{"id":210,"date":"2023-11-22T09:24:13","date_gmt":"2023-11-22T12:24:13","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=210"},"modified":"2023-11-30T14:21:37","modified_gmt":"2023-11-30T17:21:37","slug":"copa-e-tronco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/literatura\/2023\/11\/22\/copa-e-tronco\/","title":{"rendered":"Copa e tronco"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"222\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/pasted-image-0-15.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-211\" style=\"width:549px;height:auto\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>A cabe\u00e7a de uma mulher foi encontrada no tronco de uma \u00e1rvore pr\u00f3xima do A\u00e7ude das \u00c1guas Minerais, em Santa Rita, na Regi\u00e3o Metropolitana de Jo\u00e3o Pessoa (PB), nas primeiras horas da manh\u00e3 do domingo (10\/4\/2022). O conto abaixo inspira-se na realidade m\u00e1gica do cotidiano.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Bruno Souza<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Era Domingo de Ramos. A cidade toda se preparava para marchar com um galho de \u00e1rvore nas m\u00e3os, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 igreja de Santa Rita. Maria foi a primeira a iniciar a peregrina\u00e7\u00e3o. Desperta desde as quatro da manh\u00e3, a dona de casa saiu para a celebra\u00e7\u00e3o crist\u00e3 sozinha, ainda no escuro. Como morava longe do destino, decidira sair com anteced\u00eancia para pegar um bom lugar na missa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s cinco, ainda estava a alguns quil\u00f4metros de chegar. Passando pelo A\u00e7ude das \u00c1guas Minerais, algo de estranho lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o. Uma \u00e1rvore. Um ramo na \u00e1rvore. Um verde fosforescente que iluminava a, ainda, trevosa madrugada. Pensou: \u201cQue coisa linda. Ser\u00e1 um sinal divino?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao se aproximar, percebeu que, acompanhado da hipnotizante cor, o ramo tamb\u00e9m proferia um c\u00e2ntico angelical, deixando o seu temor ainda mais acentuado. Ela, com os olhos e ouvidos presos \u00e0 \u00e1rvore, n\u00e3o conseguia imaginar outra coisa a n\u00e3o ser recolher aquele ramo e lev\u00e1-lo \u00e0 igreja.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegou mais perto, teve outra experi\u00eancia sobrenatural. Sua vida lhe passava como um longa-metragem na cabe\u00e7a. Via suas primeiras bonecas, as amigas que tinha quando crian\u00e7a, o primeiro namorado, o parto do filho, os prazeres que gozara, os odores que sentira e, por fim, as dores que a marcara. Em um \u00faltimo relance, viu sua cabe\u00e7a rolando ribanceira abaixo. Ap\u00f3s alguns minutos em transe, acordou. Seus olhos voltaram a ser escravos da colora\u00e7\u00e3o verde v\u00edvida.<\/p>\n\n\n\n<p>Espantada, decidiu abandonar a ideia de recolher o ramo. Tentou sair do local, n\u00e3o conseguiu. Mirando os olhos para o ch\u00e3o, viu os seus p\u00e9s afundados na in\u00f3spita terra nordestina. Da batata de sua perna, sa\u00edam ra\u00edzes que iam de encontro \u00e0 terra. Estava plantada. Queria gritar, mas de sua boca brotavam pequenas orqu\u00eddeas, que entrela\u00e7avam sua l\u00edngua.<\/p>\n\n\n\n<p>O sol come\u00e7ava a nascer. Com os primeiros raios de luz atingindo o seu corpo, sentiu um prazer inigual\u00e1vel que passava pelas ra\u00edzes de seus p\u00e9s e chegavam \u00e0s ramifica\u00e7\u00f5es de seus cabelos. Estava tomada pela vegeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O galho que lhe chamara a aten\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o brilhava e nem cantarolava. Ele apenas se movia em dire\u00e7\u00e3o a ela, enrolando-se por seu paralisado corpo e apertando-lhe o pesco\u00e7o. Sua traqueia estava esmagada, mas n\u00e3o sentia falta de ar. A calorosa luz, proveniente do sol, parecia lhe conceder o que necessitava para ter vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s alguns minutos, o ramo separou a cabe\u00e7a da mulher de seu tronco, decapitando-a. Estava definitivamente morta. J\u00e1 descartado no ch\u00e3o, o resto do seu corpo foi tragado pela terra como se fosse uma semente, afundando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s profundezas at\u00e9 ser encontrado por uma corrente de \u00e1gua, um len\u00e7ol fre\u00e1tico. J\u00e1 a sua cabe\u00e7a foi consumida pela \u00e1rvore. Unira-se a um novo tronco.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o passar dos minutos, diversas pessoas transitavam pelo A\u00e7ude, a fim de chegar \u00e0 igreja. Mas ningu\u00e9m deu por sua falta. O padre encerrou a missa e todos foram embora para as suas casas.<\/p>\n\n\n\n<p>O corpo da mulher, ap\u00f3s dias vagando pelas \u00e1guas subterr\u00e2neas de Santa Rita, foi despachado no rio da cidade, sendo encontrado na Sexta-feira Santa por pescadores, em estado de putrefa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 havia uma pergunta que a cidade n\u00e3o conseguira responder: onde estava a copa daquele tronco humano?<\/p>\n\n\n\n<p>Estava envolvida pela \u00e1rvore. As suas art\u00e9rias retalhadas uniram-se \u00e0s ramifica\u00e7\u00f5es da planta. Dos seus cabelos, passaram a brotar galhos e folhas. J\u00e1 em sua l\u00edngua, as orqu\u00eddeas seguiam encontrando um bom lugar para galgar, enquanto escapavam do interior do tronco em busca da saciante luz solar.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p>Fonte:<strong> Cabe\u00e7a de mulher \u00e9 encontrada em tronco de \u00e1rvore na Para\u00edba. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>https:\/\/www.metropoles.com\/brasil\/policia-br\/cabeca-de-mulher-e-encontrada-em-tronco-de-arvore-na-paraiba<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><em><strong>Bruno Souza<\/strong> \u00e9 formado em Jornalismo na UEL. Incomodado pela maneira como as coisas est\u00e3o dispostas no mundo, ingressou no curso aos 17 anos com o intuito de um dia poder dar voz aos silenciados. Produz contos, cr\u00f4nicas e poesias desde 2021. No concurso em comemora\u00e7\u00e3o aos 50 anos da UEL teve seu texto selecionado e publicado no livro f\u00edsico Colet\u00e2nea de Contos. E-mail: bruno.marcello@uel.br.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cabe\u00e7a de uma mulher foi encontrada no tronco de uma \u00e1rvore pr\u00f3xima do A\u00e7ude das \u00c1guas Minerais, em Santa Rita, na Regi\u00e3o Metropolitana de Jo\u00e3o Pessoa (PB), nas primeiras horas da manh\u00e3 do domingo (10\/4\/2022). 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