{"id":207,"date":"2023-11-22T09:20:57","date_gmt":"2023-11-22T12:20:57","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=207"},"modified":"2024-07-04T17:57:22","modified_gmt":"2024-07-04T20:57:22","slug":"cronica-de-outra-morte-anunciada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/literatura\/2023\/11\/22\/cronica-de-outra-morte-anunciada\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica de outra morte anunciada"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"225\" height=\"300\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/pasted-image-0-14.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-208\" style=\"width:539px;height:auto\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Um belo exerc\u00edcio de transcria\u00e7\u00e3o. O povoado, os personagens e parte da hist\u00f3ria de Cr\u00f4nica de uma morte anunciada aparecem nesse texto. Trabalho realizado na Oficina Gabo de Leitura Criativa, em 2019, na Universidade Estadual de Londrina.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Hiury Pereira<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cCinco minutos depois, realmente, voltou ao Clube Social com os alforjes chapados de prata e p\u00f4s sobre a mesa dez ma\u00e7os de notas de mil ainda com as cintas impressas do Banco do Estado. O vi\u00favo de Xius morreu dois anos depois. \u201cMorreu disso\u201d, dizia o doutor Iguar\u00e1n. \u201cEstava mais sadio que n\u00f3s, mas quando a gente o auscultava sentia borbulhar as l\u00e1grimas dentro do seu cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><em>Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel algu\u00e9m morrer duas vezes e permanecer vivo? Desde o maldito dia do \u00faltimo sopro vital de Yolanda, duvidei que existisse alguma sensa\u00e7\u00e3o mais parecida com o murm\u00fario do dem\u00f4nio da solid\u00e3o em meus ouvidos. Por mais que tentasse me restabelecer entre as partidas de domin\u00f3 e os porres de rum de cana, o meu \u00fanico afago era voltar para casa e observar, da mesma poltrona, a morada da minha felicidade por mais de tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por mais belo que seja o local, a origem do meu apego por cada detalhe n\u00e3o podia ser explicada ao contar as gotas de suor que gastamos ou apenas por ser considerada a casa mais bonita do povoado. Aquela morada mantinha vivo o que nunca morreu em mim: Yolanda.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de parecer loucura e de se tratar de uma revela\u00e7\u00e3o que nunca fiz a ningu\u00e9m, Yolanda n\u00e3o vivia apenas em minhas lembran\u00e7as dentro da casa. A alma de minha mulher fez do local o seu para\u00edso p\u00f3s-morte. Por mais que eu apenas pudesse v\u00ea-la sem a permiss\u00e3o de tocar seu rosto ou sentir o doce aroma de sua carne, Yolanda estava toda madrugada ali exposta, em seu altar, das tr\u00eas da manh\u00e3 at\u00e9 a aurora. O fim do meu turno de prazer di\u00e1rio sempre era anunciado pelo canto dos galos do povoado. S\u00f3 ent\u00e3o, ap\u00f3s preencher novamente minha alma daquela que me fazia tanta falta, podia adormecer sem qualquer peso.<\/p>\n\n\n\n<p>Na minha terceira noite de luto pela tr\u00e1gica morte de minha mulher, assustei-me com a sua primeira apari\u00e7\u00e3o. Ela estava ali, com os olhos embranquecidos e vestida de morte, com a esperan\u00e7a de ser admirada como nos nossos tempos \u00e1ureos. Por conta do susto, n\u00e3o recebi bem a sua imagem. O v\u00f4mito roxo de quem estava sem dormir desde o maldito dia foi a primeira rea\u00e7\u00e3o. Quando tive certeza que n\u00e3o era uma alucina\u00e7\u00e3o, invoquei divindades e orei, com raiva e afli\u00e7\u00e3o, para expulsar o dem\u00f4nio que viera me atormentar. N\u00e3o adiantou. Esperava ouvir o riso demon\u00edaco, mas o sil\u00eancio da imagem de Yolanda esclareceu as minhas ideias: era ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Como o Messias, a minha salvadora ressuscitou no terceiro dia \u2013 apenas em esp\u00edrito. A curta dura\u00e7\u00e3o de seu esplendor noturno foi suficiente para me fazer recuperar a cor, o apetite e me fez dispensar todos os pensamentos suicidas dos primeiros tr\u00eas dias de luto. A madrugada se tornou a parte mais reluzente do meu dia. Para quem nunca mais veria a sua amada, um encontro di\u00e1rio de tr\u00eas horas \u00e9 um motivo para voltar a crer na bondade divina. Tamb\u00e9m ressuscitei.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo n\u00e3o foi capaz de apagar a magia de Yolanda. Por\u00e9m, uma conversa durante uma costumeira partida de domin\u00f3 trouxe a minha queda. Na mesa, estavam doutor Iguar\u00e1n e o rec\u00e9m-chegado Bayardo San Rom\u00e1n. Jovem e abastado, o novo morador das redondezas estava noivo da filha de P\u00f4ncio Vic\u00e1rio. Era admirado no povoado, mas senti o seu verdadeiro interesse quando veio at\u00e9 o Clube Social para jogar domin\u00f3. Se enrolou com as pedras e n\u00e3o demonstrou destreza no jogo. Quando percebeu o disfarce de jogador arruinado, se dirigiu a mim: \u201cVi\u00favo, compro a sua casa\u201d. Sem me ofender, respondi que n\u00e3o estava \u00e0 venda. \u201cCompro com tudo que tem dentro\u201d, disse ele. Eu expliquei o apre\u00e7o pelos m\u00f3veis que comprei com a minha mulher. O homem n\u00e3o entendeu e recusei at\u00e9 o fim da partida.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas dias depois, o jovem diabo retornou \u00e0 mesa de domin\u00f3. Pediu que eu dissesse qualquer valor para a casa. Como estava a recusar muito dinheiro, disse que eles, jovens, n\u00e3o entendem as raz\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o. \u201cDigamos cinco mil pesos\u201d, ofereceu. Disse que estava louco, a casa n\u00e3o valia aquela quantia. O monstro dobrou a proposta. Com o cora\u00e7\u00e3o entupido de avareza e prestes a aceitar, lembrei de Yolanda e recusei, com os olhos a escorrer as l\u00e1grimas da fortuna ao meu alcance. San Rom\u00e1n se ausentou durante cinco minutos. Ao voltar, jogou em minha frente um deserto de dinheiro. Os jovens n\u00e3o entendem as raz\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o, mas o velho vi\u00favo optou pelo dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o dinheiro do povoado fosse contado e reunido, n\u00e3o chegaria perto daquela fortuna. Quando fui pegar os meus pertences, n\u00e3o me recordei que estava na hora de encontrar Yolanda. Peguei apenas meus documentos. Deixei m\u00f3veis, decora\u00e7\u00f5es, presentes e o meu maior amor. N\u00e3o me despedi, pois pensei que fosse me acompanhar. Quando vendi a casa com tudo dentro, n\u00e3o imaginei que a minha amada estivesse no pacote. Se viva, Yolanda aceitaria a proposta?&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pedi a Bayardo um pagamento em parcelas. A ficha come\u00e7ou a cair quando, na minha nova casa, n\u00e3o havia lugar para tanto dinheiro. Arrumei a bagun\u00e7a da mudan\u00e7a. Um pensamento floresceu: \u201cYolanda vir\u00e1 comigo? Qual ser\u00e1 o seu altar?\u201d. N\u00e3o demorei mais de uma madrugada para enlouquecer e me arrepender amargamente da venda: ela n\u00e3o me acompanhou. Eu dormia em um travesseiro recheado com dinheiro. N\u00e3o havia bem material que me trouxesse o prazer da primeira noite com minha esposa, o conforto de seus bra\u00e7os ou o al\u00edvio de v\u00ea-la com os olhos embranquecidos e vestida de morte. Morri com a sua morte, ressuscitei com a sua reapari\u00e7\u00e3o e voltei a perecer, quando preferi o dinheiro \u2013 que n\u00e3o necessitava \u2013 \u00e0 mulher da minha vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Os noivos que habitariam a casa tamb\u00e9m ca\u00edram em desgra\u00e7a. O homem descobriu a desonra da mulher na noite de n\u00fapcias. Assim que expulsa de casa, a pobre mo\u00e7a disse aos irm\u00e3os o nome de seu amante secreto. O garanh\u00e3o foi estripado como um porco e os irm\u00e3os foram presos. Ao ver tudo aquilo, chorei e a tortura foi ainda maior. Toda a maldi\u00e7\u00e3o no povoado \u00e9 um grito de Yolanda. A minha mulher n\u00e3o aprovou a venda e feriu os novos moradores. Hoje, dois anos depois da maldita proposta aceita e do assassinato de Santiago Nasar, estou pronto para reencontrar a minha amada. Espero que no inferno n\u00e3o exista ouro.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><em><strong>Hiury Pereira<\/strong>\u00a0\u00e9 jornalista, pela Universidade Estadual de Londrina, e graduando em Geografia pela Universidade Estadual de Maring\u00e1, como estagi\u00e1rio, trabalhou na Folha de Londrina e na R\u00e1dio UELFM. Entre 2018 e 2021 participou do Grupo Gabo de Pesquisa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um belo exerc\u00edcio de transcria\u00e7\u00e3o. O povoado, os personagens e parte da hist\u00f3ria de Cr\u00f4nica de uma morte anunciada aparecem nesse texto. 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