu tenho aula com o primeiro ano [do ensino m\u00e9dio], a\u00ed tu vais ver a pesquisa que eles est\u00e3o fazendo em \u00e1gua, e tu vais conhecer&#8230; Ah\u00e3\u00e3! A primeira pesquisa cient\u00edfica que eu comecei aqui no col\u00e9gio, com pesquisa de campo [&#8230;] ent\u00e3o n\u00f3s estamos vendo a solu\u00e7\u00e3o de problemas [&#8230;] uma coisa \u00e9 descobrir o problema, outra \u00e9 solucionar. [&#8230;] ent\u00e3o, os melhores trabalhos v\u00e3o para a feira [de ci\u00eancias do col\u00e9gio] e os outros ser\u00e3o expostos [&#8230;].<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-99nbd\">A professora Din\u00e1, ao falar um pouco de si, me conduziu \u00e0 porta do labirinto, fez as apresenta\u00e7\u00f5es das conex\u00f5es entre ci\u00eancia, conhecimento e raz\u00e3o, do m\u00e9todo cient\u00edfico, das premia\u00e7\u00f5es, dos fios que conectam v\u00e1rios interesses pelos quais a ci\u00eancia atua na escola.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cvc15\">Foi tamb\u00e9m a professora Din\u00e1 quem me apresentou \u00e0 professora Rosalyn. Esta leciona Qu\u00edmica para os primeiros anos (turmas A, B e C) e segundo ano (turma A) do ensino m\u00e9dio. \u00c9 respons\u00e1vel, tamb\u00e9m, pela prepara\u00e7\u00e3o das aulas pr\u00e1ticas de Qu\u00edmica. Trabalha 18 horas por semana na escola, seis em atividades no laborat\u00f3rio e as doze outras, com aulas. Neta de propriet\u00e1rio de ind\u00fastria qu\u00edmica,<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-2nrtn\"><p>Meu av\u00f4 tinha uma Ind\u00fastria Qu\u00edmica, [&#8230;] de produtos de couro [&#8230;], eu adorava ficar l\u00e1 com ele, mexendo naqueles vidros e brincando de fazer coisas [&#8230;].<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d0bqd\">Estudou no Col\u00e9gio S\u00e3o Jos\u00e9 at\u00e9 a 8\u00aa s\u00e9rie, depois fez curso t\u00e9cnico de Qu\u00edmica no Col\u00e9gio Liberato Salzano Vieira da Cunha, em Novo Hamburgo,<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-9p1o6\"><p>Era muito puxado, 4 anos em turno integral de segunda a s\u00e1bado, com 1 ano de est\u00e1gio, dos quatro anos, tr\u00eas fiquei no laborat\u00f3rio. [&#8230;] a Qu\u00edmica j\u00e1 estava pronta, do meu av\u00f4.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-b0p3t\">Formada em Qu\u00edmica (licenciatura) pela PUCRS e em Engenharia Civil pela UNISINOS, <em>\u201cprocurei a Qu\u00edmica na Engenhara Civil, mas era muito fraca\u201d<\/em>. Em 1990 foi convidada pela Irm\u00e3 Leda In\u00eas Rabuscke, Diretora Pedag\u00f3gica na \u00e9poca (Werle, 2002), para reativar o curso cient\u00edfico no col\u00e9gio.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-9erd9\"><p>Eu estou aqui desde 90 [1990] eu iniciei quando iniciou o curso cient\u00edfico aqui na escola, que foi em 90, reiniciou, por que antes s\u00f3 existia o normal, ai eu entrei, a\u00ed n\u00f3s come\u00e7amos [&#8230;]. Desde que eu cheguei, j\u00e1 fui ajeitando alguma coisa pr\u00e1tica, como voc\u00ea vai explicar pro aluno o que \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o supersaturada? S\u00f3 na pr\u00e1tica! [&#8230;] talvez a gente queira que o mundo seja mais m\u00e1gico, por isso gosta da explos\u00e3o dos qu\u00edmicos [&#8230;] Bah! Eu me seguro nisso, o objetivo \u00e9 integrar todos [&#8230;] tu s\u00f3 tens liberdade se tu conheces!<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-925bd\">Fiquei pensando no que Latour (2002a) disse acerca da estratifica\u00e7\u00e3o da tecnologia como meio, a moralidade e a \u00e9tica, como fim; quando se est\u00e1 operando em um discurso regido pela epistemologia da ci\u00eancia, e do quanto essa dicotomia \u00e9 problem\u00e1tica quando se observam as atividades diretamente no campo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-45nih\">A professora Rosalyn divide suas fun\u00e7\u00f5es com a professora Isadora, numa parceria que funciona com conex\u00f5es, conversas e acertos que ocorrem, segundo pude acompanhar, rapidamente pelos corredores, na sala dos professores onde, entre os v\u00e1rios assuntos sobre o que conversam, aparecem pequenos trechos, fragmentos acerca das atividades que dividem entre si.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-8801u\"><p>Eu me encarrego das aulas pr\u00e1ticas e exerc\u00edcios e a Isadora faz as provas [&#8230;] estamos t\u00e3o conectadas que d\u00e1 certo [&#8230;].<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5t5vf\">O sucesso, para mim, um observador externo, parecia sustentado por um min\u00fasculo e fr\u00e1gil fio que transmitia c\u00f3digos de articula\u00e7\u00e3o e parecia sempre tensionado no limite de rebentar. Os c\u00f3digos, os enunciados n\u00e3o funcionavam da mesma maneira para todas a professoras. N\u00e3o verifiquei algo parecido, por exemplo, entre a professora Din\u00e1 e a professora Luc\u00edula, ambas da Biologia. Ou da professora Rosalyn com outros professores atuando da mesma maneira, com a mesma articula\u00e7\u00e3o que envolvesse o laborat\u00f3rio, aulas te\u00f3ricas, pr\u00e1ticas e prepara\u00e7\u00e3o do material.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cue6q\">Comecei a entender que de alguma maneira as atividades obedeciam a c\u00f3digos locais, articulados a interesses e afinidades mais do que aos elementos institucionalizados, embora estes estivessem presentes, n\u00e3o apenas como preocupa\u00e7\u00e3o nas reuni\u00f5es pedag\u00f3gicas, das quais n\u00e3o participei, mas sobre as quais tive conhecimento, por meio dos livros did\u00e1ticos, que buscam se adequar aos esquemas da LDB. De maneira preliminar, \u00e9 poss\u00edvel dizer que vale olhar para as atividades pr\u00e1ticas no sentido mais espec\u00edfico. Mesmo porque o descompasso entre o que se diz e o que se faz dificulta uma pesquisa baseada somente em entrevistas, ou no que dizem as professoras, mesmo quando h\u00e1 programas <em>norteadores <\/em>bem estruturados. (Arruda, 2001; Lemberger et al, 1999).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-85ur0\">A professora Isadora ingressou no Col\u00e9gio em 2000, leciona Qu\u00edmica para os segundos anos (turmas B e C) e para os terceiros anos (turmas A e B), cumpre treze horas de atividades na escola. Tem uma trajet\u00f3ria de 25 anos como professora de Qu\u00edmica.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-7gh65\"><p>Eu gostava de Qu\u00edmica e na \u00e9poca em que tinha idade para o vestibular estavam inaugurando o polo petroqu\u00edmico, a\u00ed eu decidi fazer pra Qu\u00edmica. Eu achei que podia ser uma possibilidade, fiz vestibular para Eng. Qu\u00edmica na UFRGS,[&#8230;] n\u00e3o passei. Fiz vestibular para Qu\u00edmica na PUCRS, passei. [&#8230;] Fiz licenciatura curta em matem\u00e1tica e ci\u00eancias, depois licenciatura plena em Qu\u00edmica e por fim bacharelado. [&#8230;] Eu estava bem dentro do curso [&#8230;] fui monitora durante muitos anos [&#8230;] eu era monitora de inorg\u00e2nica II, [&#8230;] ent\u00e3o tudo que o professor dava de pr\u00e1tica era a gente que preparava, os materiais, ele dava o roteiro e a gente preparava as solu\u00e7\u00f5es&#8230; se virava.[&#8230;] Aquilo era uma segunda faculdade, com certeza. [&#8230;] Eu comecei a fazer um mestrado em engenharia metal\u00fargica na UFRGS, em corros\u00e3o, o trabalho final ia ser sobre corros\u00e3o [&#8230;] mas a\u00ed, com dois anos de curso [&#8230;] como \u00e9 que fala? Eu&#8230; tranquei.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f4j1e\">A professora Isadora seguiu contando sua trajet\u00f3ria. Ouvindo-a ficava cada vez mais dif\u00edcil estabelecer o que Meihy (1996, p. 16) chama de modalidades de hist\u00f3ria oral. A todo instante as preocupa\u00e7\u00f5es com a trajet\u00f3ria pessoal confundiam-se com o tema <em>Ci\u00eancias <\/em>de nossa entrevista e com as tradi\u00e7\u00f5es mais coletivas de <em>nossos<\/em> mitos acerca da <em>nossa<\/em> sociedade racional, do conhecimento como liberdade ou da adolesc\u00eancia como car\u00eancia. A pr\u00f3pria emerg\u00eancia dos estere\u00f3tipos nos discursos, meu e dela, que podem ser fatiados em sociogramas (Robin, 1986), denuncia uma certa racionalidade gr\u00e1fica, um alfabetismo cient\u00edfico (G\u00f3mez, 2001). Longe de significar melhor transpar\u00eancia, remete, ao contr\u00e1rio, a um mergulho no discurso que obedece a um certo ritual enunciativo, institucional, social e te\u00f3rico (Pivatto, 2000, Larrosa, 1994), que n\u00e3o nos deixa agir s\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-236jn\"><p>A\u00ed, me formei e fui convidada para trabalhar l\u00e1 dentro da universidade, como professora substituta, com contrato para seis meses, [&#8230;] inicialmente eram aulas de laborat\u00f3rio, de Qu\u00edmica Qualitativa [&#8230;], e no final de ano eles me contrataram e fui professora por doze anos, no curso de Eng. Qu\u00edmica e no curso de Ci\u00eancias, com F\u00edsico-Qu\u00edmica, era a minha \u00e1rea, a F\u00edsico-Qu\u00edmica. [&#8230;] Esqueci de comentar que quando me formei eu j\u00e1 trabalhava no Estado, [&#8230;] trabalhei quinze anos no Estado, nesta ocasi\u00e3o eu trabalhava na PUC e no Estado.[&#8230;] Meu marido \u00e9 Engenheiro em uma multinacional [&#8230;] Para ficar com os meus filhos eu pedi demiss\u00e3o da PUC, [&#8230;] depois fui contratada na FEEVALE para trabalhar com o ensino m\u00e9dio, trabalhei quatro anos. No Estado eu&#8230; Entrei no PDV, e sa\u00ed voluntariamente. [&#8230;] era muito ruim o clima, o Governo interferia nas escolas, o sal\u00e1rio cada vez mais&#8230; Eu sempre fui grevista, ent\u00e3o eu j\u00e1 vinha de muitas e muitas greves e nesta ocasi\u00e3o as coisas pioraram muito&#8230; cada vez n\u00f3s \u00e9ramos mais ah\u00e3\u00e3\u00e3! menosprezados&#8230; heeee, eu, gra\u00e7as a Deus, n\u00e3o precisava! Pedi demiss\u00e3o! [&#8230;] Atualmente eu trabalho no Lassale de Canoas e aqui.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-65l\">A professora Isadora ingressou no Col\u00e9gio S\u00e3o Jos\u00e9, inicialmente lecionando em um curso preparat\u00f3rio para vestibular em 1999,<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-6dtok\"><p>A\u00ed em 2000, a Bethi [Diretora Pedag\u00f3gica], me perguntou se eu teria interesse em dar aula no col\u00e9gio, Eu disse que sim! De todas as escolas que eu trabalhei, de ensino m\u00e9dio, essa \u00e9 a melhor!<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-40p52\">Perguntei se era pelas facilidades de relacionamento.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" id=\"viewer-d6371\"><p>\u00c9, pela facilidade de relacionamento, mas mais pela filosofia, que eu acho que \u00e9 a filosofia que mais se adecua<a href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/07dfa6f4-73b9-4c80-a86b-d4a026af21bf\/blog\/create-post?tab=add-elements#_ftn1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">[1]<\/a> \u00e0 minha, \u00e9 uma filosofia que cuida da pessoa como cidad\u00e3o e entende que cuidar da pessoa como cidad\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 deixar que ela fa\u00e7a tudo que ele bem entende, \u00e9 uma filosofia que exige, que n\u00e3o \u00e9 a tend\u00eancia de passar a m\u00e3o na cabe\u00e7a do aluno. [&#8230;] \u00e9 dar para o adolescente, educa\u00e7\u00e3o, limites, conte\u00fado! Os adolescentes est\u00e3o a\u00ed para que? Para saber seus limites, saber conviver em sociedade, saber que a minha liberdade come\u00e7a onde termina a do outro. [&#8230;] O conhecimento leva a liberdade, em todos os sentidos, ensinar Qu\u00edmica \u00e9 ensinar uma coisa bonita.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7tulb\">Essas foram as tr\u00eas informantes que mais contribu\u00edram para o trabalho, atuando como <em>professoras<\/em>. As perspectivas de cada uma foram obtidas de formas distintas, com a professora Din\u00e1 ocorreu atrav\u00e9s da grava\u00e7\u00e3o de uma conversa <em>informal<\/em> ap\u00f3s sua aula, em agosto de 2003 e n\u00e3o foi <em>planejada <\/em>como uma entrevista, o que n\u00e3o constituiu ineditismo nem tampouco fugimos de um cen\u00e1rio particular, diverso daquele em que ocorreram os eventos que a professora Din\u00e1 me contou. J\u00e1 a professora Rosalyn, n\u00e3o aceitou que a entrevista, marcada para 14 de julho de 2004, fosse gravada. Preparei, previamente, um question\u00e1rio, para que pudesse apreender o melhor poss\u00edvel da nossa conversa. A pauta pr\u00e9via n\u00e3o diferiu da entrevista com a professora Din\u00e1, n\u00e3o estive neutro em nenhum dos casos: havia um projeto, interesses, teorias sempre presentes. Ademais, e talvez o mais interessante, \u00e9 que das vinte perguntas que preparei, elegi oito para a entrevista e somente utilizei as duas primeiras<a href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/07dfa6f4-73b9-4c80-a86b-d4a026af21bf\/blog\/create-post?tab=add-elements#_ftn2\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">[2]<\/a> que me soaram, no momento do evento, com significados distintos daqueles com os quais as redigi e, tomando um rumo pr\u00f3prio no decorrer da conversa. Ora, as t\u00e9cnicas, o planejamento, as concep\u00e7\u00f5es de escola, de laborat\u00f3rio s\u00f3 funcionam bem como fatores sociais e artefatos humanos quando bem protegidas e longe dos eventos em que s\u00e3o produzidos. Atravessado por essas experi\u00eancias, n\u00e3o preparei quest\u00f5es para a professora Isadora, embora, e talvez porqu\u00ea, j\u00e1 as tivesse prontas na mem\u00f3ria. Ainda que tenha permitido a grava\u00e7\u00e3o da conversa, a negocia\u00e7\u00e3o para que aceitasse a entrevista foi mais complexa<a href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/07dfa6f4-73b9-4c80-a86b-d4a026af21bf\/blog\/create-post?tab=add-elements#_ftn3\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">[3]<\/a> e uma certa formalidade esteve sempre presente, em particular no in\u00edcio, quando suas lembran\u00e7as pareciam passar por uma bateria de asceses, em busca de esquemas coerentes de narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-b56o7\">N\u00e3o houve, portanto, um dom\u00ednio metodol\u00f3gico acerca das entrevistas, pelo menos n\u00e3o dentro do modelo <em>homo faber<\/em>, mas bifurca\u00e7\u00f5es, eventos circunstanciais e sutilezas que alteraram as trajet\u00f3rias e as hist\u00f3rias, e continuam sendo possu\u00eddas, e modificadas neste exato momento em que as escrevo e pergunto: do que falavam as professoras? De agon\u00edsticas, em que o her\u00f3i aprisiona em si o conhecimento, \u00fanica arma capaz de livrar a todos da tirania, da ignor\u00e2ncia e da servid\u00e3o? Falavam do <em>frontagir <\/em>dos cientistas ou dos professores? Falavam dos acontecimentos ou das repercuss\u00f5es? De suas vidas ou de padr\u00f5es e valores de uma mem\u00f3ria coletiva espec\u00edfica do <em>ser <\/em>professora, institu\u00edda em um grupo de atuantes e eventos <em>ad hoc<\/em>, que como um ritual, em um momento de perigo, eram juntados \u00e0s pressas na mem\u00f3ria para dar conta da entrevista que, faziam-nas buscar hist\u00f3rias como se fossem seus passados? Como acreditar que a fala das professoras, das administradoras, dos funcion\u00e1rios e dos alunos <em>\u00e9<\/em> <em>realmente <\/em>o trabalho de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento escolar? Como seria poss\u00edvel manter dist\u00e2ncia suficiente para lan\u00e7ar um olhar verdadeiramente novo acerca do que \u00e9 feito nos laborat\u00f3rios?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3p6tl\">As transcri\u00e7\u00f5es das falas apresentadas acima foram longas, uma tentativa de possibilitar interven\u00e7\u00f5es maiores das informantes, sobretudo neste item, em que tratamos de <em>apresenta\u00e7\u00f5es<\/em>, este meio termo entre a presen\u00e7a objetiva do ser sociol\u00f3gico e a busca subjetiva da autobiografia. Quase todo o tempo, busc\u00e1vamos uma aproxima\u00e7\u00e3o, mas havia uma separa\u00e7\u00e3o entre pesquisador e informante em que cada qual buscava seguir suas vidas. Nossos contatos eram a pr\u00f3pria ess\u00eancia dos eventos que hibridizavam interesses em comum, surgiam das necessidades que estavam sendo provocadas pela minha presen\u00e7a no campo. Mesmo sendo uma situa\u00e7\u00e3o um tanto inc\u00f4moda, ela \u00e9 produtiva do ponto de vista metodol\u00f3gico, quando olhada retrospectivamente; justamente porque desaloja a diferen\u00e7a, faz fluir outros territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f3n38\">Mas para compreender algo daquela escola, daquelas pessoas, seus costumes, suas maneiras e que elas tamb\u00e9m n\u00e3o me entendiam. Uma observa\u00e7\u00e3o participante (Bosi, 1987), embora cada vez menos prov\u00e1vel, devido \u00e0 dist\u00e2ncia cultural e aos interesses em jogo, mostrou-se relativamente presente em muitos momentos. Menos como parcerias e mais como sistemas agon\u00edsticos quando colaborei na prepara\u00e7\u00e3o de aulas pr\u00e1ticas. Quando, num instante, me vi em um campo agon\u00edstico, as diferen\u00e7as de minha pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, dos meus pr\u00f3prios valores come\u00e7aram a mostrar contornos mais n\u00edtidos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7aci2\">Cabe ainda apresentar melhor como fui tecendo a metodologia \u00e0s apalpadelas trazendo \u00e0 presen\u00e7a o laborat\u00f3rio, os alunos, os detalhes da negocia\u00e7\u00e3o com o campo de pesquisa. Mas, devido ao espa\u00e7o reduzido aqui, convido a olhar essas outras passagens no texto original. Ver Oliveira (2016).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-auc8e\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/07dfa6f4-73b9-4c80-a86b-d4a026af21bf\/blog\/create-post?tab=add-elements#_ftnref1\" target=\"_blank\">[1]<\/a> Embora esta palavra n\u00e3o seja dicionarizada ou conjug\u00e1vel a partir do verbo <em>adequar<\/em>, optei por mant\u00ea-la, devido ao seu uso comum e, pensando no que disse Latour (2001, p. 318), embaixo, na vida useira, na l\u00edngua vulgar, as regras se confundem, s\u00e3o redistribu\u00eddas e remexidas interminavelmente. De fato. Se o mundo acad\u00eamico quer que a multid\u00e3o fa\u00e7a parte de suas pol\u00edticas, vai precisar se acostumar com a desordem que isso produz. <\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-auc8e\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/07dfa6f4-73b9-4c80-a86b-d4a026af21bf\/blog\/create-post?tab=add-elements#_ftnref2\" target=\"_blank\">[2]<\/a> As quest\u00f5es: 1) Tenho acompanhado seu trabalho aqui na escola, vejo seu envolvimento com a Qu\u00edmica, com a APM (Associa\u00e7\u00e3o de Pais e Mestres) e est\u00e1 sempre <em>ativada. <\/em>Conta-me um pouco como voc\u00ea transita entre estes fazeres. 2) Conte-me um pouco de como voc\u00ea come\u00e7ou sua carreira. <\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-auc8e\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/07dfa6f4-73b9-4c80-a86b-d4a026af21bf\/blog\/create-post?tab=add-elements#_ftnref3\" target=\"_blank\">[3]<\/a> \u00c9 pertinente dizer que na data da entrevista, 16\/07\/2004, eu j\u00e1 havia dado \u00e0 Isadora algumas transcri\u00e7\u00f5es das grava\u00e7\u00f5es de suas aulas e ela j\u00e1 havia questionado se eu as publicaria da maneira como estavam. \u201c<em>\u00e9 porque na aula a gente vai falando, mas quando passa para o papel, sai umas coisas &#8230;\u201d<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo Latour (2000, p. 12), \u201ca escolha da porta de entrada depende crucialmente da escolha do momento certo\u201d. Mas este momento est\u00e1 sempre em movimento, \u00e9 como diz a palavra, abstrato, n\u00e3o \u00e9 mais do que um instante e pouco diz da posi\u00e7\u00e3o da porta, mas apenas que \u00e9 o local pelo qual podemos passar. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":122,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[21,29],"class_list":["post-115","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fala-ai-como-voce-fez","tag-estudos-culturais-das-ciencias","tag-moises-alves-de-oliveira"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=115"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":277,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115\/revisions\/277"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/122"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}