{"id":619,"date":"2024-03-04T08:00:00","date_gmt":"2024-03-04T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=619"},"modified":"2024-02-29T18:36:01","modified_gmt":"2024-02-29T21:36:01","slug":"diario-de-macondo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/jornalismo\/2024\/03\/04\/diario-de-macondo\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio de Macondo"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"470\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/WhatsApp-Image-2024-02-29-at-17.35.31.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-618\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/WhatsApp-Image-2024-02-29-at-17.35.31.jpeg 720w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/WhatsApp-Image-2024-02-29-at-17.35.31-300x196.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Anota\u00e7\u00f5es da viagem \u00e0 Aracataca, com prop\u00f3sitos de identificar locais e ca\u00e7ar personagens do \u2018pueblito\u2019 de <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em>. No formato folhetinsta, circulou pelo Instagram durante a pandemia da COVID-19, em abril de 2020.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ci\u00e7a Guirado<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>I<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O sol quase se apaga no povoado. 3 de novembro de 2016. S\u00f3 deu tempo de passar em frente da Casa Museo Garc\u00eda M\u00e1rquez e dar uma volta na pra\u00e7a. A igreja, onde Gabo foi batizado, anuncia a missa das seis da tarde. De repente, misturado ao p\u00f3 cinzento, o c\u00e9u fica escuro. Nas ruelas abafadas de Aracataca n\u00e3o haver\u00e1 luz essa noite. Apenas salta aos olhos os far\u00f3is de alguns motocarros transitando na Rua dos Turcos. Vim num desses triciclos, que apanhei em Fundaci\u00f3n, por 20 reais. Um bate e volta ligeiro para saciar o desejo urgente de ver Macondo. A famosa aldeia de <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acordo cedo no hotel do povoado vizinho. Quero beber do cen\u00e1rio de <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em> com a luz do dia. A condu\u00e7\u00e3o coletiva, por 2 reais, rasga o verde de palmas africanas entre os dois \u201cpueblitos\u201d. De Fundaci\u00f3n a Aracataca s\u00e3o vinte minutos. Des\u00e7o uma quadra antes do local onde Gabo nasceu: a casa dos av\u00f3s. Casa real de Tranquilina Iguar\u00e1n e do Coronel Nicol\u00e1s Ricardo M\u00e1rquez Mej\u00eda. Entrada gr\u00e1tis. A guia come\u00e7a a falar, mas os sentidos atuam todos a uma s\u00f3 vez. Os personagens, vivificados pela releitura recente, transitam pelos c\u00f4modos. O \u00faltimo e triste Aureliano est\u00e1 fechado em seu quarto para desvendar os c\u00f3digos em s\u00e2nscrito deixados por Melqu\u00edades. No escrit\u00f3rio, o coronel Aureliano Buend\u00eda faz e refaz seus peixinhos de ouro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os tempos se misturam. Enquanto os animaizinhos de caramelo de \u00darsula est\u00e3o a secar na cozinha, o velho Buend\u00eda chora debaixo do castanheiro. Ali se arrasta pelo ch\u00e3o o \u00faltimo descendente, levado pelas formigas. Intacta, a varanda das beg\u00f4nias espera o entardecer nas grandes cadeiras de balan\u00e7o. Fernanda Del Caprio est\u00e1 saindo de cara feia, arrasta Meme at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o de trem. A Casa Museo Garc\u00eda M\u00e1rquez &nbsp;est\u00e1 repleta de borboletas amarelas. Rem\u00e9dios, a bela, j\u00e1 havia subido aos c\u00e9us, envolta em len\u00e7\u00f3is. No quartinho dos fundos, os velhos guajiros dormem em suas redes. Tudo est\u00e1 em seu lugar. A mesa posta. Camas arrumadas. Como se a casa esperasse a volta de todos os personagens. Para acalmar o fluxo das imagens, procuro um banco no quintal, mas o fantasma de Prudencio me assusta. Ainda vaga pelo p\u00e1tio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>IV<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ou\u00e7o a guia repetindo seu discurso para um grupo de turistas chineses. Milena Cifuentes, 31 anos, ainda n\u00e3o acabou de ler <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em>, apesar de trabalhar h\u00e1 um ano na casa cen\u00e1rio dessa hist\u00f3ria. Ela garante que <em>Viver para contar<\/em>, o livro de mem\u00f3rias de Gabo, tem todas as informa\u00e7\u00f5es que necessita. Das 1.500 pessoas que visitam a Casa Museo Garc\u00eda M\u00e1rquez por m\u00eas, a maioria pergunta at\u00e9 que idade Gabo viveu no local e se ele visitou Aracataca depois do pr\u00eamio Nobel de 1982. Na ponta da l\u00edngua, Milena responde: \u201cEle viveu aqui at\u00e9 os 8anos. Voltou em 1950 com a m\u00e3e para vender a casa. Em 2007 veio para a inaugura\u00e7\u00e3o. Desceu do trem amarelo na Esta\u00e7\u00e3o do povoado como nos velhos tempos. Mas n\u00e3o entrou na casa\u201d. Tinha medo dos fantasmas?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>V<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O vizinho da Casa Museo Garc\u00eda M\u00e1rquez, Juan Carlos Noches Ramos, 56 anos, filho de um amigo de inf\u00e2ncia de Gabo, mostra nas paredes da sala as fotos com o \u201ccataquero\u201d famoso. Ele conta que Garc\u00eda M\u00e1rquez \u201cn\u00e3o entrou na inaugura\u00e7\u00e3o, em 2007, porque teve medo de sofrer uma emo\u00e7\u00e3o muito forte. Pouca gente sabe, mas ele vinha de vez em quando a Cataca (Aracataca para os \u00edntimos). Garc\u00eda M\u00e1rquez gostava de comer sancocho trif\u00e1sico [sopa colombiana, a base de mandioca e milho, com carne de frango, de boi e de porco]. Vinha \u00e0s escondidas, porque queria estar com os amigos\u201d. Juan Carlos aponta para a janela, na casa ao lado, de onde Eligio Garc\u00eda, o telegrafista cortejava Luiza Santiaga, a filha do coronel Nicol\u00e1s, m\u00e3e de Gabito. \u201cEla atravessava a rua para segurar na m\u00e3o dele, por entre as frestas largas, sem dar nas vistas dos pais, que n\u00e3o consentiam o namoro\u201d, sussurra o vizinho, como se o Coronel M\u00e1rquez pudesse ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>VI<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O im\u00f3vel onde nasceu Gabo foi carcomido pelo abandono. Reconstru\u00edda em detalhes ver\u00eddicos, com o aval do Nobel, a Casa Museo Garc\u00eda M\u00e1rquez \u00e9 mantida pelo Minist\u00e9rio da Cultura e administrada pela Universidad del Magadalena, de Santa Marta. Na esquina h\u00e1 um restaurante com dizeres de Gabo na fachada. Almo\u00e7o mojarra frita com arroz de coco e patacones. [Mojarra \u00e9 um peixe de rio, vermelho e saboroso. Patacones s\u00e3o peda\u00e7os de banana verde, amassados e fritos.] Dif\u00edcil n\u00e3o sentir sono depois dessa comilan\u00e7a. Restaurante sem cerveja. A senhorinha explica: \u201cSomos cristianos\u201d. Calor de 40 graus. Na mesa ao lado, um jovem casal ind\u00edgena almo\u00e7a com a filha. Ind\u00edgenas Kogis de Sierra Nevada. Belezas esculturais de corpos morenos e gestos delicados. Cabelos lisos e negros, em contraste com o branco das roupas. N\u00e3o se deixam fotografar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>VII<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Caminho at\u00e9 a pra\u00e7a. Sol de quase 40 graus. As sombras j\u00e1 tinham donos. N\u00e3o h\u00e1 para onde fugir no abafamento das tardes. Poss\u00edveis apenas depois das 16 horas. Vejo, meio esfuma\u00e7ado ao longe, algu\u00e9m entrar no Correio. Corro pra l\u00e1. Bato na porta. A funcion\u00e1ria avisa: \u201cS\u00f3 abre \u00e0s 14 horas\u201d. Ainda s\u00e3o 13hs. Caridosa, ela permite que eu aguarde no frescor do ar condicionado. Nessa espera descubro que posso bisbilhotar, pelo p\u00e1tio cont\u00edguo, a Casa do Telegrafista. Espio pela janela uma exposi\u00e7\u00e3o de selos de Gabo, uma sala com livros de Gabo. 14hs. Entro e vejo um jarro com flores frescas e amarelas, em homenagem ao Nobel. Pergunto para a coordenadora do espa\u00e7o Darlis C\u00e1ceres:&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Onde est\u00e1 o telegrafista, pai de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>VIII<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs pessoas identificam a Casa do Telegrafista como uma refer\u00eancia ao pai de Gabo. Acredito que n\u00e3o preservaram nada do telegrafista Gabriel Eligio, porque desde sempre houve muita relut\u00e2ncia em aceit\u00e1-lo em Aracataca. O coronel Nicol\u00e1s e a esposa Tranquilina (av\u00f3s de Gabito) n\u00e3o faziam gosto no casamento. O telegrafista era muito mulherengo. Seduzia todas as mo\u00e7as do povoado. Quando pediu a m\u00e3o de Luiza, m\u00e3e de Gabito, deu apenas 24 horas para ela responder. Esse sentimento de rep\u00fadio ao pai de Garc\u00eda M\u00e1rquez ainda sobrevive por aqui\u201d, comenta Darlis, respons\u00e1vel h\u00e1 7 anos pelo espa\u00e7o. De fato, n\u00e3o h\u00e1 imagens de Eligio Garc\u00eda expostas aos turistas. Mas ele \u00e9 o personagem principal do romance <em>O amor nos tempos do c\u00f3lera.<\/em> Hist\u00f3ria de amor baseada na vida real dos pais de Garc\u00eda M\u00e1rquez.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>IX<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De motocarro, volto mais cedo para Fundaci\u00f3n. \u00c0s 18hs entrevista com o historiador e professor Venancio Aram\u00eds Berm\u00fadez Guti\u00e9rrez. H\u00e1 40 anos ele estuda a regi\u00e3o. Escreveu <em>Migrantes y blacamantes em la zona bananera del magdalena<\/em><em>. <\/em>\u201cO grande atraso da regi\u00e3o deve-se aos herdeiros das \u2018rochelas\u2019. No in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o, povos origin\u00e1rios, negros e brancos foram para os montes, em cabanas com 10 ou 15 pessoas. Viviam acasalados entre pessoas da mesma fam\u00edlia. Assim foram gerados muitos \u2018corronchos\u2019, os caipiras da costa\u201d, explica. Esse modo incestuoso de viver gerava pessoas com muitos tipos de defici\u00eancias. Da\u00ed o grande medo de nascerem beb\u00eas com rabo de porco. Ele garante: \u201cTudo que Gabo escreveu \u00e9 verdadeiro. Garc\u00eda M\u00e1rquez n\u00e3o inventou nada. Ele s\u00f3 ampliou as hist\u00f3rias. Fantasiou um pouco e adaptou aos personagens. <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em> trata dos incestos que marcaram a regi\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>X<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dia seguinte. O guia tur\u00edstico Rodolfo Manuel Rodriguez Cassares, 29 anos, recorda as hist\u00f3rias de Macondo. Caminhando pelas ruas calorentas ele fala da inf\u00e2ncia de Gabriel na Escola Montessori. Conta que sua av\u00f3, Maria Magdalena Bola\u00f1o Soares, foi bab\u00e1 de Gabito. Mostra o t\u00famulo ver\u00eddico do irreal Melqu\u00edades, constru\u00eddo pelo holand\u00eas Tim Buendia: \u201cTim viveu em Aracataca at\u00e9 2015. Ele se sentia da fam\u00edlia macondiana. Se rebatizou como Buend\u00eda. Montou uma pousada, que agora se chama Casa Morelli. Mas, depois que se casou voltou para a sua terra\u201d, conta Rodolfo. Passeamos pela Rua dos Turcos. Observo de perto o edif\u00edcio do Teatro e Cinema Ol\u00edmpia, onde Garc\u00eda M\u00e1rquez, pelas m\u00e3os do av\u00f4, viu as primeiras imagens em movimento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>XI<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e1bado. Visita a um \u201cgab\u00f3logo\u201d de Macondo. O professor Frank Domingues, 48 anos, d\u00e1 entrevista embaixo de uma \u00e1rvore, em frente de sua casa. Ele desenvolve o Projeto de Leitura Garc\u00eda M\u00e1rquez, na escola que leva o nome do Nobel. \u201cO projeto, que come\u00e7ou em Aracataca, agora abrange outras cidades da regi\u00e3o: Barranquilla, Santa Marta, Ci\u00e9naga, Fundaci\u00f3n, Retem e Cartagena. O governo financia a compra de obras liter\u00e1rias e de computadores para as escolas. Isso impulsiona o aprendizado das crian\u00e7as em muitas mat\u00e9rias\u201d, diz Frank. Estudioso de <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em>, ele comenta a rela\u00e7\u00e3o dos personagens, os costumes da costa caribenha, a pobreza decorrente da explora\u00e7\u00e3o estrangeira. Sobre o estado de car\u00eancias do munic\u00edpio h\u00e1 mais de 100 anos, ele prefere citar \u00darsula: \u201cAqui havemos de apodrecer sem receber a ajuda da ci\u00eancia\u201d.Ao se despedir, o professor profetiza: \u201cN\u00e3o se esque\u00e7a que o intertexto principal de <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em> \u00e9 a B\u00edblia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>XII<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quase meio dia. Quase 40 graus. P\u00e9treos ovos pr\u00e9-hist\u00f3ricos do rio Aracataca se espalham pelo povoado desde a funda\u00e7\u00e3o de Macondo. N\u00e3o corre uma \u00fanica brisa. Sensa\u00e7\u00e3o de realismo m\u00e1gico: os ovos explodem e criaturas jur\u00e1ssicas desfilam pelo povoado. Um o\u00e1sis surge: enorme e luxuoso, destoando do discurso dos Buend\u00eda. \u00c9 o maior bar de sinuca das redondezas, com mesas importadas, piso de porcelanato, paredes de vidro e ar condicionado. Aproveito a companhia do guia Rodolfo para entrar no recinto consagrado aos machos. Das grandes TVs de plasma ecoa um \u201cvallenato<em>\u201d <\/em>antigo de \u201cLos Hermanos Zuletas\u201d. Em p\u00e9 est\u00e1 Jos\u00e9 Carlos Solano, jogando com Jony Celeron.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Voc\u00eas leram <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em>? pergunto aos jogadores.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u201cLi na escola, n\u00e3o lembro direito. Gosto mesmo \u00e9 de jogar bilhar\u201d, responde com desd\u00e9m Jos\u00e9 Carlos, 25 anos. O outro n\u00e3o tirou o olho do taco.<\/p>\n\n\n\n<p>A velha casa de bilhar, ainda coberta com teto de zinco, \u00e9 para os \u201ccataqueros\u201d mais pobres, que ainda s\u00e3o maioria em Aracataca.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>XIII<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Outro dia. Restaurante P\u00e1tio M\u00e1gico de Gabo e Leo Mat\u00eds. Homenagem aos dois famosos da terrinha (Mat\u00eds, foi fot\u00f3grafo de sucesso mundial e amigo de Garc\u00eda M\u00e1rquez). Este \u00e9 o espa\u00e7o mais agrad\u00e1vel para desfrutar da comida t\u00edpica. Refei\u00e7\u00f5es regadas \u00e0 anedotas \u201ccataqueras\u201d, servidas pelos donos na varanda dos fundos. Uma m\u00e9dia de 15 reais por pessoa, incluindo \u201c\u00e1gua de panela\u201d [mistura de \u00e1gua, lim\u00e3o, rapadura e gelo] refresco t\u00edpico do Caribe colombiano. O pre\u00e7o \u00e9 bom para turistas, mas impratic\u00e1vel para os macondianos que preferem uma refei\u00e7\u00e3o da Rua dos Turcos: 3 reais o prato executivo, \u00e0 base de inhame, mandioca, patacones e um peda\u00e7o de carne.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>XIV<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para fazer a digest\u00e3o, passeio com o guia Rodolfo at\u00e9 o portal na entrada do povoado. L\u00e1 est\u00e1 o recente painel, onde Gabo agradece sua Macondo:\u201cMe siento latino-americano de cualquier pa\u00eds, pero sin renunciar nunca a la nostalgia de mi tierra: Aracataca, a la cual regres\u00e9 um d\u00eda y descubr\u00ed que entre la realidade y la nostalgia estaba la mat\u00e9ria prima de mi obra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguimos at\u00e9 o Camellon 20 de Julio, restaurado em 2016, com 50 % da obra patrocinada pelos mexicanos. O projeto faz homenagem a fant\u00e1stica cidade de Comala, do romance <em>Pedro Paramo<\/em>, de Juan Rulfo. \u201cO M\u00e9xico fez a primeira parte da reforma do Camellon, mas os colombianos n\u00e3o terminaram a constru\u00e7\u00e3o como prevista. As autoridades alegaram que n\u00e3o era poss\u00edvel colocar uma fonte de \u00e1gua\u201d, lastima Rodolfo. \u00c9 verdade. Falta \u00e1gua e luz o tempo todo em Aracataca.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>XV<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c1gua. Beber \u00e9 preciso. Caminhada r\u00e1pida at\u00e9 o novo supermercado. O ar condicionado regela at\u00e9 os ossos. Recupera\u00e7\u00e3o da imagem: o Coronel Aureliano Buend\u00eda, ainda menino, sendo levado pelo av\u00f4 para conhecer o gelo. Gelo em Macondo ainda \u00e9 sin\u00f4nimo de progresso. Os moradores, escarrapachados nas cadeiras em frente \u00e0s suas casas, esperam o anoitecer e a brisa novembrina&#8230; Esperam tamb\u00e9m a ativa\u00e7\u00e3o da \u201cRota do Realismo M\u00e1gico\u201d, que ligar\u00e1 Macondo \u00e0 elegante cidade Santa Marta, capital do Estado da Magdalena.<\/p>\n\n\n\n<p>O trem agora leva apenas o carv\u00e3o produzido pelas minas das redondezas. Ao lado da esta\u00e7\u00e3o, uma homenagem \u00e0 Rem\u00e9dios, a bela, que sobe aos c\u00e9us envolta em lenc\u00f3is nas p\u00e1ginas de <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em>. Na verdade, neste exato local, uma mo\u00e7a de Aracataca, em remotos tempos, fugiu com um homem casado. A fam\u00edlia soltou o boato que ela subiu aos c\u00e9us, feito santa. Pode?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>XVI<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Passei essa tarde conversando com Robson Mulford, 62 anos, presidente da Funda\u00e7\u00e3o Realismo M\u00e1gico. A associa\u00e7\u00e3o, formada por moradores de Aracataca pretende \u201cpassar um certo orgulho aos alunos por pertencerem \u00e0 terra natal do Nobel. Ainda h\u00e1 muito ressentimento na popula\u00e7\u00e3o, sabe? Gabo nunca investiu em obras para os seus conterr\u00e2neos\u201d, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas ruas de Macondo correm boatos que Gabo doou muito dinheiro para as guerrilhas de esquerda da Venezuela, que ajudou Cuba e nunca deu nada ao seu povoado. Em 1983, quando Garc\u00eda M\u00e1rquez passou por Aracataca explicou a Robson: \u201cconstruir institui\u00e7\u00e3o de ensino \u00e9 papel do Governo\u201d. Ele tinha raz\u00e3o. \u201cO Pr\u00eamio Nobel que Gabo deu a Aracataca \u00e9 muito maior que qualquer col\u00e9gio ou escultura em pra\u00e7a p\u00fablica\u201d, diz Robson Mulford, que se orgulha da foto com Garc\u00eda M\u00e1rquez em sua sala de visita.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>XVII<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u00daltimo dia em Macondo. Resolvo pernoitar na Casa Morelli, que conserva o diagrama das gera\u00e7\u00f5es de <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em> nas paredes da sala. O mapa geneal\u00f3gico para compreender o fant\u00e1stico romance da Am\u00e9rica Latina foi deixado por Tim Buend\u00eda. O holand\u00eas que montou a pousada. O mesmo que construiu a tumba de Melqu\u00edades. Nesta noite n\u00e3o havia nada especial no lugarejo. Macondo seguia tranquila com suas ruas quentes e pouco iluminadas. N\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua. Me atiro na cama e ligo o ar condicionado para relaxar. A \u00e1gua vir\u00e1 mais tarde. Enquanto penso no significado de realismo m\u00e1gico, ou\u00e7o a propaganda do Circo Trotamundos do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>XVIII<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De repente, um bord\u00e3o descostura o sil\u00eancio de Macondo: \u201cO fant\u00e1stico Circo Trotamundos do Brasil. Hoje com duas sess\u00f5es. \u00c0s 20hs e \u00e0s 21hs. 3 mil pesos para uma pessoa e 5 mil pesos para duas\u201d. Circo do Brasil? Saio r\u00e1pido para pegar a primeira sess\u00e3o. A pouca luz impede de conjecturar sobre a brasilidade circense. Questiono a mulher que recebe o dinheiro, em frente \u00e0 encardida abertura da lona, com acesso ao picadeiro: \u201cVoc\u00eas s\u00e3o mesmo do Brasil?\u201d, pergunto desconfiada. \u201cNo\u201d, ela responde. E com uma voz triste, acrescenta: \u201cSolo una trampa para llamar personas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sete adultos e oito crian\u00e7as nas arquibancadas. O mestre de cerim\u00f4nias, manipula uma mesa antiga de som e luz e avisa ao respeit\u00e1vel p\u00fablico que o malabarista caiu do trap\u00e9zio. Um magricela homem aranha surge pendurado na teia de cordas. Um domador usa uma cadela faminta para passar pelos arcos em chamas. Nem o humor ing\u00eanuo dos palha\u00e7os disfar\u00e7a a mis\u00e9ria do circo. Um dos lados da arquibancada totalmente vazio. O palha\u00e7o ergue a voz:&nbsp; \u201cAgora as palmas dessas almas que est\u00e3o desse lado, porque os corpos n\u00e3o vieram\u201d. E o outro completa: \u201c\u00c9 o realismo m\u00e1gico da Col\u00f4mbia. Palmas para o realismo m\u00e1gico<strong>\u201d.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>XIX<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O pobre circo faz seu \u00faltimo espet\u00e1culo e parte para Riohacha, capital da Guajira. De l\u00e1 vieram os av\u00f3s do escritor Nobel. Macondo desfrutava naquele \u201centonces\u201d das riquezas da United Fruit Company. Em Aracataca havia cinema, teatro e comunica\u00e7\u00e3o r\u00e1pida pela ferrovia. Mas a matan\u00e7a dos trabalhadores bananeiros, que faziam greve por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho daria outro rumo para este lugarejo do Caribe. O epis\u00f3dio real de 1928 &#8211; ficcionado em <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em> foi ordenado pela empresa norte-americana, com a ajuda do ex\u00e9rcito colombiano. No livro de Gabo, tr\u00eas mil pessoas morreram no \u201cmassacre das bananeiras\u201d. Ningu\u00e9m sabe ao certo o n\u00famero de mortos. O realismo m\u00e1gico n\u00e3o deu conta de disfar\u00e7ar essa realidade, que continua na mem\u00f3ria dos moradores e na Casa Museo Garc\u00eda M\u00e1rquez, em Aracataca: a Macondo da Am\u00e9rica Latina, sentida e amada por mais de 50 milh\u00f5es de leitores espalhados pelo planeta.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Ci\u00e7a Guirado<\/strong> \u00e9 jornalista, mestre em Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica (PUC-SP), doutora em Hist\u00f3ria da Comunica\u00e7\u00e3o (Universidade Nova de Lisboa) e P\u00f3s-doc em Jornalismo (UFSC). Professora do Departamento de Comunica\u00e7\u00e3o da UEL, coordena, desde 2012, o Projeto Gabo de Pesquisa. Diretora e editora da Revista Jornalismo &amp; Fic\u00e7\u00e3o: Am\u00e9rica Latina e Caribe. E-mail:\u00a0ceciliaguirado@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anota\u00e7\u00f5es da viagem \u00e0 Aracataca, com prop\u00f3sitos de identificar locais e ca\u00e7ar personagens do \u2018pueblito\u2019 de Cem anos de solid\u00e3o. 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