{"id":1123,"date":"2025-07-18T14:53:46","date_gmt":"2025-07-18T17:53:46","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=1123"},"modified":"2025-07-18T14:53:47","modified_gmt":"2025-07-18T17:53:47","slug":"labubu-pequeno-prazer-para-grandes-crises","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/moda\/2025\/07\/18\/labubu-pequeno-prazer-para-grandes-crises\/","title":{"rendered":"Labubu: pequeno prazer para grandes crises"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1008\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-07-17-as-20.53.12_5419d418-1008x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1124\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-07-17-as-20.53.12_5419d418-1008x1024.jpg 1008w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-07-17-as-20.53.12_5419d418-295x300.jpg 295w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-07-17-as-20.53.12_5419d418-768x781.jpg 768w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-07-17-as-20.53.12_5419d418.jpg 1290w\" sizes=\"auto, (max-width: 1008px) 100vw, 1008px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 brinquedo: Labubu se transforma em senha est\u00e9tica de pertencimento num tempo onde mostrar importa mais do que ser.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Por Rebeca Godoi<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 primeira vista, os Labubus parecem uma moda passageira, mas revelam um retrato mais profundo e inquietante da juventude contempor\u00e2nea, marcada pela ansiedade, pelo consumo simb\u00f3lico e pela busca constante por pertencimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Criados pelo artista Kasing Lung, em parceria com a marca chinesa de colecion\u00e1veis POP MART, os Labubus fazem parte do universo da <em>art toy<\/em> (arte em brinquedo). Com fei\u00e7\u00f5es amb\u00edguas&nbsp; entre o fofo e o sombrio, a est\u00e9tica do Labubu mistura nostalgia, estranhamento e delicadeza. Vendidos em <em>blind boxes<\/em> (caixas-surpresa) onde o comprador n\u00e3o sabe qual vers\u00e3o est\u00e1 levando, esses bonecos de vinil ultrapassaram o nicho de colecionadores e se tornaram um fen\u00f4meno cultural e comercial, especialmente entre jovens da Gera\u00e7\u00e3o Z (1995 em diante).<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00fanico Labubu custa, em m\u00e9dia, entre R$ 120 e R$ 180 no Brasil, podendo ultrapassar os R$ 500 em edi\u00e7\u00f5es raras. Em grupos de revenda, os pre\u00e7os alcan\u00e7am facilmente R$ 800 ou mais, dependendo da exclusividade. Ainda assim, comparado a roupas de grife, t\u00eanis de edi\u00e7\u00e3o limitada ou smartphones de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, o Labubu permanece em uma faixa de pre\u00e7o que o torna um luxo vi\u00e1vel, e \u00e9 justamente a\u00ed que reside seu apelo.<\/p>\n\n\n\n<p>O comportamento de consumir objetos pequenos, simb\u00f3licos e relativamente acess\u00edveis em tempos de crise \u00e9 conhecido como efeito batom (<em>lipstick effect<\/em>). Conceito popularizado por Leonard Lauder, presidente da Est\u00e9e Lauder, ap\u00f3s observar que a venda de batons aumentava em tempos de recess\u00e3o (Lauder, 2001).<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisas posteriores refor\u00e7am esse padr\u00e3o. De acordo com Hill, Stephens e Singh, &nbsp;\u201cem tempos de instabilidade econ\u00f4mica, os consumidores tendem a substituir compras caras por pequenos prazeres que geram sensa\u00e7\u00e3o de controle e autoestima\u201d ( 2012, p. 458). Ou seja, em vez de uma casa, um carro ou uma viagem, compra-se um batom\u2026ou um Labubu.<\/p>\n\n\n\n<p>O consumo Labubus n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00fatil quanto parece. Em um mundo marcado por frustra\u00e7\u00f5es e incertezas, essas figuras se tornam ref\u00fagios afetivos e marcadores sociais. Como afirma Bauman, \u201co consumo passou a ser o principal meio de afirma\u00e7\u00e3o social e individual\u201d (2001, p. 88). Assim, o pequeno objeto se transforma em um s\u00edmbolo de gosto, sensibilidade est\u00e9tica e inser\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 uma armadilha nesse processo. Segundo Lipovetsky \u201cna era do hiperconsumo, o indiv\u00edduo \u00e9 livre para consumir, mas prisioneiro da obriga\u00e7\u00e3o de se exibir\u201d (1989 p. 62). O que come\u00e7a como express\u00e3o pessoal logo se torna uma performance coletiva, refor\u00e7ada pelas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Falamos de moda como se fosse sobre estilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, muitas vezes, trata-se de medo: medo de estar por fora, de n\u00e3o ser notado, de desaparecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Labubus, como muitos outros objetos \u201cda trend\u201d, funcionam como passaportes visuais de pertencimento. Como previa Vinken (2005, p. 35) \u201ca grife vis\u00edvel, exibida externamente, tornou-se o oposto do estilo individualizado: em vez disso, confirma uma coletividade uniforme latente\u2026 A mulher Chanel n\u00e3o quer mostrar seu pr\u00f3prio gosto, ela quer pertencer\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, o desejo de autenticidade frequentemente se transforma em uma corrida pela valida\u00e7\u00e3o externa. A juventude veste, consome e posta os mesmos s\u00edmbolos, n\u00e3o necessariamente porque gosta deles, mas porque tem medo de n\u00e3o pertencer.<\/p>\n\n\n\n<p>E, nesse movimento, a juventude repete, \u00e0s vezes sem perceber, os mesmos c\u00f3digos, os mesmos gestos e os mesmos s\u00edmbolos de status, numa tentativa constante de se manter vis\u00edvel em uma multid\u00e3o ruidosa.<\/p>\n\n\n\n<p>z mais de 90% dos brasileiros ainda sonham com a casa pr\u00f3pria, mas apenas 2% dos jovens, entre 16 e 34 anos, conseguiram conquistar esse objetivo. O carro se tornou um bem inalcan\u00e7\u00e1vel. A faculdade j\u00e1 n\u00e3o garante estabilidade. E o futuro se tornou um campo minado.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste cen\u00e1rio, objetos como os Labubus representam uma forma de substitui\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica das grandes conquistas materiais. Como afirma McCracken, os bens de consumo s\u00e3o respons\u00e1veis por \u201ctransportar significados culturais para o consumidor\u201d (1988 p. 71), funcionando como formas de express\u00e3o de identidade e status. O fen\u00f4meno dos Labubus sintetiza uma realidade delicada: a de uma gera\u00e7\u00e3o frustrada por n\u00e3o poder consumir as grandes conquistas da vida adulta e que tenta encontrar al\u00edvio, identidade e pertencimento em pequenos s\u00edmbolos est\u00e9ticos e emocionais que cabem literalmente em seus bolsos.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles n\u00e3o s\u00e3o apenas brinquedos. Eles representam mensagens silenciosas:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu entendo a trend.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu tamb\u00e9m t\u00f4 cansado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu s\u00f3 queria me sentir parte de alguma coisa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E, no fim, talvez seja isso que os Labubus simbolizam: a tentativa de parecer bem, pra n\u00e3o ter que admitir que estamos todos exaustos de toda essa performance de apar\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n\n\n\n<p>BAUMAN, Zygmunt. <em>Modernidade l\u00edquida<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>HILL, Ronald P.; STEPHENS, Debra L.; SINGH, Jatinder. The lipstick effect in tough economic times: Buying beauty to counter stress. <em>Journal of Retailing<\/em>, v. 88, n. 4, p. 457\u2013466, 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>LAUDER, Leonard. <em>The. Lipstick Indicator Est\u00e9e Lauder Companies<\/em>, 2001. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.elcompanies.com\/en\/news-and-media\/newsroom\">https:\/\/www.elcompanies.com\/en\/news-and-media\/newsroom<\/a>. Acesso em: 8 jul. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>LIPOVETSKY, Gilles. <em>O imp\u00e9rio do ef\u00eamero: a moda e seu destino nas sociedades modernas<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1989.<\/p>\n\n\n\n<p>MCCRACKEN, Grant. <em>Culture and Consumption: New Approaches to the Symbolic Character of Consumer Goods and Activities<\/em>. Bloomington: Indiana University Press, 1988.<\/p>\n\n\n\n<p>SIMMEL, Georg. Filosofia da moda. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>VINKEN, Barbara. Fashion Zeitgeist: Trends and Cycles in the Fashion System. New York: Berg Publishers, 2005.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Rebeca Godoi<\/strong> \u00e9 estudante do curso Design de Moda da UEL, empres\u00e1ria na \u00e1rea, participa do grupo gabo de pesquisa e \u00e9 respons\u00e1vel pela coluna de Moda da revista Jornalismo &amp; fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 brinquedo: Labubu se transforma em senha est\u00e9tica de pertencimento num tempo onde mostrar importa mais do que ser. 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