{"id":569,"date":"2024-02-09T16:44:33","date_gmt":"2024-02-09T19:44:33","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=569"},"modified":"2024-02-29T17:43:33","modified_gmt":"2024-02-29T20:43:33","slug":"eu-so-queria-estudar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/jornalismo\/2024\/02\/09\/eu-so-queria-estudar\/","title":{"rendered":"\u201cEu s\u00f3 queria estudar&#8230;\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"512\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/imagem03.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-571\" style=\"width:776px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/imagem03.jpeg 960w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/imagem03-300x160.jpeg 300w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/imagem03-768x410.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Inspirada no conto &#8220;S\u00f3 vim telefonar&#8221;, de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, a cr\u00f4nica&nbsp;retrata a hist\u00f3ria de uma jovem que se v\u00ea for\u00e7ada a abandonar seus objetivos acad\u00eamicos para fugir de um ex-namorado agressivo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Luiz Fernando Abreu<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Carlos se encontrou com a entrevistada em um dos bancos do lago Igap\u00f3. Pensou que o local aberto e com fluxo constante de pessoas tornaria a entrevista menos pesada. Cumprimentou a jovem com um aperto de m\u00e3o breve e ouviu o relato de como ela abriu m\u00e3o de um sonho por medo do que poderia acontecer se continuasse no mesmo ambiente que seu ex-namorado.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria entre ela e o agressor come\u00e7ou como qualquer outra. Dois estudantes que se conheceram em uma festa de universit\u00e1rios da UEL e passaram rapidamente a trocar mensagens que se transformaram em flertes, encontros e em namoro. Ela fez quest\u00e3o de deixar claro que nada no relacionamento a fez perceber o que estava por vir.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, ela s\u00f3 descobriu o problema quando foi at\u00e9 o banheiro da universidade em um dia qualquer e leu os v\u00e1rios rabiscos nas paredes. Alguns eram apenas assinaturas e brincadeiras, por\u00e9m um que estava ao lado da ma\u00e7aneta chamou sua aten\u00e7\u00e3o. O nome, sobrenome e curso do seu namorado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMeninas, n\u00e3o saiam com ele\u201d, dizia o recado pr\u00f3ximo ao nome.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEle tem o costume de bater em mulheres. Tomem cuidado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Embaixo, os relatos continuavam. Algumas estudantes prestaram mensagens de solidariedade, por\u00e9m, al\u00e9m da primeira frase que iniciou a den\u00fancia, outras duas tamb\u00e9m se destacaram:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAmea\u00e7ou me matar quando eu estava na casa dele\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA pol\u00edcia n\u00e3o faz nada porque ele \u00e9 riquinho e ningu\u00e9m consegue provar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo chorando, se recusou a acreditar. Lavou o rosto encharcado e voltou para a aula como se nada tivesse acontecido. No dia seguinte, adiantaram um encontro que eles haviam marcado para o final de semana e foram ao apartamento dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando confrontado, o rapaz seguiu a \u201creceita de bolo\u201d de um manipulador. Negou, disse que eram ex-namoradas malucas, colocou a culpa nelas, tentou justificar inventando hist\u00f3rias, criando narrativas incoerentes, por\u00e9m a maneira agressiva do discurso s\u00f3 refor\u00e7ava para a jovem que as den\u00fancias na parede eram verdadeiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando ela disse que queria terminar, ele passou a gritar com ela e dizer que ningu\u00e9m iria toler\u00e1-la al\u00e9m dele. Ao tentar sair do apartamento ele a segurou com for\u00e7a pelos ombros e a jogou no ch\u00e3o, dizendo que ela ficaria ali at\u00e9 que ele terminasse o que tinha para dizer. Ela ficou horas sem poder se levantar, inclusive sob amea\u00e7as de morte. Somente quando mentiu dizendo que \u201ciria pensar na rela\u00e7\u00e3o deles\u201d, o rapaz finalmente a liberou. Mas n\u00e3o havia mais nada a ser pensado.<\/p>\n\n\n\n<p>Terminou com ele por mensagem e disse que n\u00e3o queria v\u00ea-lo nunca mais. O que seria imposs\u00edvel, pois ambos estudavam na mesma sala. Tentou mudar de turno, mas estudava de manh\u00e3 e teria que encontrar um emprego no per\u00edodo da tarde e noite, o que depois se provou extremamente dif\u00edcil. N\u00e3o tinha tanta experi\u00eancia profissional. Registrou um boletim de ocorr\u00eancia na Delegacia e ouviu que o caso seria investigado, por\u00e9m nada aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada, al\u00e9m dos constantes avan\u00e7os do ex-namorado, que insistia em reatar o relacionamento, prometendo que iria mudar. Quando se cansou das promessas, ele passou a espalhar para o seu grupo de amigos que a jovem havia ficado louca, inventando uma hist\u00f3ria de que na verdade ele havia terminado com ela, pois al\u00e9m de gastar todo o seu dinheiro, ela o havia tra\u00eddo. Fazia isso de forma que convencia qualquer um que escutasse suas palavras.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele queria destru\u00ed-la, come\u00e7ando por seu emocional. Passou a segui-la de longe quando ela voltava para casa. \u201cE a UEL \u00e9 escura demais de noite para quem est\u00e1 andando a p\u00e9\u201d, explicou a jovem. \u201cJ\u00e1 morria de medo quando podia ver ele de longe, imagina quando n\u00e3o podia v\u00ea-lo em lugar nenhum. Imaginava que ele ia aparecer atr\u00e1s de mim a qualquer momento\u201d. Conseguiu suportar por muito tempo. Sem amigos, sem algu\u00e9m que realmente pudesse ajud\u00e1-la. Enquanto a entrevistada estava passando por isso, outro caso chocou a comunidade universit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois estudantes foram esfaqueados e mortos, em casa, por um <em>stalker<\/em>. O agressor tamb\u00e9m feriu uma outra aluna da institui\u00e7\u00e3o, pela qual o assassino tinha fixa\u00e7\u00e3o, sem nunca ter existido relacionamento entre os dois.<\/p>\n\n\n\n<p>A entrevistada n\u00e3o chorou durante toda a conversa com Carlos, mas entrou em prantos ao relatar: \u201cMe enxerguei na estudante assassinada\u201d. Explicou que para fugir dessa possibilidade, decidiu trancar o curso e mudar de apartamento. Excluiu as redes sociais e qualquer vest\u00edgio que pudesse a ligar ao agressor.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, essa era a parte que mais do\u00eda, a sensa\u00e7\u00e3o de impunidade. Tinha que recome\u00e7ar tudo ao mesmo passo que o agressor seguiria sua vida normalmente. \u201cS\u00f3 queria estudar e viver em paz\u201d. Esse terr\u00edvel acontecimento impediu a universit\u00e1ria de participar da formatura com a sua turma.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Luiz Fernando Abreu<\/strong> \u00e9 rep\u00f3rter do portal de not\u00edcias OBemdito, estudante de Jornalismo e editor do Grupo Gabo de Pesquisa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inspirada no conto &#8220;S\u00f3 vim telefonar, de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, a cr\u00f4nica\u00a0retrata a hist\u00f3ria de uma jovem que se v\u00ea for\u00e7ada a abandonar seus objetivos acad\u00eamicos para fugir de um ex-namorado agressivo.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":571,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-569","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-jornalismo"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/569","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=569"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/569\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":613,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/569\/revisions\/613"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/571"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=569"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=569"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=569"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}