{"id":1390,"date":"2023-11-27T09:23:38","date_gmt":"2023-11-27T12:23:38","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/?p=1390"},"modified":"2023-11-27T09:23:39","modified_gmt":"2023-11-27T12:23:39","slug":"por-que-compartilhar-imagens-de-violencia-domestica-gera-mais-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/por-que-compartilhar-imagens-de-violencia-domestica-gera-mais-violencia\/","title":{"rendered":"Por que compartilhar imagens de viol\u00eancia dom\u00e9stica gera mais viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Por Camilla Freitas &#8211; De Universa, em S\u00e3o Paulo 23\/11\/2023 04h05<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"450\" height=\"450\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-13.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1391\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-13.png 450w, https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-13-300x300.png 300w, https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-13-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Imagem: GettyImagens<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher \u00e9 agredida. Na internet, o caso gera repercuss\u00e3o, os jornais noticiam, nos aplicativos de mensagens, imagens do caso s\u00e3o compartilhadas. &#8220;\u00c9 como se a mulher sofresse uma segunda viol\u00eancia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A fala \u00e9 de Silvana Mariano, professora da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e integrante do Laborat\u00f3rio de Estudos de Feminic\u00eddios da universidade. Ela faz um monitoramento di\u00e1rio dos conte\u00fados midi\u00e1ticos de todo o pa\u00eds que noticiam casos de viol\u00eancia contra a mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>E h\u00e1 muito a ser noticiado. Segundo o \u00faltimo anu\u00e1rio do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, houve, em 2022, um aumento de todos os tipos de viol\u00eancia contra a mulher tendo em vista o \u00faltimo levantamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Os feminic\u00eddios cresceram 6,1% em 2022, resultando em 1.437 mulheres mortas. Enquanto as agress\u00f5es em contexto de viol\u00eancia dom\u00e9stica tiveram aumento de 2,9%, totalizando 245.713 casos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Mariano, compartilhar imagens desses casos, ao inv\u00e9s de ajudar as v\u00edtimas e evitar novos crimes, pode ser ainda mais prejudicial para o combate \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>No caso das mulheres sobreviventes, isso destr\u00f3i a vida delas, elas ficam acuadas e \u00e9 um sofrimento extra saber que h\u00e1 esse tipo de compartilhamento de suas imagens sem controle algum.<br>&#8211; Silvana Mariano, professora da UEL<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 clich\u00ea: viol\u00eancia gera mais viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"450\" height=\"450\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-14.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1392\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-14.png 450w, https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-14-300x300.png 300w, https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-14-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Imagem: Getty Images<\/p>\n\n\n\n<p><br>Noticiar um fato, no caso, um crime de viol\u00eancia contra a mulher, n\u00e3o \u00e9 ilegal por si s\u00f3. Quando imagens s\u00e3o compartilhadas com textos noticiosos sobre o caso, de acordo com a advogada Alice Bianchini, conselheira do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, isso n\u00e3o configura crime.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, para ela, a excessiva exposi\u00e7\u00e3o desse fato pode gerar ainda mais viol\u00eancia uma vez que causa uma naturaliza\u00e7\u00e3o desse tipo de situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um estudo da Universidade Federal do Cear\u00e1 mostra que mulheres que presenciaram viol\u00eancia do pai contra a m\u00e3e na inf\u00e2ncia t\u00eam mais risco de viver uma rela\u00e7\u00e3o semelhante no futuro. Al\u00e9m disso, homens que tamb\u00e9m presenciaram o mesmo tipo de viol\u00eancia tendem a se tornar agressores quando adultos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos mais gerais, a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia gera mais viol\u00eancia.<br>Alice Bianchini, advogada<\/p>\n\n\n\n<p>Na m\u00eddia tradicional, ou seja, dentro do jornalismo profissional, segundo as especialistas ouvidas, outro problema na veicula\u00e7\u00e3o de casos de viol\u00eancia contra a mulher \u00e9 o sensacionalismo e a abordagem machista que justifica a viol\u00eancia sofrida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 muito comum associar a viol\u00eancia da mulher como briga de casal e isso n\u00e3o \u00e9 briga de casal&#8221;, diz Mariano.<\/p>\n\n\n\n<p>Bianchini reitera esse pensamento quando afirma que o verdadeiro motivo para o crime n\u00e3o \u00e9 a briga, mas, sim, o sentimento de posse que o homem tem para com a mulher: &#8220;Existe uma forma preconceituosa de cobertura, por exemplo quando diz que a mulher estava saindo de uma festa, estava em um local de divers\u00e3o, como se culpasse a mulher pela viol\u00eancia sofrida. Na nossa sociedade, o homem ainda acha que o homem \u00e9 dono da mulher e, a partir disso, ele acredita que pode controlar e disciplinar essa mulher&#8221;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u00c9 importante a m\u00eddia falar que existe essa viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m tentar trazer o que pode ser feito para alterar esse cen\u00e1rio de viol\u00eancia porque, na m\u00eddia, o que a gente v\u00ea, no geral, \u00e9 a not\u00edcia por si s\u00f3 e muitas vezes focada apenas na mulher. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso que esses casos sejam veiculados, mas de um jeito que gere conscientiza\u00e7\u00e3o.<br>&#8211; Alice Bianchini, advogada<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 produzir conte\u00fados jornal\u00edsticos que n\u00e3o s\u00f3 busquem noticiar o fato, fazendo uso comedido (ou o n\u00e3o uso) das imagens do crime, mas que tamb\u00e9m abordem maneiras de preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Como o feminic\u00eddio est\u00e1 dentro de um tipo de estrutura social que \u00e9 de domina\u00e7\u00e3o e menosprezo \u00e0 mulher, ent\u00e3o a preven\u00e7\u00e3o come\u00e7a por uma vis\u00e3o de empoderamento e respeito \u00e0s mulheres&#8221;, explica Bianchini.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que esse tipo de reportagem n\u00e3o tem o mesmo apelo sensacionalista de voc\u00ea colocar no texto a imagem de uma mulher sendo espancada quase at\u00e9 a morte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Muni\u00e7\u00e3o para o extremismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dentro dos movimentos feministas, um termo bastante usado que aborda outro problema para o compartilhamento excessivo de imagens de viol\u00eancia contra a mulher \u00e9 pornografia da viol\u00eancia. <\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"450\" height=\"450\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-15.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1393\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-15.png 450w, https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-15-300x300.png 300w, https:\/\/sites.uel.br\/lesfem\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/image-15-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Imagem: Getty Images\/iStockphoto.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre outras coisas, trata-se do quanto a divulga\u00e7\u00e3o desse tipo de imagem pode munir grupos masculinos de \u00f3dio contra as mulheres. Para a advogada Alice Bianchini, isso acontece porque &#8220;naturaliza a viol\u00eancia e refor\u00e7a a ideia de que o corpo da mulher \u00e9 um objeto&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>As imagens mais divulgadas desses grupos n\u00e3o s\u00e3o de feminic\u00eddio e tentativa de feminic\u00eddio, mas, sim, de viol\u00eancia sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Em algumas subculturas online nocivas e mis\u00f3gino violentas, crimes de feminic\u00eddio s\u00f3 ganham repercuss\u00e3o quando a v\u00edtima \u00e9 famosa ou v\u00edtimas de atentados em massa&#8221;, diz Michele Prado, autora do livro &#8220;Red Pill &#8211; Radicaliza\u00e7\u00e3o e Extremismo em nome de Deus, dos Homens e da Liberdade&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que o intuito seja sensibilizar as pessoas para os casos, o compartilhamento dessas imagens, quando caem nesses grupos extremistas, \u00e9 usado como trof\u00e9u para colocar a mulher ainda mais em situa\u00e7\u00e3o degradante.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 comum v\u00ea-los utilizar essas imagens para fabrica\u00e7\u00e3o de memes e conte\u00fados de desumaniza\u00e7\u00e3o de mulheres&#8221;, explica Prado.<\/p>\n\n\n\n<p>Universa lan\u00e7ou em 2020 o &#8220;Manual Universa para Jornalistas: Boas Pr\u00e1ticas na Cobertura da Viol\u00eancia Contra a Mulher&#8221; que pode ser consultado clicando aqui. Nele s\u00e3o apresentadas diversas normas de conduta para a cobertura de crimes de g\u00eanero \u2014da conversa inicial com as v\u00edtimas \u00e0s melhores palavras e nomenclaturas adequadas a serem usadas no texto. Tamb\u00e9m h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es sobre legisla\u00e7\u00e3o, onde e como denunciar e sobre uma lista com diversas fontes especializadas no tema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Camilla Freitas &#8211; De Universa, em S\u00e3o Paulo 23\/11\/2023 04h05 Imagem: GettyImagens Uma mulher \u00e9 agredida. 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