{"id":1100,"date":"2025-06-13T15:17:10","date_gmt":"2025-06-13T18:17:10","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=1100"},"modified":"2025-06-13T15:17:12","modified_gmt":"2025-06-13T18:17:12","slug":"governo-de-milei-ameaca-sepultar-o-direito-a-memoria-na-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/jornalismo\/2025\/06\/13\/governo-de-milei-ameaca-sepultar-o-direito-a-memoria-na-argentina\/","title":{"rendered":"Governo de Milei amea\u00e7a sepultar o direito \u00e0 mem\u00f3ria na Argentina"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-13-as-13.00.30_0e009dce-819x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1101\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-13-as-13.00.30_0e009dce-819x1024.jpg 819w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-13-as-13.00.30_0e009dce-240x300.jpg 240w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-13-as-13.00.30_0e009dce-768x960.jpg 768w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-06-13-as-13.00.30_0e009dce.jpg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Ningu\u00e9m acorda um pa\u00eds que ainda conversa com seus mortos. Na Argentina, o sil\u00eancio tem sotaque, e a hist\u00f3ria, ossadas. O vento do outono passa sobre os len\u00e7os brancos pintados no ch\u00e3o da Plaza de Mayo. H\u00e1 quem os veja como simples marcas tur\u00edsticas, quase decorativas, como se a mem\u00f3ria fosse um souvenir. Mas quem escuta com aten\u00e7\u00e3o sabe: aqueles tra\u00e7os s\u00e3o vozes, e vozes n\u00e3o se apagam com decretos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Por Karine Siqueira<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Durante a ditadura militar argentina, entre 1976 e 1983, ao menos 30 mil pessoas desapareceram. Os militares chamaram isso de \u201creorganiza\u00e7\u00e3o nacional\u201d. Tom\u00e1s Eloy Mart\u00ednez, jornalista e escritor, chamou de <strong>Purgat\u00f3rio<\/strong> \u2014 o espa\u00e7o entre c\u00e9u e inferno, o lugar onde n\u00e3o se vive, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se morre.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quarenta anos depois, quem ocupa o palanque \u00e9 Javier Milei, um economista e professor que se apresenta como libertador do pa\u00eds. Seu discurso \u00e9 sobre \u201ccorrigir a vis\u00e3o distorcida da hist\u00f3ria\u201d, e em suas a\u00e7\u00f5es isso se concretiza em reduzir minist\u00e9rios, desmontar pol\u00edticas p\u00fablicas, privatizar empresas estatais e transformar uma moto-serra em s\u00edmbolo de poder. A vice-presidente Victoria Villarruel, herdeira direta do discurso militarista, afirma que o que houve no pa\u00eds foi \u201cuma guerra contra o comunismo\u201d, em que \u201cambos os lados cometeram excessos\u201d. H\u00e1 algo assustadoramente familiar nesse revisionismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse processo, os alvos se repetem: a Secretaria de Direitos Humanos foi rebaixada a subsecretaria; o Museo Sitio de Memoria ESMA, onde funcionou um dos maiores centros clandestinos de deten\u00e7\u00e3o da ditadura, sofre cortes e amea\u00e7a de esvaziamento. O Banco Nacional de Dados Gen\u00e9ticos, primordial para identificar filhos de desaparecidos que foram adotados ilegalmente, tamb\u00e9m foi mutilado. Ao todo, mais de 400 trabalhadores de institui\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 mem\u00f3ria foram demitidos, como se apagar o passado fosse t\u00e3o urgente quanto os cortes or\u00e7ament\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>As Abuelas de Plaza de Mayo, mulheres que aprenderam a desafiar generais com um len\u00e7o branco, s\u00edmbolo dos filhos detidos e desaparecidos durante o regime militar, carregam a dor de terem perdido duas gera\u00e7\u00f5es, agora enfrentam um inimigo mais sutil: a banaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na ditadura, chamavam de \u201csubversivos\u201d at\u00e9 crian\u00e7as nascidas em cativeiro, hoje, chamam de \u201cgastos ideol\u00f3gicos\u201d os programas que tentam encontrar essas mesmas crian\u00e7as. A Argentina atual convive com o assombro de ver a hist\u00f3ria tratada como entulho, como se as m\u00e3es, os netos, os arquivos e os ossos que ainda esperam por nome fossem um luxo que o mercado n\u00e3o pode mais sustentar.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra contra a mem\u00f3ria n\u00e3o caminha sozinha: a economia tamb\u00e9m sangra. Em 2024, no primeiro ano de mandato de Milei, a moeda argentina foi desvalorizada em 54%, a infla\u00e7\u00e3o chegou a 118%, e o n\u00famero de pessoas abaixo da linha da pobreza alcan\u00e7ava 38% da popula\u00e7\u00e3o conforme dados do Instituto Nacional de Estat\u00edsticas e Censos (INDEC).<\/p>\n\n\n\n<p>O <strong>Purgat\u00f3rio,<\/strong> de Tom\u00e1s Eloy Mart\u00ednez \u00e9 o lugar onde se espera por um veredito, e talvez seja exatamente nele onde resistem a lembran\u00e7a e o esquecimento, entre a ESMA e o mercado, entre a dor e o lucro. S\u00f3 n\u00e3o se enganem: o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas o passado, \u00e9 o direito a um futuro com mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong>Karine Siqueira <\/strong>\u00e9 estudante de Jornalismo na UEL, participa da Revista Jornalismo &amp; Fic\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina e desenvolve, no Grupo Gabo de Pesquisa, o projeto de conclus\u00e3o de curso: \u201cJornalismo Liter\u00e1rio como ferramenta de den\u00fancia no romance <em>Purgat\u00f3rio<\/em> de Tom\u00e1s Eloy Martinez&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m acorda um pa\u00eds que ainda conversa com seus mortos. Na Argentina, o sil\u00eancio tem sotaque, e a hist\u00f3ria, ossadas. O vento do outono passa sobre os len\u00e7os brancos pintados no ch\u00e3o da Plaza de Mayo. 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