{"id":171,"date":"2023-11-21T15:51:37","date_gmt":"2023-11-21T18:51:37","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=171"},"modified":"2024-07-04T18:13:58","modified_gmt":"2024-07-04T21:13:58","slug":"memoria-de-minhas-putas-tristes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/literatura\/2023\/11\/21\/memoria-de-minhas-putas-tristes\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria de minhas putas tristes"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"298\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/pasted-image-0-3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-173\" style=\"width:551px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/pasted-image-0-3.png 300w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/pasted-image-0-3-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Uma hist\u00f3ria para ler e reler. Um jornalista, ao completar 90 anos, decide dar-se de presente uma noite sensual. N\u00e3o uma brincadeira de sexo banal, num bordel qualquer. Mas, uma noite ao lado de uma uma virgem de 14 anos. Gabo remete o leitor, como sempre, a uma jornada de autoconhecimento. Talvez ele pr\u00f3prio tenha feito esse trajeto ao ler a <em>Casa das belas adormecidas<\/em>, de kawabata. Para os que est\u00e3o a envelhecer, vale a pena ler e reler esses livros, sa\u00eddos das mem\u00f3rias de dois ganhadores de Pr\u00eamios Nobel.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Duda Paloco<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Cap\u00edtulo I<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O barco chega pelo cais do porto, assim como chegam seus noventa anos. Decidiu se deleitar com uma virgem, como presente para si mesmo. Telefonou para Rosa Cabarcas. Mulher de olhos cru\u00e9is, dona do bordel mais famoso da cidade. Mesmo depois de 20 anos, ela reconhece a voz do \u201cvelho s\u00e1bio\u201d pedindo quase que o imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Fuigiu do amor a vida inteira. O jornalista negou a humanidade e os desejos da alma. De bordel em bordel fez sua cole\u00e7\u00e3o de putas, j\u00e1 eram 514. Aposentado pelo EL DI\u00c1RIO DE LA PAZ, e por lecionar gram\u00e1tica, ainda escrevia cr\u00f4nicas dominicais. Vivia na casa da fam\u00edlia, em uma cidade imagin\u00e1ria da Col\u00f4mbia.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocou a m\u00e3e em um pedestal. As outras mulheres em \u00e1guas rasas. Sempre pagou pelo sexo, mesmo que n\u00e3o fosse com prostituta. Nem a empregada Damiana havia escapado, literalmente, \u00e0 for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Arrumado para a ocasi\u00e3o, entrou no bordel pela porta dos fundos para encontrar a virgem de 14 anos. A cafetina havia suado para conseguir a prenda. A garota, que estava com medo, adormecida por uma bebida, aguardava no quarto. Sem saber o que fazer, o velho se despiu e contemplou-a nua na cama.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela primeira vez os cinco sentidos foram agu\u00e7ados sem a necessidade de sexo. No calor do quarto mequetrefe, ele adormece ao lado virgem. Cansada da pobreza e de abotoar bot\u00f5es na f\u00e1brica onde trabalhava, ainda dorme intocada.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalismoeficcao.com\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/PicsArt_12-16-11.42.56.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1007\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Cap\u00edtulo II<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Partiu antes que a menina acordasse. Ainda no clima daquele quarto, chegou em casa e perguntou \u00e0 Damiana, sua empregada, se ela j\u00e1 tinha se apaixonado. Ela confessa que sentiu paix\u00e3o por ele durante 22 anos. Ele nunca. Saber disso foi um empurr\u00e3o para terminar sua cr\u00f4nica dominical, acompanhada da carta de demiss\u00e3o. Aos poucos tomava no\u00e7\u00e3o do peso de sua idade e do tempo que parecia se esgotar. O velho j\u00e1 havia noivado, mas deixou Ximena Ortiz esperando na igreja. N\u00e3o a amava.<\/p>\n\n\n\n<p>Com meio s\u00e9culo de jornalismo, ele era quase um artefato arqueol\u00f3gico do EL DI\u00c1RIO DE LA PAZ. Entregou a cr\u00f4nica e a carta ao sair da festa surpresa preparada pelo pessoal da reda\u00e7\u00e3o, mas o diretor o convenceu a continuar no jornal. Ganhou um gato angor\u00e1 dos tip\u00f3grafos, para lhe fazer companhia. Velho, anacr\u00f4nico, negava os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos que chegavam na Col\u00f4mbia desde o correio a\u00e9reo, e agora com um bichano. O personagem ultrapassado estava constru\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o cora\u00e7\u00e3o ainda batia por Delgadina, como decidiu chamar a menina intocada do bordel. Depois de recusar o pedido de Rosa Cabarcas para encontrar a virgem, foi tomado pela inquieta\u00e7\u00e3o e ligou pedindo para v\u00ea-la. Desta vez a queria sem roupa e sem verniz. Uma idealiza\u00e7\u00e3o completa de pureza, assim como a bela adormecida esperando o beijo do amor verdadeiro.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalismoeficcao.com\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/PicsArt_12-16-11.43.37.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1008\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Cap\u00edtulo III<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Passou a decorar o quarto do bordel. Aos poucos construiu um cen\u00e1rio. Construiu tamb\u00e9m Delgadina em sua imagina\u00e7\u00e3o. Era mais real em sua mente do que em carne e osso. Modificava as fei\u00e7\u00f5es da menina conforme o humor oscilava.<\/p>\n\n\n\n<p>Transformou as cr\u00f4nicas dominicais em cartas de amor. Pela primeira vez, aos 90 anos, se conhecia melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO amor n\u00e3o \u00e9 um estado da alma e sim um signo do zod\u00edaco\u201d. Assim como<br>quem l\u00ea o horoscopo do outro, em um dos encontros, copiou as linhas da m\u00e3o da bela adormecida e deu para Sahibi ler.<\/p>\n\n\n\n<p>O presente de Natal foi uma bicicleta. A\u00ed a ficha caiu. Ela tinha uma vida, atravessava a cidade para trabalhar. N\u00e3o existia apenas naquela cama. Lidar com a autonomia do outro \u00e9 dif\u00edcil para os apaixonados.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalismoeficcao.com\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/PicsArt_12-16-11.44.17.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1009\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Cap\u00edtulo IV<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No meio de uma das noites, Rosa Cabarcas o acordou. Pediu ajuda. No quarto ao lado um homem havia sido assassinado \u00e0 punhaladas. Vestiram o morto. Ele estava assustado, mas a dona do bordel manteve a tranquilidade. Isso parecia ser frequente. Saiu de l\u00e1 e se meteu na reda\u00e7\u00e3o para escrever sobre o caso, sempre afastando as pistas reais.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabarcas sumiu por um m\u00eas. O paradeiro da amante ele n\u00e3o sabia. Procurou no hospital de caridade, na f\u00e1brica de bot\u00f5es e nas ruas. Nada. O amor havia comido suas roupas, suas cr\u00f4nicas, sua energia. N\u00e3o tomava mais banho, ficava ao lado do telefone o dia todo, a espera de not\u00edcias.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando elas voltaram ele foi, com l\u00e1grimas nos olhos, encontrar a menina. Mas ela estava mudada, com roupas e joias luxuosas. O corpo maior e mais harm\u00f4nico. N\u00e3o a reconheceu. Chamou as duas de putas e quebrou o quarto todo. Acreditava que Rosa vendera a virgindade da bela adormecida para outro. Foi embora, frustrado.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalismoeficcao.com\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/PicsArt_12-16-11.44.53.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1010\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Cap\u00edtulo V<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se afastou por um tempo, com a certeza de que a menina teria vendido a virgindade. Sofreu de amor at\u00e9 decidir ligar para Rosa, a cafetina, a fim de encontrar a menina.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 estava quase falido. Vendeu um dos quadros de sua finada m\u00e3e. Pagou a divida do quarto que destru\u00edra na noite de f\u00faria. Enfim, encontrou Delgadina. A virgindade n\u00e3o tinha sido roubada. As joias usadas na outra noite eram falsas. As roupas, emprestadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensava na morte mais do que nunca. Na beira dos 91 anos. Apostou com Rosa: quem morresse primeiro ficava com o bordel e a casa dele. Por fim, deixariam para a menina essa heran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Deitou na cama \u00e0 espera da morte. Mas l\u00e1 estava ele, o barco. Chegando no cais trazendo mais um ano, ou menos um. N\u00e3o morreu. Jovem por dentro, era o come\u00e7o dos cem anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma hist\u00f3ria para ler e reler. Um jornalista, ao completar 90 anos, decide dar-se de presente uma noite sensual. N\u00e3o uma brincadeira de sexo banal, num bordel qualquer. Mas, uma noite ao lado de uma uma virgem de 14 anos. Gabo remete o leitor, como sempre, a uma jornada de autoconhecimento. Talvez ele pr\u00f3prio tenha feito esse trajeto ao ler a Casa das belas adormecidas, de kawabata. Para os que est\u00e3o a envelhecer, vale a pena ler e reler esses livros, sa\u00eddos das mem\u00f3rias de dois ganhadores de Pr\u00eamios Nobel.<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":173,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16,11],"tags":[],"class_list":["post-171","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-folhetinsta","category-literatura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/171","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=171"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/171\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":813,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/171\/revisions\/813"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/173"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=171"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=171"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=171"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}