{"id":1078,"date":"2025-05-21T21:15:43","date_gmt":"2025-05-22T00:15:43","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/?p=1078"},"modified":"2025-05-22T22:53:08","modified_gmt":"2025-05-23T01:53:08","slug":"eu-autista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/saude\/2025\/05\/21\/eu-autista\/","title":{"rendered":"Eu, autista"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"626\" height=\"626\" src=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-05-21-as-19.47.42_e86b7e0a.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1079\" srcset=\"https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-05-21-as-19.47.42_e86b7e0a.jpg 626w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-05-21-as-19.47.42_e86b7e0a-300x300.jpg 300w, https:\/\/sites.uel.br\/jornalismoeficcao\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-05-21-as-19.47.42_e86b7e0a-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 626px) 100vw, 626px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Descobrir-se autista j\u00e1 na vida adulta traz uma dose esperada de surpresa. Mas tamb\u00e9m traz respostas e certezas para o que antes era incompreendido. Acima de tudo, refor\u00e7a que somos \u00fanicos, plurais e humanos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>por Juliano Quirino<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Receber o diagn\u00f3stico de uma condi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica que afeta o desenvolvimento psicossocial e motor n\u00e3o \u00e9 simples. Ao mesmo tempo que oferece esclarecimentos sobre uma s\u00e9rie de comportamentos antes incompreendidos, tamb\u00e9m provoca transforma\u00e7\u00f5es profundas na vida de seu portador. Certamente n\u00e3o fui exce\u00e7\u00e3o ao ter a confirma\u00e7\u00e3o, aos 20 anos, de que era autista. Estava no n\u00edvel 1 de suporte do Transtorno do Espectro Autista (TEA).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Lembro-me bem daquela noite fria de outono, quando soube das conclus\u00f5es dos testes que fazia j\u00e1 h\u00e1 alguns meses. Tomado por uma forte sensa\u00e7\u00e3o de esgotamento e lotado de trabalhos acad\u00eamicos, vivia um dos piores momentos da minha trajet\u00f3ria e ansiava por qualquer orienta\u00e7\u00e3o profissional que me ajudasse a enfrentar aquele bloqueio. Seguindo protocolo, o neuropsic\u00f3logo, encarregado de meu caso, apresentou\u00a0para minha m\u00e3e um relat\u00f3rio de toda a avalia\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s o t\u00e9rmino da sess\u00e3o, minha m\u00e3e me telefonou. A not\u00edcia confirmava o que ela, meu pai e tantos que acompanharam meu crescimento j\u00e1 suspeitavam: o apontamento de um quadro de autismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">No momento, confesso ter sentido frustra\u00e7\u00e3o e raiva. As conversas com minha psic\u00f3loga de ent\u00e3o me levavam a acreditar que seria diagnosticado com Transtorno de Personalidade Lim\u00edtrofe (ou \u201cborderline\u201d, como \u00e9 mais conhecido). De acordo com o <a href=\"https:\/\/www2.hapvida.com.br\/blog-da-saude\/conheca-a-sindrome-de-borderline#:~:text=O%20transtorno%20de%20personalidade%20borderline,aumenta%20o%20risco%20de%20suic%C3%ADdio.\">texto do blog de sa\u00fade Hapvida,<\/a> este dist\u00farbio se caracteriza por \u201cum padr\u00e3o de instabilidade cont\u00ednua no humor, no comportamento, autoimagem e funcionamento\u201d. Quase cheguei a contestar os resultados e, pasmem, a compet\u00eancia do profissional que me avaliou. Por\u00e9m, estava enganado. Minhas experi\u00eancias de vida, da primeira inf\u00e2ncia at\u00e9 a maturidade, eram a maior prova de que as conclus\u00f5es do relat\u00f3rio estavam corretas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Segundo a 5\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico de Transtornos Mentais (DSM-5), o Transtorno do Espectro Autista \u00e9 caracterizado por:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>dificuldades na comunica\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o social (tanto nas linguagens verbal e n\u00e3o-verbal, como na reciprocidade emocional);<\/li>\n\n\n\n<li>padr\u00f5es restritos e repetitivos de comportamento, sob a forma de movimentos cont\u00ednuos (tamb\u00e9m chamados de \u201cestereotipias\u201d);<\/li>\n\n\n\n<li>rotinas fixas ou interesses profundos por determinados assuntos (denominados \u201chiperfocos\u201d);<\/li>\n\n\n\n<li>sensibilidade baixa ou alta a est\u00edmulos.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Tra\u00e7os do espectro autista em meu comportamento eram vis\u00edveis desde cedo. Era comum que alinhar ou girar objetos, como tampas de panela, fosse o suficiente para conquistar o brilho de meu olhar. Nem preciso descrever com detalhes o \u00eaxtase que senti quando ganhei um pi\u00e3o met\u00e1lico com listras coloridas de meu av\u00f4 paterno. Ou quando fui contemplado por dezenas de cata-ventos, feitos especialmente por meu av\u00f4 materno para decorar uma de minhas festas de anivers\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A inf\u00e2ncia tamb\u00e9m foi terreno para interesses um tanto incomuns. Enquanto a maioria das crian\u00e7as tinha obsess\u00f5es esperadas por seus personagens de desenho animado e brinquedos prediletos, eu era o menino que contava quantas antenas parab\u00f3licas avistava em telhados durante uma volta de carro. Tamb\u00e9m conhecia todos os modelos de jipes e comparecia aos encontros de entusiastas de ve\u00edculos 4&#215;4 da cidade. Para completar, sabia falar, com alguma propriedade, de supostos casos de apari\u00e7\u00e3o de alien\u00edgenas e objetos voadores n\u00e3o-identificados (OVNIs), acreditando fielmente que nunca estivemos sozinhos no universo. Mesmo assim, a etapa da inf\u00e2ncia reservou suas dificuldades. Trocar de h\u00e1bitos, amigos e lugares, tarefa f\u00e1cil para ningu\u00e9m, era especialmente complicado para quem se sentia t\u00e3o diferente dos demais. A timidez e a inabilidade para lidar com um mundo de entrelinhas, nuances e pontinhas de ironia tornavam cada experi\u00eancia social in\u00e9dita um pesadelo terr\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o tempo, muita coisa mudou, mas recapitular a pr\u00f3pria hist\u00f3ria me fez perceber que aquele resultado fazia muito sentido. Agora, eu era parte de 1% da popula\u00e7\u00e3o mundial que vive no espectro, segundo estimativa do Center of Diseases Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos. O choque, diante do que diziam aqueles exames e o laudo m\u00e9dico que viria depois, era algo a se esperar. Afinal, uma informa\u00e7\u00e3o como essa dita novos rumos. Hoje, tenho plena consci\u00eancia de que sou neuroat\u00edpico, aquele com desenvolvimento neurol\u00f3gico que foge do que \u00e9 considerado \u201cpadr\u00e3o\u201d. Ou seja, sou diferente da maioria. Mas tamb\u00e9m tenho consci\u00eancia de que \u00e9 na diferen\u00e7a que nos tornamos \u00fanicos, singulares, particulares, e, portanto, humanos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\" \/>\n\n\n\n<p><strong>Juliano Quirino <\/strong>\u00e9 estudante do quarto ano de jornalismo na UEL e participa da Revista Jornalismo &amp; Fic\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Descobrir-se autista j\u00e1 na vida adulta traz uma dose esperada de surpresa. Mas tamb\u00e9m traz respostas e certezas para o que antes era incompreendido. 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