{"id":1210,"date":"2025-11-06T17:03:22","date_gmt":"2025-11-06T20:03:22","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=1210"},"modified":"2025-11-06T17:03:22","modified_gmt":"2025-11-06T20:03:22","slug":"o-gosto-da-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/jornalismo\/2025\/11\/06\/o-gosto-da-guerra\/","title":{"rendered":"O gosto da guerra"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-06-at-15.09.19-819x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1211\" style=\"width:1055px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-06-at-15.09.19-819x1024.jpeg 819w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-06-at-15.09.19-240x300.jpeg 240w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-06-at-15.09.19-768x960.jpeg 768w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-06-at-15.09.19.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro transforma a guerra do Vietn\u00e3 em uma experi\u00eancia sensorial e humana, onde dor e esperan\u00e7a se misturam em cada relato. Mais que um registro hist\u00f3rico, o livro-reportagem<em>, O Gosto da Guerra,<\/em> \u00e9 um mergulho na ess\u00eancia humana diante do horror de um combate armado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Por Isadora Chanan<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>O Gosto da Guerra<\/em>, Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro se atreveu a explorar o conflito do Vietn\u00e3 (1955 a 1975), ocorrido entre Estados Unidos e o Vietn\u00e3 do Norte, apoiado pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, sob uma \u00f3tica \u00fanica, longe da an\u00e1lise geopol\u00edtica fria e distante. Ao inv\u00e9s de se perder em n\u00fameros e dados, ele mergulha na ess\u00eancia humana, na visceralidade do que \u00e9 viver a guerra. Ele, aos 33 anos, escolheu conhec\u00ea-la de perto e n\u00e3o apenas reportar sobre ela a quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. No livro-reportagem, publicado em 1968,&nbsp; fica claro que uma guerra n\u00e3o \u00e9 apenas uma sequ\u00eancia de batalhas; \u00e9 o cotidiano de pessoas consumidas pela dor, pelo medo, pela fome e pela desconfian\u00e7a. \u00c9 o gosto amargo de mentiras e da morte, mas tamb\u00e9m, o sabor da esperan\u00e7a, da resist\u00eancia e, talvez, de f\u00e9 em milagres.<\/p>\n\n\n\n<p>O t\u00edtulo \u00e9 significativo: o gosto da guerra n\u00e3o \u00e9 metaf\u00f3rico, \u00e9 literal. Hamilton, hoje com 90 anos, revelava esse gosto em sua escrita simples e direta, mas profunda. Ele n\u00e3o narrou apenas fatos, mas tamb\u00e9m os detalhes que fazem da experi\u00eancia da guerra algo muito mais visceral; sensorial do que poder\u00edamos imaginar apesar da dist\u00e2ncia e do tempo que nos separa aos eventos, os cheiros, as cores, as sensa\u00e7\u00f5es da humanidade e da destrui\u00e7\u00e3o. Cada um desses detalhes carrega um sabor pr\u00f3prio e, por mais paradoxal que pare\u00e7a, \u00e9 esse \u201csabor\u201d que o autor nos convida a experimentar com sua escrita.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra, em sua totalidade, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 composta pelas batalhas e confrontos. O rep\u00f3rter se permitiu olhar para o cotidiano daquelas pessoas, para o que acontecia fora dos campos de batalha, como as crian\u00e7as que circulavam em imundice, \u201cn\u00e3o deixa de ser tamb\u00e9m uma imagem da guerra\u201d (p. 21). Ele observa, com empatia e sensibilidade, as contradi\u00e7\u00f5es e os dilemas morais daqueles que, sem escolha, se veem envolvidos na guerra daqueles que a escolheram.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a guerra se torna tamb\u00e9m um campo de questionamentos sobre a moralidade, sobre os pecados e o perd\u00e3o, como \u201co catolicismo precisou ser adaptado ao Vietn\u00e3, onde \u2018mentir e roubar n\u00e3o \u00e9 pecado\u2019\u201d (p. 23). \u00c9 com essa sensibilidade que Ribeiro tratou a realidade da guerra. Como a guerra cria uma necessidade de repensar valores, esse \u00e9 um dos aspectos mais fascinantes do livro. Al\u00e9m da vis\u00e3o manique\u00edsta, h\u00e1 uma an\u00e1lise das complexidades e da ambiguidade moral que surgem quando se experimenta o gosto da guerra; f\u00edsica e psicol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao escrever sobre sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro tamb\u00e9m se torna um reflexo daquilo que a guerra faz com o ser humano. Ferido por uma mina terrestre, ele perdeu a perna, e ali ele poderia ter encerrado a reportagem que elaborava para a revista <em>Realidade<\/em>. Mas n\u00e3o, ao relatar o horror sem se deixar desumanizar, ele nos convida a questionar o que \u00e9 realmente viver em meio a uma guerra: n\u00e3o apenas as cenas de combate, mas a viv\u00eancia de um mundo onde a confian\u00e7a e a verdade se desfazem. Ele nos convida em <em>O Gosto da Guerra<\/em>, a repensar os horrores de um conflito armado, que n\u00e3o podem ser ignorados.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro nos faz analisar o milagre da guerra. \u00c9 um milagre em meio \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da humanidade a resili\u00eancia em n\u00e3o se perder completamente diante do caos. Para isso Z\u00e9 Hamilton conta com algumas figuras, Nguyen, int\u00e9rprete que sonhava em ser jornalista, por isso acompanhou o rep\u00f3rter durante a cobertura da guerra no Vietn\u00e3 junto com o fot\u00f3grafo japon\u00eas Shimamoto. Hamilton revela que chegou a desejar que o fot\u00f3grafo viesse trabalhar com ele na revista<em> Realidade<\/em>. Mas, Shimamoto morreu antes que isso pudesse acontecer. O milagre \u00e9 esse, a sobreviv\u00eancia da mem\u00f3ria, a possibilidade de contar a hist\u00f3ria, de fazer com que o sofrimento n\u00e3o seja esquecido, reproduzido e repetido.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final da leitura de <em>O Gosto da Guerra<\/em> a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que todo o horror que se vive em uma guerra acaba despertando a capacidade de empatia ou evidenciando a insensibilidade diante da viol\u00eancia. Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro n\u00e3o se limita a ser um observador da guerra, torna-se um contador da verdade. Seu olhar agu\u00e7ado de rep\u00f3rter mostra como ele viveu no inferno daquele tempo no Vietn\u00e3. Apesar disso, o livro-reportagem n\u00e3o demonstra \u00f3dio, o pr\u00edncipe dos rep\u00f3rteres escreve sobre o gosto de sobreviver a uma guerra.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Isadora Chanan<\/strong> \u00e9 estudante de Jornalismo na UEL, participa do Grupo Gabo de Pesquisa, com o projeto de IC: \u201cJornalismo liter\u00e1rio em <em>Gosto da Guerra<\/em>, de Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro\u201d e escreve para a Revista Jornalismo &amp; Fic\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro transforma a guerra do Vietn\u00e3 em uma experi\u00eancia sensorial e humana, onde dor e esperan\u00e7a se misturam em cada relato. Mais que um registro hist\u00f3rico, o livro-reportagem, O Gosto da Guerra, \u00e9 um mergulho na ess\u00eancia humana diante do horror de um combate armado. 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