{"id":957,"date":"2024-11-01T19:00:58","date_gmt":"2024-11-01T22:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=957"},"modified":"2024-11-01T19:00:59","modified_gmt":"2024-11-01T22:00:59","slug":"a-vida-e-cruel-injusta-e-dramatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/jornalismo\/2024\/11\/01\/a-vida-e-cruel-injusta-e-dramatica\/","title":{"rendered":"A vida \u00e9 cruel, injusta e dram\u00e1tica"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/WhatsApp-Image-2024-11-01-at-17.59.12-1024x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-958\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/WhatsApp-Image-2024-11-01-at-17.59.12-1024x1024.jpeg 1024w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/WhatsApp-Image-2024-11-01-at-17.59.12-300x300.jpeg 300w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/WhatsApp-Image-2024-11-01-at-17.59.12-150x150.jpeg 150w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/WhatsApp-Image-2024-11-01-at-17.59.12-768x768.jpeg 768w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/WhatsApp-Image-2024-11-01-at-17.59.12.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>\u201cO leitor n\u00e3o deve imaginar que ao escritor compete apenas criar situa\u00e7\u00f5es e personagens como se fossem enigmas a serem decifrados pelo leitor. No caso de A hora da estrela, h\u00e1 um sentido claro e direto, sem mist\u00e9rios: a vida \u00e9 cruel, injusta e dram\u00e1tica para os exclu\u00eddos do progresso na metr\u00f3pole brasileira.\u201d &#8211; Paulo Gurgel Valente.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>por Nathalia Rosa<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu n\u00e3o inventei essa mo\u00e7a. Ela for\u00e7ou dentro de mim a sua exist\u00eancia. Ela n\u00e3o era nem de longe d\u00e9bil mental, era \u00e0 merc\u00ea e crente como uma idiota. A mo\u00e7a que pelo menos comida n\u00e3o mendigava, havia toda uma subclasse de gente mais perdida e com fome. S\u00f3 eu a amo.\u201d (Lispector, 1977, p\u00e1g 26)<\/p>\n\n\n\n<p>Assim declarou\u00a0 Rodrigo S. M. , o heter\u00f4nimo e narrador-personagem do \u00faltimo e mais popular romance de Clarice Lispector, <em>A<\/em> <em>Hora da Estrela.<\/em> Pouco antes de morrer, no ano de 1977, a escritora disse, em entrevista para a TV Cultura (YouTube <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=sVDNMMrk3lc&amp;t=23s\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Clarice Lispector fala sobre &#8220;A Hora da Estrela&#8221;<\/a>), que a novela \u00e9 \u201cUma hist\u00f3ria sobre uma mulher cuja inoc\u00eancia foi pisada. Hist\u00f3ria de uma mis\u00e9ria an\u00f4nima\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Macab\u00e9a \u00e9 uma alagoana de 19 anos, sem nenhuma beleza, que se mudou para o Rio de Janeiro ap\u00f3s a morte da tia que a criou. Para se sustentar trabalha como datil\u00f3grafa em um escrit\u00f3rio qualquer. No Rio vive uma vida miser\u00e1vel, recebe menos de um sal\u00e1rio m\u00ednimo, mora em uma pens\u00e3o. \u00c0s vezes mastiga papel para espantar a fome. Seu \u00fanico momento de felicidade \u00e9 quando escuta seu r\u00e1dio rel\u00f3gio e vislumbra outras realidades, que n\u00e3o fantasia alcan\u00e7ar. Por\u00e9m em nenhum momento se revolta com sua vida, pelo contr\u00e1rio, aceita as coisas como s\u00e3o, sem nunca questionar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA pessoa de quem vou falar \u00e9 t\u00e3o tola que \u00e0s vezes sorri para os outros na rua. Ningu\u00e9m lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham\u201d.&nbsp; (Lispector, 1977, p\u00e1g 13)<\/p>\n\n\n\n<p>Certo dia conhece Ol\u00edmpico, com quem come\u00e7a um relacionamento. Ele tamb\u00e9m \u00e9 nordestino e trabalha como oper\u00e1rio em uma metal\u00fargica, mas sonha em ser deputado. Diferente de Macab\u00e9a, Ol\u00edmpico de Jesus tem em si a mal\u00edcia da vida, \u00e9 um homem orgulhoso, que nunca admite estar errado, n\u00e3o se importa em ser desonesto ou at\u00e9 mesmo de tirar uma vida. Ol\u00edmpico por diversas vezes humilha Macab\u00e9a, que em sua ignor\u00e2ncia apenas aceita o que lhe \u00e9 oferecido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPois que vida \u00e9 assim: aperta-se o bot\u00e3o e a vida acende. S\u00f3 que ela n\u00e3o sabia qual era o bot\u00e3o de acender. Nem se dava conta de que vivia numa sociedade t\u00e9cnica onde ela era um parafuso dispens\u00e1vel\u201d. (Lispector, 1977, p\u00e1g 26)<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como a autora, o livro \u00e9 extremamente melanc\u00f3lico. Revela o pior lado da vida. <em>A Hora da Estrela <\/em>trata da injusti\u00e7a e da crueldade que sofrem os que s\u00e3o considerados in\u00fateis para a sociedade capitalista. Muitas vezes, em leituras anteriores, considerei Macab\u00e9a uma alienada, at\u00e9 que percebi que ela \u00e9 um retrato de milhares de brasileiros, que, assim como a protagonista, n\u00e3o t\u00eam perspectiva de futuro e sobrevivem em condi\u00e7\u00f5es insalubres. Enfim, \u00e9 um livro para se ler, reler, sentir e refletir. Uma obra que bem vale sua fama.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Nathalia Rosa <\/strong>\u00e9 estudante de Jornalismo na UEL. Membro do grupo Gabo de Pesquisa e do projeto Safety.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO leitor n\u00e3o deve imaginar que ao escritor compete apenas criar situa\u00e7\u00f5es e personagens como se fossem enigmas a serem decifrados pelo leitor. 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