{"id":5326,"date":"2026-08-20T22:36:21","date_gmt":"2026-08-21T01:36:21","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/?p=5326"},"modified":"2026-08-20T22:37:24","modified_gmt":"2026-08-21T01:37:24","slug":"feminicidios-podem-ter-afetado-cerca-de-25-mil-filhas-filhos-e-dependentes-no-brasil-desde-2023-estima-informe-do-lesfem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/feminicidios-podem-ter-afetado-cerca-de-25-mil-filhas-filhos-e-dependentes-no-brasil-desde-2023-estima-informe-do-lesfem\/","title":{"rendered":"Feminic\u00eddios podem ter afetado cerca de 25 mil filhas, filhos e dependentes no Brasil desde 2023, estima Informe do LESFEM"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Laborat\u00f3rio de Estudos de Feminic\u00eddios da Universidade Estadual de Londrina (LESFEM\/UEL) publica o Informe T\u00e9cnico Tem\u00e1tico n\u00ba 2, <em>Filhas e filhos de v\u00edtimas de feminic\u00eddio no Brasil: dimens\u00e3o, invisibilidade estat\u00edstica e restitui\u00e7\u00e3o de direitos nos casos consumados e tentados<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A publica\u00e7\u00e3o dimensiona os efeitos dessa viol\u00eancia sobre filhas, filhos e outros dependentes e discute as respostas necess\u00e1rias nas \u00e1reas de assist\u00eancia social, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a, seguran\u00e7a p\u00fablica e prote\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A an\u00e1lise utiliza registros do Monitor de Feminic\u00eddios no Brasil (MFB), constru\u00eddo pelo LESFEM a partir do acompanhamento sistem\u00e1tico da imprensa digital. Entre janeiro de 2023 e mar\u00e7o de 2026, o MFB reuniu 21.033 registros de v\u00edtimas de feminic\u00eddio: 6.903 em casos consumados e 14.130 em casos tentados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas fontes jornal\u00edsticas, 2.663 v\u00edtimas foram identificadas como m\u00e3es de dependentes. Desse total, 1.560 morreram e 1.103 sobreviveram. Para essas v\u00edtimas, havia informa\u00e7\u00e3o sobre a quantidade de filhos e dependentes, o que permitiu contabilizar diretamente 4.507 pessoas afetadas: 2.849 vinculadas a feminic\u00eddios consumados e 1.658 a feminic\u00eddios tentados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Informe ressalta que essa contagem constitui um m\u00ednimo observado. Como a exist\u00eancia de filhas e filhos nem sempre \u00e9 mencionada nas reportagens, a aus\u00eancia dessa informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa que a v\u00edtima n\u00e3o os tivesse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para estimar a dimens\u00e3o do fen\u00f4meno, o estudo utiliza dois par\u00e2metros derivados da pr\u00f3pria base. Entre os casos com informa\u00e7\u00f5es suficientes sobre a vida familiar da v\u00edtima, aproximadamente 70% indicam que ela tinha filhos. Entre as v\u00edtimas identificadas como m\u00e3es de dependentes, a m\u00e9dia agrupada foi de 1,69 dependente por v\u00edtima, arredondada para 1,7. Aplicados aos 21.033 registros, esses par\u00e2metros resultam em uma estimativa de aproximadamente 25 mil filhas, filhos e dependentes potencialmente afetados no per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O m\u00ednimo observado e a estimativa respondem a perguntas diferentes e n\u00e3o podem ser somados nem substitu\u00eddos um pelo outro. A contagem de 4.507 corresponde \u00e0s pessoas efetivamente identificadas nas fontes consultadas. A estimativa de cerca de 25 mil expressa uma ordem de magnitude diante das lacunas informacionais da cobertura jornal\u00edstica, e n\u00e3o uma contagem individualizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Uma crian\u00e7a de 10 anos precisou chamar a pol\u00edcia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os cinco casos apresentados no Informe para mostrar aspectos que os dados agregados n\u00e3o alcan\u00e7am, um deles evidencia a posi\u00e7\u00e3o ocupada por crian\u00e7as e adolescentes no pr\u00f3prio epis\u00f3dio da viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Santa Luzia (MG), Mariana Camila de Oliveira dos Santos foi morta a facadas em sua resid\u00eancia, em 8 de mar\u00e7o de 2026, Dia Internacional da Mulher. Seus tr\u00eas filhos, de 10, 8 e 5 anos, estavam no im\u00f3vel. O filho mais velho, com o aux\u00edlio de vizinhos, precisou acionar os servi\u00e7os de emerg\u00eancia e a pol\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso evidencia que crian\u00e7as podem ser diretamente expostas \u00e0 cena, \u00e0s consequ\u00eancias imediatas do crime e \u00e0 necessidade de buscar ajuda para a pr\u00f3pria m\u00e3e. Al\u00e9m da perda, elas podem enfrentar investiga\u00e7\u00f5es, processos judiciais, mudan\u00e7as de moradia e de guarda e a reorganiza\u00e7\u00e3o abrupta de toda a vida familiar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Sobreviver n\u00e3o significa permanecer sem consequ\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das principais contribui\u00e7\u00f5es do Informe \u00e9 incluir sistematicamente os feminic\u00eddios tentados. Nesses casos, a mulher permanece viva, mas ela e seus filhos enfrentam trauma compartilhado, medo persistente, deslocamento da resid\u00eancia, interrup\u00e7\u00e3o dos estudos e do trabalho, perda de renda e altera\u00e7\u00f5es profundas nas responsabilidades familiares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tentativas de feminic\u00eddio tamb\u00e9m podem provocar les\u00f5es graves, perda de funcionalidades e defici\u00eancia adquirida. Nessas circunst\u00e2ncias, a mulher pode deixar de exercer atividades de cuidado e passar a depender de cuidados prestados por familiares, inclusive por filhas e filhos ainda crian\u00e7as ou adolescentes. A perda de renda, as despesas relacionadas \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o e as dificuldades de reinser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho ampliam o risco de pobreza e desprote\u00e7\u00e3o de toda a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A perman\u00eancia da m\u00e3e constitui um v\u00ednculo fundamental, mas n\u00e3o elimina os impactos da viol\u00eancia nem dispensa o atendimento espec\u00edfico \u00e0s crian\u00e7as e aos adolescentes. A recupera\u00e7\u00e3o materna e a recupera\u00e7\u00e3o dos filhos s\u00e3o interdependentes e n\u00e3o devem ser tratadas por servi\u00e7os isolados e sem comunica\u00e7\u00e3o entre si.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O documento tamb\u00e9m adverte que as reportagens sobre tentativas costumam apresentar menos informa\u00e7\u00f5es biogr\u00e1ficas e familiares do que as not\u00edcias sobre mortes. A diferen\u00e7a entre a m\u00e9dia de dependentes identificados nos casos consumados e tentados, portanto, n\u00e3o permite concluir que as sobreviventes tenham menos filhos. Ela \u00e9 compat\u00edvel com a qualidade desigual das informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis: not\u00edcias sobre mortes tendem a reconstruir a biografia e as rela\u00e7\u00f5es familiares da v\u00edtima com maior detalhamento, enquanto as tentativas s\u00e3o frequentemente noticiadas de forma epis\u00f3dica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Da invisibilidade estat\u00edstica \u00e0 restitui\u00e7\u00e3o de direitos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Informe adota a abordagem ecol\u00f3gica da viol\u00eancia para analisar como os efeitos do feminic\u00eddio se distribuem por diferentes n\u00edveis da vida social. Eles alcan\u00e7am a sa\u00fade f\u00edsica e mental, as rela\u00e7\u00f5es familiares, as redes comunit\u00e1rias, as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e as condi\u00e7\u00f5es estruturais marcadas por desigualdades de g\u00eanero, ra\u00e7a, classe, territ\u00f3rio, idade e defici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As consequ\u00eancias podem incluir trauma, luto, interrup\u00e7\u00e3o escolar, perda de renda, rompimento de v\u00ednculos, mudan\u00e7as de guarda, separa\u00e7\u00e3o entre irm\u00e3os e deslocamento territorial. Em muitos casos, o trabalho de cuidado \u00e9 transferido para av\u00f3s, tias, irm\u00e3s e outras mulheres da fam\u00edlia, sem que essas cuidadoras recebam apoio p\u00fablico suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A publica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m examina a invisibilidade estat\u00edstica produzida pelas formas institucionais de registro. Sistemas organizados em torno do fato criminal costumam registrar a v\u00edtima e o autor, mas nem sempre identificam quem dependia da mulher, quem estava presente no epis\u00f3dio, quem assumiu o cuidado posteriormente ou quais direitos foram interrompidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa aus\u00eancia n\u00e3o pode ser reduzida a uma falha t\u00e9cnica de preenchimento. Ela tamb\u00e9m reflete a maneira como o problema \u00e9 definido pelas institui\u00e7\u00f5es. Quando filhas, filhos, dependentes e novos cuidadores n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos nos registros, tornam-se mais dif\u00edceis a busca ativa, o planejamento das pol\u00edticas p\u00fablicas, o acompanhamento das trajet\u00f3rias e a responsabiliza\u00e7\u00e3o do Estado pela prote\u00e7\u00e3o e pela restitui\u00e7\u00e3o de direitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cFilhas e filhos n\u00e3o s\u00e3o um efeito lateral do feminic\u00eddio. S\u00e3o sujeitos de direitos atingidos por uma viol\u00eancia de g\u00eanero que atravessa rela\u00e7\u00f5es familiares, institui\u00e7\u00f5es, territ\u00f3rios e tempos de vida\u201d, afirma o Informe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa perspectiva sustenta a defesa da restitui\u00e7\u00e3o de direitos como terceiro eixo das pol\u00edticas de enfrentamento ao feminic\u00eddio, ao lado da preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e da responsabiliza\u00e7\u00e3o dos autores. Restituir direitos significa n\u00e3o apenas oferecer atendimento emergencial, mas reconstruir condi\u00e7\u00f5es de vida, garantir prote\u00e7\u00e3o continuada e impedir que os efeitos da viol\u00eancia se prolonguem ao longo das gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pens\u00e3o especial institu\u00edda pela Lei n\u00ba 14.717\/2023 representa um avan\u00e7o, mas alcan\u00e7a apenas filhos e dependentes menores de 18 anos que ficaram \u00f3rf\u00e3os em decorr\u00eancia de feminic\u00eddio consumado e atendem ao crit\u00e9rio de renda. O benef\u00edcio, no valor de um sal\u00e1rio m\u00ednimo mensal destinado ao conjunto dos benefici\u00e1rios, foi regulamentado em 2025 pelo Decreto n\u00ba 12.636\/2025, que atribuiu ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) sua operacionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Informe defende que a prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limite ao benef\u00edcio financeiro nem aos casos consumados. Filhas, filhos e dependentes de mulheres sobreviventes de tentativas tamb\u00e9m podem sofrer perda de renda, deslocamento, exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia, sobrecarga de cuidado e interrup\u00e7\u00e3o de direitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as recomenda\u00e7\u00f5es apresentadas est\u00e3o a cria\u00e7\u00e3o de um registro nacional padronizado; a ado\u00e7\u00e3o de mecanismos de busca ativa; a implanta\u00e7\u00e3o de protocolos intersetoriais; a designa\u00e7\u00e3o de equipes de refer\u00eancia; o acompanhamento psicossocial continuado; o apoio financeiro, jur\u00eddico e social aos novos cuidadores; e a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas espec\u00edficas para filhas, filhos e dependentes de sobreviventes de feminic\u00eddio tentado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ou\u00e7a a s\u00edntese em \u00e1udio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u00e1udio <em>Os filhos invis\u00edveis do feminic\u00eddio<\/em> apresenta os principais argumentos e resultados do Informe em linguagem acess\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A s\u00edntese foi gerada no NotebookLM, ferramenta de intelig\u00eancia artificial do Google, a partir do documento publicado pelo LESFEM, e utiliza vozes sint\u00e9ticas. O \u00e1udio tem finalidade de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e n\u00e3o substitui a leitura do Informe T\u00e9cnico Tem\u00e1tico completo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Os_filhos_invisiveis_do_feminicidio_curto.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Informe-tematico-sobre-filhos-de-vitimas_publicado.pdf\"><strong>ACESSE O INFORME T\u00c9CNICO TEM\u00c1TICO COMPLETO<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Laborat\u00f3rio de Estudos de Feminic\u00eddios da Universidade Estadual de Londrina (LESFEM\/UEL) publica o Informe T\u00e9cnico Tem\u00e1tico n\u00ba 2, Filhas e filhos de v\u00edtimas de feminic\u00eddio no Brasil: dimens\u00e3o, invisibilidade estat\u00edstica e restitui\u00e7\u00e3o de direitos nos casos consumados e tentados. 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