{"id":204,"date":"2023-11-22T09:17:33","date_gmt":"2023-11-22T12:17:33","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=204"},"modified":"2024-07-10T16:19:30","modified_gmt":"2024-07-10T19:19:30","slug":"todos-os-contos-pandemonicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/literatura\/2023\/11\/22\/todos-os-contos-pandemonicos\/","title":{"rendered":"Todos os contos pandem\u00f4nicos"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"720\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/jpg-6.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-832\" style=\"width:500px\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/jpg-6.jpg 720w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/jpg-6-300x300.jpg 300w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/jpg-6-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Diante do mundo ca\u00f3tico que se apresentou durante a pandemia da Covid-19, o Grupo Gabo de Pesquisa lan\u00e7ou o CONCURSO DE CONTOS PANDEM\u00d4NICOS, no Dia das Bruxas, em 31 de outubro de 2020. Os integrantes da equipe produziram minicontos para este acervo digital.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"702\" height=\"702\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/A-HISTORIA-DO-GATO-BRANCO.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-831\" style=\"width:500px\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/A-HISTORIA-DO-GATO-BRANCO.jpg 702w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/A-HISTORIA-DO-GATO-BRANCO-300x300.jpg 300w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/A-HISTORIA-DO-GATO-BRANCO-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 702px) 100vw, 702px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>A hist\u00f3ria do gato branco<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Duda Paloco<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Um miado ecoava pelo seu cr\u00e2nio, a fim de quebrar seus ossos. Levantou para anotar o sonho da noite. Procurava por seus dois cadernos, mas suas m\u00e3os enrugadas s\u00f3 encontraram um. Palavras na frente de datas: GATO BRANCO, DECOMPOSI\u00c7\u00c3O, RU\u00cdDOS QUE ARDEM. Nada ali fazia sentido. O dia marcado contava sete meses, desde o come\u00e7o da quarentena. Resumiu o sonho, mas n\u00e3o se lembrava dos dias, isso cabia ao outro caderno. Se questionou por onde estaria. Mergulhou em ansiedade. N\u00e3o demorou muito para a casa estar revirada. O corpo nada \u00e1gil de 65 anos, envolto pelo desespero de algu\u00e9m sem mem\u00f3ria, ansioso por uma gota de lucidez. O espa\u00e7o foi tomado pela bagun\u00e7a; pelo mesmo som que preenchia seu cr\u00e2nio naquela noite.<\/p>\n\n\n\n<p>O miado vinha da cozinha. Com olhos cortantes e frios: o gato branco. Era imposs\u00edvel ter entrado, tudo estava fechado. Lembrou das palavras no caderno. Palavras macabras. Passou a m\u00e3o no rosto como se elas pudessem acord\u00e1-lo, caso estivesse dormindo. No espelho do banheiro se viu desmanchando, machucado e podre. A amn\u00e9sia roubava sua vida a cada tr\u00eas dias, mas a terapia e os rem\u00e9dios o ajudavam. Hipocondr\u00edaco, n\u00e3o saia desde o in\u00edcio da pandemia do covid-19. Ent\u00e3o, durante o isolamento, anotava a vida aposentada e solit\u00e1ria em um caderno e seus sonhos em outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas naquele instante, frente \u00e0 sua imagem, o olhar t\u00edbio para si mesmo, a realidade fez-se inc\u00f3gnita. Seria o caderno dos sonhos o di\u00e1rio da realidade? Estaria delirando o tempo todo e se acostumado com isso? Ou, aquela madrugada era apenas um devaneio, um pesadelo? Sozinho a tanto tempo, uma visita, mesmo que de um gato n\u00e3o seria ruim. Voltou para a cozinha e se deparou com o bichano vomitando todo o papel, a tinta desfeita, apenas borr\u00f5es de sonhos ou realidade. Nessa altura tudo j\u00e1 se misturava. Na manh\u00e3 seguinte, n\u00e3o havia gato, nem papel. Mas, o cheiro do vomito penetrava seu nariz, sem identidade, com um \u00fanico caderno para contar o dias, ou os sonhos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"1080\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CASA-VERDE.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-833\" style=\"width:500px\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CASA-VERDE.jpg 1080w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CASA-VERDE-300x300.jpg 300w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CASA-VERDE-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CASA-VERDE-150x150.jpg 150w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CASA-VERDE-768x768.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><strong>Casa verde<\/strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Blasco Opala<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Olhos me sondam quando a noite toca a carne da lua. Tr\u00eas dias entorpecido em pensamentos hostis na quarentena. Ao passar mais tempo, aqui as coisas n\u00e3o s\u00e3o as mesmas. Estou preso na casa verde. Em maio vi minha imagem distorcida em cores met\u00e1licas atrav\u00e9s de sonhos. Um sabor denso da perturba\u00e7\u00e3o. Me queimei por dentro. Depois, o medo fugiu dos sonhos e se materializou. Agora a sombra met\u00e1lica caminha nos c\u00f4modos, depois da meia noite, me encarando.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou\u00e7o ru\u00eddos das aranhas no telhado. Ando pela casa na esperan\u00e7a de encontr\u00e1-las. Talvez o veneno aracn\u00eddeo cure minhas alucina\u00e7\u00f5es. Elas n\u00e3o aparecem. Apenas ru\u00eddos. Vez ou outra, gritos de uma mulher. Distante, mas presente. Como se estivesse dentro da casa, enterrada. N\u00e3o me surpreenderia. Deito, tomo quatro gotas de floral. Busco por um sonho tranquilo. Fecho os olhos. Desta vez nada de aranhas ou gritos. Na porta, entreaberta, vejo um cavalo preto andar pela sala. Caminho em dire\u00e7\u00e3o ao banheiro em passos lentos.<\/p>\n\n\n\n<p>As aranhas voltaram. Os gritos v\u00eam de baixo. Ou\u00e7o meu nome em sussurro. Fecho os olhos. Aos poucos um emaranhado de m\u00e3os sai do al\u00e7ap\u00e3o e tentam me tocar. Derrubo o floral e corro para fora. No quintal, sigo a luz da lua que me cerca. De repente, a luminar se torna um rosto. Me encara perturbada. Ru\u00eddos e gritos. M\u00e3os saem da caixa de cartas. O cavalo, desta vez ao meu lado, como se ali estivesse o tempo todo. Acordei. S\u00e3o quatro e cinquenta da manh\u00e3. Vou \u00e0 cozinha. Acendo a luz e vejo o cavalo preto.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"1080\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/O-MISTERIO-QUE-CERCAVA-CIDADEVANIA.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-834\" style=\"width:500px\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/O-MISTERIO-QUE-CERCAVA-CIDADEVANIA.jpg 1080w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/O-MISTERIO-QUE-CERCAVA-CIDADEVANIA-300x300.jpg 300w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/O-MISTERIO-QUE-CERCAVA-CIDADEVANIA-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/O-MISTERIO-QUE-CERCAVA-CIDADEVANIA-150x150.jpg 150w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/O-MISTERIO-QUE-CERCAVA-CIDADEVANIA-768x768.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>O mist\u00e9rio que cercava Cidadev\u00e2nia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Isabelle Teixeira<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Amanheceu um dia nublado. Sarah morava com sua m\u00e3e na pequena Cidadev\u00e2nia. Viviam com uma aposentadoria. A jovem come\u00e7ou a sonhar coisas estranhas. Um medo passou a persegui-la. Calafrios a incomodavam. Conversou com sua m\u00e3e, que lhe contou hist\u00f3rias inusitadas do lugarejo. H\u00e1 quinze anos, no ver\u00e3o, jovens desapareciam e voltavam sete dias depois. Sem explica\u00e7\u00e3o alguma.<\/p>\n\n\n\n<p>Os boatos diziam que os jovens iam para um lugar desconhecido, outro planeta ou gal\u00e1xia, n\u00e3o se sabia. Sarah se espantou, mas continuou calada. A m\u00e3e prosseguiu: deu detalhes das viagens que os jovens contavam ao retornar: animais falantes, criaturas horrendas de estima\u00e7\u00e3o, elfos e lobisomens, que viviam pac\u00edficos, l\u00e1 no mundo deles. Cada um com suas particularidades. Nesses dias, a energia da cidade ficava pesada. Dias como esses, nublados e com sentimentos ruins, eram comuns.<\/p>\n\n\n\n<p>A jovem sentiu-se triste por esses sumi\u00e7os n\u00e3o aconteciam mais. Pois, n\u00e3o poderia correr o risco de conhecer tais coisas. Mas, a curiosidade em saber consumiu Sarah. Andou pelas redondezas conversando com pessoas mais velhas para entender o por qu\u00ea desses acontecimentos n\u00e3o ocorrerem mais. Sarah foi ligando os pontos. Os seres fant\u00e1sticos abduziam, em dias nublados, pessoas com vinte anos. Amanh\u00e3 \u00e9 o anivers\u00e1rio de Sarah.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/DOPAMINERGICO-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-835\" style=\"width:516px\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/DOPAMINERGICO-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/DOPAMINERGICO-300x300.jpg 300w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/DOPAMINERGICO-150x150.jpg 150w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/DOPAMINERGICO-768x768.jpg 768w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/DOPAMINERGICO.jpg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Dopamin\u00e9rgico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Samir El Kadri<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Li uma vez que a esquizofrenia \u00e9 relacionada ao desequil\u00edbrio de um neurotransmissor, chamado dopamina. Mas essa informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 claro, eu vi antes do isolamento. O que mais tem me ocupado recentemente \u00e9 a presen\u00e7a \u201cdela\u201d. No in\u00edcio da quarentena, refleti sobre o quanto a sua irm\u00e3 \u00e9 retratada por diversos tipos de narrativa, muitas vezes com uma caracteriza\u00e7\u00e3o t\u00edpica, vestido uma capa preta e segurando uma foice. Mas \u201cela\u201d ningu\u00e9m ousa representar, mesmo com uma presen\u00e7a t\u00e3o marcante.<br>E foi neste conv\u00edvio, t\u00e3o intenso, que pude observ\u00e1-la melhor nos \u00faltimos meses. Realmente, \u00e9 muito bela, como tanto dizem. Mas a frieza no seu olhar indica mais do que uma indiferen\u00e7a, como outros dizem. Consegui enxergar uma crueldade.<\/p>\n\n\n\n<p>Me apresentava cartas que estranhamente chegavam por um buraco na fia\u00e7\u00e3o da parede, as quais eu ignorava.<br>Ao perceber o meu olhar de indigna\u00e7\u00e3o por ter descoberto seus males, passou a me agredir. Me defendi usando a for\u00e7a, mas quanto mais eu revidava, mais forte \u201cela\u201d ficava. Nesse vaiv\u00e9m, vi meu corpo entrar em fadiga e desabar, como um edif\u00edcio em demoli\u00e7\u00e3o. No ch\u00e3o, pude observar o quanto estava ferido. O susto me fez recuar. Implorei por ajuda, mas \u201cela\u201d n\u00e3o sentiu a menor compaix\u00e3o. Por\u00e9m, tamb\u00e9m recuou. O olhar agressivo passou a ser mesmo indiferente. Assim, pude respirar em paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Passado um per\u00edodo t\u00e9pido e enfadonho, me apresentou novamente as cartas. A ansiedade no seu olhar me apressou, fazendo com que lesse todas simultaneamente. Nesse fluxo, sem perceber, uma delas me prendeu. Li sem ver o tempo passar e passei a sorrir. A minha empolga\u00e7\u00e3o se tornou a \u201cdela\u201d, e quando decidi responder a carta, \u201cela\u201d me avisou com euforia sobre o fim do isolamento. Ent\u00e3o, ao sair, percebi o quanto ler as cartas era uma experi\u00eancia rasa perto de ver, cheirar, ouvir, degustar e tocar. Olhava para o lado e me aliviava n\u00e3o v\u00ea-la mais, apenas senti-la.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"1080\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/TERCEIRO-GRAU.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-836\" style=\"width:500px\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/TERCEIRO-GRAU.jpg 1080w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/TERCEIRO-GRAU-300x300.jpg 300w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/TERCEIRO-GRAU-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/TERCEIRO-GRAU-150x150.jpg 150w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/TERCEIRO-GRAU-768x768.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Terceiro grau<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Hiury Pereira<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Preferiria abdicar dos meus sentidos a reviver aquele momento. Ca\u00eddo, ele havia desmoronado ao apagar as chamas do nosso velho sof\u00e1. Quem seria capaz de conter a brasa com um litro de \u00e1lcool? O fogo n\u00e3o s\u00f3 aumentou, como avan\u00e7ou e consumiu todo o seu rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>Em cinco segundos, a defini\u00e7\u00e3o palp\u00e1vel de ang\u00fastia: o grito de dor do homem teve timbre e decibel de um porco abatido. Sua face se decomp\u00f4s em carv\u00e3o. Desabou no ch\u00e3o. O fogo se desfez no mesmo instante. Os dentes eram o \u00fanico aspecto conservado da fei\u00e7\u00e3o carbonizada. O grito se transformou em ranger.<\/p>\n\n\n\n<p>O odor de sua pele tostada deu \u00e2nsia. Tive esperan\u00e7a de que ainda estivesse vivo, mesmo com o rosto desfigurado. Levei minha m\u00e3o ao seu queixo, de forma instintiva. O mesmo instinto recolheu minha m\u00e3o. Despertei as labaredas com meu toque. O fogo voltou a arder no sof\u00e1 e em seu rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o estava ao meu lado na cama para ouvir sobre o pesadelo. Me recusei a dormir ao lado dele ap\u00f3s a \u00faltima briga. Disse que deveria dormir na sala e n\u00e3o mais olhar na minha cara. Nunca hav\u00edamos discutido daquela forma.<\/p>\n\n\n\n<p>O amor n\u00e3o desapareceu, apesar de amea\u00e7as e xingamentos. Precisava me desculpar pelo \u201cespero que voc\u00ea morra\u201d quando fechei a porta em seu rosto. Palavras injustific\u00e1veis. Calcei os chinelos, enquanto meu pensamento j\u00e1 estava no abra\u00e7o de perd\u00e3o. Ao abrir a porta, o cheiro de queimado me paralisou. Perdi a for\u00e7a das pernas e, em l\u00e1grimas, fechei a porta. Espero que apenas esteja com carne na churrasqueira para me agradar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante do mundo ca\u00f3tico que se apresentou durante a pandemia da Covid-19, o Grupo Gabo de Pesquisa lan\u00e7ou o CONCURSO DE CONTOS PANDEM\u00d4NICOS, no Dia das Bruxas, em 31 de outubro de 2020. Os integrantes da equipe produziram minicontos para este acervo digital. 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