{"id":201,"date":"2023-11-22T09:13:15","date_gmt":"2023-11-22T12:13:15","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=201"},"modified":"2023-11-30T17:57:34","modified_gmt":"2023-11-30T20:57:34","slug":"apocalipticos-desintegrados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/literatura\/2023\/11\/22\/apocalipticos-desintegrados\/","title":{"rendered":"Apocal\u00edpticos desintegrados"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"297\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/pasted-image-0-12.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-202\" style=\"width:534px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/pasted-image-0-12.png 300w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/pasted-image-0-12-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><em>Jos\u00e9 Maschio<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Que ma\u00e7ada. Logo agora que estava tudo a correr como devia. Pensava e olhava para a mulher. Ela estava ansiosa. Queria not\u00edcias. Ao inv\u00e9s de responder, chamou o piloto. Que ma\u00e7ada. Urgia resolver isso. Depois se resolveria com a mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Chamou o elevador. O piloto j\u00e1 tinha o helic\u00f3ptero pronto. Em meia hora estaria na Quinta Avenida, sede da L.S. Tempo suficiente para inventariar a vida. Era orgulhoso disso de criar a L.S. Hoje, apenas cinco anos depois, sua empresa j\u00e1 era chamada de a d\u00e9cima sexta. No mesmo patamar que as 15 corpora\u00e7\u00f5es que dominavam o mundo civilizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Recordava como tudo come\u00e7ou. Foi em 2020, quando o mundo e a geopol\u00edtica mundial entraram em colapso. Come\u00e7ou com a pandemia do covid19. Bendito coronav\u00edrus pensou. E riu. Era tudo uma quest\u00e3o de aprender com a hist\u00f3ria. E ele tinha aprendido. O sorriso, ir\u00f4nico, era para uma velha m\u00e1xima atribu\u00edda ao velho Marx. A hist\u00f3ria se repete primeiro como trag\u00e9dia, depois como farsa.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabia se era assim mesmo a m\u00e1xima. Mas tinha certeza. Aprendera com a hist\u00f3ria. Fora buscar, na hist\u00f3ria, as solu\u00e7\u00f5es que culminaram com sua Lasting Solution (LS). Uma hist\u00f3ria de sucesso. E agora essa, que ma\u00e7ada. Pr\u00e1tico, ligou para a secret\u00e1ria e pediu para separar o lote 315. Assim que chegasse \u00e0 empresa resolveria essa ma\u00e7ada. A solu\u00e7\u00e3o pensada era simples. O problema era a mulher. Aflita, em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando tudo come\u00e7ou era um assessor de diretoria na ind\u00fastria farmac\u00eautica. Em Nova Brunswick (Nova Jersey). Nada importante. Mas o colapso mundial fora ben\u00e9fico. Primeiro a p\u00e2nico mundial com o covid19. Depois a guerra do petr\u00f3leo. Os governos fecharam fronteiras. Suspenderam eventos esportivos e culturais. E a coisa alastrou-se de tal forma que os governos perderam o controle.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a\u00ed que as 15 grandes assumiram. As grandes corpora\u00e7\u00f5es, farmac\u00eauticas, do petr\u00f3leo, de armamentos e da tecnologia de informa\u00e7\u00e3o resolveram assumir o controle de fato. J\u00e1 controlavam ex\u00e9rcitos e pa\u00edses com t\u00edteres eleitos por fake News. Decidiram que n\u00e3o precisavam mais de intermedi\u00e1rios. E o mundo mudou. Na Am\u00e9rica foi f\u00e1cil. Bastou transformar o muro de Trump em uma barreira maior e instranspon\u00edvel. A parte latina da Am\u00e9rica isolou-se em sua selvageria.<\/p>\n\n\n\n<p>E mais f\u00e1cil ainda foi controlar poss\u00edveis revoltas. No plano interno foi regularizar os ilegais. E esses esqueceram qualquer revolta. E tamb\u00e9m esqueceram seus parentes ao sul. No plano externo foi deixar os crist\u00e3os fundamentalistas assumirem o controle dos governos cucarachas. Eles acreditavam em tudo que o norte informava.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Europa o problema maior foi aquilo que antes chamavam de Fran\u00e7a. Os imigrantes l\u00e1 eram mais conscientes de sua hist\u00f3ria. Foi preciso ser duro. Exterm\u00ednio \u00e9tnico foi necess\u00e1rio. N\u00e3o que algu\u00e9m reclamasse. A antiga Fran\u00e7a voltara a ser mais branca e ass\u00e9ptica. E o resto da Europa fechou os olhos para o genoc\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrave foi na \u00c1sia, com a antiga P\u00e9rsia. A Federa\u00e7\u00e3o Russa e a China quiseram reagir. Mas as corpora\u00e7\u00f5es foram \u00e1geis. R\u00fassia e China receberam encomendas b\u00e9licas suficientes para se calarem. E a nova ordem econ\u00f4mica e social foi instaurada. No que foi a P\u00e9rsia dizimada sobraram hordas selvagens. Que nada incomodavam. A elite da \u00cdndia, uma pa\u00eds de castas, estava alinhada com as corpora\u00e7\u00f5es. N\u00e3o houve problemas.<\/p>\n\n\n\n<p>As corpora\u00e7\u00f5es foram buscar na hist\u00f3ria uma decis\u00e3o sobre a \u00c1frica. Ao inv\u00e9s de dividirem geograficamente o continente, como no s\u00e9culo 19 para 20, a medida foi outra. Unificaram o continente sob a tutela europeia. Com tecnologia e poder b\u00e9lico, o continente negro foi separado do mundo civilizado. Assim como os latinos na Am\u00e9rica.<\/p>\n\n\n\n<p>E as popula\u00e7\u00f5es desses continentes foram entregues \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Com as elites locais controladas por not\u00edcias falsas. Mas as corpora\u00e7\u00f5es sabiam, esse controle era prec\u00e1rio. Seriam necess\u00e1rias medidas perenes. De controle dos desintegrados pela nova ordem mundial. Foi quando ele apareceu com sua Lasting Solution. E fora quase por acaso.<\/p>\n\n\n\n<p>Em reuni\u00e3o na empresa farmac\u00eautica, a maior da Am\u00e9rica, havia um impasse. Os pesquisadores reclamavam da falta de cobaias. O pessoal das rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas temiam os defensores dos animais, em campanha contra o uso de cobaias. Ele quase nunca opinava nas reuni\u00f5es. C\u00f4nscio de sua fun\u00e7\u00e3o de assessor acess\u00f3rio. Mas naquela reuni\u00e3o foi diferente. A hist\u00f3ria nos ensina, disse. Todos se voltaram para ele. Ele lembrou a todos a experi\u00eancia da IG Farben, no s\u00e9culo 20. O uso de cobaias humanas pelos nazistas na d\u00e9cada de 30 do s\u00e9culo passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os executivos reunidos reprovaram sua fala. Menos o CEO da empresa, que pediu mais detalhes. Ele explicitou. E ainda refor\u00e7ou. A IG Farben hoje era uma das quinze grandes. A Bayer. A hist\u00f3ria havia perdoado o gigante europeu. Algu\u00e9m ponderou. Os ativistas protestam contra animais como cobaias, imaginem usar humanos. Ele riu. N\u00e3o seriam humanos do mundo civilizado. Seriam os de fora. Os desintegrados. Chamados pela sigla T.O (Those Outside).<\/p>\n\n\n\n<p>Como fazer era o problema. Ele deu a solu\u00e7\u00e3o. Nos territ\u00f3rios T.O, os de fora eram suscet\u00edveis a reality shows. E as m\u00eddias locais dos desintegrados eram colonizadas. Faziam tudo que as corpora\u00e7\u00f5es mandavam. Vamos criar um pogrom para isso. E a hist\u00f3ria ajudou novamente. Lembrou aos executivos o pogrom czarista de 1903 contra os judeus. Fariam um pogrom diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao inv\u00e9s de genoc\u00eddio, esperan\u00e7a. E foram criados programas de esperan\u00e7a para os T.Os. Reality Shows espec\u00edficos. De acordo com as necessidades da ind\u00fastria farmac\u00eautica. Os de fora chegavam cheios de esperan\u00e7a. Depois de usados, eram descartados. Ningu\u00e9m se importava no mundo civilizado. L\u00e1, no mundo dos T.Os, esses eram invejados. Queriam ter a sorte daqueles que foram.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia foi bem aceita. O sucesso foi tanto que ele deixou de ser assessor. Criou sua Lasting Solution. As demandas das farmac\u00eauticas se ampliaram para outros setores. O setor de divers\u00f5es foi o que mais prosperou. Havia necessidade de prazeres. E lotes de jovens adolescentes come\u00e7aram a serem requisitados. Para os prazeres da carne. Os lotes chegavam, passavam por uma quarentena e entregues aos clientes. E a clientela s\u00f3 aumentava.<\/p>\n\n\n\n<p>O poder embriaga. Ela sabia. Mas ele gostava disso de poder. E foi buscar na hist\u00f3ria exemplo para isso de exercitar o poder. Lembrou-se de um ditador cucaracha. De nome Stroessner que, pervertido, mandava sequestrar adolescentes. Para seu prazer carnal e de seu s\u00e9quito. Comentou na reuni\u00e3o com sua diretoria, meio a brincalh\u00e3o, meio a s\u00e9rio. Mas era ele que falava e seu s\u00e9quito aprovou a medida. Decidiram, trariam lotes para deleite do grupo diretivo. Depois de usados, esses lotes seriam encaminhados aos clientes. Lotes de meninos e meninas. E logo agora essa ma\u00e7ada para resolver.<\/p>\n\n\n\n<p>A ma\u00e7ada era uma adolescente do lote 315. Viera do que antes chamavam de M\u00e9xico. Na partilha do lote, uma menina o atraiu particularmente. Havia algo nela de familiar. Usou-a. E era f\u00e1cil us\u00e1-las. Elas eram dopadas de maneira a ficarem d\u00f3ceis e excitadas. Um deleite. Pensara em segurar a menina por mais tempo. Mas no caf\u00e9 da manh\u00e3 com a mulher, ela virou um problema. Ele tinha que se livrar do problema.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher fora casada antes. Tivera uma filha. Que na divis\u00e3o do mundo, ficara com os av\u00f3s paternos no M\u00e9xico. Era uma obsess\u00e3o da mulher. Trazer a filha para a civiliza\u00e7\u00e3o. Ele prometera que faria isso. Quando chegou \u00e0 empresa compreendeu que nunca poderia cumprir a promessa. A adolescente do lote 315. Agora sabia a raz\u00e3o. De achar algo familiar na jovem. Chamou o executivo que mais confiava. O mais servil.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos todos, executivos n\u00e3o pensam, executam. E deu a ordem. Todo o lote 315 deve ser descartado. Descarte era a palavra usual para incinera\u00e7\u00e3o. Destino final de todos os de fora que entravam no mundo civilizado. Depois de usados, eram levados para as usinas de produ\u00e7\u00e3o de energia. Corpos incinerados a gerar energia. Qual baga\u00e7o de cana no mundo de antes. Duas horas depois o executivo voltou. Tudo feito. Ele agradeceu. Co\u00e7ou os ralos cabelos. Pensou na mulher. Aflita. A esperar not\u00edcias da filha. Arrumaria uma desculpa. Depois pensaria. O importante \u00e9 que tinha se livrado dessa ma\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><em><strong>Jos\u00e9 Maschio,<\/strong>&nbsp;um rep\u00f3rter que conta hist\u00f3rias. Na vida fez de tudo. At\u00e9 coisas bem-feitas. Foi catador de osso (em um tempo que usavam ossos para fazer bot\u00f5es), boia-fria, pacoteiro, banc\u00e1rio, professor universit\u00e1rio. Trabalhou em reda\u00e7\u00f5es de jornais alternativos, jornais legais e jornal\u00f5es. Hoje dedica-se \u00e0 milit\u00e2ncia social e a escrever livros. Os dois \u00faltimos:&nbsp;Cr\u00f4nica de uma grande farsa&nbsp;(em parceria com Luiz Taques) e o romance&nbsp;Tempos de cigarro sem filtro. E-mail: josemaschio@gmail.com<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Jos\u00e9 Maschio, vencedor do CONCURSO DE CONTOS PANDEM\u00d4NICOS, publicado em 5 de dezembro de 2020.<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":202,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14,11],"tags":[],"class_list":["post-201","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conto","category-literatura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=201"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":398,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201\/revisions\/398"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/202"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}