Alterações de Normalidade
Estomatologia e Patologia Oral
atualizado 2 dias atrás
Este trabalho tem como objetivo disponibilizar um conteúdo didático, resumido, gratuito e de fácil acesso para estudantes, profissionais de saúde e ao público em geral, interessado em conhecer mais sobre as alterações de normalidade frequentemente observadas na cavidade oral. Os temas abordados, são anquiloglossia, grânulos de Fordyce, leucoedema, língua fissurada, língua pilosa, varicosidades, linha alba, pigmentação melânica racial, tórus, fossetas da comissura labial, fossetas labiais paramedianas, lábio duplo, tonsila lingual hipertrófica, língua geográfica, fendas orofaciais, macroglossia e defeito da cortical lingual mandibular.
Agradecemos por dedicar seu tempo à leitura deste material. Esperamos que o conteúdo tenha contribuído para ampliar seu conhecimento sobre os temas que, embora comuns, muitas vezes passam despercebidos.
Anquiloglossia
Conhecida também como língua presa, é uma alteração do desenvolvimento da língua que pode ocorrer de forma esporádica ou associada a uma possível influência genética. É caracterizada pelo freio lingual encurtado, que resulta na limitação dos movimentos da língua. Não é incomum observar casos leves de anquiloglossia, enquanto os casos graves são relativamente raros.
Características Clínicas
Pode apresentar manifestações clínicas variadas, desde casos leves ou casos raros de anquiloglossia completa, em que a língua é totalmente fusionada ao assoalho bucal.
A anquiloglossia pode resultar em problemas de fonação, alimentação, dificuldade do bebê em se fixar ao seio materno o que pode gerar dor no mamilo da mãe e afetar o aleitamento.

Imagem do Neville et al., 2025, p. 10. Inserção anormal do freio lingual.
Tratamento e Prognóstico
Na maioria dos casos, pouco ou nenhum problema clínico é observado, não sendo necessário algum tratamento. Para recém-nascidos com problemas específicos de amamentação, pode ser feita uma pequena cirurgia chamada frenotomia (liberação do freio). Em crianças ou adultos com dificuldades funcionais ou periodontais, o procedimento chamado frenectomia (liberação do freio com correção anatômica) pode permitir maior facilidade nos movimentos da língua.
Grânulos de Fordyce
São glândulas sebáceas ectópicas (fora do lugar) que ocorrem na mucosa oral. É mais comum em adultos e idosos, já que durante a puberdade o fator hormonal parece estimular o seu desenvolvimento.
Características Clínicas
Se apresentam como múltiplas pápulas amareladas ou branco-amareladas, podendo ser encontradas na mucosa jugal, porção lateral do vermelhão do lábio superior, região do retromolar e no pilar amigdaliano anterior. São lesões tipicamente assintomática, porém, alguns pacientes podem sentir uma leve rugosidade na mucosa ao tocar ou passar a língua.

Imagem do Neville et al., 2025, p. 6. Glândulas sebáceas na mucosa jugal.
Características Histopatológicas
São semelhantes a glândulas sebáceas normais. Lóbulos acinares podem ser observados logo abaixo da superfície epitelial, muitas vezes comunicando-se com a superfície através de um ducto central. As células sebáceas nesses lóbulos possuem forma poligonal.

Imagem do Neville et al., 2025, p. 6. Múltiplas glândulas sebáceas abaixo da superfície epitelial.
Tratamento e Prognóstico
Nenhum tratamento é indicado. Diante de queixas estéticas, alguns procedimentos, como ablação a laser em terapia combinada com ácido tricloroacético ou medicamentos orais como a isotretinoína, são usados para redução ou eliminação das glândulas sebáceas ectópicas. Os tumores que se desenvolvem dessas glândulas são muito raros.
Leucoedema
É uma condição comum da mucosa oral de etiologia desconhecida. Ocorre com mais frequência em indivíduos negros devido a presença de uma pigmentação na mucosa em que torna mais visível a alteração nesses indivíduos.
Características Clínicas
Caracteriza-se pela aparência difusa, opalescente e branco-acinzentada (leitosa) da mucosa. A superfície apresenta estrias esbranquiçadas ou rugosidades. Geralmente é bilateral na mucosa jugal e pode se estender até a mucosa labial. A condição desaparece após o estiramento, auxiliando a distingui-lo de outras lesões brancas, como leucoplasias.


Imagens do Neville et al., 2025, p. 7. 1. Aspecto esbranquiçado e difuso da mucosa jugal. 2. Desaparecimento do aspecto esbranquiçado quando a mucosa é estirada.
Características Histopatológicas
O epitélio da mucosa oral geralmente apresenta paraqueratose e acantose. Nenhum sinal de displasia epitelial é encontrado. O tecido conjuntivo encontra-se em condições de normalidade, com quantidade discreta de células inflamatórias.
Tratamento e Prognóstico
A condição é benigna e nenhum tratamento é necessário.
Língua Fissurada
É uma caracterizada pela presença de fissuras ou sulcos na superfície dorsal da língua. A condição pode ter origem hereditária segundo alguns autores, mas fatores ambientais podem contribuir para o seu desenvolvimento. Tem predileção pelo gênero masculino.
Características Clínicas
A língua exibe múltiplos sulcos ou fissuras em sua superfície, variando de 2 a 6 mm de profundidade. Nos casos mais graves, numerosas fissuras cobrem completamente a superfície dorsal e dividem as papilas linguais em múltiplas “ilhas”. Em geral é assintomática, embora alguns pacientes se queixem de ardência.

Imagem do Neville et al., 2025, p. 11. Fissuras extensas envolvendo toda a superfície dorsal da língua.
Características Histopatológicas
Revela hiperplasia das projeções epiteliais e perda dos “pelos” de queratina na superfície das papilas filiformes. As papilas possuem tamanhos variados e muitas vezes estão separadas por fendas profundas. Leucócitos polimorfonucleares podem ser observados migrando para o epitélio, formando muitas vezes microabscessos nas camadas epiteliais superiores. Um infiltrado inflamatório misto está presente na lâmina própria.
Tratamento e Prognóstico
É uma condição benigna, e nenhum tratamento específico é indicado. O paciente deve ser orientado a escovar a língua, pois restos alimentares retidos podem atuar como fonte de irritação.
Língua Pilosa (Língua Pilosa Negra, Língua Saburrosa)
É caracterizada pelo grande acúmulo de queratina nas papilas filiformes do dorso lingual, resultando em uma aparência semelhante à pelos (língua pilosa). Apesar de não haver certeza sobre sua causa, muitos pacientes afetados são fumantes e os fatores possivelmente relacionados são: debilitação geral, higiene oral deficiente, substâncias que induzam a hipossalivação e um histórico de radioterapia na região de cabeça e pescoço.
Características Clínicas
É frequentemente observada na linha média anterior às papilas circunvaladas, espalhando-se para as bordas lateral e anterior da língua. A apresentação clínica varia de acastanhadas, amareladas ou enegrecidas, devido a colonização e crescimento de bactérias cromogênicas, pigmentos do tabaco e alimentos. Quando há projeções alongadas das papilas filiformes, a condição é denominada língua pilosa. Já quando há acúmulo de células epiteliais descamadas e bactérias, sem a presença dessas projeções semelhantes à pelos, trata-se da língua saburrosa. Apesar de ser uma condição assintomática na maioria das vezes, alguns pacientes relatam náusea, gosto desagradável e halitose.
Uma pigmentação negra temporária na língua pode ocorrer em usuários de salicilato de bismuto, devido à formação de sulfeto de bismuto na saliva. Essa alteração é reversível e desaparece após a suspenção do medicamento.


Imagens do Neville et al., 2025, p. 12-13. 1. Língua saburrosa com a parte dorsal da língua branca e acentuadamente espessada devido ao acúmulo de queratina e bactérias na superfície. 2. Pigmentação por bismuto enegrecida transitória da porção posterior do dorso da língua.

Imagem do Ambulatório de Estomatologia da UEL. Língua pilosa apresentando papilas filiformes alongadas e amarronzadas na linha média do dorso da língua.
Características Histopatológicas
É caracterizada por um alongamento pronunciado e hiperparaqueratose das papilas filiformes. Frequentemente se observa o crescimento de várias bactérias na superfície epitelial.
Tratamento e Prognóstico
Nos casos de língua pilosa ou saburrosa é indicado a remoção de fatores desencadeantes, como: tabaco e a falta de higienização oral. É fundamental manter uma excelente higiene da superfície lingual utilizando escova de dentes ou raspador de língua em toda a sua extensão.
Varicosidades (Varizes)
São veias anormais com aparência dilatada e tortuosa. É comum encontrá-las em adultos e idosos. O seu desenvolvimento pode estar associado a uma degeneração relacionada à idade, manifestada pelo enfraquecimento das paredes dos vasos sanguíneos e pela perda de tonicidade nos tecidos conjuntivos de suporte. Fatores que também podem estar relacionados, são: histórico de tabagismo, doenças cardiovasculares, hipertensão e cirrose.
Características Clínicas
Clinicamente, observa-se a presença de elevações de aspecto tortuoso, de cor roxa ou azulada, que podem surgir isoladamente ou em maior quantidade. A localização mais frequente é na região sublingual, quando ocorrem nos lábios, são denominadas de lago venoso. As lesões são assintomáticas, exceto em circunstâncias raras quando ocorre trombose secundária.

Imagem do Kignel, 2020, p. 94. Presença de varizes linguais no ventre lingual.
Características Histopatológicas
Histologicamente, podemos encontrar uma veia dilatada apresentando uma fina camada de musculatura lisa e tecido elástico pouco desenvolvido em sua parede. Caso tenha ocorrido trombose secundária, o lúmen do vaso pode conter camadas concêntricas de plaquetas e hemácias (linhas de Zahn).
Tratamento e Prognóstico
Não há indicação de tratamento.
Linha Alba
É uma alteração comum encontrada na mucosa jugal. Os fatores etiológicos que predispõe essa condição pode ser a pressão, irritação por fricção ou trauma de sucção entre a superfície vestibular dos dentes e a mucosa jugal.
Características Clínicas
Consiste em uma linha branca geralmente bilateral localizada na mucosa jugal na altura da linha de oclusão dos dentes. Essa linha varia em relação a dimensão, proeminência e tonalidade.

Imagem do Kignel, 2020, p. 96. Observa-se uma linha branca de hiperqueratose no nível do plano oclusal, localizada na mucosa jugal direita.
Características Histopatológicas
Observa-se hiperqueratose no estrato córneo do tecido epitelial. Às vezes, podem ser vistos edema intracelular do epitélio e inflamação crônica leve na lâmina própria.
Tratamento e Prognóstico
Não há necessidade de tratamento.
Pigmentação Melânica Racial
Também conhecida como melanose racial, são manchas de coloração marrom ou preta localizadas no tecido gengival. São originadas pela hiperprodução de melanina pelos melanócitos situados na camada basal do epitélio. Embora seja mais comum em indivíduos de pele negra, pode acometer pessoas de todas as etnias. O surgimento dessas machas está associado a fatores genéticos, mas fatores hormonais, físicos e químicos são capazes de intensificar essa pigmentação.
Características Clínicas
Clinicamente, apresenta-se como manchas difusas de coloração marrom ou preta, localizadas frequentemente na gengiva inserida e marginal livre. Outros locais também podem ser acometidos, como mucosa jugal, língua, palato duro e lábios, tornando-se necessário a realização de diagnóstico diferencial.

Imagem do Ambulatório de Estomatologia da UEL. Pigmentação melânica racial e um fibroma ossificante periférico.
Características Histopatológicas
Observa-se um aumento da produção de melanina na camada basal do epitélio sem que haja um aumento na quantidade de melanócitos. Também é possível identificar a presença de melanina no interior de macrófagos localizados na lâmina própria.
Tratamento e Prognóstico
Não requer tratamento. Em caso de desconforto estético o paciente pode realizar o procedimento de despigmentação.
Tórus (Exostoses Ósseas)
São crescimentos ósseos benignos que surgem da cortical óssea afetando a maxila e a mandíbula. As exostoses orais mais comuns são o tórus palatino e o tórus mandibular. Seu crescimento é multifatorial, inclui tanto influências genéticas, como fatores ambientais.
Características Clínicas
São mais frequentes em adultos e geralmente são assintomáticas. O paciente pode relatar dor ou desconforto em casos de trauma constante no local. A apresentação clínica é uma massa óssea endurecida.
O Tórus Palatino ocorre na linha média do palato duro. As vezes são classificados de acordo com sua aparência morfológica, como:
- Tórus Plano: tem uma base ampla e uma superfície lisa, ligeiramente convexa. Ele se estende de forma simétrica para os dois lados da rafe palatina.
- Tórus Alongado: apresenta-se como uma crista na linha média ao longo da rafe palatina. Algumas vezes há um sulco central.
- Tórus Nodular: caracteriza-se como protuberâncias múltiplas, cada uma com sua base. Essas protuberâncias podem se unir, formando sulcos entre si.
- Tórus Lobular: é uma massa lobulada, porém, origina-se de uma base única. O tórus lobular pode ser séssil ou pediculado.
O Tórus Mandibular caracteriza-se como uma protuberância óssea ao longo da superfície lingual da mandíbula acima da linha miloióidea, na região de pré-molares. Em geral, o tórus mandibular são nódulos únicos, mas múltiplos lóbulos paralelos aos dentes não são incomuns de serem observados. Há uma pequena predileção pelo gênero masculino. O pico de prevalência do tórus mandibular ocorre no início da vida adulta, diminuindo ligeiramente ao longo dos anos.
Outras variações que podemos encontrar são as exostoses vestibulares, exostoses palatinos, exostoses solitárias e exostoses subpôntica reacional.


Imagens do Ambulatório de Estomatologia da UEL. 1. Tórus palatino na linha média do palato duro com superfície ulcerada. 2. Tórus mandibular com protuberâncias ósseas lobuladas bilaterais no rebordo alveolar lingual da mandíbula.
Características Radiográficas
É observado radiograficamente uma ou mais estruturas radiopacas, bem delimitadas, de formato arredondado ou oval, sobrepostas às raízes dos dentes.

Imagem do Neville et al., 2025, p. 21-22. Radiografia oclusal revelando tórus mandibular bilateral.
Características Histopatológicas
Histologicamente, é identificado um tecido ósseo cortical lamelar, esponjoso e medula óssea fibroadiposa.
Tratamento e Prognóstico
Não há necessidade de tratamento, salvo em caso de instalação de uma prótese no local, nessa situação a remoção cirúrgica pode ser necessária.
Fossetas da Comissura Labial
São pequenas depressões da mucosa que ocorrem na comissura labial. Ocorrem devido a uma falha na fusão normal do processo embrionário maxilar e do processo mandibular. É frequentemente observada em adultos e em homens. Essa condição não está associada a fendas orofaciais.
Características Clínicas
São caracterizadas como fístulas cegas que podem se estender de 1 a 4 mm de profundidade, podendo ser unilaterais ou bilaterais. Uma pequena quantidade de líquido pode ser eliminada da fosseta quando ela é pressionada, sendo provavelmente saliva de glândulas salivares menores que drenam do fundo da invaginação.

Imagem do Neville et al., 2025, p. 4. Depressão na comissura labial.
Características Histopatológicas
O exame revela uma invaginação estreita revestida por epitélio pavimentoso estratificado. Ductos de glândulas salivares menores podem drenar para essa invaginação.
Tratamento e Prognóstico
É uma condição assintomática, não sendo indicado algum tratamento. Em casos raros de muita secreção de saliva ou infecção secundária na região, pode ser necessária a remoção cirúrgica.
Fossetas Labiais Paramedianas
São depressões congênitas raras do lábio inferior. Originam-se de sulcos laterais persistentes no arco mandibular embrionário. Síndromes podem estar associadas às fossetas paramedianas, são elas: Síndrome de Kabuki, Síndrome do Pterígio Poplíteo e Síndrome de van der Woude, sendo a última mais fortemente associada.
Características Clínicas
Apresentam-se como fístulas bilaterais simétricas em relação a linha média da vermelhão do lábio inferior, pode variar de depressões sutis a fossas proeminentes com profundidade de 1,5 cm e drenar saliva. Uma fosseta única pode estar presente central ou lateralmente a linha média. São herdadas como um traço autossômico dominante em combinação com a fenda labial e/ou a fenda palatina.

Imagem do Neville et al., 2025, p. 5. Fossetas bilaterais no lábio inferior de um paciente com síndrome de van der Woude.
Características Histopatológicas
Observamos um trajeto fistuloso revestido por epitélio pavimentoso estratificado. As glândulas salivares menores podem estabelecer comunicação com as fístulas, contribuindo para a drenagem salivar. Observa-se com frequência um infiltrado inflamatório crônico no tecido conjuntivo circundante.
Tratamento e Prognóstico
Não há necessidade de tratamento. Se houver queixa estética, as fossetas labiais podem ser removidas.
Labio Duplo
Consiste em uma anomalia oral rara, caracterizada pelo crescimento excessivo de tecido na mucosa labial. Essa condição pode ter origem congênita ou adquirida devido a traumatismo ou hábito de sugar o lábio.
Características Clínicas
O local mais afetado por essa condição é o lábio superior, embora o inferior também possa estar envolvido. O excesso de tecido se torna visível quando o paciente sorri ou quando os lábios são tensionados. O lábio duplo pode estar associado a síndrome de Ascher, que é caracterizada por uma tríade composta por lábio duplo, blefarocalásia e aumento atóxico da tireoide. A causa dessa síndrome é incerta.

Imagem do Neville et al., 2025, p. 5. Ao sorrir, o paciente apresenta excesso de tecido que encobre parcialmente os dentes superiores anteriores do lado direitos.
Características Histopatológicas
Microscopicamente, o lábio exibe estruturas normais. Em alguns casos, inúmeras glândulas salivares menores são observadas.
Tratamento e Prognóstico
Não há necessidade de tratamento. Nos casos mais graves, a excisão cirúrgica simples do tecido em excesso pode ser realizada com o objetivo de melhorar a estética.
Tonsila Lingual Hipertrófica
A tonsila lingual é uma massa de tecido linfoide localizada na região posterior do dorso da língua. Devido à difícil visualização, alterações nesse tecido são difíceis de serem diagnosticadas. Por motivos ainda não bem esclarecidos, a tonsila lingual pode aumentar de tamanho, tornando-se hipertrófica.
A hipertrofia tonsilar lingual é uma causa conhecida de apneia obstrutiva do sono (AOS) e obstrução das vias aéreas em pacientes pediátricos. A condição é diagnosticada por meio de exames de imagem, como tomografia computadorizada (TC), ressonância magnética (RM) ou endoscopia do sono induzido por medicamentos. Quando o tecido hipertrófico sofre agressões físicas ou químicas, pode ocorrer uma resposta inflamatória local chamada tonsilite lingual. Caso não seja diagnosticada e tratada, a tonsilite evolui para um abscesso que pode causar edema de glote e possível óbito.
Características Clínicas
Clinicamente, a tonsila lingual se apresenta como nódulo simétrico, de coloração rosada semelhante à da língua, tem tamanhos variados podendo ser unilateral ou bilateral, localizada posterior às papilas circunvaladas. Quando há uma hipertrofia, podemos observar um aumento do tamanho da tonsila lingual.
Tratamento e Prognóstico
Em casos assintomáticos, nenhum tratamento é necessário. Na presença de infecção bacteriana associada, é indicada a antibioticoterapia. Após constatar a hipertrofia tonsilar lingual como a principal causa de AOS ou tonsilite recorrente, a tonsilectomia lingual é indicada.
Língua Geográfica
É uma condição benigna relativamente comum que afeta principalmente a língua. Em geral, é identificado no exame clínico de rotina da mucosa oral. As lesões ocorrem em 1 a 3% da população, sendo as mulheres mais afetadas que os homens, com base em alguns estudos. A etiopatogênese dessa condição ainda é desconhecida. Curiosamente, 34,5% dos pacientes que possuem língua fissurada também apresentam língua geográfica.
Características Clínicas
É caracterizada por áreas eritematosas atróficas, bem delimitadas, com bordas branco-amareladas, localizadas principalmente no dorso da língua. Outros locais que podem ser acometidos, são borda lateral de língua, ventre de língua, assoalho bucal e mucosa labial. Pacientes relatam que a condição costuma regredir em poucos dias e reaparecer em diferentes regiões. Geralmente a condição é assintomática, em alguns casos é relatado uma sensação de ardência ou sensibilidade a alimentos quentes ou picantes quando as lesões estão ativas.

Imagem do Ambulatório de Estomatologia da UEL. Presença de áreas eritematosas bem demarcadas de atrofia papilar localizada no dorso de língua.
Características Histopatológicas
No exame histopatológico, são observadas papilas filiformes atrofiadas, presença de hiperceratose e acantose regular na margem da lesão. A região central é desqueratinizada, com presença de linfócitos e neutrófilos intraepiteliais. Na lâmina própria, estão presentes neutrófilos, linfócitos e plasmócitos.
Tratamento e Prognóstico
Não requer tratamento. Em casos sintomáticos, caracterizados por desconforto, ardência ou queimação, orientar o paciente a evitar alimentos ácidos e realizar a prescrição de anti-inflamatórios tópicos.
Fendas Orofaciais
A formação da face e da cavidade oral é complexa e envolve o desenvolvimento de vários processos teciduais que se fusionam de modo ordenado. Distúrbios no desenvolvimento desses processos teciduais ou nas suas fusões podem resultar na formação de fendas orofaciais.
A fenda labial (FL) ocorre devido a fusão defeituosa do processo nasal mediano com o processo maxilar, já a falha na fusão das cristas palatinas, resulta na fenda palatina (FP). Também podem ocorrer fendas orofaciais raras, como a fenda facial lateral, fenda facial oblíqua e fenda mediana do lábio superior.
A maioria dos casos de fendas orofaciais são de FL + FP representando aproximadamente 45% dos casos. Os casos isolados de fenda palatina (FP) englobam aproximadamente 30%, enquanto os de fenda labial (FL) isolada são cerca de 25%. Embora a causa da FL ± FP e da FP isolada ainda não esteja totalmente estabelecida, fatores genéticos (síndromes, hereditariedade, variações genéticas, entre outros) e fatores ambientais (álcool, tabagismo e anticonvulsionantes) podem estar associados.
Características Clínicas
A prevalência de fenda labial com ou sem fenda palatina (FL ± FP) é mais elevada entre norte-americanos e populações asiáticas. Em contrapartida, essa condição ocorre com menor frequência entre indivíduos brancos e é ainda menos comum entre indivíduos negros. A FL ± FP é mais comum em homens enquanto os casos de FP isolada são mais comuns em mulheres. Em ambos os casos, quanto mais grave a fenda, maior a predileção pelo sexo. A maioria dos casos de fendas labiais são unilaterais e localizadas no lado esquerdo, sendo 20% bilaterais. São classificadas em três categorias: microforma (sulco discreto e tecidos preservados), incompletas e completas (com comprometimento muscular, ósseo e dentário, especialmente entre o incisivo lateral e o canino).
As fendas palatinas podem afetar o palato primário (anterior ao forame incisivo) ou o secundário (posterior ao forame incisivo), podendo ser completas quando envolvem ambos. A menor expressão da FP é a úvula bífida, mais prevalente em asiáticos e norte-americanos. A fenda palatina submucosa, caracteriza-se pela mucosa intacta, porém com a presença de defeito muscular e ósseo, podendo estar associada à úvula bífida.
Pacientes com algum tipo de fenda orofacial enfrentam diversos problemas, como estéticos, psicológicos e funcionais (má oclusão, dificuldades na fala e na alimentação, especialmente nos casos de FP).


Imagens do Neville et al., 2025, p. 2. 1. Recém-nascido com fenda bilateral no lábio superior. 2. Fenda palatina resultando na comunicação com a cavidade nasal.
Tratamento e Prognóstico
O tratamento varia de acordo com o tipo de fenda e exige uma abordagem multidisciplinar, podendo envolver diversos especialistas como pediatra, cirurgiões, otorrino, odontopediatra, ortodontista, protesista, fonoaudiólogo e geneticista.
É indicado que o tratamento seja incorporado na fase neonatal, pode ser usadas técnicas como fita labial e moldagem nasoalveolar para reduzir a deformidade. A cirurgia reparadora ocorre em etapas, iniciando com o fechamento primário do lábio nos primeiros meses de vida, seguido pela correção do palato entre os 7 e 15 meses de idade. Procedimentos secundários, como enxertos ósseos e distração osteogênica ajudam na estética e funcionalidade.
O aconselhamento genético é essencial, pois o risco de recorrência da fenda em familiares varia de 3 a 20%, dependendo do histórico familiar e da presença de síndromes associadas.
Macroglossia
É uma condição rara caracterizada pelo aumento anormal da língua. A origem dessa condição pode ser hereditária, congênita ou adquirida.
- Hereditárias e congênitas: malformações vasculares, linfangioma, hemangioma, hemi-hiperplasia, cretinismo, síndrome de Backwith-Wiedmann, síndrome de Dow, distrofia muscular de Duchenne, mucopolissacaridoses, neurofibromatose tipo 1, neoplasia endócrina múltipla tipo 2B;
- Adquiridas: pacientes edêntulos, amiloidose, mixedema, acromegalia, angioedema, miastenia grave, esclerose lateral amiotrófica, carcinoma e outros tumores.
Características Clínicas
A macroglossia é comum em crianças variando de casos leves a graves. Em bebês, manifesta-se por respiração ruidosa, baba excessiva e dificuldade para se alimentar. Pode causar distúrbios na fala, mordida aberta, prognatismo mandibular e em casos graves, ulcerações, infecções ou até necrose da língua. Também pode contribuir para apneia obstrutiva do sono.
A magroglossia pode se apresentar de diversas forma de acordo com as suas causas. Em casos de hipotireoidismo, síndrome de Beckwith-Wiedemann e distúrbios neuromusculares, a língua é caracterizada por um aumento difuso, liso e generalizado. A característica nodular é encontrada em casos de amiloidose, neurofibromatose e neoplasia endócrina múltipla tipo 2B. Nos casos de linfangiomas, as características presentes na língua é um aumento com aspecto granular semelhante a vesículas. Nos pacientes com síndrome de Down, o aumento da língua exibe uma superfície fissurada e papilar. Em hiperplasia hemifacial e em alguns casos de neurofibromatose o aumento é unilateral. Por fim, em pacientes edêntulos, a língua é elevada e espalhada lateralmente, dificultando o uso de próteses.

Imagem do Neville et al., 2025, p. 8. Língua aumentada em um paciente com síndrome de Down.
Características Histopatológicas
As características histológicas da macroglossia varia de acordo com a causa específica.
Tratamento e Prognóstico
Depende da causa e da gravidade da condição. Em casos leves, o tratamento cirúrgico não é necessário, embora a fonoaudiologia possa ser indicada quando há comprometimento da fala. Nos pacientes sintomáticos, pode haver necessidade de redução da língua através da glossectomia.
Defeito da Cortical Lingual Mandibular (Defeito De Stafne)
É caracterizada por uma concavidade focal do osso cortical na superfície lingual da mandíbula. Acredita-se que a depressão seja formada pela pressão exercida por glândulas salivares maiores.
Características Radiográficas
Apresentam-se como uma lesão radiolúcida assintomática, frequentemente localizada abaixo do canal mandibular, entre os molares e o ângulo da mandíbula. A região anterior também pode ser acometida. Em geral, a lesão é bem circunscrita e apresenta uma borda esclerótica. Em alguns casos, é possível identificar clinicamente uma depressão palpável na região correspondente à lesão.
Normalmente a condição é unilateral. Em poucos casos, a lesão aumenta de tamanho, com o passar do tempo. A lesão apresenta uma certa predileção pelo sexo masculino, sendo observada em cerca de 80 a 90% de todos os casos. Acomete pacientes de meia-idade e idosos, sendo rara a ocorrência em crianças.
Em geral, o diagnóstico é realizado por meio da localização radiográfica e ausência de sintomas. Quando existem dúvidas no diagnóstico, pode ser realizado o exame de tomografia computadorizada, ressonância magnética ou sialografia, para descartar outras alterações.


Imagens do Neville et al., 2025, p. 24. 1. Lesão radiolúcida mal definida próximo ao ângulo da mandíbula. 2. Aparência do mesmo defeito vários anos depois, mostrando aumento da lesão.
Características Histopatológicas
Histologicamente, observa-se o tecido da glândula submandibular normal. Porém, alguns defeitos não apresentam tecidos e outros contêm músculo, vasos sanguíneos, gordura, tecido conjuntivo ou tecido linfoide. A ausência de conteúdo pode estar relacionada ao deslocamento da glândula durante a biópsia.
Tratamento e Prognóstico
Não há necessidade de tratamento.
Referências
KANG, K.; KOLTAI, P. J.; LEE, C.; LIN, M.; HSU, W. Lingual tonsillectomy for treatment of pediatric obstructive sleep apnea. JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery, v. 143, n. 6, p. 561–568, 2017. DOI: https://doi.org/10.1001/jamaoto.2016.4274.
KIGNEL, Sergio. Estomatologia – Bases do Diagnóstico para o Clínico Geral. 3. ed. Rio de Janeiro: Santos, 2020. E-book. p. 94-97.
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SANTOS, Paulo Sérgio da S.; MOTTA, Ana Carolina F. Guia prático de estomatologia. Barueri: Manole, 2022. E-book. p. 59-72.