{"id":101,"date":"2022-08-01T15:00:21","date_gmt":"2022-08-01T18:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/?p=101"},"modified":"2022-08-01T15:01:21","modified_gmt":"2022-08-01T18:01:21","slug":"entrevista-com-alfredo-da-veiga-neto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/confissoes-os-enredos-da-tradicao\/2022\/08\/01\/entrevista-com-alfredo-da-veiga-neto\/","title":{"rendered":"Entrevista com Alfredo da Veiga-Neto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Apresenta\u00e7\u00e3o do entrevistado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Graduado em Hist\u00f3ria Natural (1967) e em M\u00fasica (1963) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul; mestre em Gen\u00e9tica (1975) e doutor em Educa\u00e7\u00e3o (1996) pela mesma Universidade. Professor Titular da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFRGS. Professor Convidado Permanente do PPG-Educa\u00e7\u00e3o\/UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p id=\"viewer-74e8h\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: <\/strong>Bem-vindo, Alfredo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4lb7s\"><strong>Alfredo Veiga-Neto<\/strong>: Muito obrigado pelo convite, muito obrigado por essa interlocu\u00e7\u00e3o que n\u00f3s temos h\u00e1 muitos anos, via Mois\u00e9s. Aprecio muito essa pegada de sair daquela coisa enferrujada de que a educa\u00e7\u00e3o seja libertadora, seja libert\u00e1ria, seja cr\u00edtica, que s\u00e3o muito interessantes; mas essas tend\u00eancias de fazer uma mistura, fazer uma abordagem, sobre as quest\u00f5es educacionais, sobre educa\u00e7\u00e3o escolar, sobre ensinar e aprender, sobre curr\u00edculo, enfim, sobre did\u00e1tica; fazendo isso, nos alimentamos de outras \u00e1reas do conhecimento, de outras pr\u00e1ticas das ci\u00eancias, das humanidades, melhor dizendo, ou mesmo das ci\u00eancias naturais. Ent\u00e3o eu acho muito interessante. Mois\u00e9s sabe muito bem que o grupo do qual fiz parte durante muitos anos &#8211; eu estou aposentado, na verdade eu estou aposentado h\u00e1 23 anos e durante 22 anos, depois de aposentado, eu continuei como professor colaborador convidado permanente. Eu tinha um contrato com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no qual eu me responsabilizaria, como me responsabilizei, durante esses 22 anos depois de aposentado, dando pelo menos um semin\u00e1rio por ano e aceitando semin\u00e1rios de 4 cr\u00e9ditos no m\u00ednimo, eu sempre dei dois at\u00e9 tr\u00eas, mas no m\u00ednimo um &#8211; eu conto isso para voc\u00eas verem como \u00e9 minha inser\u00e7\u00e3o institucional burocr\u00e1tica &#8211; e me responsabilizando por projetos de pesquisa, que tinham que ser submetidos a cada 2 anos, e por orientados. Tive orientandos de mestrado, de doutorado, cotistas e n\u00e3o cotistas, antes de me aposentar e depois continuei com isso como, digamos, um <em>hobby<\/em>, como uma possibilidade (eu brinco, mas \u00e9 mais ou menos isso), como uma possibilidade de manter o Alzheimer um pouco mais afastado, um pouco mais em suspenso, e assim eu estive at\u00e9 o ano passado.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7kl5l\">No in\u00edcio do ano passado, bem no in\u00edcio da sindemia &#8211; que eu n\u00e3o chamo mais de pandemia, sigo o Lancet para chamar de sindemia &#8211; eu, de fato, cansei, n\u00e3o com meus alunos, n\u00e3o com meus semin\u00e1rios, mas cansei com a Universidade Federal. Cansei, n\u00e3o me desiludi, eu n\u00e3o tinha uma ilus\u00e3o que foi perdida, eu tinha um ambiente e esse ambiente foi perdido, est\u00e1 sendo perdido aceleradamente, ent\u00e3o eu me afastei, pedi cancelamento, finaliza\u00e7\u00e3o da minha situa\u00e7\u00e3o de colaborador convidado permanente, terminei as orienta\u00e7\u00f5es, e suspendi meu Lattes, j\u00e1 est\u00e1 fazendo praticamente dois anos que eu n\u00e3o mexo mais no Lattes, n\u00e3o preencho mais formul\u00e1rios, n\u00e3o respondo mais question\u00e1rios da universidade, n\u00e3o voto, n\u00e3o sou votado &#8211; n\u00e3o posso &#8211; e at\u00e9 pela Covid eu n\u00e3o fui mais l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1ndgm\">Mas, enfim, essa \u00e9 a minha situa\u00e7\u00e3o, e eu continuo com meu grupo de pesquisa, com meus ex-orientandos e alguns outros agregados, com os quais eu fa\u00e7o reuni\u00f5es quinzenais \u00e0s sextas-feiras, e estou passando a coordena\u00e7\u00e3o desse grupo, que se chama Grupo de Pesquisa em Curr\u00edculo e Contemporaneidade (GPCC), porque a nossa quest\u00e3o central \u00e9 entender as transforma\u00e7\u00f5es daquilo que se chama de curr\u00edculo, envolvendo, inclusive, as pol\u00edticas educacionais e tamb\u00e9m a did\u00e1tica e as transforma\u00e7\u00f5es dentro da contemporaneidade. Ent\u00e3o continuamos nos reunindo o ano passado inteiro, este ano tamb\u00e9m. E com as pessoas que s\u00e3o orientandos de outros colegas fazemos reuni\u00f5es h\u00e1 bastante tempo, desde antes da sindemia fazemos reuni\u00f5es <em>online<\/em>. Eu me mantenho ainda ativo, aceito esses convites generosos que voc\u00eas me fizeram, e fa\u00e7o algumas <em>\u2018lives\u2019<\/em>, algumas coisas, e mantenho o <em>Portal <\/em><a href=\"https:\/\/www.michelfoucault.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>FOUCAULT et alii<\/em><\/a> que eu criei em 2013 e \u00e9 um portal inteiramente gratuito que agrega filmes, textos, teses, disserta\u00e7\u00f5es, dicas, fotos, enfim, no campo dos estudos foucaultianos, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 Foucault, o que me mandam eu vou agregando ali. \u00c9 um portal que tem 50 a 90 consultas di\u00e1rias, do mundo inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-74euo\">Eu deveria aliment\u00e1-lo mais regularmente, mas tive um problema de sa\u00fade em dezembro passado, nada a ver com Covid, tive uma arterite (um neg\u00f3cio misterioso, complicado, autoimune) no nervo \u00f3ptico esquerdo e fiquei cego do olho esquerdo e isso me d\u00e1 muita limita\u00e7\u00e3o, me d\u00e1 muita irrita\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes me d\u00e1 muita desola\u00e7\u00e3o. Eu conto isso para voc\u00eas entenderem (aqueles que acompanham o Portal Foucault e o seu Twitter) que o portal Foucault est\u00e1 muito devagar, mesmo assim tem muita consulta, porque tem muito material, \u00e9 muito rico, e assim a gente vai levando.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8j0d7\">Ent\u00e3o, com isso eu fiz a minha apresenta\u00e7\u00e3o, e algumas coisas que eu vou dizer aqui e que pode parecer um \u201cexagero\u201d de caminhadas diferentes, de estudos diferentes, encantos diferentes, se deve a uma curiosidade que eu tenho, muito forte mesmo, desde muito jovem por novidades &#8211; e eu estou h\u00e1 muitos anos nesses trajetos e com isso eu posso acumular muita coisa feita, muita coisa dita e pude estudar muitas coisas e, ultimamente, tenho publicado no campo dos estudos foucaultianos, j\u00e1 trabalhei com isso com a ci\u00eancia e agora, de uns anos para c\u00e1, eu tenho trabalhado com estudos foucaultianos e a m\u00fasica, porque eu sou tamb\u00e9m graduado em M\u00fasica. N\u00e3o esque\u00e7am a estrada \u00e9 longa, por isso que eu vi a\u00ed \u201cmais e melhores Blues\u201d<a href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/07dfa6f4-73b9-4c80-a86b-d4a026af21bf\/blog\/create-post?tab=categories#_ftn1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">[1]<\/a> e eu gostei. Eu estudei, dei cursos inclusive, sobre Jazz e tamb\u00e9m sobre Blues, ent\u00e3o eu gosto muito dessas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dft0s\">Feitos esses coment\u00e1rios, digo tamb\u00e9m que, nisso tudo, eu tive a sorte de encontrar alguns e algumas colegas que foram providenciais na minha caminhada: alunos e alunas, colegas e professores que me ajudaram, me provocaram a ver coisas de maneiras pouco convencionais no campo da Educa\u00e7\u00e3o. No grupo da nossa linha de pesquisa \u201cEstudos Culturais em Educa\u00e7\u00e3o\u201d, do qual faz parte a Maria L\u00facia (uma pessoa chegada a voc\u00eas, chegada ao Mois\u00e9s e eu) mais a Marisa Costa, Tomaz Tadeu da Silva, Rosa Silvera, Sandra Corazza, enfim, n\u00f3s formamos um n\u00facleo inaugural dos Estudos Culturais no Brasil, na d\u00e9cada de 90 (1992\/1993), quer dizer, isso tem 30 anos, e a\u00ed come\u00e7amos a fazer coisas e me interessei. Vou explicar porque &#8211; um pouco de \u201cconfiss\u00e3o\u201d &#8211; ainda como um bi\u00f3logo, trabalhando com instrumenta\u00e7\u00e3o para o Ensino de Ci\u00eancias, Teoria Cr\u00edtica do Curr\u00edculo, e a Pr\u00e1tica de Ensino de Biologia tive contato com algumas pessoas que foram importantes, no instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas desta universidade aqui. Uma foi a professora Anna Carolina Regner (j\u00e1 falecida) e v\u00e1rios outros, mas um que me estimulou muito a olhar a ci\u00eancia, a pr\u00e1tica cient\u00edfica, de uma perspectiva n\u00e3o cientificista, mas muito chegada aos estudos culturais foi o professor Thomas Kesselring, de quem eu fui aluno e sou amigo at\u00e9 hoje, e tem o professor Edie Cassell que esteve conosco aqui em Porto Alegre durante uns 4 anos, ele foi muito importante, ele me apresentou Paul Feyerabend, que \u00e9 um precursor dessa pegada culturalista (ele n\u00e3o \u00e9 fundador dos Estudos Culturais ao molde ingl\u00eas, mas, sem d\u00favida nenhuma, ele \u00e9 um culturalista na sua leitura sobre a pr\u00e1tica, sobre as atividades, sobre a produ\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bm9fh\">Por isso tudo, quando cheguei aos Estudos Culturais, eu j\u00e1 tinha alguma familiaridade com essas leituras, uma parte filos\u00f3fica, das filosofias da diferen\u00e7a (l\u00e1 com o pessoal da Filosofia, n\u00e3o do pessoal da Educa\u00e7\u00e3o), me alimentei l\u00e1, e com essa pegada culturalista, esse olhar, essa leitura culturalista da atividade cient\u00edfica como mais uma atividade cultural, felizmente destronada de uma posi\u00e7\u00e3o de supremacia sobre os outros saberes, mas entronada numa atividade cultural muito peculiar, e a qual n\u00f3s temos que respeitar de maneira diferente a que respeitamos o Blues, ou respeitamos a hist\u00f3ria, ou que respeitamos a filosofia ou a psicologia, enfim, como voc\u00eas quiserem.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9uafb\">Digamos, essa \u00e9 a pegada que veio, essa atmosfera o Mois\u00e9s respirou muito aqui em Porto Alegre na \u00e9poca que esteve aqui, me lembro bem. Mas hoje, infelizmente, est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o quase periclitante. Felizmente, de uns 3 a 4 anos para c\u00e1 (no m\u00e1ximo), entrou uma turma nova na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o interessada no campo dos Estudos Culturais, felizmente porque aquela velha turma, da primeira gera\u00e7\u00e3o, todos nos aposentamos (os que n\u00e3o morreram se aposentaram) e muitos continuaram, como eu, mas todos aqueles que continuaram j\u00e1 sa\u00edram tamb\u00e9m, j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o mais ligados ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da UFRGS, e essas tem\u00e1ticas dos Estudos Culturais n\u00e3o s\u00e3o feitas em outros locais da minha universidade.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bh6p3\">O que vale \u00e9 que algumas pessoas que sa\u00edram daqui e foram para outros lugares continuaram com essa pegada, e essa turma nova, que t\u00e1 entrando agora, que est\u00e1 fazendo muito bem, \u00e9 bastante competente, mas muito iniciante nesse olhar que eu chamo de \u201cculturalista\u201d. \u00c0s vezes eu n\u00e3o gosto muito de falar assim Estudos Culturais como se fosse <em>a la<\/em> Grossberg\u2026 esses caras que s\u00e3o fundadores, mas isso tem que andar para frente. Uma cultura anda para frente.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-32qte\">Uma das vantagens dos Estudos Culturais \u00e9 justamente essa mobilidade, esse nomadismo, para usar uma express\u00e3o do Deleuze, esse nomadismo em pensamento. E isso \u00e9 muito bom.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9fpeq\">Eu acho que em parte a pol\u00edcia &#8211; agora vai uma cr\u00edtica e tomara que ningu\u00e9m me tome mal, \u00e9 uma cr\u00edtica que nos ajuda a compreender o motivo pelo qual os Estudos Culturais n\u00e3o colaram muito na Am\u00e9rica Latina de um modo geral. Claro, eu sei que t\u00eam os colombianos, t\u00eam os mexicanos interessantes nos Estudos Culturais, mas s\u00e3o poucos, e no campo da Educa\u00e7\u00e3o menos ainda.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-btoj6\">Vejo o pensamento educacional, e isso quer dizer filos\u00f3fico, na Am\u00e9rica Latina como um pensamento que n\u00e3o \u00e9 conservador, mas, ao mesmo tempo, inclusive no Brasil, \u00e9 muito mais interessado por quest\u00f5es tradicionais. S\u00e3o interesses e pesquisas importantes, s\u00e9rias e bem-feitas, da filosofia, da educa\u00e7\u00e3o e da filosofia da educa\u00e7\u00e3o. Realizadas de forma muito cuidadosa, de import\u00e2ncia sociol\u00f3gica, muito interessantes. Mas apegadas \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es. Agora mesmo, um colega nosso do Rio de Janeiro est\u00e1 interessado em montar publica\u00e7\u00e3o, me envolveu nisso, eu n\u00e3o tenho mais nem sa\u00fade para fazer, tenho todo o interesse para fazer uma an\u00e1lise, assim, a fim de promover uma filosofia pol\u00edtica da educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o uma filosofia da educa\u00e7\u00e3o porque a Filosofia da Educa\u00e7\u00e3o no Brasil tem uma pegada muito forte, prescritiva, idealista quando n\u00e3o estruturalista, e muito inspirada em mitos judaico-crist\u00e3os. \u00c9 uma maneira de fazer a coisa, <em>okay<\/em>, n\u00e3o tem problema, mas eu acho que temos que investir, nesse campo, mais no que se chama \u201cfilosofia pol\u00edtica da educa\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o filosofia da pol\u00edtica, mas <strong>filosofia pol\u00edtica<\/strong>. E a\u00ed, eu acho esse interesse de algumas poucas pessoas no Brasil um interesse muito promissor, ent\u00e3o \u00e9 uma coisa que vai dar frutos, \u00e9 necess\u00e1rio fazer, mas eu j\u00e1 disse para ele que eu n\u00e3o tenho mais sa\u00fade, ele me deu um prazo infinito, mas meu prazo tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 infinito, de nenhum de n\u00f3s \u00e9, eu acho que eu n\u00e3o estou com coragem de sentar e come\u00e7ar a estudar essas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4c6cu\">De resto, tudo isso para dizer de onde vim, por onde passei, onde \u00e9 que estou nesse momento. Eu, quando comecei a estudar Foucault (isso j\u00e1 faz 30 anos), comecei a me interessar por um tipo de pensamento que \u00e9 nitidamente n\u00e3o estruturalista. \u00c9 p\u00f3s-estruturalista? <em>Okay<\/em>!? Eu tenho um pouco de implic\u00e2ncia com prefixo \u201cp\u00f3s\u201d, mas \u00e9 \u201cp\u00f3s-estuturalista\u201d, mas \u00e9 <strong>n\u00e3o estruturalista<\/strong>, isso sim. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 \u201canti\u201d, n\u00e3o \u00e9 anti nada, quem quiser fazer o que quiser faz o que quiser. Mas \u00e9 um pensamento que se afina muito com essas posturas n\u00e3o metaf\u00edsicas, seria o termo melhor para usar aqui, que n\u00e3o parte de uma fundamenta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, nenhuma fundamenta\u00e7\u00e3o religiosa, que ao contr\u00e1rio de uma fundamenta\u00e7\u00e3o s\u00f3 v\u00ea portos de passagem. \u00c9 a express\u00e3o que eu costumo usar, copiando de um livro do Jo\u00e3o Wanderley Geraldi. Enfim, eu acho que isso \u00e9 uma coisa interessante e os Estudos Culturais numa filia\u00e7\u00e3o n\u00e3o marxista, mas que pode aproveitar coisa de Marx. Esse \u00e9 o ponto! N\u00e3o \u00e9 antimarxista, \u00e9 n\u00e3o marxista, mas que pode aproveitar elementos do marxismo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9tlb0\">Esses Estudos Culturais t\u00eam muito a ver com os estudos foucaultianos, e no in\u00edcio eu n\u00e3o me dava conta disso, n\u00e3o me dava conta, depois fui me dando conta, de uns anos para c\u00e1, que t\u00eam a ver. Mas o que eu t\u00f4 trabalhando mesmo \u00e9 em estudos foucaultianos, pegando algumas ferramentas de Michel Foucault e escrevendo sobre isso, pensando, por exemplo, o mito de bolsoburro, voc\u00eas me desculpem, mas eu n\u00e3o consigo dizer o nome de batismo, eu falo \u201cbolsoburro\u201d. O mito bolsoburro est\u00e1 esperando para ser analisado numa perspectiva foucaultiana, por exemplo, sobre mito. Eu ainda fiz uma fala h\u00e1 dois dias sobre isso, usei 15 minutos da minha fala sobre isso. Temos muito para pensar o presente, aquilo que Foucault chamava de \u201chist\u00f3ria do presente\u201d, para o nosso presente no Brasil hoje para compreendermos que a \u00fanica forma de combater com alguma efici\u00eancia \u00e9 compreender o inimigo. O inimigo fica inc\u00f3lume se n\u00f3s usarmos ferramentas tradicionais. Tem um autor que eu gosto muito (eu vou dando essas dicas para quem tiver interesse pode ir atr\u00e1s) que foi traduzido no Brasil um livro s\u00f3 dele, que \u00e9 o Alain Touraine, \u00e9 um professor do Coll\u00e8ge de France em Paris, est\u00e1 muito velho agora, mas produziu algumas coisas muito interessantes e um livro primoroso dele a editora Vozes traduziu, se chama \u201cPensar outramente\u201d. O Alain Touraine diz que o livro dele \u00e9 dedicado, justamente, a fazer um alerta de que \u00e0 medida que a hist\u00f3ria anda &#8211; e a hist\u00f3ria \u00e9 conting\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 necessidade, portanto ela \u00e9 imprevis\u00edvel &#8211; n\u00f3s precisamos adaptar ferramentas do pensar, ferramentas que j\u00e1 t\u00ednhamos, ou inventar novas ferramentas para pensar.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9cklo\">Essa pegada \u00e9 nitidamente foucaultiana, nitidamente de Feyerabend, nitidamente desses caras p\u00f3s-estruturalistas, porque n\u00e3o tem uma estrutura onde a gente vai se encaixar, tem uma \u2018<em>geleia\u2019<\/em> geral onde a gente vai nadar, e n\u00e3o se encaixar a estrutura do pensamento, fixa e enferrujada. Ent\u00e3o esses caras, como Deleuze, como Foucault, por exemplo, como Feyerabend ou como Rorty na filosofia, como Ian Hacking na ci\u00eancia, eles est\u00e3o nessa <em>vibe<\/em> do Alain Touraine, que \u00e9 <em>pensar de outros modos<\/em>, inventar, pensar de outros modos. Se quisermos ver luta de classes, por exemplo, ao molde marxista (n\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o haja luta de classe) n\u00f3s n\u00e3o vamos compreender o presente, o presente fica incompreens\u00edvel; para compreender melhor, \u00e9 preciso fazer essas jun\u00e7\u00f5es, para isso tem muita gente trabalhando, muita gente trabalhando no mundo inteiro, e mesmo aqui no Brasil autores interessantes, e mesmo tradu\u00e7\u00f5es no Brasil muito importantes para o campo da pol\u00edtica, para o campo da educa\u00e7\u00e3o, para o campo da ci\u00eancia inclusive.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3j4m8\">Isso \u00e9, de certa maneira, estudos culturais das ci\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c1ck4\">Devemos manter presentes aqueles estudos que s\u00e3o importantes, mas precisamos nos atualizar, ali\u00e1s um cara como Bruno Latour \u00e9 bamba nisso, como Michel Serres, s\u00e3o caras bambas nisso, bons nessas atualiza\u00e7\u00f5es e nessas sensibilidades, percep\u00e7\u00e3o, de pensar outramente &#8211; \u201coutramente\u201d, n\u00e3o se usa isso, mas pensar de outros modos, inventar novas ferramentas, afinar, afiar todo ferramental que foi produzido desde a antiguidade para construir as pir\u00e2mides\u2026 enfim, os barcos para navega\u00e7\u00e3o, todo ferramental que passou a Idade M\u00e9dia, que entrou na Modernidade, \u00e9 important\u00edssimo, mas ele tem que ser revisto, tem que ser atualizado, e temos que inventar novas ferramentas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-eh48g\">Como \u00e9 que eu vou produzir um <em>mouse<\/em> desses? Como \u00e9 que eu vou produzir sabendo tudo que eu puder saber dos artes\u00e3os medievais? N\u00e3o vou produzir esse <em>mouse<\/em>! Vou ter que ter outras ferramentas, outras ferramentas conceituais e outras ferramentas mec\u00e2nicas, el\u00e9tricas e tal para produzir qualquer dessas coisas contempor\u00e2neas, para produzir esse copo de vidro dessa maneira. Bom, isso aqui [o copo de vidro] os medievais produziram talvez at\u00e9 melhor do que n\u00f3s (risos). Mas, enfim, isso que parece t\u00e3o \u00f3bvio no campo da tecnologia tem que ser estendido para o campo da ci\u00eancia e para o campo da educa\u00e7\u00e3o, e eu acho que \u00e9 nesses n\u00facleos de estudos culturais que se trabalha essa sensibilidade de ver o n\u00e3o visto, de olhar de outros modos, de pensar de outros modos. Bom, ent\u00e3o a\u00ed tem novidade a\u00ed vale a pena. Infelizmente isso \u00e9 minoria, isso \u00e9 minoria, enfim. Eu falei demais nessa apresenta\u00e7\u00e3o e agora me coloco \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de voc\u00eas (risos).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7ajuk\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: Eu penso que na tua apresenta\u00e7\u00e3o foram abordados v\u00e1rios dos temas de nosso interesse, agora mais para o final, voc\u00ea toca em um deles, que \u00e9 \u201ccomo os Estudos Culturais servem para alguma coisa no contempor\u00e2neo?\u201d a partir da tua experi\u00eancia em Foucault. Voc\u00ea acaba de dizer, claro que tem. Mas parece que estamos meio sem pernas para fazer uma parceria, como voc\u00ea prop\u00f4s em um artigo<\/strong><a href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/07dfa6f4-73b9-4c80-a86b-d4a026af21bf\/blog\/create-post?tab=categories#_ftn2\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>[2]<\/strong><\/a><strong>, uma aproxima\u00e7\u00e3o dos Estudos Culturais com Foucault, por exemplo, de ver como eles se tornam produtivos para fazermos uma anal\u00edtica desse tempo presente, e parece que h\u00e1 duas coisas em funcionamento. Uma delas est\u00e1 relacionada ao que disse h\u00e1 pouco: \u201cquando n\u00f3s come\u00e7amos n\u00f3s t\u00ednhamos um grupo forte\u201d, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas, quando voc\u00eas juntaram a\u00ed Marisa, voc\u00ea, o Tomaz e muitos outros e outras, foram de um tipo de produtividade singular porque traziam tradu\u00e7\u00f5es de obras, produziam intelectualmente textos importantes que s\u00e3o refer\u00eancias at\u00e9 hoje. E isso ajudou a vascularizar esse pensamento no Brasil. Mas embora hoje existam grupos que trabalham nessas perspectivas, e eu vou dizer que aqui em Londrina n\u00f3s somos um desses, mas nem de longe a gente tem a mesma pegada, sabe, Alfredo?! Ent\u00e3o houve neste processo de arregimenta\u00e7\u00e3o, como diria o Latour, de aliados Brasil afora, uma certa vasculariza\u00e7\u00e3o e parece que os Estudos Culturais se dilu\u00edram bastante nessas teias e a gente n\u00e3o tem hoje grupos realmente com \u201cpegada\u201d para instituir uma dire\u00e7\u00e3o mais clara. N\u00e3o \u00e9, por exemplo, o caso do GECCE, eu enquanto docente, enquanto pesquisador, eu trabalho sozinho, ningu\u00e9m na universidade se interessa por esses assuntos, muito ao contr\u00e1rio, quando veem algu\u00e9m da \u00e1rea, costumam passar para o outro lado da cal\u00e7ada, cumprimentam de longe: \u201caoh companheiro, n\u00e3o fa\u00e7o nem ideia de como cumprimentar algu\u00e9m dos Estudos Culturais\u201d e seguem a vida. Ent\u00e3o esse \u201cenfraquecimento\u201d me faz perguntar: os Estudos Culturais ainda t\u00eam alguma import\u00e2ncia nesse panorama para dar alguma resposta para o modo como vivemos politicamente, culturalmente?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bvc8u\"><strong>Alfredo Veiga-Neto:<\/strong> Eu n\u00e3o tenho d\u00favida que sim! Mas temos que andar, temos que caminhar e pensar, inventar, ser inventivos para criar essas outras ferramentas. Por exemplo, n\u00e3o sei se \u00e9 uma linha, mas um vi\u00e9s &#8211; um vi\u00e9s parece uma coisa que saiu para o lado? N\u00e3o. Parece uma coisa central, importante que foi feito durante muito tempo no nosso grupo de Porto Alegre. Eu digo \u201cnosso\u201d: do qual eu fiz parte tantos anos (meu Deus, desde 1991\/1992, trinta anos). Foi uma proposta do Tomaz criar o grupo de pesquisa, criar uma linha de pesquisa \u201cEstudos Culturais e Educa\u00e7\u00e3o\u201d e a\u00ed essas pessoas que tu citaste, que eu citei, fundamos a linha. O Tomaz ficou mais de um ano com a Guacira Louro, depois sa\u00edram procurar seus caminhos, e n\u00f3s continuamos e nesse per\u00edodo publicamos muita coisa, foi lan\u00e7ado o primeiro livro <em>Cr\u00edtica P\u00f3s-estruturalista e Educa\u00e7\u00e3o<\/em>, que n\u00f3s ficamos em d\u00favida: \u201cEstudos Culturais e Educa\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cCr\u00edtica p\u00f3s-estruturalista\u201d. Como n\u00f3s t\u00ednhamos ali alguns cap\u00edtulos, como o meu, que n\u00e3o eram dos Estudos Culturais, n\u00f3s optamos pelo t\u00edtulo <em>Cr\u00edtica P\u00f3s-estruturalista e Educa\u00e7\u00e3o<\/em>. Isso causou um mal-estar forte na \u00e9poca, porque imagina: os caras estavam \u201ccr\u00edtica \u00e9 cr\u00edtica marxista\u201d, \u201ccr\u00edtica \u00e9 Escola de Frankfurt\u201d, \u201ccr\u00edtica \u00e9 Habermas\u201d, \u201ccr\u00edtica \u00e9 Paulo Freire\u201d, e v\u00eam esses caras a\u00ed falar em cr\u00edtica p\u00f3s-estruturalista e com textos ali dentro que j\u00e1 eram Estudos Culturais (o meu n\u00e3o era). Ent\u00e3o causou um baita mal-estar. Essas hist\u00f3rias de n\u00e3o cumprimentar e tal (risos), de desconfian\u00e7a, claro, isso \u00e9 o ambiente acad\u00eamico, porque voc\u00ea sabe que o c\u00e9u \u00e9 pequeno para tanta estrela e o ambiente acad\u00eamico tem muito estrela &#8211; n\u00f3s somos estrelas &#8211; ent\u00e3o o c\u00e9u \u00e9 pequeno (risos).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-v2p7\">A complica\u00e7\u00e3o na \u00e9poca, isso tudo complicado com o fato de que um dos caras que era muito ativo, que era o Tomaz, t\u00eam um temperamento muito combativo, muito intransigente, na verdade mais do que isso ele era um cara de briga, isso ent\u00e3o complicava um pouco. Ao mesmo tempo, tamb\u00e9m atuava para abrir frentes e, al\u00e9m disso, ele era extremamente produtivo, rigoroso. O rigor \u00e9 muito importante, \u00e9 muito importante, n\u00e3o \u00e9 a fixidez, n\u00e3o \u00e9 rigidez, \u00e9 o <strong>rigor<\/strong> (eu j\u00e1 escrevi sobre isso, t\u00e1 por a\u00ed, n\u00e3o sei onde). Ent\u00e3o ele foi muito produtivo, ele traduzia muito, organizava livros, e organizava a partir de revistas numa \u00e9poca que n\u00e3o tinha Google, que n\u00e3o tinha <em>e-mail<\/em>, que n\u00e3o tinha nada disso, era muito dif\u00edcil, era muito dif\u00edcil mesmo, mas ele fez tudo isso e foi muito importante, muito bom, muito importante e muitos de n\u00f3s \u00e9ramos vistos como j\u00e1 \u201cesse \u00e9 da direita, ah isso \u00e9 gente da direita? Porque n\u00e3o s\u00e3o freireanos, porque n\u00e3o s\u00e3o piagetianos\u201d, porque n\u00e3o s\u00e3o os dois grandes pilares (hoje ainda, em parte, pilares) da pedagogia do Brasil. Um pilar construtivista e um pilar progressista, freireano &#8211; essa perspectiva freireana que produziu coisas muito interessantes, mas que tamb\u00e9m enferrujou em alguns pontos o pensamento educacional, mas, claro, a hist\u00f3ria \u00e9 feita dessas coisas, \u00e9 feita de coisas muito boas e de ru\u00eddos, e de coisas nem t\u00e3o boas. Na nossa \u00e1rea de Estudos Culturais foi assim, quer dizer, foi uma luta grande na universidade, mas fomos arrumando espa\u00e7o e ganhando espa\u00e7o, um exemplo bem da \u00e9poca, bem da \u00e9poca, quem \u00e9 que podia imaginar que a pesquisa educacional fosse se interessar pelo formato das janelas e da posi\u00e7\u00e3o das portas das salas. Essa bibliografia nacional no campo da Educa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m no campo dos Estudos Culturais, foi substanciosamente engordada muito pela produ\u00e7\u00e3o que o Thomaz fazia. Fazia em casa, <strong>artesanal<\/strong>, eu ajudei algumas vezes, escrevi cap\u00edtulos e algumas coisas que ele produziu, mas eu n\u00e3o tinha, digamos assim, a aplica\u00e7\u00e3o que ele tinha nisso e isso fortaleceu o grupo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3jdnd\">Muita gente veio para o grupo e que agora est\u00e1 num caminho um pouco diferente e que tamb\u00e9m algumas pessoas confundiram o \u201ctudo vale\u201d do Feyerabend, em <em>Contra o m\u00e9todo<\/em>, com \u201cqualquer coisa\u201d e n\u00e3o \u00e9 qualquer coisa. N\u00e3o \u00e9 qualquer coisa, tem que haver compet\u00eancia e rigor, n\u00e3o pode sair dizendo qualquer coisa. Confundiu necessidade com conting\u00eancia e coisas assim. Ent\u00e3o houve algumas perdas no nosso grupo, mas o grupo se manteve, at\u00e9 acho que agora est\u00e1 se fortalecendo. Uma coisa que quero dizer, uma fase, uma fase importante, mas que n\u00f3s temos que superar \u00e9, por exemplo, a no\u00e7\u00e3o de \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d. No estilo de Stuart Hall, de quem eu n\u00e3o gosto muito, diga-se de passagem, eu n\u00e3o sou f\u00e3 do Stuart Hall, acho que ele tem problemas filos\u00f3ficos, de argumenta\u00e7\u00e3o, enfim, mas \u00e9 importante, \u00e9 importante e escreveu coisas muito interessantes e eu acho que tem que saber l\u00ea-lo. O conceito de representa\u00e7\u00e3o para os Estudos Culturais \u00e9 muito bom. E a\u00ed eu acho que foram feitos trabalhos em excesso &#8211; \u00e9 a minha cr\u00edtica, outros t\u00eam outras cr\u00edticas, tudo bem, eu n\u00e3o vou brigar com ningu\u00e9m, mas ficamos muito tempo nisso: \u201crepresenta\u00e7\u00e3o do negro na revista X\u201d, \u201crepresenta\u00e7\u00e3o da professora homossexual ou do professor <em>gay<\/em> na novela das oito\u201d. Ent\u00e3o isso foi importante, interessante, eu acho que \u00e9 um bom exerc\u00edcio, mas isso tem que ir adiante, isso tem que ser superado. Superado, no sentido de otimizado, visto, aprendido, \u201cest\u00e1 aqui a biblioteca, est\u00e1 aqui as coisas feitas\u201d. Importante? <em>Okay<\/em>! Agora vamos para outros problemas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7t39a\">Ent\u00e3o, com isso, eu estou utilizando a experi\u00eancia do nosso grupo de Estudos Culturais como um lamento? N\u00e3o! Eu n\u00e3o lamento que tenha sido feito, eu mesmo orientei trabalhos, o \u00faltimo que eu orientei foi sobre a imagem dos deficientes f\u00edsicos que participam de paraolimp\u00edadas num programa X de televis\u00e3o, no mestrado. \u00c9 um bom treinamento para futuro pesquisador e tal, \u00e9 interessante, \u00e9 bom, \u00e9 um trabalho bem-feito, bem documentado, tem in\u00edcio, meio e fim, tudo certinho, mas n\u00e3o \u00e9 um trabalho de fronteira, n\u00e3o \u00e9 um trabalho de inven\u00e7\u00e3o, \u00e9 um trabalho de repeti\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m vale, t\u00e1?! Mas que n\u00e3o leva para adiante, para o campo dos Estudos Culturais em Educa\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 o que essa minha orientanda quis fazer, podia fazer num mestrado, s\u00e3o dois anos, ent\u00e3o ela fez isso. Quase nada a ver com Foucault, n\u00e3o tem import\u00e2ncia, foi um trabalho bem-feito, tudo com A, com estrelinha e tal e se insere bem dentro dos Estudos Culturais, [ela analisou] o programa da F\u00e1tima Bernardes, ela se tornou especialista em F\u00e1tima Bernardes. Uma coisa interessante! Eu nunca vi um programa da F\u00e1tima Bernardes, mas eu orientei o trabalho dela (risos), eu disse para ela \u201ceu oriento, mas tu n\u00e3o me obrigas a conferir\u201d (risos). Ent\u00e3o, trechos e trechos de textos, ela tem um material riqu\u00edssimo. Aquilo para uma pesquisa no campo do jornalismo seria excelente, ela j\u00e1 entrou no mestrado com esse material coletado e coletou mais um pouco e a\u00ed trabalhou. Dois anos de F\u00e1tima Bernardes! \u00c9 um programa di\u00e1rio. Um dia eu dei uma espiada, \u00e9 um neg\u00f3cio que n\u00e3o tem nada a ver comigo! Mas enfim, e a\u00ed ela foi pegando as enuncia\u00e7\u00f5es da F\u00e1tima Bernardes sobre paraolimp\u00edadas, sobre deficientes, t\u00e1. Isso ajuda a formar uma cultura nacional a favor ou contra os deficientes, \u00e9 verdade. Tem essa import\u00e2ncia. Mas n\u00e3o leva muito adiante, ainda que muito bem-feito, fica o elogio, mas \u00e9 um perfil que n\u00f3s que temos grupos de pesquisa temos que coordenar, que eu tinha que coordenar.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dubm\">Mas Mois\u00e9s, voc\u00eas que est\u00e3o nessa tarefa tem que se dar conta que \u00e9 necess\u00e1rio levar adiante, eu acho que ainda tem muito espa\u00e7o. Claro, dentro desses trabalhos tradicionais, esse da revista. Isto \u00e9 interessante, \u00e9 importante e ainda tem muita coisa para ser feita, claro que tem.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-e8tpd\">O material \u00e9 muito rico, o material dispon\u00edvel, a fonte, que deve ser transformado em material de pesquisa e depois ser transformado em corpos (n\u00edvel j\u00e1 acima) \u00e9 muito farto e tem muita coisa para ser feita.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2nib1\">N\u00e3o \u00e9 um campo em extin\u00e7\u00e3o. Absolutamente. Mas eu confio que devem ir adiante nessas frentes, trazendo para os Estudos Culturais outros autores que n\u00e3o s\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o, mas procurando inseri-los numa tradi\u00e7\u00e3o culturalista, eu acho que temos que fazer isso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-afq4u\">Por exemplo, nos Estudos Culturais da ci\u00eancia, temos material riqu\u00edssimo no que tem acontecido nos \u00faltimos dois anos no Brasil, que tem acontecido tamb\u00e9m no mundo. Por que os franceses n\u00e3o querem se vacinar? Por que os texanos, os caras l\u00e1 em Idaho, no fund\u00e3o dos Estados Unidos, aquela parte obscura dos Estados Unidos, n\u00e3o querem se vacinar, n\u00e3o se vacinam? N\u00e3o querem, fazem campanha contra, e por que o governo do bolsoburro faz isso que faz? Entende?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c0pka\">E burrice a\u00ed \u00e9 diferente de ignor\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d564v\">Para quem ainda n\u00e3o me escutou falar nisso, eu escrevi sobre isso<a href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/07dfa6f4-73b9-4c80-a86b-d4a026af21bf\/blog\/create-post?tab=categories#_ftn3\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">[3]<\/a>, foi publicado aqui e tamb\u00e9m nos Estados Unidos, eu fa\u00e7o uma nota de rodap\u00e9 fazendo essa distin\u00e7\u00e3o entre ignorante e burro. O burro \u00e9 o estulto. Burro \u00e9 o nome que n\u00f3s damos \u2026 inclusive ofendemos o animal. Mas o burro, palavra t\u00e9cnica, vem do latim <em>stultus<\/em>, significa \u201caquele que tranca o p\u00e9 no ch\u00e3o e n\u00e3o sai do lugar, aquele que \u00e9 redundante, aquele cuja ideia \u00e9 fixa: n\u00e3o vou fazer, n\u00e3o vou aceitar ou eu acredito que um mais um \u00e9 tr\u00eas e pronto\u201d. Voc\u00ea argumenta, acha que ele est\u00e1 convencido, da\u00ed a pouquinho ele volta e diz \u201cum mais um \u00e9 tr\u00eas\u201d, esse \u00e9 o estulto, esse que tem a mesma raiz da palavra <em>estar<\/em>, da palavra <em>estado<\/em>, da palavra <em>stay<\/em> no ingl\u00eas, do verbo stay, stay here: fique aqui, pare aqui, n\u00e3o se mexa daqui, n\u00e3o avance, n\u00e3o pense porque pensar sempre pode ser coisa nova, ent\u00e3o fique com o pensamento antigo, ou seja, n\u00e3o pense t\u00e1?! \u00c9 o mesmo radical de \u2018<em>poste<\/em>\u2019, interessante isso, mesmo radical, que \u00e9 o radical <em>stal<\/em> do indo-europeu, que tem no alem\u00e3o, que tem no Russo, que tem nas l\u00ednguas latinas, l\u00ednguas germ\u00e2nicas, l\u00ednguas anglo-germ\u00e2nicas, nas l\u00ednguas eslavas, que \u00e9 esse mesmo radical, que \u00e9 estamento, estar.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5sra\">Um poste!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6v91\">Estulto \u00e9 isso, estultice ou estult\u00edcia, mesma coisa em portugu\u00eas. Tem uma carta (essas coisas s\u00e3o muito interessantes) em que S\u00e9neca escreve a um disc\u00edpulo, um correspondente dele, o Luc\u00edlio, me parece que era a quinta carta, ele comenta: n\u00e3o seja estulto e fuja dos estultos, porque os estultos s\u00e3o piores que os ignorantes. Para os ignorantes, tu explicas, tu falas e ele vai aprender, mas o estulto n\u00e3o quer aprender porque n\u00e3o pode aprender. Bom, traz S\u00e9neca para o s\u00e9culo XXI, n\u00f3s vamos ler l\u00e1 em Oliver Sacks, vamos ver l\u00e1 Nicolaides, vamos ver sei l\u00e1 eu &#8230; naquele portugu\u00eas que t\u00e1 nos Estados Unidos h\u00e1 muitos anos que estuda neurofisiologia, tu vais ler que a estultice \u00e9 uma defici\u00eancia na integra\u00e7\u00e3o de \u00e1reas cerebrais diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-a569l\">Um cara que gosta de <em>blues<\/em> e que conhece <em>blues<\/em> tem que fazer integra\u00e7\u00f5es, integra\u00e7\u00f5es entre a po\u00e9tica e entre a m\u00fasica, e no caso da m\u00fasica vamos falando, como exemplo, do <em>blues<\/em> do delta do Mississipi, <em>blues<\/em> raiz, digamos assim. Hoje qualquer coisa a\u00ed dizem que \u00e9 <em>blues<\/em>. Bom, mas o <em>blues<\/em> raiz, aquela estrutura de tr\u00eas versos, em que cada verso tem quatro compassos e tem dois versos que se repetem e o terceiro resolve aquilo que \u00e9 dito no verso um e dois que s\u00e3o iguais, a solu\u00e7\u00e3o posta uma antinomia no um e no dois, e depois o terceiro verso, ent\u00e3o o cara tem que conhecer um pouquinho de filosofia, um pouquinho de l\u00f3gica, um pouquinho de dial\u00e9tica, (um pouquinho = bastante) de m\u00fasica, de harmonia, de saber quais s\u00e3o as \u2018<em>pe\u00e7as\u2019<\/em> fundamentais, quer dizer, \u201cvai para quinta, vai para quarta, vai para quinta, volta para fundamental\u201d, t\u00e1? Tem que saber po\u00e9tica, tem que saber m\u00e9trica po\u00e9tica, quer dizer, \u00e9 isso a\u00ed. \u00c9 isso a\u00ed que precisa ser feito por quem n\u00e3o \u00e9 estulto. Quem \u00e9 estulto n\u00e3o sabe nada disso. N\u00e3o entende. Pode at\u00e9 gostar, mas n\u00e3o entende o que est\u00e1 escutando, e quem gosta mesmo tem que ir l\u00e1 na hist\u00f3ria de onde que vem isso, como surge, por que surge nos Estados Unidos na segunda metade do s\u00e9culo dezenove, por que usa aqueles instrumentos, enfim tem um campo enorme a\u00ed aberto, para ser feito, mas precisa, no caso do <em>blues<\/em>, como no caso da pol\u00edtica, como no caso da covid, como no caso dos Estudos Culturais, como no caso de Foucault, como no caso de qualquer coisa, precisa ter intelig\u00eancia, intelig\u00eancia \u00e9 falta de estultice, ou seja, chama-se inteligente aquele que faz boas integra\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 aquele que \u00e9 informado (tem que ter informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 \u00f3bvio, mas tem que saber trabalhar a informa\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-deuje\">E uma parte da estultice pode ser devida \u00e0 estultice desse governo, que \u00e9 profundamente estulto, pode ser tido como falta de \u00e9tica, como maldade, como mentira, como simples mentira, assim como aconteceu ontem nas not\u00edcias sobre a vacina\u00e7\u00e3o de jovens. Mentira: foi dito metade da coisa, metade da frase, tinha uma v\u00edrgula e o cara n\u00e3o disse o resto. Pararam a\u00ed. O Queiroga parou a\u00ed, ent\u00e3o n\u00e3o vamos mais vacinar. Isso \u00e9 maldade, mas no fundo tem uma estultice. Ele n\u00e3o disse [o que a OMS escreveu] depois da v\u00edrgula, \u201cn\u00e3o se deve vacinar quando n\u00e3o houver vacina suficiente para os adultos\u201d, pronto. Tem maldade. Maldade e maldade burra, estulta. Eu sempre pe\u00e7o desculpa para os muares. Ent\u00e3o \u00e9 por isso que eu uso essa palavra <em>estulto<\/em>. Tem uma passagem de um colega franc\u00eas, do centro Michel Foucault em Paris, o Frederic Gr\u00f3s, tem uma passagem em que ele comenta o que \u00e9 estultice, s\u00e3o dez linhas, mas \u00e9 muito bom.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-amcj3\">N\u00f3s estamos vendo esses personagens que comandam esse nosso pa\u00eds. Mas enfim, eu j\u00e1 t\u00f4 divagando demais, sa\u00ed dos eixos, mas eu n\u00e3o posso deixar de falar e n\u00e3o posso deixar o meu recado de indigna\u00e7\u00e3o que logo me tomam por lulista, por coisa que eu n\u00e3o sou, quero deixar bem claro, mas me tomam e azar. Bom, chega, chega de pol\u00edtica, vai l\u00e1, Mois\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2kodg\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: T\u00e1 \u00f3timo, Alfredo, fica \u00e0 vontade para dizer das suas posi\u00e7\u00f5es. Na tua fala voc\u00ea traz a experi\u00eancia de quem viveu muito tempo e de quem foi muito produtivo e \u00e9 muito produtivo ainda. Mesmo que voc\u00ea tenha se desligado quase completamente da vida acad\u00eamica, esse fantasma vai te perseguir porque n\u00f3s vamos continuar te convidando para as coisas e a academia n\u00e3o vai te abandonar (risos). Muito bom, penso que voc\u00ea nos d\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o muito interessante: \u00e9 preciso manter a mente criativa, funcionando, atenta \u00e0s coisas e com vontade de testar as fronteiras. Pensar de outra maneira, eu acho que essa \u00e9 de fato uma condi\u00e7\u00e3o central para os estudos culturais. O Entusiasmo de pensar de outra maneira para poder ver as fronteiras e seguir adiante o projeto, \u00e9 uma grande responsabilidade, mas que n\u00f3s, enquanto grupo de pesquisa, precisamos absorver, com rigor, com comprometimento, com engajamento que se faz necess\u00e1rio para que essa criatividade nos leve adiante. Isso fica muito claro e n\u00e3o vem de algu\u00e9m que tirou essa perspectiva das vozes da cabe\u00e7a, \u00e9 algu\u00e9m que pode falar. O Alfredo viveu e produziu dentro dessa perspectiva e a gente precisa levar a s\u00e9rio e ouvir. Uma vez fui seu aluno em um curso que voc\u00ea ofereceu na UFRGS, e numa das falas voc\u00ea dizia o seguinte \u201colha, o Paulo Freire n\u00e3o sabe o que est\u00e1 falando, o Paulo Freire tem problemas\u201d. Como nesse ano estamos homenageando o centen\u00e1rio desse educador brasileiro, eu quero recuperar aquela sua fala, posto que voc\u00ea mesmo traz o tema: \u201colha o Paulo Freire se equivoca quando ele vai numa determinada dire\u00e7\u00e3o\u201d e a dire\u00e7\u00e3o eu vou deixar para voc\u00ea dizer, caso queira. Te provoco tamb\u00e9m com rela\u00e7\u00e3o a essa ideia do pr\u00f3prio Marx. Ou seja, em muitas passagens voc\u00ea diz \u201colha \u00e9 preciso seguir adiante com Birmingham, \u00e9 preciso seguir adiante, h\u00e1 pouco voc\u00ea dizia, porque a ideia de poder, por exemplo, muito forte nos fundadores do grupo dos Estudos Culturais em Birmingham tinha ra\u00edzes dentro de uma perspectiva, no m\u00ednimo, neomarxista. Fa\u00e7o essa provoca\u00e7\u00e3o para te ouvir, pela perspectiva de rela\u00e7\u00f5es de poder foucaultiana que passa numa outra dire\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao pensamento marxista do pr\u00f3prio Paulo Freire. Temos atualmente duas situa\u00e7\u00f5es, primeiro o centen\u00e1rio do Paulo Freire e segundo, aquele ministro da educa\u00e7\u00e3o que eu tamb\u00e9m me nego a decorar o nome! Aquele sujeito que olhou l\u00e1 da janela do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e falou \u201cmas que homem feio esse Paulo Freire, a gente precisava tirar essa est\u00e1tua daqui\u201d evocando todo o panorama de uma direita rancorosa. De uma direita <em>burra<\/em>?! Para usar a express\u00e3o que voc\u00ea nos traz, minha provoca\u00e7\u00e3o \u00e9: n\u00e3o seria o caso de recuperar um pouco dessa perspectiva tanto do marxismo quanto do Paulo Freire como ferramentas? Ou a gente precisa seguir adiante com as perspectivas p\u00f3s-estruturalistas? N\u00f3s precisamos continuar sendo inventivos a partir de um olhar realmente foucaultiano, do Latour etc.? Eu te pergunto por que isso est\u00e1 afetando, atravessando o nosso grupo de pesquisa, sabe? De vez em quando, a gente tem um estranhamento aqui no grupo por conta dessas vontades de se reagrupar nas lutas de classe.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-51c77\"><strong>Alfredo Veiga-Neto: <\/strong>Eu acho que o engajamento \u00e9 uma coisa importante, tem que gostar, tem que descobrir essas novidades para inventar ferramentas e para fazer releituras de um Paulo Freire, que \u00e9 importante, interessante, tem que ser inventivo. Tem um neg\u00f3cio no Feyerabend, mas tem tamb\u00e9m na paradigmatologia do Thomas Kuhn, que \u00e9 um conhecimento, digamos, trivial para os bi\u00f3logos evolucionistas (trivial para evolu\u00e7\u00e3o do s\u00e9c. XX), nas releituras de Darwin que fizeram (isso os bi\u00f3logos fizeram muito bem-feito), os evolucionistas ainda leem Darwin com os olhares de hoje, n\u00e3o para julgar Darwin, mas para mostrar que muita coisa ficou de Darwin at\u00e9 hoje e muita coisa ficou para tr\u00e1s. Eu pego esse exemplo de Darwin para responder para o Mois\u00e9s, \u00e9 o caso de Marx. Uma coisa do Feyerabend, que tem no velho Thomas Kuhn e que tem nos bi\u00f3logos evolucionistas do s\u00e9culo XX, principalmente depois da d\u00e9cada de 1940 em diante, chamada teoria sint\u00e9tica da evolu\u00e7\u00e3o, uma coisa muito interessante \u00e9 que a novidade vem da periferia. Isso n\u00e3o \u00e9 uma lei da natureza, mas \u00e9 uma observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica confirmada, permanentemente, as novidades v\u00eam da periferia. Ou seja, uma esp\u00e9cie ocupa um espa\u00e7o f\u00edsico ou ocupa um nicho, que alguns acham que \u00e9 simb\u00f3lico, um nicho, pode ser o mesmo espa\u00e7o f\u00edsico, uns usam de dia, outros de noite, mas ocupam o mesmo nicho, ao mesmo tempo e no mesmo espa\u00e7o (nicho ecol\u00f3gico). O n\u00facleo dessa popula\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m coeso, mas a possibilidade de evolu\u00e7\u00e3o fica nas popula\u00e7\u00f5es marginais, \u201cas franjas\u201d como os bi\u00f3logos dizem, as margens, tanto por chegada de genes estranhos (estranhos \u00e0quela esp\u00e9cie) quanto pela possibilidade de varia\u00e7\u00f5es que se d\u00e3o numa margem n\u00e3o se misturarem com as varia\u00e7\u00f5es que se d\u00e3o na outra margem, que vai haver uma disrup\u00e7\u00e3o, que se chama \u201cevolu\u00e7\u00e3o disruptiva\u201d de novas subesp\u00e9cies e depois esp\u00e9cies novas, que os bi\u00f3logos sabem h\u00e1 oitenta anos. Sabem bem sabido, bem documentado. Eu fui bi\u00f3logo, minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado era tamb\u00e9m sobre isso, era com dros\u00f3filas, e outros fazem com outros, \u00e9 assim. Ent\u00e3o a especia\u00e7\u00e3o humana se deu gra\u00e7as a migra\u00e7\u00f5es que tiraram popula\u00e7\u00f5es humanas, pequenas popula\u00e7\u00f5es, das popula\u00e7\u00f5es maiores que se mantiveram mais est\u00e1veis, que evolu\u00edram com menor velocidade ou que evolu\u00edram menos perceptivelmente, mas que evolu\u00edram tamb\u00e9m; mas foram; para longe, que se afastaram aqueles que deram origem ao processo de racia\u00e7\u00e3o, e que talvez levasse at\u00e9 a uma nova esp\u00e9cie. Pois \u00e9, fazendo uma certa analogia! Se voc\u00eas, como eu, lerem os neomarxistas, voc\u00eas ver\u00e3o que eles fazem uma atualiza\u00e7\u00e3o de Marx, mas as atualiza\u00e7\u00f5es de Marx mais interessantes que eu acho v\u00eam n\u00e3o desses marxistas, mas v\u00eam de outros lugares. V\u00eam da periferia, que n\u00e3o teve necessariamente uma forma\u00e7\u00e3o marxista.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2s06c\">\u00c9 como se injetasse novidade. Eu acho que com o Paulo Freire \u00e9 a mesma coisa. Uma coisa \u00e9 o instituto, a sociedade, o grupo Paulo Freire, can\u00f4nico, chamado can\u00f4nicos, que s\u00e3o fi\u00e9is ao mestre e tal e que fazem aquilo e fazem bem-feito e \u00e9 interessante, \u00e9 necess\u00e1rio e colocar Paulo Freire no seu tempo e no seu espa\u00e7o, t\u00e1? Importante. Agora eu tenho visto fazendo coisas com Paulo Freire muito interessantes, por exemplo, um colega nosso que vem de outro lugar, que n\u00e3o foi um freiriano, digamos assim, e que fez doutorado aqui conosco \u00e9 que o Carlos Ernesto Nogueira, que vem da Col\u00f4mbia da Universidade Pedag\u00f3gica Nacional de Bogot\u00e1, que vem de outros lugares, traz uma fertiliza\u00e7\u00e3o, um arejamento, ele est\u00e1 estudando Paulo Freire e escrevendo sobre Paulo Freire l\u00e1 na Col\u00f4mbia. Isso \u00e9 muito interessante. Paulo Freire n\u00e3o est\u00e1 morto, Darwin n\u00e3o est\u00e1 morto, Jesus Cristo n\u00e3o est\u00e1 morto, Elis vive, tem aqui em Porto Alegre tudo o que \u00e9 muro durante muitos anos teve Elis vive (Elis Regina que \u00e9 daqui). Elis vive, n\u00e3o precisa botar que ela vive, ela ainda vive, ela vende, as pessoas escutam, ent\u00e3o n\u00e3o morreu.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cjhg9\">A\u00ed, quer dizer, o que ele fez est\u00e1 a\u00ed e foi reapropriado, foi relido, foi reestudado e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 que ele \u00e9 escutado, mas que ele deixou descend\u00eancia intelectual, descend\u00eancia musical, descend\u00eancia compositiva? \u00c9 e n\u00e3o s\u00f3 ele, mas outros se voc\u00eas quiserem de outros campos tamb\u00e9m. Eu acho que o que serve para eles serve para Foucault, eu sempre insisto, ser foucaultiano \u00e9 n\u00e3o ser foucaultiano, que parece uma contradi\u00e7\u00e3o. O Mois\u00e9s j\u00e1 deve ter me escutado dizer isso \u201cser foucaultiano \u00e9 n\u00e3o ser\u201d. Casualmente eu t\u00f4 aqui com <em>Microf\u00edsica do Poder<\/em>, boto o livro embaixo do bra\u00e7o, a\u00ed a Gabriela diz alguma coisa, a Susan diz outra, o Alex outra e tal, e a\u00ed eu vou l\u00e1 no livrinho: \u201cComo \u00e9 que disse o mestre?\u201d N\u00e3o! Isso \u00e9 um comportamento interessante, mas \u00e9 um comportamento ligado ao mito, \u00e0 religi\u00e3o. Essa \u00e9 a grande diferen\u00e7a, das grandes diferen\u00e7as entre religi\u00e3o e ci\u00eancia. A ci\u00eancia tem muito de religi\u00e3o? Sim, sim, tem, tem muito, muito. Botou para dentro dela, muita coisa da religiosidade, t\u00e1? Mas essa parte da seguir o mestre \u00e9 algo que devemos fazer com muito cuidado. Ent\u00e3o tem uma frase de Foucault que diz assim: \u201co autor n\u00e3o existe\u201d, existiram n\u00e3o mais do que meia d\u00fazia de autores na tradi\u00e7\u00e3o ocidental, ele disse que autor \u00e9 aquele que abre um campo totalmente novo e uma perspectiva totalmente nova. Isso existe. Mas isso existe nas margens de um grupo digno de uma comunidade, de um campo para usar a palavra t\u00e9cnica de Pierre Bourdieu, um campo cient\u00edfico, do campo art\u00edstico, do campo filos\u00f3fico. A grande inova\u00e7\u00e3o da filosofia moderna foi operada por Nietzsche que era um autor, claro, e Nietzsche n\u00e3o era fil\u00f3sofo, Mendel n\u00e3o era bot\u00e2nico, n\u00e3o era nem cientista, Mendel era um monge e hortel\u00e3o (cuidava da horta no mosteiro), Einstein era fraco em matem\u00e1tica e n\u00e3o foi no Instituto de f\u00edsica nem foi na universidade que ele desenvolveu a teoria geral da relatividade, e naquela circunst\u00e2ncia da vida teve a sorte de casar com uma mulher que era uma ex\u00edmia matem\u00e1tica e que ajudava muito ele na parte da formula\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica. N\u00f3s temos um bom exemplo com o Isaac Newton e Einstein. Einstein, em rela\u00e7\u00e3o a Newton, faz uma ruptura paradigm\u00e1tica, para usar o velho Kuhn, inventa uma nova maneira de ver o mundo, entendimento de mundo, maneira de ver o mundo, mas Newton n\u00e3o foi posto fora. Os c\u00e1lculos astron\u00f4micos de trajet\u00f3ria de foguete, de sat\u00e9lite, viagem para lua, viagem n\u00e3o sei para onde, tudo isso \u00e9 feito com f\u00edsica newtoniana. E agora? O que serve para Newton na ruptura de Newton\/Einstein serve para o Marx. Marx partiu de outros princ\u00edpios, que s\u00e3o abandonados por n\u00f3s, de uma necessidade. A hist\u00f3ria tem um motor estranho conectado a ela, Marx descobre o motor: a luta de classes, que era muito forte no s\u00e9culo XIX. \u00c9 preciso estudar hist\u00f3ria da filosofia, da pol\u00edtica para ver por qu\u00ea e de onde \u00e9 que ele tira a luta de classe, porque servia muito no s\u00e9culo XIX e serviu muito no s\u00e9culo XX, mas tem muito mais coisas do que a luta de classe e circunst\u00e2ncias mais importantes do que a luta de classe. O que eu vejo \u00e0s vezes, lendo alguns marxistas que eu j\u00e1 n\u00e3o leio mais, \u00e9 uma tentativa de eles dizerem que n\u00e3o, <em><strong>mas ainda<\/strong><\/em> \u00e9 luta de classe em tudo? Na classe econ\u00f4mica, agora a classe de g\u00eanero \u00e9 a classe da coisa, mas alguns v\u00e3o objetar: \u201cn\u00e3o, mas essas coisas s\u00e3o muito complicadas\u201d, muito mais complicada do que reduzir? Reduzir a um fator, al\u00e9m do que a hist\u00f3ria n\u00e3o tem motor, a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 necessidade, a hist\u00f3ria \u00e9 conting\u00eancia. Aconteceu, aconteceu e n\u00f3s olhamos para tr\u00e1s e organizamos e narramos o acontecimento como se houvesse um fio condutor. Mas trata-se de uma fita de rupturas. Estou tentando responder ao Mois\u00e9s para dizer: releiam esses caras.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-40sjp\">Nosso colega de Bogot\u00e1 t\u00e1 relendo Paulo Freire. Ele e o grupo dele (tem o grupo de pesquisa l\u00e1 que t\u00e3o produzindo). Temos muito contato, a gente tem sempre \u2018<em>lives<\/em>\u2019. Contudo, eu n\u00e3o quero fazer isso que ele est\u00e1 fazendo. Mas n\u00e3o \u00e9 porque eu n\u00e3o considero correto, certo e produtivo. Retomemos a palavra que o Mois\u00e9s falou: Engajado. Rigor e generosidade tamb\u00e9m. Generosidade com o que o outro produziu, o que o outro escreveu, com respeito, n\u00e3o \u00e9 porque eu n\u00e3o gosto daquele autor ou daquela pegada que eu vou desrespeitar. Eu vou desrespeitar se ele est\u00e1 mentindo, se n\u00e3o \u00e9 generoso, se n\u00e3o \u00e9 rigoroso, se ele faz, como se diz aqui os ga\u00fachos, \u201ccomo quem vai \u00e0s pitangas\u201d (ir \u00e0s pitangas significa, assim vale tudo, vale tudo qualquer coisa). N\u00e3o! A\u00ed n\u00e3o d\u00e1! A\u00ed n\u00e3o d\u00e1. Mas se \u00e9 feito com aplica\u00e7\u00e3o, com cuidado, e claro coerente, com justificativas e tal.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2dpaj\">Eu quero s\u00f3 lembrar que a inversa n\u00e3o \u00e9 verdadeira. O que eu estou dizendo n\u00e3o \u00e9 para voc\u00eas professores e professoras. Os alunos podem achar que a inversa \u00e9 verdadeira, \u201cah bom, ent\u00e3o t\u00e1, n\u00e3o precisa fazer curso nenhum, porque se sai da periferia, se sai das margens, voc\u00ea sai da liberdade de pensar diferente. Ent\u00e3o, preciso ficar participando de cursos ou treinando mesmo em grupos de pesquisa e laborat\u00f3rio e tal? \u00c9 melhor eu estar fora disso porque a\u00ed eu entro e invento alguma coisa\u201d. Negativo!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fkiaf\">A inversa n\u00e3o \u00e9 verdadeira!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-33uh9\">N\u00e3o \u00e9 porque Mendel n\u00e3o era bot\u00e2nico. No caso, o fato de ele n\u00e3o ser bot\u00e2nico permitiu ele pensar diferentemente. Por qu\u00ea? Porque a bot\u00e2nica do s\u00e9culo dezenove articulava-se com toda a biologia de fluidos, de l\u00edquidos, de miasmas, de sangue, de seiva, de efl\u00favios. H\u00e1 todo um vocabul\u00e1rio dessa biologia, misturam sangues, a seiva e d\u00e1 uma m\u00e9dia. Mendel come\u00e7ou a ver que n\u00e3o era assim, que ele misturava uma ervilha com a outra e n\u00e3o dava a m\u00e9dia e que n\u00e3o tinha nada a ver com seiva, tinha a ver com poliniza\u00e7\u00e3o na flor, ent\u00e3o ele era o qu\u00ea? Rigoroso e ele fazia uma coisa que alguns cientistas n\u00e3o gostavam de escutar. Hoje eles escutam e concordam. Ele dava uma ajustadinha nos dados para dar aquele percentual de tr\u00eas amarela para uma verde, quando ele cruzava verde com amarela n\u00e3o dava um verde amarelado nem o amarelo esverdeado dava tr\u00eas quartos amarelo e um quarto dava verde, que ele chamou ent\u00e3o de amarelo dominante, mas depois quando ele cruzava de novo se espalhava segundo uma binomial. A\u00ed que t\u00e1? O cara era curioso, uma barbaridade, n\u00e3o tinha nem forma\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica. Ele era curioso, persistente e achou que a coisa n\u00e3o era seiva com seiva, e a\u00ed ele publicou e teve a infelicidade de viver na \u00e9poca dele, a \u00fanica infelicidade dele. Publicou em alem\u00e3o, publicou numa sociedade germ\u00e2nica, hoje Rep\u00fablica Tcheca, mas ele publicou numa sociedade alem\u00e3 e ningu\u00e9m viu, 1865-1901, ningu\u00e9m viu, s\u00f3 tr\u00eas caras diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cu8m6\">Quando a biologia j\u00e1 tinha mudado a sua episteme, e Pasteur foi importante para isso, de biologia fluida, l\u00edquida, miasmas, atmosfera, para corpuscular, para micr\u00f3bios, para uma coisa pequenininha. Disseram: \u201cmas tem um cara a\u00ed chamado Gregor Mendel, espere a\u00ed um pouquinho,\u201d foram l\u00e1, 1901, concomitantemente na Alemanha, na Fran\u00e7a e na Inglaterra e descobriram o trabalho de Mendel, e a\u00ed disseram que ele era o pai da gen\u00e9tica. Realmente, claro! Mas ele veio de fora, ele veio da periferia, foi preciso mudar a forma de pensar. Era o que eu queria dizer! \u00c9 preciso mudar a forma de pensar para inventar, porque sen\u00e3o vai repetir o mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2pnll\">\u00c9 importante repetir o mesmo?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9qvv2\">\u00c9! Kuhn diz que \u00e9, que a ci\u00eancia normal \u00e9 super importante. Porque ela acumula, mas a\u00ed come\u00e7am as anomalias. Eu acho que a paradigmatologia de Kuhn, eu sempre insisto, vale muito a pena a gente estudar, vale muito a pena mesmo, e eu tive dois semestres s\u00f3 estudando como aluno sobre esse livro, e aprendi muito, aprendi como se faz e como n\u00e3o se faz. Thomas Kuhn tem muito a ver, e as anomalias v\u00e3o se acumulando, mas precisa vir o que ele chama de <em>revolu\u00e7\u00e3o<\/em>. N\u00e3o \u00e9 uma evolu\u00e7\u00e3o, dentro do paradigma, tem uma evolu\u00e7\u00e3o ampliando, a gente esconde as anomalias, mas da\u00ed a pouquinho n\u00e3o d\u00e1 mais para esconder. A\u00ed explode e surge algu\u00e9m que pensa numa alternativa, que vai acolher aquelas anomalias, n\u00e3o todas, mas vai recolher uma parte e vai adiante.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5bokt\">Ent\u00e3o, podemos fazer isso com esses caras, com um Paulo Freire ou um desses outros mesmo com o Foucault, porque esses caras viveram numa \u00e9poca, Foucault morreu em 1984, isso a\u00ed quer dizer que ele n\u00e3o pensou nada disso que est\u00e1 acontecendo hoje, ent\u00e3o temos que ressignificar e ressignificar&#8230; a desculpa eu me alongo demais.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-od11\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira<\/strong>: <strong>Muito bom, eu quero ficar um pouquinho nessa \u00faltima parte da sua fala. N\u00f3s terminamos de ler Thomas Kuhn no grupo, sentimos necessidade de recuperar algo da dimens\u00e3o cultural das ci\u00eancias, desde Fleck, Thomas Kuhn, Feyerabend, depois um pouco talvez de Bourdieu e seguir adiante a\u00ed com o Latour, com o Michel Serres para chegar nesses autores que estudamos mais fortemente dentro do grupo. Em um artigo seu, no livro organizado pela Marisa Vorraber Costa, que voc\u00ea intitula \u201cParadigmas, cuidado com eles\u201d voc\u00ea defende a no\u00e7\u00e3o de um paradigma fraco. Voc\u00ea retoma agora a import\u00e2ncia de compreendermos a quest\u00e3o revolucion\u00e1ria do Thomas Kuhn. fala um pouquinho mais para n\u00f3s de como \u00e9 que voc\u00ea entende essa perspectiva de olhar como um paradigma fraco, mas ainda assim insistindo na ideia de que \u00e9 importante pensar o paradigma.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6ecsm\"><strong>Alfredo Veiga-Neto:<\/strong> Sim! Um pensamento paradigm\u00e1tico mas <em>non troppo <\/em>[n\u00e3o muito]<em>, <\/em>tudo ali\u00e1s deve ser \u201cmas <em>non tropo<\/em>\u201d<em>,<\/em> tudo na vida, eu acho. Na vida intelectual n\u00e3o tenho d\u00favida. Ora, eu escrevi esse texto -cuidado com eles &#8211; porque eu via muito \u201cah esse \u00e9 o meu paradigma!\u201d e a\u00ed sob essa frase, sobre esse muro &#8211; \u00e9 o meu paradigma &#8211; a pessoa pode dizer qualquer coisa: esse \u00e9 o meu Marx esse \u00e9 o meu Latour, \u00e9 como eu leio! Nesse artigo eu fa\u00e7o uma analogia acerca da interpreta\u00e7\u00e3o e superinterpreta\u00e7\u00e3o. Sabe onde \u00e9 que fui aprender o que eu vou falar? Umberto Eco. O cineasta! O cineasta n\u00e3o, cineasta, fil\u00f3sofo e escritor. Tudo isso. Ele escreveu um livro sobre interpreta\u00e7\u00e3o e superinterpreta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o, essa \u00e9 a minha interpreta\u00e7\u00e3o! Da\u00ed eu escrevi o paradigma, cuidado com ele. Tem um exemplo matem\u00e1tico na teoria dos n\u00fameros, que eu uso. Uma boa parte do curso de matem\u00e1tica, do curso de gradua\u00e7\u00e3o de matem\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f16in\">Ali\u00e1s, durante o mestrado que eu precisava para estat\u00edstica, meu mestrado \u00e9 em cima de estat\u00edstica. Eu precisava, ent\u00e3o eu comecei a fazer, e a\u00ed eu gostei e semana passada, eu terminei uma disciplina de c\u00e1lculo. Por internet.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-32pbr\">Bem, a teoria dos n\u00fameros, tem uma coisa sobre infinito? E o que \u00e9 o infinito? Muitas vezes as pessoas dizem que isso aqui admite infinitas interpreta\u00e7\u00f5es, \u00e9 verdade. Eu vou ler microf\u00edsica do poder de Michel Foucault. Uma p\u00e1gina dessas aqui admite infinitas interpreta\u00e7\u00f5es. Tem uma imagem do Stuart Hall &#8211; nosso Stuart Hall dos Estudos Culturais &#8211; que diz assim: \u201co quadro de chegadas e sa\u00eddas de trens na esta\u00e7\u00e3o central de Londres admite infinitas interpreta\u00e7\u00f5es\u201d. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o que t\u00e1 escrito ali, porque ele fala sim sobre interpreta\u00e7\u00e3o, s\u00f3 que ele n\u00e3o conta o resto depois da v\u00edrgula, uma coisa que Umberto Eco contou e eu conto para voc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-42c75\">\u00c9 verdade, aquele quadro pode ser lido e interpretado de infinitas maneiras. At\u00e9 mesmo de uma maneira sentimental. Ali tem a chegada de um trem e nele vai chegar a minha namorada &#8211; \u00e9 um exemplo que ele d\u00e1 &#8211; e ali vai sair um trem, esse trem uma vez eu j\u00e1 andei nele e foi muito feliz que eu fui at\u00e9 a cidade de n\u00e3o sei onde. Esse \u00e9 o exemplo que ele d\u00e1. \u00c9 verdade, admite infinitas&#8230; pode ser uma leitura est\u00e9tica, pode ser uma leitura&#8230;, s\u00f3 que n\u00e3o admite todas porque infinito n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de todos. Como assim? Se \u00e9 infinito \u00e9 todos. N\u00e3o! E a\u00ed eu vou para os n\u00fameros. Na escala dos n\u00fameros voc\u00eas p\u00f5em aqui assim entre um e o dois, quantos n\u00fameros reais existem? Existem quantos? Infinitos! Pois h\u00e1 um <em>continuum. <\/em>Isso \u00e9 tranquilo? Entendido? Tem todos os n\u00fameros entre um e dois? N\u00e3o! Quantos tem dentro? Infinitos. Quantos tem fora? Infinitos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fn4hv\">Ent\u00e3o, quando o cara escreve alguma coisa, tem infinitos sentidos, <strong>mas n\u00e3o \u00e9 qualquer sentido<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ba0fe\">Eu n\u00e3o posso dizer para voc\u00eas, por exemplo: \u201cAh, mas \u00e9 minha interpreta\u00e7\u00e3o\u201d, posso dizer infinitas coisas sobre o meu <em>mouse<\/em>? Infinitas coisas. T\u00e1! Ou que ele \u00e9 um produto da economia capitalista, que o meu aqui \u00e9 chin\u00eas, ent\u00e3o ele \u00e9 uma c\u00f3pia dos bons mouses. Posso escrever a hist\u00f3ria da China sobre esse <em>mouse<\/em>, mas eu n\u00e3o posso dizer que ele \u00e9 um bolo ingl\u00eas, que ele \u00e9 um sandu\u00edche. Ele \u00e9 infinitas coisas, e nessas infinitas coisas agregadas a ele existem infinitas coisas. Pronto! Por isso eu vejo problemas com \u201cai! \u00e9 a minha leitura!\u201d ent\u00e3o tu podes ter a tua leitura, mas tu n\u00e3o podes dizer por exemplo que Latour \u00e9 um m\u00fasico do s\u00e9culo dezoito, dezessete, est\u00e1 vendo s\u00f3? Existem infinitas coisas que Latour \u00e9, e infinitas coisas que ele n\u00e3o \u00e9, a\u00ed tem que estudar teoria dos infinitos. Essa <em>\u2018pira\u00e7\u00e3o\u2019<\/em> que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-e2mlg\">Em \u00faltima an\u00e1lise, paradigma tem a ver com isso. Bom, esse \u00e9 o meu paradigma. \u00c9 a minha leitura de Latour. N\u00e3o! A sua leitura pode estar errada dentro do teu paradigma, por exemplo, o paradigma newtoniano, paradigma de Newton, n\u00e3o admite uma leitura do movimento, da flecha, como uma vontade da flecha, mas a leitura aristot\u00e9lica sim, a flecha sai porque eu transmito a minha vontade. Estou louco para mandar uma flechada, a\u00ed eu libero a minha vontade; liberei a vontade, a flecha, que estava com a minha vontade acumulada, anda nesse percurso, a\u00ed chega l\u00e1, o estrago maior ela vai fazer quanto maior for a minha vontade.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6tpcr\">Mas por que que ela n\u00e3o vai infinitamente? Porque tem uma vontade na terra que puxa ela para baixo. Na verdade, a f\u00edsica do movimento em Arist\u00f3teles \u00e9 imbat\u00edvel. Essa \u00e9 a tese de Kuhn, dentro do paradigma aristot\u00e9lico. Vimos que vai acontecer uma s\u00e9rie de exce\u00e7\u00f5es, de anomalias e at\u00e9 d\u00e1 uma virada com as teorias do movimento da F\u00edsica Moderna, newtoniana no caso. Que depois v\u00e3o sofrer uma ruptura &#8211; continua valendo -, mas uma ruptura para f\u00edsica n\u00e3o relativ\u00edstica. Dizer que est\u00e1 no paradigma, por mais que a pessoa esteja, n\u00e3o explica tudo, tem que ter cuidado. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o central.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f1q6i\">Outra quest\u00e3o, que eu tamb\u00e9m indico cuidado \u00e9 sobre a possibilidade ou n\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o entre paradigmas. O primeiro Kuhn, o Kuhn da estrutura, diz que os paradigmas s\u00e3o incomensur\u00e1veis, que se pensa em um paradigma n\u00e3o se pensa no outro, sim e n\u00e3o, depois daquela biografia que se chama Depois da Estrutura! Kuhn vai dizer \u201c\u00e9, h\u00e1 uma incomensurabilidade, mas n\u00e3o \u00e9 rigorosa\u201d, porque se existisse mesmo uma incomensurabilidade entre a f\u00edsica newtoniana e a f\u00edsica einsteniana, se houvesse mesmo, o que um dizia o outro n\u00e3o entendia, e a gente entende, a gente se entende! A linguagem permite certa conex\u00e3o. Ele chega a confessar isso, que ele tinha afrouxado, que ele estava pensando o paradigma no sentido muito duro, j\u00e1 nessa Depois da Estrutura. Eu uso essa imagem. N\u00e3o \u00e9 um paradigma duro, \u00e9 um paradigma <em>soft<\/em>, porque a cria\u00e7\u00e3o de limites r\u00edgidos \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o m\u00edtica. N\u00e3o h\u00e1 entre uma esp\u00e9cie e outra, n\u00e3o h\u00e1 entre o homem e uma mulher, mas mesmo entre objetos mais simples, n\u00e3o h\u00e1 uma separa\u00e7\u00e3o n\u00edtida e para todos sempre ali estabelecido. De modo que h\u00e1 permeabilidades. Quanto mais complexa a estrutura, maior a permeabilidade. O que nos permite ver elementos de Kant e Foucault, sem que Foucault seja um kantiano, o elemento &#8211; sem ele dizer explicitamente &#8211; do estruturalista no pensamento de Foucault, sem ele ser estruturalista. Ent\u00e3o, as interpenetra\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito mais sutis e poss\u00edveis, mas com rigor, com cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-epamu\">O conceito de poder, por exemplo, em Foucault, \u00e9 um conceito muito diferente do poder em Bourdieu, que \u00e9 um cara que trabalhou muito bem o poder. N\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa, mas ao fim e ao cabo eles produzem coisas que t\u00eam uma semelhan\u00e7a. T\u00eam uma interpenetra\u00e7\u00e3o. Contudo, s\u00f3 se chega a dominar isso quando se conhece bem Bourdieu e quando se conhece bem Foucault, porque poder em Bourdieu \u00e9 visto como uma excresc\u00eancia, como um certo tom de viol\u00eancia sobre os outros e o poder em Foucault \u00e9 algo que produz, tem a sua positividade. A viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um poder exacerbado em Foucault nem o poder \u00e9 uma viol\u00eancia branda, s\u00e3o de naturezas diferentes. Escrevi um texto sobre isso, debulho em detalhes para o caso da educa\u00e7\u00e3o, professor de sala de aula exercendo o poder, a estrutura da escola, disposi\u00e7\u00e3o das coisas, exercendo o poder e n\u00e3o viol\u00eancia. E tem uma passagenzinha l\u00e1 no Vigiar e Punir que diz assim: \u201cmas eu tenho que confessar que para que se exer\u00e7a o poder, n\u00f3s temos que de alguma forma submeter o outro a nossa escuta, a escutar o que eu digo que pode incluir alguma dose de viol\u00eancia\u201d Senta a\u00ed e escuta o que eu vou falar, mais ou menos isso. Ent\u00e3o \u00e9 por isso que eu digo, paradigma n\u00e3o v\u00e3o com tanta sede ao pote. N\u00e3o pensem que est\u00e1 resolvido. \u201cN\u00e3o, mas isso \u00e9 a minha leitura\u201d. \u201cN\u00e3o! Eu estou em outro paradigma\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-867rv\">Isso \u00e0s vezes mata o interlocutor no sentido kuhniano. No primeiro Kuhn eu diria, que \u00e9 o Kuhn da estrutura das revolu\u00e7\u00f5es, ele \u00e9 duro, por isso diz que as ci\u00eancias humanas n\u00e3o s\u00e3o paradigm\u00e1ticas, porque ele est\u00e1 entendendo paradigma como um grande conjunto na f\u00edsica&#8230; na qu\u00edmica estuda o caso do oxig\u00eanio. Ent\u00e3o ali \u00e9 para valer, o grande paradigma \u00e9 para valer, claro. Onde eu vejo uma coisa, qualquer coisa, aquela coisa que Feyerabend trabalha? Onde eu vejo orelha de coelho, o outro v\u00ea bico de pato, Gestalt, e isso \u00e9 verdade, mas eu posso conviver com os dois e administrar os dois, eu posso querer ver s\u00f3 orelha de coelho ou s\u00f3 ver bico de pato, eu posso administrar e isso quem tem que fazer \u00e9 o intelectual, que vai jogando um pouco com essas coisas, t\u00e1? Eu vejo nos p\u00f3s-estruturalistas, essa sa\u00edda. As pessoas que come\u00e7am a trabalhar nessas perspectivas p\u00f3s-estruturalistas tendem a pensar que n\u00e3o h\u00e1 um fundamento, que n\u00e3o se deve aceitar botar o livro debaixo do bra\u00e7o e dizer fulano. Existe muita flexibilidade, eu vejo muito essa hist\u00f3ria \u201cn\u00e3o, mas a minha leitura\u201d \u00f3 a\u00ed tu matas, \u00e9 a minha leitura, \u00e9 assim que eu vejo! e ent\u00e3o, quer saber uma coisa, voc\u00ea est\u00e1 vendo errado, tem erro!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4200k\">N\u00f3s, que estamos na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, temos que ser generosos e explicar que n\u00f3s temos alguns princ\u00edpios e que esses princ\u00edpios t\u00eam que ser respeitados. A ci\u00eancia, o laborat\u00f3rio, por exemplo, mas por que que eu tenho que botar avental? Por que que eu tenho que botar \u00f3culos de prote\u00e7\u00e3o em alguns experimentos ou algumas tarefas? Ou por que que eu tenho que lavar as m\u00e3os? Por que que eu tenho que usar m\u00e1scara? Eu n\u00e3o quero! Ent\u00e3o, tu n\u00e3o entras no laborat\u00f3rio pronto, \u00e9 f\u00e1cil!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9lan8\">Eu trabalhei muitos anos no ensino de ci\u00eancias &#8211; \u00e9 mostrar que ensinar ci\u00eancias \u00e9 educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mais do que ensinar coisas da ci\u00eancia \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o para a ci\u00eancia, de compreender o que \u00e9 o conhecimento cient\u00edfico, compreender a falibilidade, compreender que a ci\u00eancia est\u00e1 sempre pronta para se reformular, mas quer se reformular com fundamento. N\u00e3o qualquer um chegar e meter a colher e dizer qualquer coisa, como est\u00e1 acontecendo hoje no Brasil, n\u00e3o existe uma crise cient\u00edfica que as pessoas n\u00e3o acreditam, n\u00e3o! Acreditam [as pessoas no Brasil], mas se d\u00e3o o direito de desacreditar, de dizer outra coisa, de esconder outras coisas. Ent\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 muito mais do que ensinar ci\u00eancias, \u00e9 ensinar o funcionamento das coisas ou a leitura que a ci\u00eancia faz da vida, da mec\u00e2nica, da qu\u00edmica, das subst\u00e2ncias dos fen\u00f4menos, t\u00e1? Isso \u00e9 ensino de ci\u00eancias. A educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 mais abrangente, envolve uma postura no laborat\u00f3rio, uma postura na biblioteca, uma postura perante os colegas. \u00c9 por a\u00ed que envolve a \u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-a59ms\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: Foucault e Educa\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um livro famoso est\u00e1 no top das cita\u00e7\u00f5es do Alfredo. Nele voc\u00ea vai falar, ser bastante did\u00e1tico &#8211; \u00e9 uma refer\u00eancia obrigat\u00f3ria para quem quer entender Foucault. Por esse livro, somos introduzidos no pensamento de Michel Foucault, entendendo muita coisa das fases do fil\u00f3sofo. Logo no in\u00edcio, voc\u00ea cita Richard Rorty, olha o Foucault funciona melhor dentro da perspectiva das filosofias edificantes. O Foucault n\u00e3o quer ser sistem\u00e1tico. E a gente gosta muito &#8211; nos Estudos Culturais &#8211; de ler isso porque flerta, ou pelo menos aproxima-se das nossas perspectivas; ao menos aqui, no GECCE, de uma aproxima\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m com o p\u00f3s-estruturalismo. \u00c1rea que voc\u00ea estudou muito, escreveu muito a respeito e ajudou muito o campo ao longo desse tempo todo. Pois bem, como a perspectiva edificante nos estimula a esse pensar de outra maneira, a pensar nas fronteiras, a pensar Queer por exemplo? Se vamos nessa dire\u00e7\u00e3o, muitos dos movimentos de esquerda ficaram muito entusiasmados com essa perspectiva por qu\u00ea? Por que abre um espa\u00e7o para o discurso do m\u00faltiplo? Para as diferen\u00e7as e para as media\u00e7\u00f5es, a\u00ed v\u00eam os movimentos neoliberalistas e usam essas mesmas for\u00e7as discursivas e nos paralisam. Essa contradi\u00e7\u00e3o que sempre foi uma bandeira de luta dos movimentos edificantes, de repente assim muito rapidamente troca de m\u00e3o e deixa a esquerda relativamente paralisada. Em algum sentido, ach\u00e1vamos que a democracia estava t\u00e3o bem institu\u00edda que a gente podia brincar com ela, dizer n\u00e3o \u00e0 democracia, cham\u00e1-la de mito, de metanarrativa, agora n\u00f3s estamos em vias de tentar defender a metanarrativa, exatamente desses neoliberais que sempre acharam da democracia um discurso de poder. O que opera ali \u00e9 um fascismo radical como voc\u00ea escreveu muito bem em: \u201cpara uma vida n\u00e3o fascista\u201d. Minha provoca\u00e7\u00e3o para voc\u00ea \u00e9: \u201cde fato a democracia \u00e9 uma metanarrativa que precisa ser superada? \u00c9 um sonho que precisa ser superado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-72tu8\"><strong>Alfredo Veiga-Neto<\/strong>: Primeiro te agradecer me lendo. A gente escreve para ser lido. Ficou contente e vamos combinar que existe em tudo isso uma parcela n\u00e3o pequena de vaidade&#8230; \u00e9 assim que funciona a academia, \u00e9 assim que funciona a vida, Mois\u00e9s, n\u00f3s precisamos inventar motivos para nos levantar de manh\u00e3 para sair da cama. Melhor do que os motivos que nos imp\u00f5em os outros \u00e9 n\u00f3s inventarmos motivos por n\u00f3s mesmos, que \u00e9 o melhor. \u00c9 uma for\u00e7a, \u00e9 algo que me conduz, que \u00e9 dirigir, que me dirige, que me bota para frente. Eu tenho que ter. Ent\u00e3o, o meu <em>drive<\/em> \u00e9 esse? Falar com os outros, escrever, ser escutado e gostar disso. Eu te agrade\u00e7o, mas me deixa tentar responder \u00e0 quest\u00e3o do fascismo, neoliberalismo, democracia que est\u00e1 em vias de ser superada.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dtdov\">Uma coisa interessante no capitalismo. Capitalismo \u00e9 aproveitador. Ele aproveita recursos naturais, ele aproveita o tempo, isso o velho Marx quase duzentos anos atr\u00e1s j\u00e1 tinha descoberto, ele \u00e9 aproveitador, ele captura, ele sequestra o tempo, ele sequestra a inven\u00e7\u00e3o alheia, e ele gira cada vez mais r\u00e1pido para acumular mais, acumular mais o qu\u00ea? O capital. E o liberalismo, que n\u00e3o \u00e9 uma ideologia, mas que \u00e9 um modo de vida criado a partir do capitalismo. O neoliberalismo \u00e9 vampiresco, ele rouba. Ele rouba inclusive ideias, ele inventa competi\u00e7\u00e3o para tu ficares escravo dos outros, competindo com os outros e contigo mesmo, tu competes contigo mesmo. Portanto, ele cria aquilo que os caras chamam uma acelera\u00e7\u00e3o do tempo, cria em n\u00f3s o desejo de acelerarmos um tempo social, um tempo humano, mas n\u00e3o podemos acelerar o tempo hist\u00f3rico, o que acontece? N\u00f3s estamos sempre em d\u00edvida. Ent\u00e3o, vamos ler l\u00e1 o Lazarato em portugu\u00eas [refere-se \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o], a f\u00e1brica do homem. N\u00e3o. A fabrica\u00e7\u00e3o do homem endividado, t\u00e1? J\u00e1 deram pau nele porque ele botou do homem endividado. N\u00e3o, da mulher tamb\u00e9m. T\u00e1 todo mundo endividado, t\u00e1? Por que essa corre\u00e7\u00e3o? De g\u00eanero e tal. Tem que falar!?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-chd1h\">Ent\u00e3o o neoliberalismo suga inclusive as ideias. Ele imprime em n\u00f3s um modo de vida que, para usar talvez Deleuze, fantasmag\u00f3rico? N\u00f3s temos fantasmas e vivemos cercados desses fantasmas. Ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, capturar ideias alheias n\u00e3o \u00e9 uma coisa rara, mas no caso do neoliberalismo se faz uma mistura, mas com tend\u00eancias a conservar. Porque n\u00e3o pode ser inovador. O neoliberalismo n\u00e3o pode ser inovador. Porque se ele for inovador ele acaba se destruindo. Como todos os ismos: cristianismo, marxismo, luteranismo, todos os ismos. Que que \u00e9 o ismo? O ismo \u00e9 a funda\u00e7\u00e3o de um princ\u00edpio b\u00e1sico, um grande fundamento. Ent\u00e3o, os ismos levados a s\u00e9rio s\u00e3o isso, n\u00e3o admitem outra, n\u00e3o admitem outra. E que as igrejas, na sua imensa maioria, s\u00e3o assim, porque n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, porque se botar em d\u00favida a base, fundamento, a\u00ed se desmancha, a\u00ed perde a gra\u00e7a, a\u00ed se desmancha. Que \u00e9 o coronelismo? O que \u00e9 o integralismo? Que \u00e9 o fascismo? Que que \u00e9 o stalinismo? Que \u00e9 o marxismo? Todos eles, de um lado ou de outro, s\u00e3o o reino da intoler\u00e2ncia. Eu n\u00e3o tolero o outro. Posso at\u00e9 fazer sil\u00eancio e tal, mas me afasto. Ent\u00e3o, o humanismo, criticado por Foucault, por sinal, principalmente em As palavras e as coisas. Humanismo \u00e9 isso, \u00e9 ver o homem como origem de todas as coisas, de todas as intelig\u00eancias. ent\u00e3o ele bota em quest\u00e3o, e ele vai dizer o qu\u00ea? O homem \u00e9 um produto e n\u00e3o um produtor, essa \u00e9 a pegada de Foucault entre outras coisas: o sujeito \u00e9 um produto, \u00e9 produzido, e o grande objetivo de Foucault a vida toda foi estudar as diferentes formas pelas quais os indiv\u00edduos se transformam em sujeitos. S\u00e3o feitos sujeitos. Sujeito n\u00e3o faz. Sujeito \u00e9 feito. E depois passa a fazer coisas. mas para fazer coisas ele tem que ser subjetivado, o que inclui assujeitamento, inclu\u00edda at\u00e9 a obedi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ea9g9\">Agora isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o tenha princ\u00edpios? N\u00e3o \u00e9 um vale tudo como alguns leem Feyerabend, <em>anything goes. <\/em>Mais metodol\u00f3gico, no meu caso aqui mais epistemol\u00f3gico, epis\u00f3dico, mas as minhas a\u00e7\u00f5es ficam dentro de alguns par\u00e2metros dos quais eu n\u00e3o me afasto, mas a\u00ed ent\u00e3o quer dizer que tu tens teus fundamentos, tenho meus fundamentos, mas n\u00e3o s\u00e3o fundamentos de todos para todos, para todo o sempre, e nem meus para todo o sempre. A imagem da metamorfose ambulante \u00e9 muito boa, que \u00e9 uma express\u00e3o do Paulo Coelho.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6i0sa\"><strong>Mois\u00e9s Alves de Oliveira: Alfredo, que manh\u00e3 fant\u00e1stica! A gente j\u00e1 tem que deixar voc\u00ea seguir a vida? Sim, voc\u00ea foi sequestrado essa manh\u00e3, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. Mas, Alfredo, o que voc\u00ea diz para essa plateia a\u00ed? O que voc\u00ea tem de mensagem na perspectiva dos Estudos Culturais &#8211; que voc\u00ea ajudou a fortalecer no Brasil &#8211; para essa plateia que te l\u00ea? De jovens pesquisadores. Temos aqui muitos mestrandos ativistas pol\u00edticos, doutorandos, o que que voc\u00ea diz para esse pessoal? Como \u00e9 que a gente segue e mant\u00e9m em funcionamento essa perspectiva de olhar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-oqh5\"><strong>Alfredo Veiga-Neto:<\/strong> Tem uma express\u00e3o que \u00e9 de Nietzsche, que \u00e9 vontade de saber e eu come\u00e7o por a\u00ed. Vontade de saber, que envolve algo que a gente pode chamar de tes\u00e3o pelo conhecimento. N\u00e3o \u00e9 pela sabedoria. Sabedoria vem depois. Vem como resultado, digamos assim, quase que autom\u00e1tico, mas pelo conhecer, pelo perguntar, pela escuta saber escutar, saber desdizer-se. Eu tenho isso, s\u00e3o algumas qualidades que eu procuro seguir, mas nem sempre consigo, ter um bom humor em rela\u00e7\u00e3o aos outros? Principalmente para aqueles que nos alimentam com coisas boas, com pensamentos que d\u00e3o samba, que me levam a pensar mais e de maneiras mais complexas, mais dif\u00edceis mesmo. Isso n\u00e3o \u00e9 conselho, mas uma dica, uma grande dica que eu dou \u00e9 essa: saber escutar, saber escutar seu orientador e sua orientadora. Saber escutar e saber tamb\u00e9m se antepor aquilo com que ele n\u00e3o concorda, sabendo tamb\u00e9m justificar, sabendo argumentar, tem que ter caf\u00e9 no bule. E eu diria isso no caso espec\u00edfico dos Estudos Culturais, entendendo a cultura essa misturenga imensa de cren\u00e7as, h\u00e1bitos, maneira de ver as coisas, maneira de viver, rituais, gosto, tudo isso, uma cultura como esse conjunto, inclusive de produ\u00e7\u00f5es. A rela\u00e7\u00e3o disso com a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente radical, profunda. \u00c9 pela educa\u00e7\u00e3o que n\u00f3s, que estamos numa cultura e que prezamos por essa cultura, trazemos os outros para essa cultura. Educar \u00e9 isso. Educar n\u00e3o \u00e9 ser livre &#8211; pode ser, \u00e9 bom que seja \u2013, n\u00e3o \u00e9 ter esp\u00edrito cr\u00edtico, \u00e9 bom, \u00e9 preciso, mas n\u00e3o \u00e9. Verbo a\u00ed tem uma for\u00e7a muito grande. Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a\u00e7\u00e3o de educar. O que \u00e9 educar? Educar \u00e9 trazer o outro para c\u00e1, os que n\u00e3o estavam para c\u00e1, aqueles que nasceram para c\u00e1, os estrangeiros, para c\u00e1, para c\u00e1 onde? Para o interior de uma cultura. Eu n\u00e3o tenho d\u00favida que os estudos culturais nos d\u00e3o os instrumentos melhores para conhecer. Claro que a antropologia, os m\u00e9todos etnogr\u00e1ficos, a etnografia, a etnologia s\u00e3o importantes, claro, claro. Mas os Estudos Culturais podem jogar com tudo isso.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3clei\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/07dfa6f4-73b9-4c80-a86b-d4a026af21bf\/blog\/create-post?tab=categories#_ftnref1\" target=\"_blank\">[1]<\/a> Um dos participantes ouvintes durante a entrevista utilizava esta senten\u00e7a como identifica\u00e7\u00e3o no lugar de seu nome. <\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3clei\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/07dfa6f4-73b9-4c80-a86b-d4a026af21bf\/blog\/create-post?tab=categories#_ftnref2\" target=\"_blank\">[2]<\/a> Uma vers\u00e3o encontra-se dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/pt.scribd.com\/document\/316372675\/VEIGA-NETO-Michel-Foucault-e-Os-Estudos-Culturais&gt;. Acesso em: 23 de novembro de 2021. <\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3clei\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/07dfa6f4-73b9-4c80-a86b-d4a026af21bf\/blog\/create-post?tab=categories#_ftnref3\" target=\"_blank\">[3]<\/a> O texto encontra-se dispon\u00edvel em: https:\/\/www.scielo.br\/j\/edreal\/a\/FtpkV5RY3Q64nvBdvxbSXwg\/?lang=pt. Acesso em: 23 de novembro de 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apresenta\u00e7\u00e3o do entrevistado. Graduado em Hist\u00f3ria Natural (1967) e em M\u00fasica (1963) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul; mestre em Gen\u00e9tica (1975) e doutor em Educa\u00e7\u00e3o (1996) pela mesma Universidade. Professor Titular da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFRGS. Professor Convidado Permanente do PPG-Educa\u00e7\u00e3o\/UFRGS. Mois\u00e9s Alves de Oliveira: Bem-vindo, Alfredo. Alfredo Veiga-Neto: Muito obrigado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":102,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-101","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-confissoes-os-enredos-da-tradicao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=101"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":109,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101\/revisions\/109"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/102"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=101"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=101"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/quaseciencias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=101"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}