{"id":1930,"date":"2024-03-05T19:09:24","date_gmt":"2024-03-05T22:09:24","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/?p=1930"},"modified":"2024-03-22T01:43:21","modified_gmt":"2024-03-22T04:43:21","slug":"lesfem-registra-47-feminicidios-por-dia-no-brasil-em-2023","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/lesfem-registra-47-feminicidios-por-dia-no-brasil-em-2023\/","title":{"rendered":"Lesfem registra 4,7 feminic\u00eddios por dia no Brasil em 2023"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Monitor de Feminic\u00eddios do Brasil (MFB), mantido pelo Laborat\u00f3rio de Estudos de Feminic\u00eddios da UEL, registrou 1.706 casos consumados e outros 988 tentados no pa\u00eds; monitor utiliza not\u00edcias como fonte de dados<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No \u201cm\u00eas das mulheres\u201d, o Informe Feminic\u00eddios no Brasil 2023 nos lembra que ser mulher continua sendo um fator de risco no pa\u00eds. Divulgado pelo Laborat\u00f3rio de Estudos de Feminic\u00eddios (Lesfem), o Informe traz dados levantados pelo Monitor de Feminic\u00eddios no Brasil (MFB) e aponta a ocorr\u00eancia de 1.706 casos com ind\u00edcios de feminic\u00eddios consumados e 988 tentados no ano passado. A m\u00e9dia di\u00e1ria foi de 4,7 feminic\u00eddios consumados e 2,7 tentados no pa\u00eds. A fonte de dados do MFB s\u00e3o not\u00edcias publicadas na internet.<\/p>\n\n\n\n<p>A metodologia do MFB segue as defini\u00e7\u00f5es das Diretrizes Nacionais para Investigar, Processar e Julgar com Perspectiva de G\u00eanero as Mortes Violentas de Mulheres e do Mapa Latino-americano de Feminic\u00eddios. Desta forma s\u00e3o classificadas as not\u00edcias, identificadas a partir de ferramenta digital de busca desenvolvida pelo Data + Feminism Lab do MIT (Massachusetts Institute of Technology).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs resultados que apresentamos reiteram que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds com alarmantes propor\u00e7\u00f5es de feminic\u00eddios, assumindo destaque no cen\u00e1rio regional e global. Ser mulher \u00e9 um fator de risco no pa\u00eds. Apesar de serem n\u00fameros que nos deixam revoltadas, uma vez que se trata de mortes violentas de meninas e de mulheres que poderiam ser evitadas, eles revelam apenas uma parcela do fen\u00f4meno da viol\u00eancia feminicida no pa\u00eds\u201d, ressalta a coordenadora do Lesfem, Silvana Mariano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Idade das v\u00edtimas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dentre as v\u00edtimas de feminic\u00eddios consumados, mulheres entre 25 e 36 anos s\u00e3o a maioria: 28,8% das v\u00edtimas. No segundo grupo aparecem mulheres entre 37 e 45 anos de idade. Entre os dados registrados no ano de 2023, a v\u00edtima mais jovem tinha 27 dias de vida e a mais velha, 84 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentre as v\u00edtimas de feminic\u00eddios tentados persiste a mesma faixa et\u00e1ria: jovens de 25 a 36 anos formam o grupo mais vulner\u00e1vel, representando 23%. Existe, por\u00e9m, uma grande dificuldade no levantamento desses dados, uma vez que em 42,1% das not\u00edcias sobre os casos n\u00e3o constava a idade das v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<p>O MFB tamb\u00e9m detectou que em 400 casos de feminic\u00eddios consumados, ou 23,45%, as v\u00edtimas tinham filhas ou filhos dependentes, que somaram 692 crian\u00e7as ou adolescentes impactados pela viol\u00eancia feminicida no ano de 2023 no pa\u00eds. Registrou-se, ainda, que 41 das v\u00edtimas eram mulheres gestantes, sendo 2,40% do total de casos. Em v\u00e1rios desses casos, a gravidez, inclusive, \u00e9 uma motiva\u00e7\u00e3o para o feminic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEstas informa\u00e7\u00f5es evidenciam a import\u00e2ncia de compreender a viol\u00eancia contra a mulher no Brasil como um problema estrutural. A predomin\u00e2ncia da viol\u00eancia contra mulheres jovens sugere que a idade \u00e9 um fator de risco, possivelmente, relacionado a quest\u00f5es estruturais como desigualdade de g\u00eanero, machismo e a cultura de viol\u00eancia, colocando as mulheres jovens em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. Ao abra\u00e7ar essa perspectiva, \u00e9 poss\u00edvel desenvolver pol\u00edticas p\u00fablicas mais eficazes para combater a viol\u00eancia contra a mulher\u201d, destaca Silvana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Relacionamento entre v\u00edtima e agressor<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os dados sobre relacionamento entre v\u00edtimas e agressores refor\u00e7am os impactos da estrutura patriarcal na vida das mulheres. Em 43,3% dos casos identificados como de feminic\u00eddios tentados havia um hist\u00f3rico de relacionamento desfeito; em 38,1% ambos ainda formavam um casal.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos casos de feminic\u00eddios consumados, os \u00edndices refor\u00e7am o cen\u00e1rio: 37% dos casos detectados em 2023 tinham como suspeito um marido, namorado ou companheiro, e em 24,3% dos casos o suspeito era um ex-marido, ex-namorado ou ex-companheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cV\u00ednculo conjugal \u00e9 o principal tipo de elo entre v\u00edtima e agressor nos casos de feminic\u00eddios consumados no Brasil. A ruptura deste v\u00ednculo \u00e9, no entanto, o segundo principal tipo de elo\u201d, detalha Silvana.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA viol\u00eancia dom\u00e9stica, \u00e0 luz das teorias feministas, manifesta-se como uma express\u00e3o material da opress\u00e3o de g\u00eanero, atuando como mecanismo de controle e domina\u00e7\u00e3o que perpetua a submiss\u00e3o feminina. Esses dados evidenciam como a viol\u00eancia dom\u00e9stica se configura como um instrumento de reafirma\u00e7\u00e3o do patriarcado\u201d, enfatiza.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paran\u00e1 tem m\u00e9dia acima da nacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Todos os estados do pa\u00eds registraram casos de feminic\u00eddios em 2023, conforme mostra o Monitor de Feminic\u00eddios no Brasil (MFB). O Paran\u00e1 surge como o quarto em n\u00fameros absolutos, tendo registrado 127 casos, atr\u00e1s apenas de S\u00e3o Paulo (252), Minas Gerais (156) e Bahia (128).<\/p>\n\n\n\n<p>Considerando-se a taxa por cem mil mulheres, o Paran\u00e1 tamb\u00e9m registra m\u00e9dia acima da nacional (1,6), com 2,1 feminic\u00eddios consumados por cem mil mulheres. Os cinco estados com maiores taxas s\u00e3o: Mato Grosso do Sul (3,4); Acre (3,1); Mato Grosso (3,1); Rond\u00f4nia (3,1) e Roraima (3,1). Os cinco estados com as menores taxas s\u00e3o: Maranh\u00e3o (1,0); S\u00e3o Paulo (1,1); Rio de Janeiro (1,2); Cear\u00e1 (1,2) e Par\u00e1 (1,3).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Domingo: o dia mais temido<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dentre os 1.706 casos de feminic\u00eddios consumados identificados pelo Monitor de Feminic\u00eddios no Brasil (MFB), 297 aconteceram no domingo e 281 no s\u00e1bado. Muitos tamb\u00e9m foram registrados na madrugada de segunda-feira (275), ainda na esteira do fim de semana.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentre os 988 casos de feminic\u00eddios tentados, a ocorr\u00eancia maior aos domingos se repete: 225 ocorreram neste dia. S\u00e1bado segue como o segundo dia de maior ocorr\u00eancia, 153.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados confirmam outros divulgados por fontes diversas, como o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP): os fins de semana s\u00e3o de maior risco \u00e0 vida das mulheres, especialmente o dia de domingo. De acordo com Silvana Mariano, essa varia\u00e7\u00e3o ao longo da semana pode ser explicada por diferentes fatores.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNos fins de semana, h\u00e1 uma tend\u00eancia de mais participa\u00e7\u00f5es em atividades sociais, como festas e encontros, expondo as mulheres a situa\u00e7\u00f5es de maior vulnerabilidade, seja em locais p\u00fablicos ou privados, bem como sob influ\u00eancia de \u00e1lcool e drogas. O consumo de \u00e1lcool, ali\u00e1s, \u00e9 identificado como um fator de risco para viol\u00eancia dom\u00e9stica, com estudos indicando que homens que bebem frequentemente s\u00e3o mais propensos a agredir suas parceiras\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>A associa\u00e7\u00e3o entre consumo de \u00e1lcool e viol\u00eancia dom\u00e9stica, entretanto, deve ser tomada com cautela, dado o car\u00e1ter complexo, multidimensional e ulticausal da viol\u00eancia de g\u00eanero, defende Silvana.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEntre esses outros fatores, destaca-se a conviv\u00eancia familiar intensificada. Trata-se de uma din\u00e2mica dos v\u00ednculos sociais que colocam mulheres e meninas em conv\u00edvio mais intenso com seus agressores durante os dias considerados de descanso do trabalho pago. Esse fen\u00f4meno foi mais intensamente observado no Brasil durante per\u00edodos da pandemia de Covid-19\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fatores de maior risco<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os dados coletados pelo MFB do Lesfem indicam uma distribui\u00e7\u00e3o quase igualit\u00e1ria das v\u00edtimas de feminic\u00eddio quanto \u00e0 cor ou ra\u00e7a entre os grupos de mulheres negras (26,2%) e mulheres brancas (28%). Esta propor\u00e7\u00e3o apresenta discrep\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s estat\u00edsticas fornecidas por fontes da seguran\u00e7a p\u00fablica no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTal diverg\u00eancia sugere a possibilidade de um vi\u00e9s na cobertura da imprensa, tanto na escolha dos casos de feminic\u00eddio a serem reportados quanto na contextualiza\u00e7\u00e3o fornecida sobre as v\u00edtimas. Este poss\u00edvel vi\u00e9s pode distorcer a compreens\u00e3o p\u00fablica do problema, por isso, faz-se urgente uma cobertura da imprensa mais abrangente e detalhada, em que a humaniza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima se sobreponha ao interesse pelo crime\u201d, aponta Silvana Mariano.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 fato que todas as mulheres sofrem com a viol\u00eancia de g\u00eanero. Por\u00e9m, h\u00e1 quesitos que acentuam a vulnerabilidade \u00e0 viol\u00eancia feminicida, como o racial. Este \u00e9 um fato demonstrado em levantamentos nacionais como do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEssa informa\u00e7\u00e3o, contudo, \u00e9 de dif\u00edcil detec\u00e7\u00e3o nas fontes da imprensa. Mais de 44% dos casos n\u00e3o disp\u00f5em de informa\u00e7\u00e3o sobre cor\/ra\u00e7a da v\u00edtima\u201d, explica Silvana. Os dados do MFB do Lesfem tamb\u00e9m revelam uma camada adicional de invisibilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres ind\u00edgenas. Muitos dos casos de viol\u00eancia de g\u00eanero sofridas por essas mulheres acabam n\u00e3o noticiados ou encobertos por disputas e conflitos nos territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs desafios enfrentados para a reportagem desses casos pela imprensa s\u00e3o consider\u00e1veis, contribuindo para a sub-representa\u00e7\u00e3o dessas v\u00edtimas nas estat\u00edsticas\u201d, explica Silvana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Combate eficaz<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os dados apresentados pelo Monitor de Feminic\u00eddios no Brasil (MFB) refor\u00e7am a urg\u00eancia da implementa\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias embasadas em teorias feministas para combater a viol\u00eancia dom\u00e9stica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPol\u00edticas p\u00fablicas que n\u00e3o apenas protejam as mulheres, mas que tamb\u00e9m desestabilizem as estruturas patriarcais s\u00e3o imperativas\u201d, afirma a coordenadora do Lesfem.<\/p>\n\n\n\n<p>Para efetivamente combater a viol\u00eancia dom\u00e9stica, o Informe do Lesfem aponta ser imperativo: 1. Investir em pol\u00edticas p\u00fablicas fundamentadas em teorias feministas, que n\u00e3o apenas protejam as mulheres, mas tamb\u00e9m desmantelem as estruturas patriarcais.; 2. Promover uma educa\u00e7\u00e3o que desconstrua as normas de g\u00eanero, inspirando-se nas propostas de autoras como Judith Butler.; 3. Conscientizar a sociedade sobre as ra\u00edzes profundas da viol\u00eancia dom\u00e9stica e a import\u00e2ncia de uma abordagem interseccional, conforme proposto por Kimberl\u00e9 Crenshaw (1991), \u00e9 crucial para promover a compreens\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o efetiva contra esse problema social.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDiante dos desafios apresentados, este relat\u00f3rio sublinha a premente necessidade de uma a\u00e7\u00e3o coletiva e coordenada entre \u00f3rg\u00e3os governamentais, institui\u00e7\u00f5es de pesquisa e a sociedade civil para superar as lacunas de dados e compreens\u00e3o que ainda envolvem o feminic\u00eddio no Brasil. A urg\u00eancia de desenvolver uma base de dados mais robusta e detalhada n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o estat\u00edstica, mas um imperativo \u00e9tico que nos desafia a construir pol\u00edticas p\u00fablicas eficazes e responsivas \u00e0s realidades multifacetadas das mulheres brasileiras\u201d, finaliza Silvana.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Baixe o arquivo e leia na \u00edntegra <a href=\"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/monitor-brasil\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/monitor-brasil\/\">Clicando aqui <\/a><\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Monitor de Feminic\u00eddios do Brasil (MFB), mantido pelo Laborat\u00f3rio de Estudos de Feminic\u00eddios da UEL, registrou 1.706 casos consumados e outros 988 tentados no pa\u00eds; monitor utiliza not\u00edcias como fonte de dados No \u201cm\u00eas das mulheres\u201d, o Informe Feminic\u00eddios no Brasil 2023 nos lembra que ser mulher continua sendo um fator de risco no pa\u00eds. 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