{"id":970,"date":"2024-12-09T22:29:05","date_gmt":"2024-12-10T01:29:05","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=970"},"modified":"2024-12-12T13:54:15","modified_gmt":"2024-12-12T16:54:15","slug":"e-preciso-dar-um-jeito-meu-amigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/jornalismo\/2024\/12\/09\/e-preciso-dar-um-jeito-meu-amigo\/","title":{"rendered":"\u00c9 preciso dar um jeito, meu amigo"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/E-preciso-dar-um-jeito-meu-amigo-2-1024x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-975\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/E-preciso-dar-um-jeito-meu-amigo-2-1024x1024.png 1024w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/E-preciso-dar-um-jeito-meu-amigo-2-300x300.png 300w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/E-preciso-dar-um-jeito-meu-amigo-2-150x150.png 150w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/E-preciso-dar-um-jeito-meu-amigo-2-768x768.png 768w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/E-preciso-dar-um-jeito-meu-amigo-2.png 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>\u201cO fot\u00f3grafo reclamava: fiquem mais s\u00e9rios, mais tristes, mais infelizes. N\u00e3o conseguimos. Ou n\u00e3o quer\u00edamos. A irrever\u00eancia sempre nos inspirou. Observo a foto hoje e vejo nos olhos da minha m\u00e3e: quem voc\u00ea pensa que \u00e9 para nos fazer infelizes? Nos indignamos. N\u00e3o \u00e9 a imprensa que nos pauta, n\u00f3s pautamos a imprensa<\/strong>.&#8221; &#8211; <strong>Marcelo Rubens Paiva, no livro <em>Ainda Estou Aqui<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Por Manuela Domingues<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Assisti <em>Ainda Estou Aqui<\/em> na estreia, na primeira sess\u00e3o do dia oito de novembro, em Londrina, no Paran\u00e1. Do meio at\u00e9 depois do final do filme, chorei por mais de uma hora sem parar. Eu sabia que o filme seria doloroso, sei o que foi a ditadura, e muito embora n\u00e3o consiga imaginar a dor de uma fam\u00edlia ao perder o pai, imaginei que seria dilacerante ver aquilo. Mas foi diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Conversando com um amigo &#8211; t\u00e3o abalado quanto eu &#8211; na sa\u00edda do cinema, ele disse algo que me ajudou a compreender o que <em>Ainda Estou Aqui<\/em> causa exclusivamente em n\u00f3s brasileiros: <em>assistir aos horrores da ditadura nos faz sentir uma dor conterr\u00e2nea<\/em>, comentou meu amigo. Uma dor s\u00f3 nossa. A dor de um horror que aconteceu na nossa terra com as nossas pessoas. Uma dor que nos deixa com um sabor familiar na boca.<\/p>\n\n\n\n<p>No auge da ditadura militar, a casa da fam\u00edlia Paiva \u00e9 invadida. O ex-deputado Rubens, interpretado de forma apaixonante por Selton Mello, \u00e9 levado sem muitas explica\u00e7\u00f5es para prestar depoimento. A partir do sumi\u00e7o do pai da fam\u00edlia, todos os olhos s\u00e3o voltados para Eunice, esposa de Rubens. Em <em>Ainda Estou Aqui<\/em>, Fernanda Torres traz vida a Eunice Paiva com uma atua\u00e7\u00e3o dilacerante.<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista \u00e0 r\u00e1dio brit\u00e2nica FRED, Fernanda Torres conta que se lembrou do conselho da m\u00e3e, Fernanda Montenegro, para interpretar Eunice: <em>Na trag\u00e9dia, voc\u00ea n\u00e3o pode chorar<\/em>. A Eunice \u00e9 uma m\u00e3e que precisa dar um jeito, precisa achar respostas, precisa fazer com que os filhos continuem vivendo, precisa lutar. Ela n\u00e3o tem tempo de chorar. E no decorrer do filme vemos Eunice no limite, choramos por ela, sofremos por ela, desmontamos. Mas ela segue inteira. A pot\u00eancia de Eunice Paiva invade a sala de cinema por meio da interpreta\u00e7\u00e3o de Fernanda Torres. A atua\u00e7\u00e3o s\u00f3bria que traz vida a essa mulher nos faz entender a fala de Baby, amigo da fam\u00edlia, interpretado por Dan Stulbach, em dado momento do filme: <em>n\u00e3o tinha como a gente n\u00e3o fazer nada. <\/em>Chorar n\u00e3o iria adiantar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel falar de Eunice sem citar os oito minutos finais. Fernanda Montenegro, sem dizer uma palavra, toca a nossa alma quando seu olhar, at\u00e9 ent\u00e3o perdido, se encontra com a imagem de Rubens na televis\u00e3o. Ver Fernanda Montenegro atuar sempre ser\u00e1 uma experi\u00eancia divina.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ainda Estou Aqui<\/em> foi o filme nacional de maior bilheteria desde a pandemia. Mais de 2,5 milh\u00f5es de pessoas j\u00e1 foram aos cinemas conferir o novo longa de Walter Salles. Al\u00e9m disso, o filme tem movimentado as redes sociais e trouxe \u00e0 tona discuss\u00f5es sobre o Oscar. Os brasileiros invadiram o Instagram da Academia e quebraram um recorde de curtidas, fazendo a foto de Fernanda Torres ser a mais curtida do perfil da premia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista ao jornalista Rodrigo Ortega, do UOL, Fernanda Torres fala sobre o entusiasmo dos brasileiros na corrida pelo Oscar de forma magistral: <em>A gente \u00e9 isolado pela nossa l\u00edngua ao mesmo tempo a gente consome a nossa pr\u00f3pria cultura. A gente tem total interesse por n\u00f3s mesmos. [&#8230;] eu conhe\u00e7o a cultura francesa, eu conhe\u00e7o a cultura americana, eu conhe\u00e7o a cultura russa, a cultura alem\u00e3, a cultura italiana. Mas eles n\u00e3o conhecem a cultura brasileira, e as vezes eu tenho pena de quem nunca leu Machado de Assis [&#8230;] Ent\u00e3o, ao mesmo tempo que o Brasil tem esse complexo de vira-lata por causa dessa n\u00e3o comunica\u00e7\u00e3o com o mundo, o brasileiro tem pena do mundo n\u00e3o saber o que a gente sabe. [&#8230;] . <\/em>Temos pena dos gringos mesmo, Fernanda, gostar\u00edamos que eles conseguissem sentir o poder de <em>Ainda Estou Aqui<\/em> da mesma forma que n\u00f3s sentimos. Como disse a jornalista Isabela Boscov, em seu canal no youtube: <em>esse \u00e9 um filme que existe, antes de tudo, pra n\u00f3s.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a ditadura de 64, estudamos, ouvimos m\u00fasicas que foram censuradas, buscamos entender tudo o que aconteceu nessa \u00e9poca, mas o filme faz algo poderoso, que \u00e9 dar um rosto a esse per\u00edodo. N\u00e3o apenas o rosto de Rubens Paiva, mas a falta dele. O impacto que um desaparecimento, que sabemos que foi um assassinato, teve na vida de Eunice, Vera, Eliana, Nalu, Marcelo e Babiu. A falta de um pai, um esposo. N\u00f3s sentimos falta de Rubens, torcemos para ele voltar logo, mesmo sabendo que ele n\u00e3o volta mais. E quantas outras pessoas fazem falta at\u00e9 hoje? A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade levantou que 210 pessoas ainda est\u00e3o desaparecidas. Filhos, pais, namorados, amigos. O que \u00e9 esperado que quem ainda est\u00e1 aqui fa\u00e7a com a saudade de uma pessoa que n\u00e3o voltou?<\/p>\n\n\n\n<p>A ditadura militar esvaziou as salas, parou a dan\u00e7a, fechou as cortinas, transformou filhos em \u00f3rf\u00e3os, m\u00e3es e pais em vi\u00favos. Mas Eunice Paiva sorriu. Estudou, se formou, lutou por quem n\u00e3o podia mais lutar. N\u00e3o permitiu que os filhos ficassem infelizes, s\u00e9rios ou envergonhados. N\u00e3o permitiu que militares a pautassem. Ela se pautou. Fez o que aqueles que estavam no poder nunca poderiam fazer: gerou vida a partir da falta. Sorriu ao segurar o atestado de \u00f3bito de quem tanto amava, n\u00e3o permitiu que o vazio do desaparecimento fosse o destino de Rubens Paiva. \u00c9 como se Eunice falasse: <em>n\u00f3s sabemos o que voc\u00eas fizeram. E n\u00e3o aceitamos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><em>Ainda estou aqui<\/em> \u00e9 mem\u00f3ria. \u00c9 aquele lembrete para que a gente nunca se esque\u00e7a de horrores que jamais devem se repetir. Em uma \u00e9poca em que Bolsonaro, filho da ditadura, tenta emplacar novamente um golpe militar, a tela do cinema grita: Eunice Paiva resistiu. Rubens Paiva resistiu. E n\u00f3s, que ainda estamos aqui, vamos resistir. \u00c9 preciso dar um jeito, meus amigos. E n\u00f3s daremos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Manuela Domingues<\/strong>, estudante de Jornalismo da UEL, professora de reda\u00e7\u00e3o, participa do Laborat\u00f3rio de Estudos de Feminic\u00eddio e do Grupo Gabo de Pesquisa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO fot\u00f3grafo reclamava: fiquem mais s\u00e9rios, mais tristes, mais infelizes. N\u00e3o conseguimos. Ou n\u00e3o quer\u00edamos. A irrever\u00eancia sempre nos inspirou. Observo a foto hoje e vejo nos olhos da minha m\u00e3e: quem voc\u00ea pensa que \u00e9 para nos fazer infelizes? Nos indignamos. N\u00e3o \u00e9 a imprensa que nos pauta, n\u00f3s pautamos a imprensa.&#8221; &#8211; Marcelo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":976,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-970","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-jornalismo"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/970","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=970"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/970\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":979,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/970\/revisions\/979"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/976"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=970"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=970"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=970"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}