{"id":1217,"date":"2026-03-15T16:11:37","date_gmt":"2026-03-15T19:11:37","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=1217"},"modified":"2026-03-15T16:12:12","modified_gmt":"2026-03-15T19:12:12","slug":"o-agente-secreto-da-falta-de-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/jornalismo\/2026\/03\/15\/o-agente-secreto-da-falta-de-memoria\/","title":{"rendered":"O Agente Secreto da falta de mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"693\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/AGENTE-SECRETO-CAPA-693x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1220\" style=\"aspect-ratio:0.6767606274842978;width:1055px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/AGENTE-SECRETO-CAPA-693x1024.jpg 693w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/AGENTE-SECRETO-CAPA-203x300.jpg 203w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/AGENTE-SECRETO-CAPA.jpg 735w\" sizes=\"auto, (max-width: 693px) 100vw, 693px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong>O longa metragem \u201cO Agente Secreto\u201d \u00e9 o segundo filme brasileiro seguido a concorrer ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional. Al\u00e9m de estrear para o Brasil as categorias Melhor Dire\u00e7\u00e3o de Elenco e Melhor Ator, o \u00faltimo com Wagner Moura.\u00a0\u00a0Tamb\u00e9m retratando a ditadura, por\u00e9m agora por uma perspectiva alternativa e sutil, al\u00e9m de destacar a import\u00e2ncia da mem\u00f3ria e do trabalho de pesquisa.\u00a0Essa resenha se aprofunda um pouco nas entrelinhas do filme, enquanto explica algumas das refer\u00eancias e met\u00e1foras utilizadas.\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong>Cont\u00e9m\u00a0<em>spoilers!<\/em>\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Por Luiza\u00a0Zottis<\/em>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O filme \u201cO Agente Secreto\u201d de Kleber Mendon\u00e7a Filho \u00e9 mais fiel ao conceito que prop\u00f5e do que as expectativas de um filme linear no padr\u00e3o hollywoodiano. E esse \u00e9 o fator que o torna belo. O longa metragem acompanha a hist\u00f3ria de Marcelo (Wagner Moura), um professor universit\u00e1rio que apesar de n\u00e3o ter envolvimento pol\u00edtico direto com a ditadura, precisa fugir da persegui\u00e7\u00e3o dos militares na cidade de Recife, e sob nova identidade tenta de&nbsp;todas as formas&nbsp;conseguir um local seguro para criar o seu filho.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A ambienta\u00e7\u00e3o da ditadura militar (1977) \u00e9 sutil. Chamada no in\u00edcio do filme de \u201ctempo de muita pirra\u00e7a\u201d, nunca \u00e9 diretamente mencionada. Acontece no plano de fundo: a fuga de Marcelo, censuras e not\u00edcias falsas em jornais, retratos do ditador Geisel nas paredes e a corrup\u00e7\u00e3o quase impercept\u00edvel da pol\u00edcia. Logo, fica claro que n\u00e3o apenas Marcelo, mas quase todos ao seu redor tamb\u00e9m est\u00e3o fugindo dos militares.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Diversas refer\u00eancias e paralelos auxiliam a contar essa hist\u00f3ria. Por exemplo: As gatinhas Liza e Elis, que s\u00e3o grudadas no mesmo corpo, simbolizam a vida dupla dos personagens.\u202fOutro ponto um tanto inusitado \u00e9 a \u201cperna cabeluda\u201d. Os jornalistas de Recife na \u00e9poca precisavam encontrar maneiras subliminares de noticiar a viol\u00eancia policial, e por isso inventaram um personagem fict\u00edcio: A perna cabeluda e amputada que pulava sozinha e agredia grupos marginalizados. Kleber Mendon\u00e7a&nbsp;traz&nbsp;a figura da perna de modo literal, quase c\u00f4mico, e se mant\u00e9m como um ponto central na trama.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O dono dessa perna era um estudante de agronomia, subtende-se na trama que tamb\u00e9m foi morto pela ditadura militar. E\u2026\u00e9 isso. \u00c9 tudo que o filme mostra sobre, assim como diversos outros pontos como o soldado alem\u00e3o, Maria Aparecida dos Santos (m\u00e3e de Marcelo), o cad\u00e1ver no posto de gasolina\u2026 o filme deixa diversas pontas soltas que jamais s\u00e3o explicados ou aprofundados. Isso seria um defeito grotesco em qualquer outra obra cinematogr\u00e1fica, mas em \u201cO Agente Secreto\u201d \u00e9 o que torna tudo interessante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Esquecidos<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Diversos personagens e tramas s\u00e3o esquecidos. O tempo passa e n\u00e3o permite que ningu\u00e9m os carregue seja por documentos, not\u00edcias ou mem\u00f3rias. Quem \u00e9 o dono da perna cabeluda? Quem foi a m\u00e3e de Marcelo? Ningu\u00e9m conta, por tanto ningu\u00e9m sabe, por tanto ningu\u00e9m se lembra.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E esse mesmo destino cruel se repete com os personagens ativos da trama e em especial com o protagonista. Por vezes, no filme, o tempo corta para um per\u00edodo presente onde duas pesquisadoras est\u00e3o investigando por fitas e jornais da \u00e9poca a hist\u00f3ria de Marcelo e seus colegas que tamb\u00e9m fugiam da ditadura. Elas n\u00e3o conseguem todas as respostas, as fitas t\u00eam buracos, os jornais est\u00e3o censurados e a hist\u00f3ria permanece incompleta.\u202f\u00c9 a explica\u00e7\u00e3o para tantas pontas soltas no filme: a hist\u00f3ria dessas pessoas foi esquecida pelo tempo, n\u00e3o h\u00e1 registros, n\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o pr\u00f3prio filho de Marcelo, Fernando, confessa no final do longa n\u00e3o possuir mem\u00f3ria alguma de seu pai. Fernando \u00e9 capaz de se lembrar do filme que assistiu quando crian\u00e7a no cinema Boa Vista, o cl\u00e1ssico Tubar\u00e3o, mas n\u00e3o se lembra de Marcelo. Ele conta para uma das pesquisadoras sobre o filme, \u00e9 capaz de descrever o medo que teve de tubar\u00f5es naquela fase da inf\u00e2ncia e revela que o local onde trabalha no presente (um banco de doa\u00e7\u00e3o de sangue) foi constru\u00eddo no mesmo lugar que o cinema Boa Vista.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 uma met\u00e1fora interessante e que quase passa despercebida, apesar do banco de doa\u00e7\u00e3o ser a \u00faltima cena do filme. Caso Fernando n\u00e3o tivesse a lembran\u00e7a de assistir ao filme Tubar\u00e3o naquele mesmo local, ningu\u00e9m saberia que ali j\u00e1 foi um cinema. A exata mesma coisa acontece com os fugitivos da ditadura: sem ningu\u00e9m para&nbsp;lembr\u00e1-los, \u00e9 como se n\u00e3o tivessem existido.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa ideia de informa\u00e7\u00f5es faltando e mem\u00f3ria apagada se repete inclusive no&nbsp;cl\u00edmax&nbsp;do filme: H\u00e1 uma cena de persegui\u00e7\u00e3o, em que um homem na ditadura&nbsp;militar est\u00e1 seguindo Marcelo com inten\u00e7\u00e3o de&nbsp;mat\u00e1-lo, e o professor est\u00e1 se apressando em fugir. Ao inv\u00e9s de mostrar a cena completa, de ceder um momento de despedida para o personagem Marcelo, o que acontece \u00e9 um corte abrupto de volta para o tempo presente. Uma das pesquisadoras est\u00e1 lendo arquivos de jornais e encontra a foto de Marcelo, morto, embaixo de uma manchete que n\u00e3o diz verdades sobre o assassinato. \u00c9 assim que sabemos que o protagonista morreu, com uma hist\u00f3ria mutilada, sem cerim\u00f4nias e informa\u00e7\u00f5es t\u00e3o esburacadas quanto a perfura\u00e7\u00e3o da bala na cabe\u00e7a de Marcelo.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o comparar essa obra com o \u00faltimo ganhador de Melhor Filme Internacional do Oscar. \u201cAinda Estou Aqui\u201d tamb\u00e9m fala sobre a ditadura militar e sobre mem\u00f3ria, mas as \u00f3ticas s\u00e3o diferentes. Enquanto no filme de Walter Salles a mem\u00f3ria do desaparecido Rubens Paiva \u00e9 preservada por completo e a aus\u00eancia dele dita o tom da trama, \u201cO Agente Secreto\u201d \u00e9 sobre quem n\u00e3o foi lembrado.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Marcelo n\u00e3o era um comunista. N\u00e3o era um ativista. N\u00e3o era sequer envolvido em pol\u00edtica. Era um professor universit\u00e1rio, pesquisador, que junto com sua mulher se envolveu em uma confus\u00e3o com um empres\u00e1rio ao se recusar abandonar seu projeto de pesquisa e acabou na lista proibida dos militares. Sua esposa, F\u00e1tima, j\u00e1 est\u00e1 morta quando o filme come\u00e7a e apenas a conhecemos por flashbacks. Ao mesmo tempo, Marcelo passa o filme inteiro tentando evitar o mesmo destino que a companheira teve, apenas para depois de tantos esfor\u00e7os, encontr\u00e1-la.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Agente Secreto\u201d \u00e9 um filme excelente e muito cuidadoso. N\u00e3o tem medo de desafiar padr\u00f5es de roteiro para seguir uma metalinguagem incr\u00edvel sobre mem\u00f3ria e resist\u00eancia. \u00c9, mais uma vez, o Brasil provando que Hollywood t\u00eam muito o que aprender com nosso cinema.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><strong>\u202f<\/strong><strong>Luiza\u202fZottis<\/strong>\u202f\u00e9 estudante de Jornalismo na UEL, participa do Grupo Gabo de Pesquisa onde desenvolve estudos sobre \u201cMachado de Assis e suas cr\u00f4nicas jornal\u00edsticas\u201d\u202fe faz parte da equipe da revista\u202fJornalismo&amp;Fic\u00e7\u00e3o\u202fna Am\u00e9rica Latina.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O longa metragem \u201cO Agente Secreto\u201d \u00e9 o segundo filme brasileiro seguido a concorrer ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional. 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