{"id":192,"date":"2023-11-22T08:35:24","date_gmt":"2023-11-22T11:35:24","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=192"},"modified":"2023-12-07T18:29:02","modified_gmt":"2023-12-07T21:29:02","slug":"cabo-do-carnaval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/literatura\/cronica\/2023\/11\/22\/cabo-do-carnaval\/","title":{"rendered":"Cabo do carnaval"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"240\" height=\"300\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/pasted-image-0-9.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-193\" style=\"width:549px;height:auto\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Ah, mas a ci\u00eancia cansa e desanima, para ser franco. Secretamente, desejamos \u00e0s vezes a cegueira, a surdez e a mudez, mas apenas quando deixamos os malef\u00edcios dos sentidos suplantarem sua grande serventia. Ora que o Sol ainda nos escalda a pele, a Lua nos oscila como \u00e0s mar\u00e9s, a Terra nos sustenta os p\u00e9s e o Ar nos enleva o esp\u00edrito!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Jo\u00e3o Pedro Conchon&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Que 2021 foi um ano maldito, n\u00e3o restam d\u00favidas. Noite mal dormida, promete longo e cansativo dia adiante, por Deus, que eu sei que 2022 tampouco ser\u00e1 f\u00e1cil. J\u00e1 n\u00e3o me agrada o tom em que come\u00e7a a m\u00fasica. Este carnaval n\u00e3o foi bem sucedido, n\u00e3o anunciou bem o ano que, por fim, come\u00e7a de fato. Machado definiu a vida como uma enxurrada perp\u00e9tua. H\u00e1 turbul\u00eancia nas \u00e1guas da exist\u00eancia, a correnteza com for\u00e7a nos arrasta, mas talvez seja mais prudente para quem se afoga debater terra, n\u00e3o \u00e1gua. Talvez, mas sejamos imprudentes um pouco mais.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tempos a filosofia demora-se em explicar a revoada brasileira na temporada de ver\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao litoral, mas creio ter encontrado explica\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel: o fato se d\u00e1 devido \u00e0 vontade de, ao final de um desgra\u00e7ado ano, querer dar as costas \u00e0 terra e deixar-se levar pelo repuxo do mar. Isto tamb\u00e9m explica o fen\u00f4meno de que na praia, h\u00e1 tal atra\u00e7\u00e3o mar\u00edtima que faz virar as cadeiras para a sua dire\u00e7\u00e3o. Observai, n\u00e3o \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. Como as sequiosas manadas da anci\u00e3 \u00c1frica migram durante os per\u00edodos de seca, o brasileiro quer baixar \u00e0 praia no final de ano. A migra\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00e1rdua e perigosa: no caminho da vida encontra-se os obst\u00e1culos da morte. As largas manadas de largos herb\u00edvoros atravessar devem rios infestados de crocodilos \u2013 ou rodovias de possantes autom\u00f3veis.<\/p>\n\n\n\n<p>A ci\u00eancia explica a tudo, exceto \u00e0quilo que n\u00e3o \u00e9. O gnu gostaria de entender porque Deus criou o crocodilo para t\u00e3o brutalmente destro\u00e7\u00e1-lo, mas sendo necess\u00e1rio atravessar o mort\u00edfero rio, sabe que nada adianta chorar os feitos de Deus: melhor \u00e9 respirar fundo, encher-se de \u00f3dio e vontade de viver e atravess\u00e1-lo com todas as for\u00e7as. Que sejamos a dedo escolhidos para sermos destro\u00e7ados por r\u00e9pteis famintos. A manada avan\u00e7a longo desconforto do carro, atrasando uns aos outros, todos obstinados em descer ao litoral, sedentos do reencontro com o mar, como se ele, Oceano, fosse destina\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o o grande caminho que \u00e9. Oceano! Fui-lo ver para saud\u00e1-lo, enfim. Aproximei-me cheio de cautela e suas mais \u00e1vidas ondas me vieram lamber: Oceano provava-me, sei que me comeria. Senti-me atra\u00eddo pela fatal profundidade. Quis caminhar, nadar at\u00e9 nunca mais, mas h\u00e1 ainda o medo da vida em meu peito. Eu conhe\u00e7o o seu poder e tremo. N\u00e3o me encanta seu espet\u00e1culo praieiro, que nos inunda com as escumas da morte! Que \u00e9 areia, se n\u00e3o o resto do que se foi? Cinzas do que se queimou? Areia exicial e \u00famida, \u00e9 sobre ti mesma que dan\u00e7amos!<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ano, nesta praia, encarei mais o continente adentro do que o mar afora. A serra imponente dizia-me da instabilidade do mar, de sempre agitadas \u00e1guas, cujas ondas sucedem-se e perecerem todas na praia. O contr\u00e1rio dela, a velha, im\u00f3vel e constante serra. Ouvi-a chorar. Triste serra, n\u00e3o veem os olhos humanos que a tua tristeza reside ao lado do Oceano e que ele nada faz para ajud\u00e1-la? Oceano quer submergi-la, Oceano quer submergir o mundo. Ah, distante realidade de solit\u00e1rias serras e insidiosos mares! O mundo \u00e9 um castelinho de areia na praia do universo. Deus brincou e foi-se embora da praia, deixando sua cria\u00e7\u00e3o \u00e0 sorte da crescente mar\u00e9. Isso \u00e9 um fato cient\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, mas a ci\u00eancia cansa e desanima, para ser franco. Secretamente, desejamos \u00e0s vezes a cegueira, a surdez e a mudez, mas apenas quando deixamos os malef\u00edcios dos sentidos suplantarem sua grande serventia. Ora que o Sol ainda nos escalda a pele, a Lua nos oscila como \u00e0s mar\u00e9s, a Terra nos sustenta os p\u00e9s e o Ar nos enleva o esp\u00edrito! Eis que o cora\u00e7\u00e3o, mesmo machucado, insiste em bater. Dancemos sobre a areia da vida, como vos disse! Um banquete fa\u00e7amos para agradar os vivos e honrar os mortos! O Amor antecedeu ao pr\u00f3prio mundo e ainda assim ele nos \u00e9 esquivo. Nada \u00e9 perp\u00e9tuo, nem mesmo a enxurrada da vida, meu caro Machado, mas tu o sabias perfeitamente, eu s\u00f3 n\u00e3o sei se quem te l\u00ea o sabe tamb\u00e9m. A tua ambiguidade engana duas vezes. N\u00e3o \u00e9 a causa da tua grandeza, mas \u00e9 o que me agrada a l\u00edngua de serpente e os olhos de \u00e1guia. Teu humor corrosivo n\u00e3o foi gracejo do sarcasmo. Obrigado viu-se a toda a obra erguer sobre a ironia de areia movedi\u00e7a. Grande Machado! N\u00e3o havia doutor que lhe receitasse um verm\u00edfugo? Talvez este seja um pa\u00eds triste, afinal. A tua pantanosa literatura quer disso me convencer, mas jamais apontarei o dedo na tua cara, como \u00e9 a pr\u00e1xis fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim!<br>Para banquetear sa\u00edmos, e ao acaso<\/p>\n\n\n\n<p>Levou-me a enxurrada diante dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Colidi meus olhares contra os seus,<\/p>\n\n\n\n<p>Num acidente, apenas, terr\u00edvel susto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00d3, como eu morri nessa trag\u00e9dia!<\/p>\n\n\n\n<p>Carbono que refina ferro em duro a\u00e7o,<\/p>\n\n\n\n<p>Na escurid\u00e3o era de tantas a mais bela,<\/p>\n\n\n\n<p>Por fei\u00e7\u00f5es, gestos, vestes e olhares,<\/p>\n\n\n\n<p>Por tudo de sagrado num vislumbre!<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que ela me amou tamb\u00e9m?<\/p>\n\n\n\n<p>O seu boy era um urubu, um urubu!<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui nesta praia eles revoam em bandos,<\/p>\n\n\n\n<p>Contra o vento pairam, suspenso nos ares,<\/p>\n\n\n\n<p>De bucho cheio, est\u00e3o atentos e satisfeitos:<\/p>\n\n\n\n<p>Outro promissor ano para carniceiros.<\/p>\n\n\n\n<p>E nem T\u00e9tis pode um mortal imunizar da morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Que venha 2022!<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><em><strong>Jo\u00e3o Pedro Conchon&nbsp;<\/strong>\u00e9 graduado em Jornalismo pela UEL. Embora n\u00e3o consiga na \u00e1rea atuar, o jornalismo sempre o atormenta, pois comprometeu-se eticamente com a profiss\u00e3o e se recusa a parar de roer este osso. Trabalhou como t\u00e9cnico de TI enquanto o cora\u00e7\u00e3o se ocupava com a literatura. Agora dedica-se \u00e0 escrita de um livro de fic\u00e7\u00e3o, alado e com chifres, que come\u00e7a jovem e moderno, mas termina maduro e tr\u00e1gico. Tem gosto particular por contradizer o que o senso comum dos humanos gosta de reafirmar. E-mail: jpconchon@hotmail.com<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ah, mas a ci\u00eancia cansa e desanima, para ser franco. Secretamente, desejamos \u00e0s vezes a cegueira, a surdez e a mudez, mas apenas quando deixamos os malef\u00edcios dos sentidos suplantarem sua grande serventia. Ora que o Sol ainda nos escalda a pele, a Lua nos oscila como \u00e0s mar\u00e9s, a Terra nos sustenta os p\u00e9s e o Ar nos enleva o esp\u00edrito!<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":193,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-192","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=192"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":462,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192\/revisions\/462"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/193"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=192"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=192"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=192"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}