{"id":213,"date":"2023-11-22T09:26:43","date_gmt":"2023-11-22T12:26:43","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=213"},"modified":"2023-11-29T19:19:26","modified_gmt":"2023-11-29T22:19:26","slug":"balas-passionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/literatura\/2023\/11\/22\/balas-passionais\/","title":{"rendered":"Balas passionais"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"224\" height=\"300\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/pasted-image-0-16-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-272\" style=\"width:550px;height:auto\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Ao trabalhar como estagi\u00e1rio no Portal Bonde e no jornal Folha de Londrina, Bruno Souza teve a oportunidade de cobrir um assassinato que ultrapassa a realidade cotidiana. Uma mulher foi morta com um tiro na cabe\u00e7a, disparado pelo seu ex-marido, enquanto prestava servi\u00e7os \u00e0 Par\u00f3quia S\u00e3o Luiz Gonzaga, em Londrina, no dia 05\/04\/2022. O rep\u00f3rter produziu um conto de realismo m\u00e1gico.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Estourou-lhe os miolos. Sentia seu sangue jorrando pelo enorme orif\u00edcio que havia em sua cabe\u00e7a. Prostrada \u00e0 porta da igreja, assistia ao seu ex-amor, alimentado pelo prazer de v\u00ea-la em tal situa\u00e7\u00e3o, fugindo, pulando os muros enlodados da igreja onde trabalhava.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao anoitecer sua vis\u00e3o com um cansativo piscar de olhos, viu o caminho que tra\u00e7ara para chegar at\u00e9 ali. Desperta desde as 7h, varreu a sua casa, levou os filhos \u00e0 escola, despediu-se. No caminho de volta, roubou uma fruta da \u00e1rvore de sua vizinha, foi pega, desculpou-se em tom de ironia. Entrou em casa, abriu o celular. Mensagem do ex-amor, um poema para lhe \u201cencantar\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p><br>\u201cNossa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 como um saboroso p\u00e3o,<br>Daqueles que n\u00e3o perco uma migalha no ch\u00e3o,<br>Daqueles que n\u00e3o sobra um farelo pro c\u00e3o,<br>Daqueles que sinto prazer em ter na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Ter-te em minhas m\u00e3os n\u00e3o foi poss\u00edvel.<br>Vi que me apaixonei por uma mulher de outro n\u00edvel.<br>Mulher que n\u00e3o se deixa mandar,<br>Mas que, para estar comigo,<br>Na linha ter\u00e1 que andar.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Tu me conhecestes assim.<br>Queres falar de amor para mim?<br>Eu que te ensinei a amar!<br>O melhor que fazes \u00e9 a cabe\u00e7a abaixar!<\/p>\n\n\n\n<p><br>Tudo bem, tu n\u00e3o me queres mais.<br>Pode ir, viver sem mim tu n\u00e3o vais\u2026<br>Dou-te cinco horas para voltar,<br>Ou com balas passionais irei te buscar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Fechou a tela. Estava decidida a deixar a rela\u00e7\u00e3o t\u00f3xica. Para esquecer dos problemas, resolveu dormir. Perdeu o hor\u00e1rio do almo\u00e7o, n\u00e3o dava mais tempo de comer. Apressou-se para ir ao trabalho. Chegou \u00e0 par\u00f3quia. Era devota, limpava tudo com o maior zelo. Em sua pausa, n\u00e3o acreditava no que via: o seu poeta perseguidor invadia a cozinha. Correu. Acordou do pequeno transe. N\u00e3o sentia mais seu corpo. As moscas j\u00e1 pousavam sobre seu sangue fermentado no ch\u00e3o. Estava cansada, sentia-se tentada a dormir, mas sabia que, caso o fizesse, seria pela eternidade.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Piscou. Voltando \u00e0 escurid\u00e3o de sua mente, viu o dia em que conhecera sua desgra\u00e7a. Era o amor da sua juventude. Um rapazote m\u00e1sculo, de corpo definido, pernas torneadas e l\u00e1bia desproporcional a qualquer outro que j\u00e1 conhecera. Ela, no auge da beleza, encantou-o na mesma intensidade. Apaixonou-se. N\u00e3o tinha mais volta. Seu ex-amor \u2013 na \u00e9poca grande amor \u2013 alimentava-lhe o cora\u00e7\u00e3o com constantes palavras po\u00e9ticas. Culto, queria demonstrar \u00e0 sua amada que sabia a desejar em qualquer idioma:<\/p>\n\n\n\n<p><br>\u201cMami, tenerte es como ser completo.<br>Sin ti no vivo, no camino, soy imperfecto.<br>T\u00fa eres mi perdici\u00f3n, mi ilusi\u00f3n, mi delito.<br>Sin ti, mi alma llora, mi cuerpo no vibra,<br>Mi existencia es un mito\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E, assim, namoraram, casaram e tiveram filhos. Mais do que um corpo, fora seduzida por palavras. De seus 38 anos, 20 passou ao lado daquele que roubou o restante dos seus dias. Mais alva que a neve, sentia seus l\u00e1bios secos. Ouvia o som do socorro se aproximando, al\u00e9m das incessantes vozes inquietantes que acompanhavam seus \u00faltimos segundos de vida, em um constante empurra-empurra que se formava para conseguir o melhor \u00e2ngulo da imagem monstruosa provocada pelos tiros passionais.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 queria saber de seus filhos, mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o queria que eles a vissem em tal situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o aguentava mais. A for\u00e7a que fazia para manter as p\u00e1lpebras abertas era maior que qualquer coisa que j\u00e1 realizara na vida. A popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o acreditava na cena que via. Metade de sua cabe\u00e7a estava explodida, mas seguia desperta, sem render-se \u00e0 eternidade. Pela \u00faltima vez, piscou. Agora, via a sua m\u00e3e em um hospital. Estava em uma maca, suada. Fazia uma for\u00e7a descomunal para parir. Mantinha-se \u00e0 beira da cama, segurando a m\u00e3o da sua progenitora de estranha e bela apar\u00eancia jovial. E nasceu. Ao analisar o rosto do beb\u00ea, viu que era si pr\u00f3pria. Estava presente no seu pr\u00f3prio parto. \u201cQue loucura\u201d, pensou.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Viu nos olhos do rec\u00e9m-nascido o reflexo de sua vida. Enxergava o momento exato do disparo que lhe destruiu a cabe\u00e7a: a bala se aproximava lentamente em sua dire\u00e7\u00e3o. Nos segundos quase est\u00e1ticos, viu o sorriso de f\u00faria de quem tanto lhe dizia amar. Os olhos do poeta estavam tomados pelo \u00f3dio. Enquanto aguardava o proj\u00e9til chegar ao alvo, sem poder se mover, ela sentia que nascera para aquele momento. Era o cl\u00edmax de sua hist\u00f3ria, o auge de sua exist\u00eancia. O poema que transcrevia a sua vida foi encerrado pelo autor. E se rendeu \u00e0 eterna escurid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Bruno Souza<\/strong>\u00a0\u00e9 formado em Jornalismo na UEL. Incomodado pela maneira como as coisas est\u00e3o dispostas no mundo, ingressou no curso aos 17 anos com o intuito de um dia poder dar voz aos silenciados. J\u00e1 produzindo contos, cr\u00f4nicas e poesias, come\u00e7ou, em 2021, a dedicar-se \u00e0 \u00e1rea liter\u00e1ria, arriscando-se no concurso feito em comemora\u00e7\u00e3o aos 50 anos da UEL, no qual o seu texto foi selecionado e publicado no livro f\u00edsico\u00a0<em>Colet\u00e2nea de Contos<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>E-mail: bruno.marcello@uel.br<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao trabalhar como estagi\u00e1rio no Portal Bonde e no jornal Folha de Londrina, Bruno Souza teve a oportunidade de cobrir um assassinato que ultrapassa a realidade cotidiana. Uma mulher foi morta com um tiro na cabe\u00e7a, disparado pelo seu ex-marido, enquanto prestava servi\u00e7os \u00e0 Par\u00f3quia S\u00e3o Luiz Gonzaga, em Londrina, no dia 05\/04\/2022. Inspirado pela trag\u00e9dia, Bruno produziu um conto de realismo m\u00e1gico.<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":214,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14,11],"tags":[],"class_list":["post-213","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conto","category-literatura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/213","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=213"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/213\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":369,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/213\/revisions\/369"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/214"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=213"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=213"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=213"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}