{"id":1173,"date":"2025-09-16T18:38:44","date_gmt":"2025-09-16T21:38:44","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=1173"},"modified":"2025-09-16T18:42:08","modified_gmt":"2025-09-16T21:42:08","slug":"mulher-dos-olhos-dagua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/jornalismo\/2025\/09\/16\/mulher-dos-olhos-dagua\/","title":{"rendered":"Mulher dos olhos d\u2019\u00e1gua\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-16-at-18.13.06-819x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1174\" style=\"width:1055px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-16-at-18.13.06-819x1024.jpeg 819w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-16-at-18.13.06-240x300.jpeg 240w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-16-at-18.13.06-768x960.jpeg 768w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-16-at-18.13.06.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem Tainara Gomes<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>A voz de minha bisav\u00f3&nbsp;<br>ecoou crian\u00e7a&nbsp;<br>nos por\u00f5es do navio.&nbsp;<br>ecoou lamentos&nbsp;<br>de uma inf\u00e2ncia perdida.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>A voz de minha av\u00f3&nbsp;<br>ecoou obedi\u00eancia&nbsp;<br>aos brancos-donos de tudo.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>A voz de minha m\u00e3e&nbsp;<br>ecoou baixinho revolta&nbsp;<br>no fundo das cozinhas alheias&nbsp;<br>debaixo das trouxas&nbsp;<br>roupagens sujas dos brancos&nbsp;<br>pelo caminho empoeirado&nbsp;<br>rumo \u00e0 favela.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>A minha voz ainda&nbsp;<br>ecoa versos perplexos&nbsp;<br>com rimas de sangue&nbsp;<br>e&nbsp;<br>fome.&nbsp;<\/strong><br>&nbsp;<br><strong>A voz de minha filha&nbsp;<br>recolhe todas as nossas vozes&nbsp;<br>recolhe em si&nbsp;<br>as vozes mudas caladas&nbsp;<br>engasgadas nas gargantas.&nbsp;<br>A voz de minha filha&nbsp;<br>recolhe em si&nbsp;<br>a fala e o ato.&nbsp;<br>O ontem \u2013 o hoje \u2013 o agora.&nbsp;<br>Na voz de minha filha&nbsp;<br>se far\u00e1 ouvir a resson\u00e2ncia&nbsp;<br>o eco da vida-liberdade.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>&#8211; Vozes-Mulheres, por Concei\u00e7\u00e3o Evaristo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Por Luiza Zottis<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Quando Milton Nascimento escreveu \u201c\u00c9 preciso ter for\u00e7a, \u00e9 preciso ter ra\u00e7a, \u00e9 preciso ter gana sempre. Quem traz no corpo a marca, Maria, Maria, mistura a dor e alegria.\u201d, na can\u00e7\u00e3o <em>Maria, Maria,<\/em> ele poderia muito bem estar falando de uma Maria em espec\u00edfico, que com o poder de suas palavras, misturou mis\u00e9ria e orgulho, injusti\u00e7a e beleza, mostrou ao mundo essa dualidade.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Maria da Concei\u00e7\u00e3o Evaristo de Brito nasceu em 1946, em uma periferia de Belo Horizonte. Uma mulher negra de Minas Gerais conquistou a literatura internacional com seus textos sens\u00edveis, expositivos e important\u00edssimos socialmente.&nbsp; Formada em Letras pela UFRJ e doutora em literatura comparada na UFF, tornou-se uma escritora renomada no cen\u00e1rio liter\u00e1rio atual. Seus livros j\u00e1 s\u00e3o estudados academicamente e considerados relevantes para a literatura nacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De origem humilde, Concei\u00e7\u00e3o teve desde crian\u00e7a o fantasma da pobreza assombrando-a. Gosta de dizer que n\u00e3o cresceu rodeada de livros, precisou aprender, muito nova, colher as palavras. Em 1958, no final do prim\u00e1rio, ganhou seu primeiro pr\u00eamio de literatura em uma competi\u00e7\u00e3o escolar, com o t\u00edtulo \u201cPor que me orgulho de ser brasileira\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Concei\u00e7\u00e3o se mudou para o Rio de Janeiro na d\u00e9cada de 70, em busca de oportunidades de trabalho, estudo e principalmente de literatura. Foi apenas em meados dos anos 90 que passou a publicar textos na s\u00e9rie \u201cCadernos Negros\u201d do Grupo <em>Quilombhoje<\/em>. Desde l\u00e1, se destacou por uma postura sens\u00edvel e cr\u00edtica ao discorrer sobre a hist\u00f3ria do povo negro brasileiro. Seus manuscritos publicados possu\u00edam um olhar muito cotidiano, uma aten\u00e7\u00e3o ao sofrimento, ao racismo e a pobreza que gritava nas pequenas coisas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEscriviv\u00eancia\u201d foi o termo inventado por Concei\u00e7\u00e3o Evaristo para definir seu modo de escrita. Acontecimentos comuns do dia-a-dia, marcados pelas mem\u00f3rias e ang\u00fastias da popula\u00e7\u00e3o racializada.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2003, o romance <em>Ponci\u00e1 Vic\u00eancio <\/em>foi publicado como seu primeiro livro. Retrata a trajet\u00f3ria de uma mulher chamada Ponci\u00e1 das mem\u00f3rias de sua inf\u00e2ncia at\u00e9 as dificuldades da vida adulta, vinda de uma fam\u00edlia descendente de escravos e tentando a sorte de uma vida melhor na cidade grande. Uma narrativa n\u00e3o-linear, marcada por presente e passado, imediatamente reconhecida pelo p\u00fablico. A dor do racismo, da pobreza e da heran\u00e7a escravista atuam como fantasmas narrativos, marcam presen\u00e7a at\u00e9 nos menores detalhes. At\u00e9 os dias de hoje, esse livro \u00e9 estudado como fonte para artigos e ensaios acad\u00eamicos.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outra obra marcante em sua carreira foi <em>Olhos D\u2019\u00c1gua<\/em>. O livro \u00e9 uma colet\u00e2nea de contos, tamb\u00e9m em maioria sobre viv\u00eancias negras e perif\u00e9ricas, apelam para um lado emocional e inerentemente humano na constru\u00e7\u00e3o narrativa. A maioria dos t\u00edtulos encontrados no livro s\u00e3o nomes pr\u00f3prios, como \u201cAna Davenga\u201d, usados para gerar identifica\u00e7\u00e3o. Concei\u00e7\u00e3o tirou at\u00e9 mesmo de seu pr\u00f3prio nome, \u201cMaria\u201d, para nomear um de seus contos mais fortes e intensos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E, claro, o pr\u00f3prio conto que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro, os <em>Olhos D\u2019\u00c1gua<\/em>. O eu-l\u00edrico relembra mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia, enquanto tenta descobrir qual a cor dos olhos de sua m\u00e3e. Momentos de alegria entre m\u00e3e e filha mesmo em momentos de dificuldade se atrelam com a agonia do eu-l\u00edrico em n\u00e3o se lembrar dos olhos da pr\u00f3pria m\u00e3e, que ao final do conto, conclui que eram <em>Olhos D\u2019\u00c1gua<\/em>. Molhados por l\u00e1grimas e chuva, por tristeza e alegria, e conclui esse ciclo com a sua pr\u00f3pria filha, que lhe faz a exata mesma pergunta sobre a cor dos olhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esses foram os primeiros sucessos de muitos, Evaristo continuou escrevendo e estudando lingu\u00edstica e literatura, publicou diversos romances, contos e poesias ao longo dos anos. Seu modo de escrita foi t\u00e3o bem reconhecido, que em 2019 levou a nomea\u00e7\u00e3o de Personalidade Liter\u00e1ria, pelo Pr\u00eamio Jabuti.\u202f\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEscrevo. Deponho. Um depoimento em que as imagens se confundem, um eu-agora a puxar um eu-menina pelas ruas de Belo Horizonte.\u201d Concluiu Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, sobre si mesma, em uma declara\u00e7\u00e3o para o portal de literatura afro-brasileira, \u201cLiterafro\u201d, da UFMG. \u202f&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E como na can\u00e7\u00e3o atemporal de Milton Nascimento, Concei\u00e7\u00e3o \u00e9 uma Maria que representa diversas outras Marias do Brasil. \u00c9 uma inspira\u00e7\u00e3o direta para jovens meninas, negras, pobres, de todo tipo, que tem um sonho e uma curiosidade pela literatura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Concei\u00e7\u00e3o se tornou uma inspira\u00e7\u00e3o para a comunidade liter\u00e1ria latino-americana. Uma autora que provou as dores do racismo, da pobreza e da mis\u00e9ria desde crian\u00e7a, e transformou todo esse amargor em arte. Ela denuncia e critica a sociedade em suas obras, sem deixar de lado a emo\u00e7\u00e3o, a humanidade e os detalhes que outras mentes deixariam passar em branco. Evaristo \u00e9 uma mulher atenta e inspiradora, capaz de converter dores em belezas e belezas em dores apenas com um papel e uma caneta.\u202f&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><em>&nbsp;<\/em><strong>Luiza Zottis<\/strong> \u00e9 estudante de Jornalismo na UEL, participa do Grupo Gabo de Pesquisa onde desenvolve estudos sobre \u201cMachado de Assis e suas cr\u00f4nicas jornal\u00edsticas\u201d e faz parte da equipe da revista Jornalismo&amp;Fic\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tainara Gomes<\/strong> \u00e9 estudante do curso Design Gr\u00e1fico da UEL. Estagi\u00e1ria respons\u00e1vel pelas redes sociais e toda comunica\u00e7\u00e3o tanto digital quanto f\u00edsica do sistema de bibliotecas da UEL. Participa do Grupo Gabo de Pesquisa e da revista Jornalismo e Fic\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A voz de minha bisav\u00f3&nbsp;ecoou crian\u00e7a&nbsp;nos por\u00f5es do navio.&nbsp;ecoou lamentos&nbsp;de uma inf\u00e2ncia perdida.&nbsp; A voz de minha av\u00f3&nbsp;ecoou obedi\u00eancia&nbsp;aos brancos-donos de tudo.&nbsp; A voz de minha m\u00e3e&nbsp;ecoou baixinho revolta&nbsp;no fundo das cozinhas alheias&nbsp;debaixo das trouxas&nbsp;roupagens sujas dos brancos&nbsp;pelo caminho empoeirado&nbsp;rumo \u00e0 favela.&nbsp; A minha voz ainda&nbsp;ecoa versos perplexos&nbsp;com rimas de sangue&nbsp;e&nbsp;fome.&nbsp;&nbsp;A voz de minha filha&nbsp;recolhe [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":1174,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,29],"tags":[],"class_list":["post-1173","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-jornalismo","category-perfil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1173","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1173"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1173\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1191,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1173\/revisions\/1191"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1174"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1173"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1173"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}