{"id":1186,"date":"2025-09-26T15:55:51","date_gmt":"2025-09-26T18:55:51","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=1186"},"modified":"2025-09-26T15:55:51","modified_gmt":"2025-09-26T18:55:51","slug":"o-fascinio-e-a-ascensao-do-true-crime-como-genero-literario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/jornalismo\/2025\/09\/26\/o-fascinio-e-a-ascensao-do-true-crime-como-genero-literario\/","title":{"rendered":"O fasc\u00ednio (e a ascens\u00e3o) do true crime como g\u00eanero liter\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-24-at-20.27.11-1-819x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1189\" style=\"width:1062px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-24-at-20.27.11-1-819x1024.jpeg 819w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-24-at-20.27.11-1-240x300.jpeg 240w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-24-at-20.27.11-1-768x960.jpeg 768w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-24-at-20.27.11-1.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Imagem Tainara Gomes<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Mais do que registrar fatos, o true crime narra casos criminais de forma linear, dramatiza situa\u00e7\u00f5es e acrescenta um \u201cQ\u201d de mist\u00e9rio, um \u201cQ\u201d de literatura. De coadjuvante a protagonista, o true crime conquistou status de fen\u00f4meno cultural. O que antes se limitava a breves relatos de crimes na imprensa passou a alimentar a curiosidade e o fasc\u00ednio do p\u00fablico atual, transformando esse tipo de conte\u00fado em g\u00eanero.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Por Bela Garcia<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>De coadjuvante nas p\u00e1ginas dos jornais a protagonista de podcasts, s\u00e9ries e livros, o <em>true crime<\/em> conquistou status de fen\u00f4meno cultural. O que antes se limitava a breves relatos de crimes passou a alimentar a curiosidade e o fasc\u00ednio do p\u00fablico, transformando-se em g\u00eanero pr\u00f3prio e influenciou a cultura pop mundial nas d\u00e9cadas seguintes (Fran\u00e7a e Sim\u00f5es, 2016). Hoje, ocupa prateleiras inteiras em livrarias, domina os rankings de v\u00eddeos mais vistos e ganha espa\u00e7o fixo em grandes portais de not\u00edcias. Mais do que registrar fatos, o <em>true crime<\/em> narra casos criminais de forma linear, dramatiza situa\u00e7\u00f5es e acrescenta um \u201cQ\u201d de mist\u00e9rio, um \u201cQ\u201d de literatura.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o fasc\u00ednio por crimes reais n\u00e3o \u00e9 novidade. Not\u00edcias sobre investiga\u00e7\u00f5es e julgamentos sempre despertaram a curiosidade de leitores. O que mudou foi a forma de narrar. Hoje, o <em>true crime<\/em> \u00e9 mais amplo: deixou de ser apenas um registro factual para se transformar em narrativa, explorando a complexidade das hist\u00f3rias, o perfil psicol\u00f3gico dos envolvidos, as falhas do sistema de justi\u00e7a e at\u00e9 os impactos sociais de cada caso, a exemplo do podcast <em>Caf\u00e9 com Crime<\/em> (Zorovich, 2020). <\/p>\n\n\n\n<p>Antes as informa\u00e7\u00f5es sobre casos criminais eram apenas not\u00edcias r\u00e1pidas para saciar a curiosidade, mas tornaram-se motor do sucesso de diversos programas, filmes, perfis em redes sociais e, por vezes, assumem contornos sensacionalistas que priorizam o impacto emocional do p\u00fablico \u2014 um fen\u00f4meno que remete \u00e0 l\u00f3gica da espetaculariza\u00e7\u00e3o descrita por Guy Debord, ao observar a transforma\u00e7\u00e3o do real: &#8220;L\u00e1 onde o mundo real se converte em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motiva\u00e7\u00f5es eficientes de um comportamento hipn\u00f3tico&#8221; (Debord, 2005, p. 13).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a populariza\u00e7\u00e3o do g\u00eanero abriu espa\u00e7o para novas vozes, que discutem o tema em blogs, podcasts ou colunas especializadas. \u00c9 o caso da blogueira Ju Cassini, que acompanha o g\u00eanero de perto e compartilha suas impress\u00f5es com o p\u00fablico. Em entrevista concedida \u00e0 <em>Folha de S. Paulo<\/em>, ela refletiu sobre as raz\u00f5es que explicam o fasc\u00ednio coletivo. Para Ju, a curiosidade \u00e9 um dos principais motores para esse interesse: \u201cPrincipalmente porque vemos coisas absurdas que jamais pensar\u00edamos em fazer. Nos questionamos o que essa pessoa pensou, o que a levou a fazer isso. Essa quest\u00e3o psicol\u00f3gica \u00e9 bem interessante\u201d, afirmou. Ju tamb\u00e9m destacou que muitas pessoas recorrem ao g\u00eanero como forma de autoprote\u00e7\u00e3o. \u201cVoc\u00ea quer saber como poderia se proteger em uma situa\u00e7\u00e3o como aquela\u201d. (<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folhateen\/2024\/03\/por-que-sobrenatural-e-true-crime-fazem-tanto-sucesso-ju-cassini-explica.shtml\">Por que sobrenatural e true crime fazem tanto sucesso? &#8211; 12\/03\/2024 &#8211; Folhateen &#8211; Folha<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do crescimento recente, o marco do <em>true crime<\/em> remonta a 1966, com a publica\u00e7\u00e3o de <em>A Sangue Frio<\/em>, de Truman Capote (2021). O livro narra o brutal assassinato de uma fam\u00edlia no interior dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, mergulha na mente dos criminosos e no ambiente que os cercava. Capote n\u00e3o inventou a pr\u00e1tica de relatar crimes reais, mas revolucionou o g\u00eanero, mostrando que era poss\u00edvel combinar a densidade de um romance com a precis\u00e3o de uma reportagem investigativa \u2014 uma abordagem que inspirou o que hoje chamamos de <em>true crime<\/em> (Stott, 1991).<\/p>\n\n\n\n<p>O engajamento do p\u00fablico nesses conte\u00fados \u00e9 moldado pelos algoritmos, que priorizam materiais de alto impacto, como horror, trag\u00e9dias e viol\u00eancia (Bonn, 2014). Dessa forma, a ampla divulga\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica de casos criminais funciona como uma forma de manter a audi\u00eancia e explorar a curiosidade do p\u00fablico mediante especula\u00e7\u00f5es. Como confirma Adriana Cardoso Nogueira em <em>Viol\u00eancia nos telejornais: a realidade espetacularizada<\/em>: &#8220;[&#8230;] as an\u00e1lises morfol\u00f3gicas e de conte\u00fado realizadas indicam que a espetaculariza\u00e7\u00e3o da &#8216;realidade&#8217; n\u00e3o pode ser enfocada de forma isolada, pois as estrat\u00e9gias utilizadas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o baseiam-se na fragiliza\u00e7\u00e3o das inst\u00e2ncias de percep\u00e7\u00e3o dos espectadores. Entre essas estrat\u00e9gias encontram-se as imagens da viol\u00eancia quando existentes e os discursos vazios&#8221; (2000, p. 9).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas por que sentimos tanta atra\u00e7\u00e3o pelo lado sombrio da natureza humana? Por que acompanhamos com tanta aten\u00e7\u00e3o julgamentos, document\u00e1rios e livros que detalham crimes b\u00e1rbaros? Essas narrativas oferecem, ao mesmo tempo, seguran\u00e7a e desconforto: seguran\u00e7a porque estamos do lado de fora, observando; desconforto porque as hist\u00f3rias lembram que a viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o distante, mas parte do cotidiano \u2014 um cotidiano que, por vezes, escapa \u00e0 compreens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao transformar a viol\u00eancia em narrativa, o <em>true crime<\/em> nos oferece algo raro: a possibilidade de observar o lado obscuro da humanidade sem nos perdermos nele.<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n\n\n\n<p>BONN, Scott. <em>Why we love serial killers: the curious appeal of the world&#8217;s most savage murderers<\/em>. New York: Skyhorse Publishing, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>CAF\u00c9 COM CRIME. Apresenta\u00e7\u00e3o: Stephanie Zorovich. [S.l.]: Independente, 2020. Podcast. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/3PAHKTRZjox0zIRn8TCOmo\">https:\/\/open.spotify.com\/show\/3PAHKTRZjox0zIRn8TCOmo<\/a>. Acessado em: 20\/09\/2025<\/p>\n\n\n\n<p>CAPOTE, Truman. <em>A sangue frio<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, trad:S\u00e9rgio Flaksman, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>DEBORD, Guy. <em>A sociedade do espet\u00e1culo<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es Antip\u00e1ticas, 2005.<\/p>\n\n\n\n<p>FRAN\u00c7A, Vera; SIM\u00d5ES, Paula. <em>Curso b\u00e1sico de teorias da comunica\u00e7\u00e3o<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>NOGUEIRA, Adriana; CARDOSO. <em>Viol\u00eancia nos telejornais: a realidade espetacularizada<\/em>. 2000. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Multimeios) \u2013 Instituto de Artes, Unicamp, Campinas. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.repositorio.unicamp.br\/acervo\/detalhe\/222400\">https:\/\/www.repositorio.unicamp.br\/acervo\/detalhe\/222400<\/a> . Acessado em: 04\/07\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p>STOTT, William. <em>The Art of Fact: A Historical Anthology of Literary Journalism<\/em>. New York: The Modern Library, 1991.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Bela Garcia<\/strong> \u00e9 estudante de Jornalismo na UEL, participou do Grupo Gabo de Pesquisa, com o projeto de IC: \u201cA Sangue Frio de Truman Capote &#8211; o True Crime como Jornalismo Liter\u00e1rio\u201d e faz parte da reda\u00e7\u00e3o da Revista Jornalismo &amp; Fic\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tainara Gomes<\/strong> \u00e9 estudante do curso Design Gr\u00e1fico da UEL. Estagi\u00e1ria respons\u00e1vel pelas redes sociais e toda comunica\u00e7\u00e3o tanto digital quanto f\u00edsica do sistema de bibliotecas da UEL. Participa do Grupo Gabo de Pesquisa e da revista Jornalismo e Fic\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais do que registrar fatos, o true crime narra casos criminais de forma linear, dramatiza situa\u00e7\u00f5es e acrescenta um \u201cQ\u201d de mist\u00e9rio, um \u201cQ\u201d de literatura. De coadjuvante a protagonista, o true crime conquistou status de fen\u00f4meno cultural. 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